Quando Uriel nasceu, tanto o médico quanto as
enfermeiras ficaram espantados de ver chegar ao mundo, após nove meses de
gestação, um bebê completamente sem pele. Comunicaram, com pesar, à mãe, o fato
inexplicável.
Durante a infância, Uriel viveu cercado de
cuidados, não podia expôr-se ao sol, não frequentava a escola com as outras
crianças; mesmo brisa mais forte o fazia sentir dor, qualquer toque o fazia
sangrar; o mundo era mais que uma alergia, era uma queimadura de terceiro grau.
Canção que não fosse Bach, Pachelbel, Chopin, Nick Drake ou Graham Nash
afetavam seus órgãos internos. Quando ventava, a família fechava as janelas.
Como Uriel não tivesse pele para contê-lo, seus pais tinham medo de que um
vento mais forte, uma ventania qualquer, pudesse dissolvê-lo, pudesse levá-lo
no ar feito montinho de poeira.
Assim, o menino sem pele atravessou a infância, a
adolescência e chegou à vida adulta. Uma pereba inflamada, queimadura, uma
ferida ambulante. Vai ser gauche é maldição para quem ao menos tem perna.
Certo dia, durante um feriado, a família resolveu
ir à praia. Uriel fazia questão de ver o mar, mesmo que fosse sua última visão
neste mundo. Os pais colocaram empecilhos, era perigoso. Ao que Uriel retrucou:
- Viver é muito perigoso. – Citação de livro, como
o mundo lhe era hostil, desde os cinco anos, Uriel tinha ido viver nos livros.
Uma manhã, antes das seis, a família foi à praia.
Tudo calmo, tranquilo: felicidade é sorriso em riba do sofrimento. Os pais
tiveram até coragem para deixá-lo sozinho por um instante, sob o guarda-sol, enquanto
caminharam de mãos dadas rumo ao mar. Era a primeira vez que namoravam desde
que o filho viera ao mundo. Foi neste exato momento que Uriel teve de tomar
decisão. Um menino que brincava na beira do mar foi levado pela maré. Sem-pele
gritou. Não podiam ouvi-lo. E o mar a cada vez engolindo o menino com mais
voracidade. Mais gritos: NADA. Então, Uriel deixou sua cadeira e mergulhou sem
se preocupar com seu próprio destino. Salvou o menino. Sentiu dor, pois sal
sobre uma ferida sempre arde, mas quando deu por si, viu que uma camada ainda
fina de pele envolvia sua carne sofrida.
Ancorado neste pequeno conforto, Uriel aprendeu a
nadar, fez cursos e tornou-se guarda-vidas. A cada pessoa que ajudava, sua pele
se tornava mais grossa, mas nunca deixou que ela se tornasse um casco. Quando
ficava muito excitado, por ter ajudado muita gente, arrancava, durante a noite,
as crostas que se formavam com o excesso de pele...
E viveu a vida.

