Certeza de ter sido a pior - e a melhor - coisa na vida da pessoa que você mais ama. Saudade de ter dezoito, cabelos fartos e fé na vida. Juntos, repartimos chiclete. Juntos, sonhamos o mesmo sonho; partilhamos futuro e violão. Na manhã de um dia frio, você disse pela primeira vez: "te amo!" E me mostrou os seios brancos. Mas Satanás, já aí, nos botou um feitiço e, mais de mil dias depois, numa tarde estranha, você me olhou calada e saquei que já não me conhecia. Saudade de nós, das coisas simples: rock antigo, jovem guarda, licor de cereja, baile de formatura. No momento em que a valsa começou, teu corpo no meu, tesão: boca, língua, orelha: sussurro sacana! Mas o Diabo nos jogou sua maldição e, quando cheguei cansado do trabalho, dezembro: teus armários abertos, as prateleiras vazias, a falta das malas. Recordo o café da manhã: "põe mais um pouco pra mim!", o rosto do filho, a noite do parto, a sensação de tornar-me pai: tudo tão eterno, infinito, tão ontem ainda. Mas o Demônio nos rogou aquela praga e, crianças de mãos dadas, no meio da tempestade, imaginando-nos invencíveis, não percebemos a noite que se avizinhava.
E nem, tampouco, a vida que nos perseguia como um mouro com a espada na mão
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