Estou tentando abandonar o vício de
sofrer, já não me diverte tanto assim. Talvez não fique mal num menino de 15
anos, mas num homem de quase 40 não é um espetáculo bonito de se ver. Mesmo porque,
quando sofro, todos a quem amo, sofrem junto. Na canção, Stuck in a Moment You Can't Get Out Of, do U2, Bono
canta algo mais ou menos assim: “Você tem que se recompor / Você
ficou preso a um momento / e agora não consegue sair / Não diga que mais tarde
ficará melhor.” O momento é agora, deixar de ressentir, repetir a dor de
algo que nos magoou há muito. O passado não foi, o passado é, do contrário não
sofreríamos, seríamos o tempo todo puros como Adão, como bebês; mas temos de
olhar o agora, tirar a água suja e substituí-la aos poucos por água limpa. Amanhece...
Há um dia inteiro pela frente: carpe diem, seize the day! Ainda não matamos
todos os pássaros e alguns deles cantam: que será que estão louvando? A flor de
lótus brota no pântano. Cada um faz seu caminho e o lodo já não me interessa,
conheço-o bem; agora, almejo a flor. Chega de ficar arrancando a casca da
ferida. Chega de ouvir o euzinho gritando todo o tempo, sua dor é maior, sua
sensibilidade é maior, você é artista, lembre-se de Álvares de Azevedo, os
outros são zumbis! “A maioria dos homens vive em silencioso desespero.” Quanto
ainda há por aprender com os estoicos! Um dia, esse coração perebento, vai
bater um pá meio descompassado e jamais vai bater o pum outra vez. Melhor dizer
sim ao dia, e se fizer frio ou chover, importa pouco. Começar com as coisas
simples: por um pé no chão, depois o outro, escovar os dentes, lavar a louça na
pia, fazer café, afagar um gato, limpar o coco dos bichos, o banheiro: é
milagroso! Quero aproveitar o tempo que me foi dado, quero ver meus
contemporâneos; fiquei tempo demais preso à minha unha encravada, estou curioso
sobre eles. Deixemos que o Demônio grite: “amanhã, tu estarás chorando outra
vez!” Sussurremos em seu ouvido: do amanhã, o amanhã cuidará! Ouçamos Riobaldo,
Tatarana, sábio jagunço de falar muito reto e direitoso: “a vida é assim:
esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” Good morning
starshine.
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