sábado, 18 de agosto de 2018

MÉNAGE À TROIS CP. 22


 Acordei alegre e, para corroborar tal afeto, espinosanamente, procurei outros corpos que me aumentassem a potência, a força de agir. Antes, porém, resolvi cuidar de mim. A vaidade é um dos meus defeitos, reconheço. Saí cedo de casa. O Caçador estava lá. Como eu estava contente, encarei-o. Se ele portava armas, não demonstrou. Cumprimentou-me tirando o chapéu e mostrando a careca. Retribuí ao aceno e segui meu caminho rumo ao barbeiro. Eu pintaria o cabelo, uma cor elegante: acaju e, mais, tinha deixado o bigode também e agora o tingiria da mesma cor. Paraíba, meu barbeiro, um senhor de setenta e tantos anos que passara a vida inteira pecando e agora tinha se convertido à Igreja Universal do Reino de Deus, advertiu:
            - Rapaz, tu és doido. Acho que num fica bom não, hein, macho, pintar o cabelo assim... de acaju.
            - Paraíba, vê se faz aí umas mechas ao menos. Tenho duas namoradas e uma delas tem vinte e poucos anos. Não posso ficar junto delas com os cabelos brancos, parecendo o Papai Noel.
            - Que é isso, macho? Duas?
            - Pois é, meu amigo, mamãe passou açúcar em mim.
            - Nos meus bons tempos, eu tinha umas cinco, mas nenhuma sabia da outra, num sabe? Depois aceitei Jesus... Acho que tu devias fazer o mesmo. A gente não sabe quando o Cristo vai voltar. O reino dos céus vai vir que nem um ladrão na noite.
            - Mas, Paraíba, meu amigo, com todo respeito. Se no céu só tiver crente, meu irmão, melhor nem ir pra lá. Já imaginou o povo o dia inteiro cantando: “para nosssssa alegria!” Dá não, meu velho.
            Ele riu, enquanto besuntava os meus cabelos com a tinta.
            - Mas me diga aí, seu cabra, você dorme com as duas de uma vez?
            - Peladão, aí, durmo no meio. De vez em quando, acordo de noite e mamo um pouco os seios de uma, beijo a xana da outra. Assim, sem perceber, já estamos todos lambuzados de novo. Igualzinho a esse meu cabelo aí. Diz aí: tem paraíso mais paraisozo que esse?
            - Ê, tem não, cabra. É bom demais, num é? Sou franco em falar, mas isso não me pertence mais. Tô salvo, varão. Ô glória!
            - Aleluia, Paraíba, mas diz aí? Vai demorar muito?
            - Uma horinha. Se avexe não, macho!
            Acabei demorando mais de duas horas no barbeiro, mas gostei do resultado. Nem Belchior era amante latino mais sensual que yo.
            Eu tinha combinado de me encontrar com as meninas durante a tarde. Elas não estavam a fim de sair naquele final de semana. Prefiro assim. Como o filho da Duda estava com o pai, tínhamos a casa inteira só para nós. No caminho, passei num sex shop e comprei uma fantasia de policial com quepe, óculos escuros, algemas e a porra toda. Fui para a casa da Duda já vestido. Perigoso e sensual. Nesse mundo não tem professor pra matéria do amor ensinar. Não basta só fazer amor, se a gente também pode gargalhar junto.
            Quando chamei no portão, não me reconheceram. A Duda saiu e, quando percebeu que era eu, foi logo rindo.
            - Mas que diabo é isso, Dan? – perguntou enquanto abria o portão.
            - Meu nome é Stevie, por favor me chame pelo nome, senhora.
            - Pintou o cabelo, o bigode... Agora endoidou de vez, ora pois!
            - Mais respeito com a autoridade, senhora.
            Anabela, quando me viu, não pôde acreditar. Ria tanto que as lágrimas escorriam dos olhos.
            - Bem, meninas, já vi que nessa residência, vocês não têm qualquer respeito pela autoridade. De modo que vou ter de deter a ambas para averiguação. Se continuarem com o desrespeito, serão autuadas por desacato.
            - Mas que fantasia mais chinfrim, hein! Parece o guarda Belo. Não tem vergonha de sair com essa roupa na rua?
            Continuei com a brincadeira. A fantasia era deveras um desastre.
            - Porra, meninas, vocês vão ter de entrar na brincadeira; caso contrário, não vai rolar.
            As duas se controlaram um pouco, conseguiram conter o riso.
            - Tudo bem, o que é que a gente tem de fazer? Você também não explica, porra! A gente não sabia o que falar.
            - Seguinte, eu vou chegar como se fosse um policial de verdade. Vou dar ordem para as duas se encostarem na parede pra eu revistar. Nesse momento, Anabela, você passa a mão no meu pau por cima da calça e diz: “Nossa, policial, para que essa pistola tão grande? Tipo Chapeuzinho e Bobo Mau, sacou?”
            - Tudo bem, então vamos ter de mentir também; porque, pra dizer a verdade, não é nada grande – disse Duda e voltou a gargalhar.
            - Porra, Duda. Não é grande, mas aí, é cabeçudo. Diz aí...
            - Coitado.
            Voltamos com a encenação. Quando Anabela passou a mão pelo zíper, eu já estava com o pau latejando de duro. Ela abriu a braguilha e pegou meu pau, puxando, em seguida, a cabeça rosada para fora.
            - Hum, que pistolão, oficial!
            - Nossa, Stevie, que cassetete!
            Elas tornaram a rir. Eu, entretanto, mantive-me sério. Não brinco em serviço!
            - Ponham na boca... Engulam... Não se envergonhem...
            As duas línguas se revezavam sobre minha pica; às vezes as bocas se beijavam sobre a cabeça. Paraíso, que paraíso? De repente, virou putaria, elas nem riam mais. Tiraram as roupas. Eu coloquei as duas no sofá com as pernas abertas e fiquei louco, que nem cachorro novo, pulando de uma xana para a outra. Não conseguia me concentrar numa só. Fartura, teu nome é amor! O quepe estava torto na minha cabeça; os óculos escuros, dependurados na orelha. Arranquei o uniforme e me deitei no sofá. Então uma delas se sentou no caralho, enquanto a outra sentou com a boceta na minha boca. Brincamos assim por um bom tempo, depois as meninas trocaram de lugar. No meio da foda, eu tinha de pensar em outra coisa. Se ficasse concentrado, gozava na mesma hora. Tinha de me distrair um pouco e depois voltava. Então as minhas companheiras se encaixaram num meia nove, a Anabela por cima. Empurrei o pau e ele escorregou gostoso. De vez em quando, tirava da boceta da Anabela e colocava na boca da Duda. Aí fiquei maldoso. Tirei o pau e lambi com força o cu da Anabela. A menina gemeu. Cuspi. Passei o dedo. “Vou tentar!” Pensei. Se ela reclamasse, eu parava. Para minha surpresa, quando enfiei a cabeça, ela gemeu. Empurrei mais um pouco – é preciso carinho quando se está comendo um cuzinho; se forçar, machuca, ainda mais um rabinho apertado como aquele – ela relaxou, aceitou a pica. Passando a cabeça, o resto escorrega. A própria Anabela arrebitou a bundinha dura e empurrou para trás. Enquanto isso, a Duda, garota esperta, chupava o clitóris. Quando estava tudo dentro, a coisa ficou fácil. Segurei a danada pelo cabelo e soquei até o talo. Ela rosnou, gemeu, pulou. Mandei brasa. Não foi preciso muito. Em pouco tempo, Anabela gozava.
            - Quero que você encha a cabeça da minha pica de merda, safada – falei.
            E aí ela recebeu com força.
            - Vou encher seu cuzinho de porra. Aperta o rabinho no meu pau!
            - Vai, vai, vai.
            - Vou, vou sim, gostosa.
            Ela gritou, tremeu, suspirou. Eu também gozei e, depois, deixei o pau descansando... Porra de amor escorrendo pela bunda dela depois, descendo pelas pernas... E Anabela chorou. Teve uma crise de choro. Caiu de lado e colocou o travesseiro no rosto... Coitada da Duda, só ela não tinha gozado. Eu, porém, sou um homem honrado. Não deixaria a menina na mão. No amor há uma única regra: não se pode ter prazer sem dar prazer! De modo que caí de boca, mesmo esgotado. Um bom oficial não foge ao seu dever. Não precisei chupar muito para a Duda gozar também. Ela estava excitada. Quando gozou, não tirei a boca, continuei mamando até ela não aguentar mais, apertando os bicos dos seios com as mãos...
            - Pode gozar, safada, goza que eu quero engolir todo seu gozo... Enche minha boca... – sussurrei.
            Gozou e, ao contrário da Anabela, teve uma crise de riso. Como é leve o semblante de alguém que acabou de gozar! Uma ria e a outra chorava. Depois inverteram os papéis, chorando e rindo, e se abraçaram. Eu fui ao banheiro tomar um banho. Estava todo melado. Nada como a criatividade na hora do amor.


domingo, 12 de agosto de 2018

CANÇÃO INOMINÁVEL

Tudo flui de acordo com sua natureza.
Em seu silêncio, a seiva dança no interior do baobá;
Bem como a rocha se movimenta no interior da montanha.
Nem uma, nem outra são mais que as espumas sobre ondas do mar.
Todas as coisas são a seu modo,
respeitando seu jeito de durar.
O pássaro sai do silêncio e canta, depois volta a calar.
O vento toca nas folhas e geme; depois, tudo deixa de cantar.
O tempo que esculpe a montanha e dissolve a espuma é o mesmo;
Mas cada qual dura a seu modo.
O destino flui, o ser flutua.
Todas as horas são de vento.
Todas as canções, de silêncio.
A fonte de toda Forma é o Vazio.
O fim de toda Forma é o Vazio.
Entre a chegada e a partida, tudo o que É entoa uma canção.
E como é bonito quando alguma coisa canta ao longe,
Tarde, muito tarde, na noite.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Esfera rompida



Pena que pena que coisa bonita... E, ainda assim, acaba. Quando um casal de amigos se separa - um casal daqueles que a gente conheceu sempre junto, feito o diagrama de Tai Chi, o yin e o yang em harmonia inteireza -. A gente fica de boca aberta. É duro e doloroso; não acreditamos, não queremos, perguntamos feito filhos órfãos: “Como assim? Eles nem me perguntaram nada? Foram feitos uma para o outro, viveram a vida inteira juntos, como podem agora se separar?” E, ainda assim, a vida segue, o rio transcorre, a ampulheta chia, o tempo realiza seu trabalho de juntar e separar; separar e juntar. E então a gente vai a um evento perto de casa e, pela primeira vez, encontra seu Rogê sozinho, sem Dona Ju. Difícil pensar que eles se conheceram durante a jovem guarda, velhos tempos, belos dias... Difícil crer que atravessaram mais de trinta anos juntos e, agora, no início do inverno, cada um foi para o seu lado; procurar outro caminho, enfrentar a neve e a viagem derradeira em outra cama. É triste imaginar Dona Ju olhando a chuva sozinha, bebendo chá em cadeira de madeira e balanço. É duro imaginar seu Rogê, menino envelhecido, compondo poemas para a ausência de sua metade. Quem é que pode imaginar Akira sem Sueli, ou Éder sem Ligia? É estranho ver um deles sem o outro por perto... Sensação de círculo incompleto... No último sarau, aqui na periferia onde moramos, vi seu Rogê inseguro, sozinho, não cabendo muito no mundo. Ele que sempre foi tão alegre, que bebia e cantava e recitava poemas de amor. Como é que um homem de setenta anos pode se perder assim? Num determinado momento, alguém puxou uma canção triste e eu vi seu Rogê suspirar e passar a mão cansada sobre os cabelos escassos e brancos. Pensava quem sabe na menina travessa que ele um dia amou e que vivia agora em outra placa tectônica, num Universo paralelo, tão distante da vida que viveram juntos. Eles se amaram de qualquer maneira à vera. Qualquer maneira de amor vale à pena e quando acaba, se acaba, não termina, torna-se parte da nossa travessia: esfera rompida que ainda guarda nas bordas o encaixe da outra parte.

A MALDADE DE GENTE DE BEM

Dona Celina era uma professora à moda antiga. Tinha se formado depois dos quarenta anos. Os filhos, criados e ela, como gostava muito de crianças, resolveu se dedicar ao magistério. Dona Celina falava manso, com um timbre suave, seus diários eram encapados com papel estampado por corações.
                - Como sempre, diários impecáveis, Dona Celina! – dizia a coordenadora e apertava com gosto o carimbo.
                Nos dias de festa, Dona Celina levava comida. Prendada, gostava de cozinhar, e bordar, e tricotar... Bela, recatada e do lar, sim senhor. Seus pratos eram famosos tanto entre alunos, quanto entre professores. O pessoal comia até se esbaldar.
                Até que um dia apareceu uma estagiária. Menina nova, trazia propostas pedagógicas inovadoras. Misturava capoeira e literatura, RAP e escultura, matemática e pintura. Tudo o que a menina fazia dava liga; acontecia conforme o previsto. Aos poucos, a estagiária começou a se destacar. Ajudava os outros professores em seus projetos. Organizava a criançada nos dias festivos. Até a coordenadora andava elogiando a menina.
                Dona Celina sentiu a fisgada. Ciúme fere, inveja dói. O pior de tudo foi quando, durante uma comemoração, tanto Dona Celina quanto a estagiária levaram pratos parecidos. O pão de torresmo de Dona Celina ficou esquecido; nem professores, nem alunos tocaram no assado. Quanto ao pão vegano da estagiária, não sobrou migalha. Dona Celina recolheu o prato intocado, preparado com tanto carinho e levou de volta. Ciúme fere, inveja dói. Isso não ficaria assim.
                Na segunda semana de outubro, durante as comemorações dos dias das crianças e dos professores, Dona Celina ficou encarregada de levar o bolo. A estagiária trouxe coxinhas de jaca. Desta vez, para felicidade geral, todos comeram tanto do prato da estagiária, quanto do da professora mais antiga. Depois do bolo, no entanto, o mal estar foi geral. Professores e alunos saíram em disparada em busca de banheiro. Todos eles, os banheiros, estavam trancados e ninguém sabia das chaves. Muita gente fez as necessidades nas calças. A escola ficou um cheiro...
Horas mais tarde, a chave apareceu bem ali, em cima da mesa dos professores. Houve quem desconfiasse que ou algum dos pratos estava estragado, ou alguém havia colocado laxante na comida. Mas quem?