Dona Izabel bebia pinga. Quando abria a porta, ela já esperava. Da primeira dose, mais derramava que bebia. Enternecia-me, porque ela carregava uma dor muda - de amor. Os mais velhos diziam. Dona Izabel fora dama. Das esposas, a mais elegante. A casa, um brinco; sempre encerada. Podia-se pentear os cabelos no brilho das panelas. Quando o marido, que trabalhava na GM em São Caetano, chegava, a janta estava sempre pronta, a casa limpa, Dona Izabel perfumada, de banho recém tomado. Cuidados de esposa; não tinha outra igual. Mas esse mesmo marido, certa feita, arranjou amante e, com o tempo, saiu de casa. Izabel enlouqueceu: virou Zabé. Inconformada, questionou: "O que ela tem? É melhor na cama que eu?" E o sádico: "Não, ela cuida melhor da casa e de mim". Zabé, então, tresloucou . Nunca mais nem vassoura que passou. E deu de beber, e descuidou do asseio. Quando morreu, demoraram três dias pra achar. O corpo já tinha bicho; e a casa, lixo até o teto; ratos e gatos dividindo carne podre.
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
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