quinta-feira, 22 de outubro de 2020

I - O LIVRO INFINITO


Imagine um livro vivo. Que dialogasse com você a cada momento de sua vida. Imagine que este livro não começasse na primeira página nem terminasse na última. Em qualquer lugar que se abrisse, seria o começo. Quanto ao fim, não existiria; as coisas não terminam, transformam-se. Não, não estou falando de Rayuela, de Julio Cortázar, mas do I Ching. Na concepção taoísta, tudo no universo nasce a partir da interação entre duas forças complementares: yin e yang. Grosso modo, yin seria o princípio feminino e yang, o masculino; como o Taoísmo surge a partir da contemplação da natureza, o primeiro seria a face sombria da montanha, ainda não iluminada pelo sol; o segundo, a face iluminada. De manhã, o sol ilumina uma face; de tarde, outra. Deste modo, o que era yang passa a ser yin e vice-versa. I significa mutação e ching livro. Um livro que acompanha as mutações não poderia, portanto, ser estático. Daí o caráter dinâmico do I Ching. O livro é composto por 64 hexagramas. Cada um deles constituído por uma combinação de linhas yin e yang. A linha inteira é sempre yang; a seccionada yin. Da interação entre tais linhas; a princípio em trigramas, depois em hexagramas; surgem as configurações do momento presente. Toda situação tem uma face visível e uma invisível; acontecimento e potência, yang e yin. Para os gregos, cronos e aion; em termos bergsonianos, atual e virtual. O uso do livro enquanto oráculo se propõe a consultar não o futuro, posto que ele não está dado, mas as forças envolvidas numa determinada situação. Sempre me perguntam o que estou lendo e há certa soberba em dizer que se lê muitos livros. Nos últimos tempos, tenho estudado de maneira calma os livros da tradição taoista: o I Ching, o Tao Te Ching, os textos de Chuang Tzu. Sinto que uma vida é pouco para se dedicar a livros inesgotáveis. Ainda não conheço bem a Fonte que desce daquele monte.

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