No monumento às Bandeiras, é um índio quem faz todo o trabalho. Embora, na parte da frente da peça, um aglomerado de figuras masculinas pareçam se esforçar para puxar a canoa, tudo é jogo de cena. Na verdade, a corda está frouxa e desconectada do barco. A única figura que se esforça de fato é o índio, na parte de trás. É um trabalho irônico. O escultor parece nos dizer: olha, embora os outros fiquem com a fama, quem fez todo o sacrifício foi o índio. Em arte, forma é conteúdo. A incorporação profunda de elementos da arte marajoara reafirma a importância maior do povo indígena na obra e na construção de nosso país. Com sutileza e inteligência, Brecheret faz uma crítica contundente àquilo que, segundo o patrocinador, deveria louvar. Trinta e três anos de trabalho. Obra maior de nosso maior escultor - junto a Aleijadinho. O monumento em verdade é o contrário do que deveria ser. Anti-monumento. Calma🌻
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terça-feira, 7 de julho de 2020
PANTARMA
O tempo é um trem com destino ao inexorável
Nada vai voltar igual
Sentado segue o homem
Rumo à estação derradeira
Às vezes, a vida é só uma serpente ferida🌻
Nada vai voltar igual
Sentado segue o homem
Rumo à estação derradeira
Às vezes, a vida é só uma serpente ferida🌻
TRAVESSIA
Sonho alto
Já não almejo grana, fama, amor
Quero só ser incapaz de dizer eu/meu
E, no fim da jornada,
Criar asas,
Mas em vez de pássaro,
Ser anjo🌻
Já não almejo grana, fama, amor
Quero só ser incapaz de dizer eu/meu
E, no fim da jornada,
Criar asas,
Mas em vez de pássaro,
Ser anjo🌻
OUÇA O LEÃO
Conheceram-se nos tempos da pandemia. Todas as tardes, corriam - sob os crepúsculos deslumbrantes daqueles dias - na mesma praça. Davam dez, doze voltas e proseavam, protegidos pelas máscaras. Ele tinha olhos claros, quase sobrenaturais. Era verdadeiro. Desde o início, confessara ser cocainômano. Fora internado uma pá de vezes e, agora, frequentava um grupo de ajuda mútua; estando limpo havia já mais de dois anos. Ela gostou da sinceridade. Afinal de contas, todos temos esqueletos no armário. Uma noite, depois da corrida, não suportando mais a seca e a fragilidade daqueles dias, ambos se tocaram; num canto escuro. Ela sentiu os braços, o peito, o cheiro; seu sexo derramou, amanteigado, pulsante, pronto para receber o músculo. Faltava, no entanto, uma coisa: o beijo. O desejo gritava mais alto que a prudência e ela abaixou a própria máscara. Quando, todavia, tentou tirar a máscara do amante, ele fugiu: olhos horrorizados. Por alguns dias, ele não apareceu e ela teve dificuldades para dormir; se conseguia, tinha pesadelos, sempre com felinos. Quando, por fim, encontraram-se outra vez, foi como se nada tivesse acontecido. Correram, conversaram, gargalharam alto, porque ele era engraçado. Nesta tarde, ele a convidou para conhecer sua casa; ao que ela não pôde recusar. No caminho, dentro do carro, acariciavam-se até quase. Ele tinha dedos macios. Entraram correndo. Enfurecidos pelo desejo, mas quando deitaram na cama e despiram-se, ele pediu para continuar de máscara. A moça insistiu. Como leão acuado, ele tentou dizer não; mas cedeu, por fim – olhos frágeis marejados. Foi ela então quem fugiu, feito presa assustada; quando, ao retirar, com as próprias mãos, a máscara do rosto dele, avistou, onde deveria haver nariz, apenas dois buracos fundos, cercados de carne preta, como se fossem cancros; condilomas num pênis apodrecido.
NUNCA PARE DE SONHAR, DISSE FREDDY KRUEGER
Tive este pesadelo quatro ou cinco vezes ao longo da vida e ele sempre precede tragédias. Não sei se prevê horrores inevitáveis, ou se os engendra; por isso, evito falar. Sempre tive muito respeito pelas palavras. Muito do que escrevi cego se realizou depois. Também já deixei de escrever muita coisa que chegou até mim por medo de que se realizasse. Certa vez, fui obrigado internamente a comprar uma poltrona usada na Rua Cardeal Arcoverde. Passava os dias olhando o móvel sem coragem de me sentar e sem descobrir que narrativa ela queria que eu contasse. Até que, numa madrugada insone, uma voz de outro dentro de mim disse: “Nesta poltrona, fiquei sentado ao lado de meu filho doente por mais de três anos até que ele morresse”. Horrorizado, destruí o móvel e nunca mais investiguei a história dentro em mim. Também tenho filhos. Mas eu queria contar do sonho. Nele, estou sentado numa mesa muito antiga, de madeira medieval, em uma taberna. Há, no tampo da mesa, muitos riscos feitos de faca, como aqueles que os presidiários fazem nas paredes para contar os dias. Surge então um cruzado com aquelas roupas cheias de correntes, a espada ao lado, uma espécie de capacete e a cruz vermelha estampada no peito. O homem é poder; sua presença me causa horror. Com um aceno de cabeça, exige que eu o acompanhe. Por uma porta lateral redonda, descemos lances e mais lances de escada. A cada degrau, o ambiente fica mais escuro e frio. Continuamos descendo, e descendo, e descendo até o último degrau que dá para o gelo; sob nossos pés, o universo infinito, estrelas, astros, galáxias, imensidão: o nada. Já não posso distinguir a mim mesmo do desconhecido e percebo que é exatamente assim morrer. Um frio enorme antes do nada eterno. Meu coração é tomado por um terror indescritível. Sei como é estar morto. Vai sempre piorando. E o inferno não é quente, é gelado; mais frio que qualquer período glacial.
Há três noites, o cavaleiro voltou.
Há três noites, o cavaleiro voltou.
quarta-feira, 1 de julho de 2020
SALVEM O BRECHERET
Das outras estátuas e monumentos não falo, mas salvem o Brecheret! Destruir uma escultura não apaga a História. Os Bandeirantes existiram e é preciso discutir o que eles foram de fato. Agora, depredar uma obra de arte não nos torna diferentes daqueles que queimam livros por discordar de seu conteúdo; ainda mais quando se trata de uma escultura altamente simbólica, que reconstrói e atualiza em nosso país os procedimentos técnicos ligados à arte de esculpir, incorporando inclusive elementos da arte indígena marajoara, e que foi produzida, durante 33 anos, por aquele que é, talvez, junto a Aleijadinho, o maior escultor do país. A obra apenas louva o bandeirantismo ou o coloca em discussão? É preciso que sejamos menos fascistas – para não dizer toscos - que o monstro que combatemos. E foi sempre o autoritarismo que, em nome de um bom propósito, destruiu a arte com a qual não concordava. Estado Islâmico e Talibã puseram abaixo monumentos milenares porque não estavam de acordo com o que eles imaginavam ser o Bem. A Igreja católica proibiu e queimou livros. O Nazismo fez o mesmo com o que eles chamavam de arte degenerada, ou excessivamente judaica. Discos de rock foram queimados dos anos cinquenta até o final da década de noventa. O fascismo não é uma abstração, não está lá, distante, preso a um sistema de governo ou a um período histórico. Pelo contrário, ele está infiltrado em nossas ações mais cotidianas e, tão importante quanto combatê-lo na política, é combatê-lo em nosso próprio coração. Como diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio💜
segunda-feira, 22 de junho de 2020
AS ATROCIDADES DOS POENTES
Não há culpados. Tudo o que vive, fere. O parto machuca tanto a mãe, quanto o bebê. Sou do tipo que tem dificuldade pra dizer não. Daqueles que prefere receber a dar notícia ruim. E, no entanto, quanta gente já sofreu comigo; por mim; ao meu lado. Há uma palavra! Humildade tem a mesma origem que homem e humanidade; vem do grego humus; cujo significado é terra. Ser humilde, portanto, não é ser bonzinho; mas saber-se no mesmo nível. Todos mantemo-nos de pé sobre o mesmo solo, somos feitos dele e é ele quem nos iguala. Quando evito dar uma notícia ruim ao outro, rebaixo-o, porque não o julgo capaz de suportá-la. Trato o outro como criança; quando são as perebas que nos tornam adultos. O que não mata, engorda. Humildade, portanto, é saber que o outro, assim como eu, é capaz de suportar angústias fundas. É saber que, ao privar o outro de sua dor, interfiro em seu processo de crescimento espiritual. Lembro um filme de Billy Wilder: Crepúsculo dos Deuses, no qual o mordomo, que em verdade era primeiro marido e diretor, fazia de tudo para que a patroa, uma atriz dos tempos do cinema mudo, não tivesse de enfrentar a realidade de sua decadência. Às vezes, fazemos o papel do mordomo para os outros. Às vezes, somos o mordomo e a patroa de nós mesmos; criando toda uma ficção pra não encarar a pedra, a faca, o abandono, o nada. Sei que é difícil dar uma notícia ruim à própria mãe, ao filho, à mulher que nos ampara. Por outro lado, a humildade nos diz que a sinceridade – e não a verdade – é a melhor estrada, ainda que por ela a jornada seja mais longa e acidentada. Todos temos um destino. Não posso privar meu filho das decepções humanas. Não posso poupar minha mãe quando o cavalo em mim me incita a correr mundo. Não posso poupar a companheira quando o amor já não incendeia. Tudo que posso fazer é estar ao lado, ainda que distante, e dizer ao filho que tudo passa; à mãe que é o ninho quem faz o pássaro; e, à mulher, que nada se perde neste mundo e que ela se incorporou ao que sou; mudou o curso do rio. Este mesmo rio que não pode fugir ao seu destino de um dia dissolver-se no mar🌹
O PORTAL DAS ARAUCÁRIAS,
Encantar a vida de tal forma
Que uma simples ida ao telhado
Pra consertar a antena
Seja transformada
Num ato de heroísmo.
Que uma simples ida ao telhado
Pra consertar a antena
Seja transformada
Num ato de heroísmo.
A perfeita sinceridade não faz promessas.
A LITERATURA E SUA SOMBRA
Assim como tudo neste mundo, o texto também tem um lado luminoso e outro sombrio; um polo yin, outro yang. Sempre que afirmo algo, trago junto aquilo que nego. E, como o texto é sempre um recorte, rede lançada em mar vasto, ele diz tanto pelo que afirma, quanto por aquilo que nega ou cala. A palavra é apenas um instrumento de manejo do silêncio. Dostoiévski era cristão ortodoxo, dizia que, se a verdade estivesse fora de Cristo, ficaria com Cristo e não com a verdade. O autor identifica-se com Sônia, Liza, Aliosha, ou o príncipe Mishkin. Seus leitores, no entanto, seres humanos de um tempo desencantando, preferem os niilistas-demoníacos Svidrigailov, Ivan, Stravoguin. Nietzsche proclamava a fidelidade à Terra, à imanência, à potência criadora da arte, à alegria revolucionária; o anão de Zaratustra, por seu turno, com a ajuda da irmã Elizabeth Foster-Nietzsche, arrancou à obra os caminhos do Nazismo. E não há aí uma leitura certa ou errada. O Nazismo está lá mesmo, na obra, como potência de sombra; o texto sempre extrapola a intenção do autor. Assim como em Dostoiévski ou Nietzsche uma obra de caráter positivo desencrava também seu duplo maligno; na obra de autores com uma visão apocalíptica de mundo; num repente, saltam da página vislumbres de delicadeza, esperança e amor. O caso que mais me fascina é o Céline do Viagem ao fim da noite. No meio do pântano mais depressivo, há um buraco de minhoca, olho oco que nos conduz à alegria; bem como em meio à maior felicidade se esconde o germe do desespero. No Viagem, Céline traça um retrato terrível da humanidade: guerra, crueldade, egoísmo, cinismo, falta de qualquer escrúpulo, ou empatia. No romance, a personagem que melhor encarna tudo isso é Robinson. Por outro lado, Céline cria também o menino Bébert, que era inclusive o nome de um dos gatos do escritor, e a prostituta Molly, seres profundamente angelicais. Em seu outro grande livro, Morte a crédito, Céline inicia a narrativa falando ao seu primo alcoólico, um náufrago bonito, a respeito de sua lenda. Tal lenda é uma metonímia do ágape celiniano. Bukowski entendeu bem a lição do mestre. Por mais que seus narradores sejam bêbados, céticos, niilistas, há sempre uma dose de ternura por alguma mulher desajustada. É isso que as cópias do velho safado nunca capturam.
A escrita não é, pois, apenas uma questão estética. É algo muito mais sério. E perigoso. Muitas vezes, é Mr. Hyde quem toma conta de nossa pena.
A escrita não é, pois, apenas uma questão estética. É algo muito mais sério. E perigoso. Muitas vezes, é Mr. Hyde quem toma conta de nossa pena.
sexta-feira, 19 de junho de 2020
PARA GATSBY E FITZGERALD
Veveco vivia de bicos. Por quaisquer dez reais, se alguém pedisse, caminhava longe. Sabia de tudo um pouco. Resolvia qualquer problema. Nada havia que ele não pudesse remendar, colar, consertar. Mais de um ofereceu-lhe trabalho, mas Veveco tinha a alma irmanada aos cavalos, borboletas e colibris. De modo que era um rapaz trabalhador, mas detestava cumprir horário; bater cartão. Era dono de uma Kombi 1976, cuja traseira ele mesmo cortara para instalar uma carroceria. Na porta estava escrito: CARRETO. Certa feita, ao perceber uma fita de slackline dando sopa em um dos parques da cidade, passou a mão e acrescentou com tinta de outra cor: E GUINCHO. Sim, carreto e guincho; dentre outras coisas. Foi Dona Sueli, que era doméstica lá pelos lados da Zona Sul, quem indicou o biscateiro à patroa. “E ele sabe mesmo limpar piscina, Sueli?”. “A senhora vai ver, o menino pode fazer qualquer coisa!”. Este foi o ponto de partida. Segunda-feira; Veveco estava limpando a piscina, quando a filha da patroa resolveu tomar sol. Era uma universitária de vinte anos, olhos verdes, corpo bronzeado e malhado, cabelos que. Em suma, uma divindade. Veveco jamais presenciara tamanha beleza condensada em um único ser. Ficou, portanto, paralisado, imóvel, em êxtase. A menina, vaidosa, ao perceber a admiração; brincou, apertando os gomos da barriga magra: “Nossa! Como você é forte!”. E ocorreu a epifania. Todo um mundo descortinou-se ante os olhos do rapaz e ele se viu envolvido em um futuro diferente; no qual trabalharia duro, estudaria, mudaria, enfim, e ganharia mundo. Uma garota daquelas valia à pena. Pensou também, em contrapartida, que teria de cumprir horários, esforçar-se, tornar-se cidadão de bem e vencedor. Onde antes havia coração, instalou-se balança, na qual o moço pesou os dois destinos. Olhou mais uma vez a beldade, a mansão, a piscina, o gramado, as palmeiras:
“Quer saber, foda-se” – murmurou de si para consigo. Nem o amor valia tanta disciplina.
Antes de chegar em casa aquela noite, tomou uma cana, um litrão, fumou um fino e foi dormir quase em paz. Dia seguinte não teria de acordar cedo🐴
“Quer saber, foda-se” – murmurou de si para consigo. Nem o amor valia tanta disciplina.
Antes de chegar em casa aquela noite, tomou uma cana, um litrão, fumou um fino e foi dormir quase em paz. Dia seguinte não teria de acordar cedo🐴
sexta-feira, 12 de junho de 2020
GEORGE FLOYD
Há assuntos sobre os quais prefiro calar; esperando para ler e ouvir os que têm muito mais propriedade do que eu. Se me manifesto agora sobre o assassinato de George Floyd, não é com a intenção de falar em nome do povo negro. Em qualquer sarau, aqui da periferia, há pessoas muito mais qualificadas que eu neste aspecto. Não consigo, no entanto, calar diante da barbárie. Não pretendo falar por; apenas junto, em solidariedade, expressando como dói no meu próprio coração.
Seguinte, só a polícia do Rio de Janeiro matou mais gente este ano que toda a polícia dos EUA. Então, por que a morte de George Floyd nos choca tanto? Trata-se do poder da narrativa. Números são frios, histórias não. Naquele vídeo, injustiças centenárias estão expressas. O cara está algemado, deitado, dominado; que necessidade há de se ajoelhar sobre sua nuca até que ele morra sem conseguir respirar? Nenhuma. É desesperador. É agonizante. Não é um filme holywoodiano; é um ser humano morrendo, na frente das câmeras e de muitas pessoas, e ninguém faz nada. Não há como argumentar em contrário: foi um crime racista. O rosto do policial, sua expressão sádica de prazer, o ódio presente na indiferença das mãos nos bolsos enquanto mata. Aquilo é o mal de que só o ser humano, e nenhum outro ser na natureza, é capaz.
Por outro lado, na sequência dos acontecimentos, vimos imagens de policiais e manifestantes ajoelhados; apenas seres humanos, uns diante dos outros. É pouco ainda; mas é um resquício de alma. Nem só luz, nem só sombra. O ser humano é uma mistura confusa. Pode matar com prazer, mas também pode arriscar sua vida para ajudar o outro; como os profissionais da saúde têm feito, diariamente, durante a pandemia.
De tudo isso, infiro que não podemos ficar inertes. Temos sempre de lutar por uma sociedade mais justa, mais fraterna; contra a barbárie e o ódio. Por outro lado, também temos de olhar com honestidade nosso coração diariamente e reconhecer que dentro dele moram tanto um policial como aquele, quanto uma das muitas enfermeiras e médicos que estão perdendo a vida, tentando cuidar do próximo. Quem nunca numa briga de trânsito?
Quando exposto à luz, o mal perde seu poder sobre nós🌻
Seguinte, só a polícia do Rio de Janeiro matou mais gente este ano que toda a polícia dos EUA. Então, por que a morte de George Floyd nos choca tanto? Trata-se do poder da narrativa. Números são frios, histórias não. Naquele vídeo, injustiças centenárias estão expressas. O cara está algemado, deitado, dominado; que necessidade há de se ajoelhar sobre sua nuca até que ele morra sem conseguir respirar? Nenhuma. É desesperador. É agonizante. Não é um filme holywoodiano; é um ser humano morrendo, na frente das câmeras e de muitas pessoas, e ninguém faz nada. Não há como argumentar em contrário: foi um crime racista. O rosto do policial, sua expressão sádica de prazer, o ódio presente na indiferença das mãos nos bolsos enquanto mata. Aquilo é o mal de que só o ser humano, e nenhum outro ser na natureza, é capaz.
Por outro lado, na sequência dos acontecimentos, vimos imagens de policiais e manifestantes ajoelhados; apenas seres humanos, uns diante dos outros. É pouco ainda; mas é um resquício de alma. Nem só luz, nem só sombra. O ser humano é uma mistura confusa. Pode matar com prazer, mas também pode arriscar sua vida para ajudar o outro; como os profissionais da saúde têm feito, diariamente, durante a pandemia.
De tudo isso, infiro que não podemos ficar inertes. Temos sempre de lutar por uma sociedade mais justa, mais fraterna; contra a barbárie e o ódio. Por outro lado, também temos de olhar com honestidade nosso coração diariamente e reconhecer que dentro dele moram tanto um policial como aquele, quanto uma das muitas enfermeiras e médicos que estão perdendo a vida, tentando cuidar do próximo. Quem nunca numa briga de trânsito?
Quando exposto à luz, o mal perde seu poder sobre nós🌻
ERRO E CRIAÇÃO
Só encontra novos lugares, quem se aventura por novos caminhos. A estrada asfaltada, que transporta a maioria, leva sempre ao mesmo. Só ancora em novo continente, quem se aventura por mares nunca dantes. Existe uma idade na qual o ser humano precisa desrespeitar, desler, deseducar-se. Aquele que se lança à floresta - e enfrenta a fera, o frio e a solidão - pode morrer no caminho ou chegar ao orgasmo do outro lado. Por nunca seguir a trilha sedimentada, das duas uma: ou o rebelde encontra o novo, ou o ridículo. O risco é. E é preciso ousar o fracasso. O caminho que os pés criam para encontrar o irreconhecível é a mesma trilha que conduz ao erro. O gênio é gêmeo do idiota. Inova quem não tem medo de parecer ridículo; porque sabe que, no fundo, todos já somos🐴
VIVER
Quando um homem passa dos setenta e lança um olhar sincero sobre sua jornada, percebe que cada pessoa desvela algo que precisava ser alçado à luz, compreendido, transformado, acolhido. Chumbo em ouro. Todas as emoções negativas, sob a atenção do eu-vazio, transmutam-se em Ágape. 'A medida que o eu-vazio é despertado e há a busca, aos poucos, eu-vazio e eu-telúrico sincronizam-se, fundem-se de tal modo que, com o tempo, todos os nossos gestos, palavras e atos são manifestações do Maior. A vida serve apenas para encontrarmos o caminho que nos faz mais solidários. O outro sempre ensina algo, inclusive por meio de sua desonestidade e violência. Cada qual segue seu caminho. Setenta, oitenta anos, mal é tempo de ajustar minha própria jornada, como posso corrigir o comportamento alheio? Cada pessoa, cada lágrima, riso, dor, festa tornou meu coração mais amplo. Não é o imensurável que deve se adaptar ao eu; pelo contrário, é o eu quem precisa desaparecer para que a criança pronuncie sua palavra encantada e se dissolva outra vez num amálgama de almas. E morrer, por fim, não é acabar, é expandir-se.
Como pode ser digno o caminho humano.
Como pode ser digno o caminho humano.
TIA LEOCÁDIA E O BURAQUINHO DA MISERICÓRDIA
Cuide de sua dor para que não se torne crueldade. Como muitas pessoas que fazem sucesso nas artes por ter o carisma de uma alma quebrada, minha tia Leocádia alcançou os picos mais altos da carreira de atriz. Ganhou prêmios, encenou Shakespeare e Nelson Rodrigues; fez filmes, trabalhou com nomes como Tônia Carreiro, Fernanda Montenegro, Paulo Autran. Tinha, no entanto, esta ferida, oriunda da infância, a qual jamais tratou. Assim, quando meu tio Paolo partiu com uma atriz vinte anos mais jovem, a tia se trancou em sua mansão e nunca mais. Para piorar, tornou-se acumuladora, avarenta e passou a ganhar peso: cinco, seis, dez quilos por ano. Leocádia controlava – rigidamente - os empregados; os quais tinham de reciclar inclusive os filtros descartáveis para o café. Dentro da família ou fora dela, eu era o único que ainda tinha acesso à casa, porque sou visagista e, volta e meia, a tia insistia em mudar a aparência. Como a mansão fica num bairro nobre, mas cercado por favelas, muitos pobres apertavam a campainha da tia para pedir alimento; em vão, como se pode supor. Nem os alimentos vencidos ela deixava. Havia, contudo, uma empregada, Tereza, que ficou com minha tia por mais de trinta. Era a única que suportava; não obedecia, todavia. Sem que a tia soubesse, Tereza fez um buraco na parede da cozinha; por onde passava, diariamente, mantimentos aos necessitados. Pois bem, mês passado, Leocádia, minha tia, a primeira dama dos palcos nos anos sessenta, morreu. Pesava, naquele momento, mais de duzentos quilos. Os bombeiros foram chamados e fizeram de tudo para tirá-la, mas o cadáver não passava por portas ou janelas. De modo que já se pensava em retirar o telhado para içá-la com um guindaste, quando Tereza sugeriu o buraco na cozinha; carinhosamente apelidado pelos empregados de buraquinho da misericórdia. Houve risos, mas Tereza insistiu: “Tentem!”. E ninguém pôde acreditar quando o corpo imenso de tia Leocádia passou de fato por um buraco que não tinha mais que um palmo de diâmetro.
Na cozinha vazia, restou um cheiro doce, como se do vestido de Tereza despencassem milhares de pétalas de rosas🌹
Na cozinha vazia, restou um cheiro doce, como se do vestido de Tereza despencassem milhares de pétalas de rosas🌹
SE PUDESSE TROCAR
Se pudesse trocar meus braços
Por cobertor
E minhas palavras por travesseiro
Trocaria
E, deitado em tua cama,
Confortável com o que sou,
Acolheria teus seios brancos
E teu medo do futuro
Se pudesse transformar palavra em travesseiro
Já não seria estrangeiro num país hostil
E olharia a vida
Como um monge que acabou de alcançar o nirvana.
Por cobertor
E minhas palavras por travesseiro
Trocaria
E, deitado em tua cama,
Confortável com o que sou,
Acolheria teus seios brancos
E teu medo do futuro
Se pudesse transformar palavra em travesseiro
Já não seria estrangeiro num país hostil
E olharia a vida
Como um monge que acabou de alcançar o nirvana.
A HOMOSSEXUALIDADE DE BOLSONARO E A BALEIA BRANCA
O romance Moby Dick, do escritor estadunidense Herman Melville, narra a perseguição do capitão Ahab a uma baleia branca que lhe amputou uma das pernas. À primeira vista, parece um enredo simplório. A literatura, no entanto, trabalha no nível do símbolo e o próprio capitão diz que a baleia é uma máscara de tudo aquilo que impede o homem de ser pleno. Perseguindo Moby Dick, Ahab desobedecerá as leis dos baleeiros, da natureza e de Deus e acabará por levar seus homens e seu navio, o Pequod, à destruição. Guardadas as devidas proporções, vejo o atual presidente como um Ahab, nosso país como um Pequod e o povo que ainda segue seu Messias da morte como os marujos. E quem seria Moby Dick? Os conteúdos inconscientes. No nosso caso, a baleia branca é o desejo homossexual de Jair Messias. Um homem heterossexual não tem medo de sua sombra; não precisa ficar o tempo inteiro reafirmando sua masculinidade: fazendo flexões, piadinhas (o chiste é, inclusive, um dos modos como a sombra se mostra); ele simplesmente é e isso se manifesta em todo o seu ser, com naturalidade. Não há nenhuma novidade no que vou dizer: aquilo que não aceito em mim e não posso olhar, minha sombra, projeto no outro e o que vejo me irrita, fere, dilacera. Não podendo aceitar a mim mesmo como sou, como posso aceitar o outro? É claro que tal comportamento encontra eco no Inconsciente de todo o povo de um país machista, mal educado e preconceituoso. Os marujos não seguiriam Ahab, não fossem eles mesmos seduzidos pela baleia branca. O presidente não foi eleito pela sua agenda econômica, mas pelo amálgama de preconceitos que encarna. Se o soldado do exército tivesse tido a coragem de assumir sua homossexualidade, adoraria um pouco menos a morte e seus símbolos, porque sexo é vida, Eros, e, provavelmente, não estaríamos nesta enrascada. Ainda que continuasse um canalha, ao menos teria nos poupado de sua prole. O destino do Pequod, sabemos, é a catástrofe; o do Brasil não me parece diferente. Como disse um filósofo alemão: “Só um Deus poderia ainda nos salvar”🐴
NÃO HÁ SOMBRA AO MEIO DIA
Mora em mim uma besta
Que se revela ante a luz transversal
Se fujo, ela me persegue
Se a ignoro, ela se avoluma
Se se sente ofendida, ela agride
A besta é a antípoda do anjo.
Mora em mim um anjo
O qual não depende de elogio
Se fulano cai, ele estende a mão
Se cicrano agride, ele abraça
Se beltrano odeia, ele estende amor na varanda
O anjo é a utopia do eu.
Se habito o anjo,
A besta ruge
Se me entrego à besta,
O anjo chora
Mas, se me instalo na luz
É a própria luz quem se diz de meu vazio:
A sombra se dissolve quando o relógio marca meio dia.
Que se revela ante a luz transversal
Se fujo, ela me persegue
Se a ignoro, ela se avoluma
Se se sente ofendida, ela agride
A besta é a antípoda do anjo.
Mora em mim um anjo
O qual não depende de elogio
Se fulano cai, ele estende a mão
Se cicrano agride, ele abraça
Se beltrano odeia, ele estende amor na varanda
O anjo é a utopia do eu.
Se habito o anjo,
A besta ruge
Se me entrego à besta,
O anjo chora
Mas, se me instalo na luz
É a própria luz quem se diz de meu vazio:
A sombra se dissolve quando o relógio marca meio dia.
NÃO NOS ENSINARAM A FAZER AMOR
Já falei aqui sobre meu primeiro contato com a sexualidade, por meio de uma revista, encontrada há tempos, no lixo. Há algo muito errado no modo como nossa sociedade lida com o sexo e a gente só pode mudar isso junto, conversando. Enquanto nos livros, revistas e demais publicações voltadas às meninas, o sexo aparece como o resultado de um jogo de sedução entre uma mulher e uma espécie de príncipe; os meninos vão aprendendo daqui e dali, com os amigos, na maior parte das vezes por meio da pornografia. Então, enquanto as meninas esperam fazer amor, os meninos creem que se espera que eles façam sexo. Claro, há toda uma corrente de força e poder masculino - bem como do feminino - que se liberta no sexo. O corpo sabe, naturalmente; e tudo o que é natural é bom e é belo. Não é disso que estou tratando; mas do fato de que, para os meninos, há uma dissociação entre amor e sexo. E aí, quando o sentimento mais poderoso que pode existir entre seres humanos faz visita, não sabemos muito bem o que fazer; porque o amor é ternura, ânsia de cuidado e o sexo é a maior expressão de amor possível; por outro lado, há a imagem pornográfica, a insegurança masculina e a competição patriarcal, a dolorosa pergunta interna: e se outro for e fizer melhor que eu? A gente segue medindo as genitálias a vida inteira; obcecados pela performance, quando bastaria ser quem somos, ouvir o corpo que nos acolhe. É preciso que se diga: quando há amor, vai amor também aí, no meio dessa confusão toda. Depois de tanto tempo, sinto vontade de pedir perdão às companheiras que caminharam ao meu lado durante uma parte da jornada. Acho que fiz o melhor que podia, mas perseguia, inconsciente, uma meta e o gesto de fazer amor é um acontecer, um entregar-se, doar e receber; não é um jogo de futebol, ou uma corrida na qual temos de ser o melhor do mundo. O duro é que quando um menino percebe isso, já é homem. Foi ferido e feriu muita gente. Às mulheres que se deitaram algum dia comigo, peço perdão se soei artificial, se não fui suficientemente delicado. Eu não sabia o que fazia. Ainda estou aprendendo a viver e a amar🌻
quarta-feira, 3 de junho de 2020
O DIA EM QUE VI MINHA MÃE CHORANDO NA COZINHA
Fui o único a correr para abraçar meu pai quando ele parou o Fusca em frente de casa. A mãe continuou na cozinha, coando o café; enquanto nenhuma de minhas quatro irmãs mais velhas saiu do quarto para cumprimentá-lo ou pedir a benção. Eu, no entanto, tinha sete anos; de modo que, não importava o que falassem, meu pai era meu herói. “E aí, molecão!” – disse ao me entregar um boné original do Santos FC. Ajudei-o com uma das sacolas, enquanto ele carregava as malas para dentro. Meu pai era o homem mais alegre que já conheci. Quase aos cinquenta, ainda tinha a mesma energia que eu. Como nosso quintal era grande, passávamos os dias jogando bola, peteca; ou pegando amora, atemóia, manga, ameixa no pé. Agora, havia quase um ano que eu não o via. Tempos antes, o pai tinha conhecido uma mulher no trabalho e se apaixonado, e saído de casa. Foi um ano ruim, aquele. Eu não sabia o que tinha feito de errado para ele me abandonar assim. Além disso, as dificuldades financeiras. Não chegamos a passar fome, minha irmã mais velha já trabalhava e a mãe pegava roupas para passar em casa. Houve, todavia, noites em que jantamos os abacates colhidos do pé; com pouco açúcar, inclusive. Só que agora ele estava de volta, meu Pai, e eu estava disposto a esquecer tudo aquilo; como se não tivesse passado de um sonho ruim. O resto da família, no entanto. “Oi, Maria.” – ele disse, beijando mamãe no rosto. Ela permaneceu. Era uma mulher séria; sempre com os cabelos presos num coque e vestimentas muito sóbrias. Seus únicos prazeres eram ler e tocar, no piano, os hinos de nossa Igreja. Entregou uma xícara de café. Ele bebeu devagar. Houve um silêncio denso, como se só os dois existissem no mundo. Depois, meu pai foi para o quarto ajeitar suas coisas no guarda-roupa. Eu junto, agarrado. No fundo, tinha medo de perdê-lo outra vez. Quando estávamos no quarto, no entanto, o pai me entregou uma caixinha com um relógio lindo dentro. “Por que você não vai levar pra sua mãe?” Obedeci, mas quando voltei para a cozinha, a mãe estava descabelada, chorando, soluçando; agarrada à pia como se pudesse ser levada por um ciclone, caso soltasse. No chão, a xícara quebrada em mais de mil pedaços. Fiquei ali, na cozinha de casa, com aquela caixinha nas mãos por mais de trinta anos🌻
O SALTO
Observo meus cães. Estão bem. Encaixados em seus corpos, sem passado ou futuro. Se brigam, não se arrependem, não pedem desculpas; entendem-se naturalmente em seguida. Não há a angústia funda, a dúvida, a aflição de ter de decidir entre o que o instinto grita e a promessa feita ao outro. Ao ser humano é vedado o caminho animal. Do cão ao homem, a consciência dá um salto. Não nos é possível retroceder, só nos resta saltar de novo. O que é grande no ser humano é sua dor. A aflição de ser um Deus preso a tripas e que acaba sabendo de seu fim. Se não sou meu cão, tampouco sou Deus. E é aí que, a partir de um gesto de reverência, torno-me oco, túnel, corda estendida entre o animal e Deus, porque contenho os dois. Há um lugar – no Ser - a que chegamos quando as pupilas, mesmo com as pálpebras fechadas, voltam-se, por si mesmas, ao alto. Um ponto vazio que é ao mesmo tempo passagem e fronteira; eternidade e queda no tempo. Se me assento neste lugar, posso ver meus movimentos no mundo como se fossem de outra pessoa. Posso falar de mim na terceira pessoa. Amor. Quieto neste vazio, não estabeleço diferença entre mim e os corpos que me cercam. Amor. O egoísmo, a ganância, a ira, o ódio, não existem aí; porque o que observo é tanto meu corpo, quanto o corpo do vizinho no mundo e eles não diferem. Amor. Já não me identifico com o “eu”. Só há um sujeito nesta frase e ele não é o ser humano. O salto não é para menos consciência, mas para mais. “Abrirmos a cabeça para que afinal floresça o mais que humano em nós”. Todas as crises apontam para este lugar, mas só uma prática cotidiana sedimenta a trilha para que não haja diacronia entre o eu-vazio e o eu-telúrico. No princípio, o eu-telúrico age e o eu-vazio se manifesta em seguida. Com a prática, ambos passam a atuar em uníssono e é aí o Além do homem, a Iluminação, o Despertar, o Cristo, o Nirvana. Se lemos tantos livros, o que esperamos para ler nossa própria atividade mental? Podem me ignorar; podem matar meu corpo; podem até ferir meus sentimentos, mas nada podem fazer contra mim. Já não sei se sou eu quem vive na Desmesura ou se é a Desmesura quem vive em mim. Não há contornos quando saímos para dentro🌻
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