Não é exagero dizer
que o ser humano é um ser hermenêutico. Tornamo-nos humanos à medida que
compreendemos e interpretamos o mundo que nos cerca e compreendemos e
interpretamos a nós mesmos. Há um corpo... Há um cérebro... Há um fígado... Um
coração... Um rim... Para a ciência, somos feitos de átomos, mas isto apenas não
nos define, somos feito, sobretudo, de histórias. É na palavra que o homem faz
morada (Poeticamente, o homem habita) e a natureza até então viva,
mas silenciosa se abre para compreender-se, refletir-se e cantar-se. A palavra
é a fenda e o espelho em frente, por meio do qual a natureza se observa, se
interpreta e se admira. Não fosse o homem, e o homem é linguagem, as coisas
todas ainda estariam aí, os planetas em suas rotas, os pássaros nas árvores, o
oceano em seu berço, mas não saberiam, elas, as coisas, apenas seriam, sem
jamais saber que são. “A linguagem é a casa do ser”. (HEIDEGGER, Carta sobre o
Humanismo, p.8).
Nós, que nascemos no final do século XX, fomos
lançados do ventre materno para um mundo dado. O conhecimento já estava aí, os
livros já estavam aí. Nós nos tornamos gente à medida que interpretamos o mundo
ao nosso redor e que vamos construindo nossa identidade, melhor, nossa alma,
enquanto somos rasgados pelo saber, pelas obras, pelas histórias que nossos
antepassados mais remotos produziram. Isto que somos torna-se um eu à medida
que é atravessado pelo mundo, pelas produções humanas e que reflete sobre o
mundo e sobre si mesmo. Nós somos um diálogo. Compreender não se separa da
vida, mas adere à vida e a transpassa em todos os momentos. Compreender é nossa
atitude mais primária, o bebê compreende o olho da mãe. Compreender não é uma
atividade que se faz trancado num escritório ou laboratório, observando o rio à
distância. No momento em que nos afastamos da coisa, nós a perdemos e se depois
a explicamos cientificamente é porque ela, a coisa, já tinha desaparecido.
Explicamos sem ter compreendido. Se vamos falar de vida e, a nosso ver a
questão primordial é onde está a vida?, então o imperativo não é o olhe o rio,
mas entre no rio, coloque os pés na água, sinta o frescor e a turbulência, o
musgo verde no fundo, o cheiro de lírios e os gritos dos afogados.
“A compreensão não vem depois da
vida, mas a permeia em seus momentos todos. Compreendemos o outro quando com
ele falamos; uma ferramenta quando a utilizamos; os acontecimentos cotidianos
quando nos atingem; o ambiente ou o mundo em que vivemos.” (NUNES, Ensaios
filosóficos, p. 270).
A obra é viva, é vida, se vamos falar da obra, então
o imperativo não é observe a obra, conte as palavras e os tijolos, procure no
dicionário os trezentos significados possíveis, mas sim: penetre a obra e seja
por ela penetrado. Um provérbio zen diz “o sábio aponta a lua, mas o tolo olha
para o dedo”, eu completaria; e ainda reclama da cutícula. Parece ser este o
trabalho crítico que temos feito, reclamar da cutícula no dedo. É preciso
penetrar a obra - que é atemporal e vive no eterno presente da origem, com suas
raízes fincadas no solo da Arte - pela porta de nosso tempo, ano de 2013 da era
comum e deixar que a porta permaneça aberta para que a obra fale uma vez mais. O
homem é um ser hermenêutico e a Arte é a mais encantadora das produções
humanas.
Bibliografia:
HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o Humanismo. Trad. Rubens Eduardo Farias. São Paulo: Centauro
Editora, 2010.
NUNES, Benedito. Ensaios filosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
