terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A alma estendida na varanda

Lá vou eu pela vida
A alma estendida na varanda feito camiseta velha
Abrindo trilhas, descobrindo clareiras
Dizendo não ao caminho excessivamente pisado
Sofrendo as consequências de arrancar a mão autoritária do meu ombro
Lá vou eu pela vida
confuso confesso: rebelde
Encantado pelo milagre,
Lá onde o milagre acontece
e a gente não vê 
Lá vou eu pelo caminho
A carne cheia de estilhaços
A alma infestada de bolhas feito ovo na frigideira
O coração em carne viva
Perguntando pelo mistério do Ser
E admirado com aqueles que sabem funcionar
Lá vou eu,
As certezas em frangalhos
As promessas frustradas
A coragem costurada, remendada por retalhos coloridos
Eu vou menino
Inventando esperança onde grassa desilusão
Vou de conga ou kichute
Recolhendo força dos invisíveis
e cantando com eles:
Todo menino é um rei!


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

COMO UM MENINO FRENTE A DEUS

O TOURO EM ERUPÇÃO

Um touro vendado se bate contra as extremidades do túnel, tentando encontrar o caminho que leva à arena. É um touro preto. Ao redor, os homens fustigam-no, batem-lhe com a mão no traseiro. “Eia, novilho doido, eia!” Viver é encontrar uma trilha, mesmo que de pedras, por onde a gente possa caminhar. Algumas pessoas encontram sua própria trilha, aquela que lhes é - e só a elas - destinada, quando mal aprenderam a andar, quando ainda engatinham; outras pessoas passam a vida toda batendo a cabeça, procurando uma vereda onde possam ser, onde seus pés encontrem o sentido de existir. “Dê-me um cantinho de mundo onde eu caiba e eu serei serenidade” – diz o touro por meio de sua alma taurina. Acossado, no entanto, o touro é abismal, fere quem estiver por perto; não distingue sequer a mão que o alimenta. Eia, novilho, eia natureza, eia! Há uma menina branca, sempre há. A fragilidade é sua força. Ela acaricia o touro enquanto os outros cravam bandeirolas nas costas da fera. Três filhos, três filhas; o pai cego fumando cachimbo. Caminho onde a gente possa ser. Uma beiradinha de mundo e de língua onde caiba um touro, onde um touro encontre morada e frescor. A carne é para os vergões e o chicote. A carne é para a fúria! Alimento, amizade, alma, amor, amanhã. Todas as pistas começam com A, mas a solidão é cheia de curvas... E gritos. Havia para a menina toda uma vida de vitórias: quadros revolucionários em estado de transparência, esculturas inovadoras - sempre de touros - ocultas na pedra e no bronze; vocação para a Arte é isso, mas ela se esqueceu de nascer e a neblina cobriu o caminho que lhe era destinado. O outro do mundo habita o silêncio... O caminho não existe sem aquele que caminha e o touro é toda a violência que o couro e a carne podem conter. A vida habita a solidez; o mais é hipótese, possibilidade, cavalos marinhos no sertão; todo um mundo que poderia ser, mas não é: aborto... A casa abortada.
                MAS VOU CONTAR ESTA HISTÓRIA PARA PROVAR QUE SOU SUBLIME.
                A menina diz:
                - Quando eu me despir de todas as cascas serei amor.
                O touro não é só o touro, o touro é o touro mais a menina e mais a casa. Nada é isolado. Tudo o que é, é dentro de um mundo. Tudo o que é mundifica. Eva era Eva, mais a maçã, mais a serpente.
                O touro escapa, o touro entra em erupção. O touro – negro - contempla a casa. O touro é a casa. A menina morta monta nua o touro: uma maçã, uma rosa vermelha nos cabelos; gozo... E morangos silvestres. O touro amanhece um menino. Ele se chama Kan, é o filho do meio; ela se chama Tui é a filha mais nova.

O OUTRO EM ERUPÇÃO

Era uma casa grande: oito portas e uma dúzia de janelas. Era uma casa antiga, para mais de duzentos anos, sustentada por colunas e vigas de madeira maciça lá do século XVIII ou XIX. A casa atravessa o tempo com a família dentro. No porão, encravadas nas pedras, ainda estavam as grossas correntes para prender escravo. Dizem que o bisavô era severo com negro fujão; gostava de aplicar os castigos nas dependências da casa e a casa se fortalecia com isso, ganhava sua alma, seu poder também daí. Não é só com sorrisos e fotografias que se constrói uma família. Aquilo que dói, aquilo que esfola, é transmitido entre as gerações; torna-se a memória de um clã. Ancestralidade é um dos nomes do carma. Havia, na casa, uma sala com doze cadeiras espalhadas, encostadas às paredes; sobre cada uma dessas cadeiras vazias, o retrato amarelado de um parente morto. Ancestralidade também é carma. Havia ainda outra sala, com uma mesa longa, rústica, de madeira preta. Os quartos eram quatro. No menor deles dormiam o pai e a mãe. Os três rapazes, cujas idades variavam entre vinte e um e quinze anos, dormiam no mesmo quarto. As meninas, também eram três, dividiam o outro quarto. Havia ainda um quarto de hóspedes que estava sempre desocupado; uma vez que, havia muitos anos, ninguém visitava a casa. Uma cozinha enorme onde, desde manhã cedo, o fogo crepitava completava a casa.
                Em tempos remotos, mais de duzentas pessoas trabalhavam na fazenda, subindo e descendo os morros, cuidando do cafezal. Agora os pés de café tinham desaparecido dos morros. Quando setembro chegava, o cheiro de café perfumava o ar, mas a plantação estava perdida no meio da mata. A casa, a família e o touro estavam apartados do mundo. Assim que o dia amanhecia, o pai, mesmo sem enxergar, chamava os rapazes e seguiam juntos para a roça. Plantavam o que sustentava a existência. Não havia luxo. Aos domingos, o pai e a menina mais nova, Tui, iam à feira vender o excedente, quando excedente havia. Em determinadas épocas do ano a comida precisava ser racionada, quase passavam necessidade, mas havia a farinha de mandioca, a rapadura, o fubá.
                Uma noite, o filho do meio dormiu e sonhou com um abismo, estava calor, mas ele tremia e batia os dentes como se estivesse com febre. O sagrado vem em forma de frio. De dentro do abismo, saía uma luz proveniente de um tesouro: um touro em tamanho natural todo feito de ouro. No sonho, Kan viu com riqueza de detalhes o lugar onde o tesouro estava enterrado. Já tinha passado por aquele lugar. Ficava a três ou quatro dias de viagem rumo ao sul. O pai, porque era cego, intuiu o sonho do filho. Ele, o pai, tinha ciência de tudo; sempre. O frio era uma corrente que ligava ao filho o pai.
                Chamou o filho do meio e a filha mais nova, sua menina preferida.
                - Soube que vocês vão em busca do tesouro.
                - Ainda não é certo.
                - O tesouro só pode ser encontrado na noite de sexta-feira da paixão. E só pode ser manuseado por alguém puro de coração. Se aquele que tocar o tesouro tiver um único pensamento egoísta, um único pensamento impuro neste momento sublime, será dissolvido imediatamente. O tesouro está desde sempre no mesmo lugar, mas só poderá ser encontrado na noite da agonia de nosso senhor. Nessa noite ele emitirá aquela mesma luz que você viu em seu sonho.
                - Mas, pai, foi só um sonho. Não sei se isso tem algum valor...
                - Lembre-se: aquele que quiser reter, perderá; mas quem partilhar terá tudo em dobro. É preciso ser maleável, meu filho, as árvores mais altas envergam-se, mas não se quebram com o vento. Se o mundo ao seu redor desmoronar, mantenha-se na vala.
                Em seguida o pai tirou suas vestes e entregou-as ao filho que, imediatamente, despiu-se e vestiu a túnica do pai e colocou na cabeça o chapéu do pai.

ONDE ESTÁ O TEU TESOURO AÍ ESTARÁ TAMBÉM TEU CORAÇÃO

Kan tinha a capacidade de amar em silêncio. Tinha medo de ferir tocando, porque conhecia em si o touro. Tui sabia o amor do irmão, mas era toda pureza, como um riacho raso de águas cristalinas, peixes coloridas no fundo e pedras arredondadas. Tui não sabia tramar, era toda generosidade. Ela morreria de sede para dar água a alguém que também estivesse sedento. Kan sabia a generosidade, mas era homem, também água, mas abismal e o abismo tanto podia engoli-lo, quanto engolir tudo ao seu redor. Tudo é um: Kan era Kan mais Tui, mais seus outros irmãos, mais seus pais, sua cidade e mais toda a raça humana. O significado da vida é o caminho e o tesouro, mas cada pessoa só tem uma trilha que leva ao seu tesouro. É fácil demais se perder pelo caminho, cometer suicídio, desencaminhar-se.
                A viagem que demoraria três dias, acabou demorando mais de uma semana. Seguiram o rio, mas choveu muito por aqueles dias e o rio encheu, arrastando tudo às suas margens. Um tronco levado pelas águas acertou Tui ao meio, quase a levou embora, quase partiu a menina em uma, mas o irmão, abismal, conseguiu segurá-la e salvou-a e cuidou dela com os medicamentos que a mata oferecia. Ficaram dois dias descansando na casa de uma velha, negra, que morava só no meio da mata. Por sorte, chegaram ao ponto exato onde Kan havia sonhado, o tesouro estaria bem ali e era a tarde da sexta-feira santa. Cavaram, mas nada havia. Um buraco é cheio de silêncio. Cavaram em outros lugares. O tesouro salvaria a fazenda, a vida e a família.  Era impossível, a terra era terra e só. Já cansados do esforço, o irmãos adormeceram abraçados e desiludidos. Tudo seria ruína e só ruína. Alguns encontram o tesouro que lhes é destinado e outros não. A vida é isso. Que é justiça universal? O que é Deus? Durante a noite, a visão de um moço muito branco acordou Tui. Ele vinha com mais dois outros homens; todos eles profetas. Ele apontou uma cova que os próprios irmãos já tinham cavado. A cova emitia luzes azuis e vermelhas em forma circular. Ela, Tui, olhou para o irmão e viu que no peito dele havia também um círculo vermelho e azul - carne e espírito - feito da mesma energia que provinha da cova onde o tesouro, o touro todo feito de ouro, descansava. Tui acordou o irmão. Sabia que seu coração era feito de um pedaço do tesouro e que só ele podia retirar o tesouro; um touro todo feito de ouro em tamanho natural pesa muitas toneladas.
                - Veja – ela disse e apontou a luz.
                Kan olhou para o próprio peito e viu que brilhava. Sentiu-se forte e confiante, mas não compreendeu que para assenhorar-se do tesouro, primeiro era preciso assenhorar-se de si mesmo. O grande tesouro não está fora, é só consequência.
                Kan começou a puxar o touro de ouro para fora do abismo, mas o touro em erupção fascinou-o - as igrejas medievais têm gárgulas guardando a entrada – e um pensamento atravessou o coração semi-puro do irmão do meio. Quem pode lutar contra um pensamento? Seriam necessários muitos anos de meditação e treinamento para que Kan pudesse evitar a erupção de um pensamento assim, mas ele não tinha mais que alguns segundos:
                - E se eu ficasse com o tesouro? – Sussurrou. - Tenho direito; afinal, foi eu quem o encontrou. O sonho foi todo meu e só meu – era o Mal, as gárgulas que impediam a entrada no paraíso.
                Neste exato momento, com as mãos ainda nos chifres do metal, Kan, o filho do meio, o menino da água e do abismo, tornou-se poeira. Tui entristeceu-se. Chorou, mas ainda com lágrimas nos olhos tentou puxar o tesouro do buraco. Para sua surpresa, o touro de ouro pesava menos que a mão de uma criança. Ela o carregou de volta à fazenda com uma facilidade que surpreenderia ao mais forte dos homens.
                Em casa, partiu o touro em touros menores, todos de ouro e o dividiu com os irmãos, com o pai, com a mãe, com todos os moradores do vilarejo que espalharam pelo mundo seus pequenos touros dourados. Kan, o irmão que errou, já não existia com limites definidos, mas se manifestava em cada gesto da irmã, que todas as pessoas daquele lugar diziam ser uma santa e ela, de fato, era uma santa... Uma santa que primeiro se chamou Tui, depois Joana, depois Geralda, depois Márcia, depois Maria, depois Tatiane. Depois, Oração, simplesmente, como um menino frente a Deus.