1.
Da
investigação
Uma
matéria publicada recentemente no caderno de cultura de um grande jornal
paulista tem gerado, nos últimos meses, intenso e acalorado debate, tanto nos
meios acadêmicos ligados à Filosofia, quanto no público leigo em geral,
refletindo, assim, em terras tupiniquins, outra discussão que teve início na
Alemanha há pouco mais de dois anos. A polêmica de que o jornal nos traz
notícia envolve a vida e obra do sempre polêmico filósofo alemão Martin
Heidegger. Segundo o jornal, dois pesquisadores da Escola Superior de Artes Aplicadas de Karlsruhe, os quais, nas horas
vagas, trabalham também na delegacia de polícia da mesma cidade, Jürgen Wolff e
Jörg Kjidretols, recriaram os passos de Martin Heidegger com o intuito de
descobrir se o autor de Ser e Tempo
tinha ou não umbigo. A dupla de pesquisadores fez mais de duas mil horas de
entrevistas com os netos e sobrinhos-netos do mestre da floresta negra; reuniu
um imenso arquivo de documentos oficiais, fotos, cartas, manuscritos; visitou a
cidade natal do filósofo: Meßkirch;
esteve em Constança, Freiburg, Todnauberg, Marburg. Segundo os investigadores,
o mais intrigante no que se refere ao percurso da pesquisa é o fato de que não
foram encontradas nem a certidão de nascimento, nem a identidade do filósofo.
Além disso, em nenhuma das fotografias a que os pesquisadores tiveram acesso há
uma imagem do umbigo de Heidegger, nem mesmo quando bebê. “Sabemos que Martin
Heidegger nasceu em 26 de setembro de 1889, mas não há qualquer documento
oficial que comprove isto.” disse Jürgen Wolff em entrevista a este veículo de
comunicação. O resultado da investigação será publicado na Alemanha no segundo
semestre de 2017, no formato de livro. Segundo Kjidretols, especialista na obra
do filósofo que implodiu a metafísica, a fagulha que deu início à investigação
foi uma afirmação presente em Ser e
Tempo: “o Dasein é lançado e o ser evidenciou-se como
peso, acaso jamais um Dasein decidiu
livremente como ele-mesmo, e jamais poderá decidir se quer entrar no Dasein ou não?”
Por telefone, o pesquisador Jörg Kjidretols nos
contou o seguinte: “O que mais me chamou a atenção foi esse caráter de lançado
(Geworfenheit) do Dasein.
Há na obra de Heidegger uma analítica do envolvimento do ser humano com as
coisas que o cercam, os utensílios: a mão e a enxada, ou a mão e o martelo, ou
os sapatos e os pés do camponês num quadro de Vincent van Gogh, mas não há
qualquer menção à relação entre um ser humano e outro ser humano. Heidegger
construiu uma ponte sobre o abismo que separava o homem metafísico das coisas,
mas se calou a respeito da relação entre o homem e seu semelhante. Não existe,
em toda a obra, a análise das relações entre uma mãe e seu bebê, entre um
amante e sua amada, entre um irmão mais velho e seu irmão mais novo. Parece que
o Dasein não esteve no aconchego líquido
de um útero, amparado por um anjo-placentário e não veio ao mundo e se
constituiu na relação com uma mãe. Ele, o Dasein
heideggeriano, surge pelo meio, lançado
ao mundo, já adulto e perguntando pelo sentido das coisas que o cercam. É por
causa da ausência de menção à primeira infância, à mãe e ao nascimento que
viemos a desconfiar do umbigo de Heidegger. Talvez o filósofo simplesmente não
tenha nascido. Sabemos que Heidegger colocou um exemplar de Ser e Tempo no leito de morte da suposta
mãe quando ela veio a falecer, muito sintomaticamente, no mesmo ano de
lançamento de sua primeira obra importante, Ser
e Tempo, em 1927. No entanto, não há qualquer prova do nascimento de Martin
Heidegger; uma imagem do umbigo seria, deste modo, a prova incontestável de que
Heidegger esteve de fato acolhido num útero e nasceu de uma mulher.”
Enquanto aguardamos o lançamento do livro dos
pesquisadores alemães previsto, como já foi dito, para o segundo semestre de 2017,
eu, que também nutro largo encanto pela obra do Pastor Alemão resolvi, por
conta própria, arriscar-me numa investigação sobre o tema tanto na obra de
Heidegger, quanto na obra de outros autores, muitas vezes oriundos de outros
campos do saber, mas que, de certo modo, dialogam com a obra do autor de A origem da obra de arte. Alguns dos
autores convocados para esta missão são o pediatra e psicanalista inglês Donald
W. Winnicott, os filósofos Hannah Arendt e Peter Sloterdijk, e o escritor russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski.
O percurso e o resultado de nossa
investigação seguem-se abaixo.
2.
Da
angústia como método
Há mais ou menos três
milhões de anos, um grupo de hominídeos caminha pela planície do Kalahari, na
África. Eles não amam, não são corteses entre si, não sentem tédio; temem,
apenas. A morte pode vir por todos os lados, encarnada num animal selvagem, na
escassez de água, no calor e frio extremos. Neste primeiro momento, aquilo que
será o ser humano é um ser que teme; foi lançado ao mundo, como os demais
entes, sem o seu consentimento ou querer, a diferença entre ele e tudo o que o
cerca é que ele se indaga por seu começo e seu fim; ele sabe, mais que instintivamente,
que morre e que a morte é um perigo constante. Nos poucos momentos de sossego,
entre as contingências da vida: a caça, a fuga, a procriação, estes seres
frágeis desenvolvem o polegar e suas mãos tecem objetos para se proteger:
momento luminoso, nasce a cultura. Junto aos primeiros objetos nasce também um
pressentimento que em linguagem, se linguagem houvesse, seria encarnado na
expressão Por Quê? A humanidade nasce
com a pergunta.
Temor e espanto ou, em
termos heideggerianos, angústia e abertura. Para além dos polegares, são estes
os traços que diferenciam o ser humano em seus primórdios dos demais
hominídeos. O ser humano teme, sua travessia é marcada pelas adversidades e uma
boa dose de sofrimentos: envelhecimento, doença, morte, catástrofes, dor,
injustiça, insegurança, medo. O mundo é uma ameaça. Entretanto, há uma espécie
de temor que não encontra objeto. Há um medo que se amedronta com o medo: a
angústia, herança destes tempos imemoráveis; nela, o que nos ameaça não é o
tigre, o leão, ou o leopardo. Aquilo que nos ameaça na angústia não está em
parte alguma. A angústia não sabe aquilo ante o que se angustia. Deste modo,
não estando a ameaça em lugar algum, o não-saber da angústia é relacionado a
algo que não é intramundano. Logo que a consciência para o mundo se abre no ser
humano, ele percebe que a vida não tem sentido pré-estabelecido ou finalidade.
Ela brota e está ancorada no vazio. Na angústia, o nada nos visita. Parece
óbvio, mas quando estamos angustiados e alguém pergunta o que se passa conosco,
respondemos de imediato: “Nada”. Trata-se de um desespero calmo, véu que tudo
encobre, neblina.
Não é o amor, mas a angústia a dor que
desatina sem doer. Aqui, o mundo perde a cor, todas as coisas se nivelam, tudo
caminha para o ocaso e a decadência. Aqui, o mundo surge diante de nós
aniquilando todas as coisas particulares que nos rodeiam, apontando para a
finitude, o nada, a morte. É na angústia que percebemos que somos seres para a
morte.
Se na angústia o que
nos ameaça não vem de parte alguma, é extramundano, o temível é então
ser-no-aberto. A angústia dissolve nossa pele, lança-nos para além de nós
mesmos, o mundo se torna irreconhecível, inquietante, estranhamente familiar, unheimlich...
Ela, a angústia, é o êxtase do negativo. O caráter de ser lançado e o negativo
estão intimamente ligados. Paradoxalmente, é a partir deste momento - cogito para um eu dissolvido - que o Ser
pode escolher em nós. A partir da angústia que nos esvazia, torna-nos ocos, o Ser
se manifesta enquanto liberdade, instaurando, deste modo, a verdade. Para o filósofo alemão, o lugar do pensar é
exatamente o susto, o espanto; muitas vezes com o que é mais cotidiano: um cego
mascando chicletes, o encontro entre uma menina ruiva e um basset vermelho. Como bem percebeu Hannah Arendt (2010, p. 84):
“Heidegger fala uma vez na total acepção de Platão, do “poder de se espantar
diante do simples”, mas à diferença de Platão acrescenta: e aceitar esse
espanto como morada”. Esse acréscimo é decisivo para a reflexão sobre quem é
Martin Heidegger”. Talvez seja exatamente aqui o ponto onde Heidegger e Sartre
se diferem. Ambos partem do nada como possibilidade de escolha. Em Sartre,
porém, é um eu, afundado na opinião pública (tiffentlich), quem escolhe. Em
Heidegger é o ser que, na solidão, se desvela, ou não – como diria Chico Anísio
imitando Caetano Veloso. A angústia tanto nos abre para a possibilidade de uma
vida autêntica, quanto para a possibilidade de uma vida inautêntica. Quem tem
músculos suficientes para aceitar o espanto como morada? A partir da angústia,
tanto podemos nos tornar pastores do Ser, como podemos mergulhar em das man, na gente.
Ou acolhemos a angústia e o silêncio, ou fugimos para o meio do ruído, da
gente e dos entes intramundanos.
É difícil fazer um
recorte na obra de Martin Heidegger porque os conceitos estão todos
interligados como que contidos numa esfera de chumbo. No âmbito desta
investigação, pretendia abordar apenas dois conceitos, a abertura – ou o pensar
- e, principalmente, a angústia enquanto método. Surgiram, entretanto, durante
o percurso, diversos outros conceitos como a
gente, a vida autêntica e inautêntica, o unheimlich.
Não
é apropriado lançar mão do vocabulário de um filósofo sem explicitarmos o que
há por trás de cada palavra. O que acontece com um iceberg acontece também com a palavra filosófica: a ponta esconde
nove décimos subjacentes. O discurso (Rede), aliás, é uma das dimensões da abertura, conceito que examinaremos mais
detidamente a seguir.
A abertura guarda
em si três dimensões: a disposição (Befindlichkeit),
a compreensão, ou o compreender (Verstehen) e o discurso (Rede). Embora as outras duas dimensões sejam importantes - um dos
intuitos de Heidegger, por exemplo, num primeiro, momento é implodir a
metafísica com a linguagem da própria metafísica e, num segundo momento, libertar a linguagem da gramática, abri-la ao
trânsito do poético -, a que mais importa
à presente investigação, por estar intimamente relacionada ao caráter de ser-lançado do Dasein, é a disposição.
Segundo Nunes (2012, p. 99):
Para Heidegger,
independentemente do teor claro ou escuro da intuição que corresponde aos
sentimentos em particular, o fato relevante é a dominância da afetividade. Seja
que nos envolve a “equanimidade” ou a velada melancolia, seja que oscilemos de
uma à outra, bem-humorados hoje e maldispostos amanhã, sempre vivemos numa
determinada tonalidade afetiva (Stimmung), numa disposição de ânimo (Befindlichkeit).
Esse sentimento dos sentimentos a
que estamos entregues, sem justificativa e sem porquê, revela-nos enfim o nosso
irredutível aí, onde sempre já nos
encontramos lançados. O ser-lançado (Geworfenheit),
sobre que a disposição se abre,
expressa a facticidade do Dasein –a entrega a si mesmo, à existência, a que
está concernido, pela qual responde e da qual também se esquiva.
Como
vemos, a disposição seria, grosso modo,
os nossos humores; trata-se de estarmos tristes, alegres, entediados ou
aterrorizados. Enfim, estamos sempre envolvidos em certa disposição de ânimo e
isso revela o nosso aí, esse caráter irrevogável de ser lançado.
Ora, quem tem umbigo,
quem foi envolvido por uma placenta, mamou, encontrou uma mãe receptiva, um
cobertor aconchegante, um urso de pelúcia, etc... Não foi lançado, mas se
constituiu como ser humano ao longo do tempo. A catástrofe pode não estar no
parto. Todos nascemos diversas vezes durante a vida e mesmo aquele que tem
umbigo pode fracassar diante de um nascimento ulterior. A catástrofe
esferológica
pode acontecer diante de qualquer dos portais que atravessamos durante a vida e
não só no parto. O filósofo romeno E. M. Cioran, por exemplo, disse que teve
uma infância idílica, mas um dia descobriu que ia morrer e nunca mais conseguiu
dormir. Talvez a investigação dos pesquisadores alemães faça pouco ou nenhum
sentido, uma vez que estamos sempre chegando ao mundo e a entrada pode ser
interrompida a qualquer momento. Suponhamos que uma mãe e seu filho fossem
transferidos do século X para meados do século XX. Ainda que a relação
esferológica entre ambos fosse perfeita, o mundo, de qualquer modo, não se
tornaria estranho, irreconhecível para os dois?
Por enquanto é cedo
para tais especulações.
No
capítulo seguinte, veremos como aquilo que Heidegger chama de Dasein pode não ser lançado, mas se constitui ao longo do tempo, no contato com o outro.
Em seguida, lançarei mão da biografia Heidegger,
um mestre da Alemanha entre o bem e o mal, escrita por Rüdiger Safranski
para tentar entender o que impediu o mestre da floresta negra de entrar no
mundo, construir morada nele, enfim, de filosofar com o mundo historicamente
instituído e não contra ele.
3.
Heidegger,
Sloterdijk e Winnicott: em busca da criança perdida
3.1 O Dasein para Sloterdijk
Heidegger
- ao contrário de Winnicott que, aliás, era pediatra – não menciona a criança
em sua obra. Como bem perceberam os policiais alemães, cuja pesquisa foi
mencionada no início deste trabalho, o Dasein
tem um caráter de ser lançado;
parece que viemos ao mundo já com oitenta e um anos, feito Lao-Tsé, na lenda.
Segundo o filósofo Juliano Garcia Pessanha,
em tese defendida recentemente, o pensamento das esferas, proposto por Peter
Sloterdijk, tanto se aproxima quanto se distancia e revê o pensamento de
Heidegger à luz do contemporâneo. Sloterdijk pretende pensar a partir de onde
Heidegger não pôde pensar, porque ninguém conhece lugar onde não esteve. Para
Pessanha, foi o psicanalista inglês Donald Woods Winnicott quem deu subsídios a
Sloterdijk para rever o Dasein, a
partir de uma ontologia do espaço existencial ou ontotopologia. Heidegger
ateve-se à pergunta “Quem?” e não à pergunta “Onde?”. É justamente sobre este
onde que Sloterdijk reflete. Seguindo o pressuposto do perspectivismo
nietzschiano, Sloterdijk se propõe a pensar a partir do lugar que Descartes
chama de senso comum - não igual ao
senso comum, mas a partir de -, adquirindo, assim, o olhar daqueles que
Heidegger chamou de a gente (das man). Todos
conhecemos a piada do filósofo e a camponesa. Conta-se que o filósofo Tales de
Mileto, certa noite, enquanto observava os corpos celestes, acabou caindo em um
buraco; tornando-se, assim, motivo de gargalhada a uma camponesa que observava
a cena. Se buscássemos um precursor da filosofia sloterijkiana, o qual publicou
nos anos oitenta o best-seller filosófico Crítica
da razão cínica, nós o encontraríamos não no filósofo de Mileto, mas na
camponesa. A seu modo, Sloterdijk revê o
Dasein heideggeriano a partir do Self
winnicottiano. O ser lançado seria fruto de uma catástrofe esferológica. O ser
lançado seria aquele que não pode nascer, que, em vez de carinho, encontra um
cascudo. O ser lançado é o bebê sem mãe. Segundo Sloterdijk (2016, p. 308):
é
impossível explicar detalhadamente a habitação nas esferas enquanto o Dasein
for concebido de um impulso essencial para a solidão. A analítica do Onde
existencial exige, consequentemente, que se coloquem entre parênteses todas as
sugestões e sentimentos de uma solidão essencial para se certificar das
estruturas profundas do Dasein acompanhado e completo.
Para Sloterdijk, a imagem do ser solitário, sensível, que
carrega o peso do mundo nas costas, é formada por meio do mito do heroísmo.
Suportar a solidão não seria fruto de uma grande saúde, mas de uma grande
doença. Assim como Nietzsche põe em cheque o ascetismo, farejando por trás dele
um desejo de mortificar a vida, Sloterdijk põe em cheque a solidão essencial do
pensador e/ou artista, farejando por trás de tal desejo a catástrofe
esferológica que desemboca em graves problemas psiquiátricos. Se adotarmos esta
visão, é válida a busca da imagem do umbigo de Heidegger. Todavia, como
apontamos anteriormente, a catástrofe pode não se encontrar necessariamente
nesta primeira esfera: a relação mamãe-bebê, mas na formação de esferas
posteriores. Antes de continuarmos a investigação sobre umbigo de Heidegger,
que a esta altura já não é mais uma pergunta pelo ser do umbigo, mas pelo
quando do umbigo ser cortado, façamos uma parada na estação Winnicott.
3.2 Winnicott: soma,
psique e a construção da morada no corpo e no mundo
Se na
obra de Heidegger a criança não é mencionada, na obra de Winnicott ela ganha
papel de destaque. Donald W. Winnicott foi um pediatra inglês que muito
colaborou com as pesquisas e práticas psicanalíticas. Sabemos que a psicanálise
se estruturou em torno dos trabalhos e dos esforços árduos e contínuos
empreendidos por Sigmund Freud; contudo, ao longo do tempo, as revisões e contribuições
de outras figuras foram imensas para tornar a psicanálise um campo destinado à
compreensão do fenômeno humano com teoria e práticas cada vez mais aplicáveis.
Dentre
os principais teóricos e clínicos que surgiram depois de Freud, um dos nomes de
maior destaque foi, sem dúvida, Donald W. Winnicott: médico britânico que
dedicou a maior parte de sua vida a estudar, revisar e desenvolver os conceitos
psicanalíticos. Embora tenha partido de Freud e Melanie Klein, que foi sua
supervisora por certo período, em pouco tempo Winnicott estava desenvolvendo um
trabalho muito original; estruturando, deste modo, uma nova escola
psicanalítica, cuja característica primordial era a importância dada à
infância.
Winnicott
foi eleito duas vezes presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise, além de
ter sido um dos fundadores do Middle
Group: coletivo de psicanalistas ingleses que se caracterizava por sua dissidência teórica do pensamento psicanalítico clássico.
Segundo Winnicott, o
ser humano traz em si mesmo em estado de potência, diversas características que
podem ou não ser desenvolvidas; dependendo do ambiente que encontramos. Ao
chegar ao mundo temos uma dependência absoluta, caso não haja quem cuide de
nós, morremos. O bebê vem ao mundo e vive em estado de comunhão mística com os
entes que o cercam. A pele é pouca. Não há muita diferença entre a
singularidade em formação e o ambiente que o cerca. Winnicott substitui a
oposição cartesiana entre corpo e mente pela dupla soma e psique: a mente será, aqui, o resultado, o topo da
pirâmide cuja base é formada pelo par psique
e soma. O soma é definido pelo autor como a entidade inicial que respira, tem
fome, necessidades, fica tenso, excitado, come, digere e é sensível às
variações do ambiente; além disso, o soma
é pensado como corpo vivo pessoal, já elaborado e habitado pelo bebê. A psique é concebida como a entidade que
elabora imaginativamente o corpo, apropriando-se das partes, sensações, funções
e sentimentos próprios da continuidade do viver sensório-motor. A psique é ainda o resultado organizado
das elaborações citadas anteriormente. A mente,
caso nenhuma ruptura drástica aconteça, vem à luz nos limites da parceria
psique-soma, sendo um recurso a mais do bebê, de seu processo existencial em
andamento. O processo de alojamento, a construção da morada no corpo, por sua
vez, não é pensado como uma diagramação mental, unidimensional de si, mas como
uma organização de um modo de ser psicossomático.
O menino é o pai do
homem. Se tudo corre bem, se o bebê encontra um ambiente acolhedor, uma mãe
suficientemente boa.
Se há um berço e não apenas um caixote que serve de escudo contra os ratos,
como no romance O santuário, de
Faulkner. Então, no dizer de Sloterdijk, o bebê estará pronto para habitar no
interior de uma bolha e para constituir-se a partir da relação com o outro. Será
possível a esta criança desenvolver o que já se encontra nela em estado de
potência. O Dasein enquanto impulso
essencial para a solidão seria fruto da impossibilidade de chegar ao mundo, uma
vez que não há acolhida. Perdido no umbral, com o pé sobre a soleira, aquele
que só encontrou o frio não pode nascer e nem morrer; é lançado na
exterioridade imensa. Não tem umbigo, pois o umbigo seria a marca de uma
aliança com o outro. Não está dentro, tampouco fora; perde suas extremidades - sequer
chega a constituí-las uma vez que não há abraço que lhe doe contornos - e
torna-se o próprio Fora. Não pode chegar ao mundo e nem pode chegar a ser si
mesmo. O país da dor não tem habitantes, só fisgadas e gemidos.
Quanto a Heidegger, por que diabos ele não teria umbigo? Será que não
esteve no ventre? Será que ao nascer espancaram-lhe a cabeça ao invés da bunda?
Será que em vez de cafuné recebeu cascudo? Ou será que o bebê-Heidegger teve
tudo isso e só chegou a perder-se do mundo mais tarde, num outro nascimento,
feito Cioran? Para buscar respostas a tais questões se faz necessário convocar
o biógrafo de Heidegger: Rüdiger Safranski.
3.3 Geologia e genealogia de um buraco negro
Ao contrário da
hipótese que os pesquisadores-policiais de Karlsruhe
lançam e buscam responder com sua investigação, acreditamos que a catástrofe
esferológica de Heidegger não se dá no parto ou na primeira infância, muito
pelo contrário. A vida em Meßkirch era idílica para a família do sacristão Friedrich Heidegger. Os
coroinhas, filhos do sacristão, Fritz e Martin Heidegger, brincavam no campo,
apanhavam flores para a igreja, ajudavam o pároco, tocavam os sinos. Segundo
Safranski (2006, p. 33), muito tempo depois, Heidegger ainda se lembrará da paz
destes primeiros tempos:
Em Caminhos da
Floresta Heidegger recorda os brinquedos com o barquinho feito por ele
próprio, na fonte da escola: O romântico
nessas viagens residia num brilho quase invisível naquele tempo, mas que jazia
sobre todas as coisas. Seu reino podia ser abrigado pelo olhar e pela mão da
mãe... Aquelas viagens de brinquedo nada sabiam das andanças em que deixamos
para trás todas as margens... (d.38)
Como vemos, há sensação de
segurança e amparo materno. Safranski, na sequência, nos mostra algumas
características da senhora Johanna Heidegger, que, em termos winnicotianos,
poderia ser considerada uma mãe suficiente boa:
A mãe era uma mulher alegre.
“Muitas vezes” relata Fritz Heidegger, “ela dizia que a vida era tão bem
organizada que sempre havia algum motivo para a gente se alegrar”.
Era resoluta, por vezes altiva, não
escondia que tinha consciência de sua origem de bons camponeses. Quase só a viam
de avental e “pano na cabeça” (SAFRANSKI, 2006, p. 35).
A
vida dos Heidegger em Meßkirch era tranquila. O mundo só se tornará
irreconhecível para Martin em 1903, quando ele, por sugestão do padre da
cidade, for para Constança estudar com bolsa concedida pela igreja católica. “Meßkirch
ainda era um mundo católico. Em Constança, distante cinquenta quilômetros dali,
porém, já se sentem os tempos modernos” (SAFRANSKI, 2006, p. 36). Para
Heidegger esta foi uma mudança não só no espaço, mas também no tempo. Como nos
livros de ficção científica, a viagem no tempo causou no jovem Heidegger
profundo sentimento de estranheza. Ele já não se sentia em casa no mundo.
Além
disso, em Constança havia ainda forte preconceito quanto à classe social certos
alunos. Os meninos de classes mais abastadas não passavam as noites no
internato, tinham muito mais liberdade, podiam sair com os professores, passear
pela cidade, sentiam-se superiores aos internos e, em termos atuais, praticavam
bullying com aqueles que chamavam de “castrados.” Era como se os internos
fossem de outro mundo e faziam-nos sentir isso. Por outro lado, “os excluídos
também podiam se sentir os escolhidos” (SAFRANSKI, 2006, p. 39) e os internos podiam se firmar de modo mais
efetivo enquanto comunidade.
A
filosofia que Martin Heidegger vai elaborar depois, de certo modo, estará
intimamente ligada ao choque que a ida a Constança representou para ele. Sua
cosmovisão, conceitos como a gente,
preocupação, vida autêntica e vida inautêntica, por exemplo, refletem com fidelidade o mundo com o
qual o jovem filho do sacristão se deparou. “Aqui o esforço, ali a mera
diversão. Aqui se criam raízes, ali se vive solto; uns têm vida difícil, outros
procuram o caminho mais cômodo; uns são pensativos, outros levianos. Uns
permanecem fiéis a si mesmos, outros se perdem nessas distrações” (SAFRANSKI, 2006, p. 39) .
Mesmo a polêmica adesão de Heidegger
ao nazismo, trinta anos depois, será, dentre outras razões, fruto também da
queimadura provocada por Constança. Para Heidegger, o nazismo seria a possibilidade
de voltar à comunidade; a possibilidade de voltar a nascer e a morrer em
comunidade. Enfim, a reconstrução de sua Meßkirch infantil. Uma catástrofe
dando a luz à outra. A busca da repetição imunológica do
Pequeno no Grande dará origem no século XX a governos catastróficos como o
comunismo soviético e o nazismo alemão. Durante a ascensão de Hitler, Heidegger
enxergou a Alemanha com uma Meßkirch maior.
Neste momento é
preciso reposicionar a pergunta que motivou os investigadores de Karlsruhe antes de seguir adiante. Traçando uma
genealogia do Dasein heideggeriano,
vimos que o solo que deu origem a tal conceito não se constituiu na primeira
infância, ou na relação com a mãe, mas na mudança para Constança. A opção por
aceitar o estranho como morada, nada tem a ver com a questão do umbigo. Durante
a vida, estamos constantemente cruzando fronteiras, e numa dessas viagens
podemos encontrar fechada a porta de entrada. Não é só no nascimento que somos
lançados para fora do mundo. A quebra pode acontecer a qualquer momento. Heidegger
construiu sua filosofia no polo negativo do entre. Embora tenha pensado o outro
lado: a gente, a vida inautêntica, a
preocupação... Não chegou a pensar a partir do outro lado. Tivesse dito sim
à mão que o amor de Hannah Arendt ofereceu, poderia ter pensado a partir de
onde nunca esteve. Cabe salientar que o sim ao não e o não ao sim não é uma
escolha individual, uma espécie de masoquismo ontotopológico, mas um pathos, uma sina.
4 4. Heidegger, o homem do subsolo e
Hannah Arendt
Dentro do romance O processo, de Franz Kafka há uma famosa
parábola, na qual um camponês chega diante da porta da Lei, quer entrar, mas
encontra um guarda que o impede. O camponês tenta de todas as formas atravessar
a porta, suborna o guarda, insiste, mas o guarda afirma que é só o primeiro
vigilante, depois da primeira porta há outros sentinelas maiores e ainda mais
fortes que ele. O camponês passa a vida toda esperando o momento de entrar,
quando está para morrer, sussurra ao ouvido do guarda algo mais ou menos assim:
- Se todos aspiram à Lei,
como é que durante todos estes anos mais ninguém apareceu tentando entrar?
Ao que o guarda
responde:
- É que esta porta
estava destinada somente a ti, ninguém além de ti poderia entrar por ela. Agora
vou-me embora e fecho-a para sempre.
Se
o camponês em questão fosse Martin Heidegger, ao invés de esperar na porta,
teria construído morada do lado de fora e explorado o que não é contido na Lei.
E ainda que alguma mulher – aqueles tocados pelo processo têm um brilho
estranho que encanta as mulheres – estendesse-lhe a mão, ele se negaria a
tocá-la e seguiria abraçado ao pathos
da solidão. Feito o homem do subsolo de Dostoiévski que renegou a possibilidade
de entrada no mundo por meio do amor oferecido por Lisa, também Heidegger se
recusou a atravessar o umbral amparado pela mão que Hannah Arendt lhe oferecia.
Tanto Heidegger quanto o homem dos porões tinham alergia à técnica, ao mundo
moderno. Tivesse nascido na Alemanha dos anos 1930, também o homem do subsolo
teria aderido ao nazismo. Raskólnikov, em Crime
e castigo, tem a possibilidade de selar sua cisão, de atravessar para o
polo positivo da existência por meio de Sônia. Mais importante que a descoberta
do momento em que alguém é lançado para Fora é o estudo do momento em que este
alguém tem a possiblidade de dizer Sim, mas algo nele recua ao Não.

Hannah Arendt chegou a
Marburg, onde Heidegger já era um professor famoso, em começos de 1924. Ele
tinha 35 anos, ela 18. Ela era solteira; ele, casado e pai de dois filhos. Este
foi “um encontro que – como mais tarde admitirá sua esposa Elfride – se tornou a paixão de sua vida” (SAFRANSKI, 2006, p. 174).
Hannah foi a grande paixão de Heidegger e a musa inspiradora de sua primeira
obra de grande relevância Ser e tempo. A
menina Hannah jamais se atreveu a pedir que seu professor se decidisse em favor
dela. Muito pelo contrário, sujeitava-se aos horários e exigências dele. Por
dois anos, entre idas e vindas, dores e silêncios os dois ficam juntos. Depois
se separam, mas a grande afeição mútua persistirá, também entre idas e vindas,
até o fim da vida. Segundo Safranski (2006, p. 180-181): “quando, em 1950,
Hannah reencontra Heidegger, escreve a Heinrich Blücher: “No fundo fico feliz
simplesmente por constatar que tive razão em jamais esquecer...”” Mas, naquele primeiro
momento, por volta de 1926, ele disse não. Tivesse dito sim, teria podido
migrar para o outro lado do entre. Perceberia que não só o par Hannah-Heidegger
formavam uma esfera, como também seus modos de pensar complementavam-se
mutuamente. Chega a hora na vida de um buraco negro em que ele suplica ao mundo
que o compreenda. Mesmo na multidão, os condenados estão sozinhos. Os demais
não estão dispostos a acompanhá-lo e sentir o frio de seu pensamento. O corpo
clama pelo abraço de um outro que restituiria sua pele, seus contornos, e
adoece quando o abraço não vem: Nietzsche e Artaud enlouquecem, Fernando Pessoa
bebe, Mario Sá-Carneiro e Marina Tsvetaieva cometem suicídio, Kafka e Clarice
adoecem cedo e partem antes do combinado. Aquele que constrói morada no espanto
precisa de um invólucro forte para suportar o peso de sua cabeça grande; como
no quadro de Magritte,
faz musculação com a cabeça no lugar das anilhas de ferro. Heidegger encontrou
quem o compreendesse, mas disse não: angústia do eterno desencontro. Quando o
outro chega à estação não percebemos, ou tomamos o trem anterior e não estamos
mais lá. Prostrado no egoísmo em que a
solidão nos lança, o menino de Meßkirch sequer chegou a ler com atenção os
sinais positivos que o amor lhe enviava por meio dos livros de Hannah. Ainda de
acordo com Safranski (2006, p. 178):
Nas cartas ele sempre protesta que ela o compreende
como ninguém mais – também e especialmente em questões filosóficas. Com efeito,
Hannah Arendt ainda provará como compreendeu bem a Heidegger. Ela o
compreenderá melhor do que ele compreendeu a si mesmo. Como fazem os
apaixonados, ela reagirá complementarmente à filosofia dele e lhe dará aquela
mundanidade que ainda lhe falta. Ao precursor
(Volaufen) na morte
ela responderá com uma filosofia do nascimento; ao
solipsismo existencial da Jemeinigkeit
ela responderá com a filosofia da pluralidade; à crítica da decaída
(Verfallenheit) diante do mundo do a
gente (das Man) ela responderá como amor
mundi. À clareira (Lichtung) ela
responderá enobrecendo filosoficamente a coisa pública. Só assim a filosofia
heideggeriana se tornará um todo, mas esse homem não o perceberá. Não vai ler
os livros de Hannah Arendt, ou muito superficialmente, e o que ler neles o
deixará magoado.
A mulher, como só o feminino pode fazer, estendeu os
braços para acolhê-lo, mas o professor Martin Heidegger, aterrorizado, do mesmo
modo que o homem do subterrâneo, retrocedeu como se o amor tivesse lhe
provocado alergia. Permaneceu preso no polo negativo, olhando a vida no
inverno, à noite, com óculos escuros. Como refúgio, mergulhou na poesia que, a
bem da verdade, não deixa de ser uma viragem para o positivo, mas isto já é
motivo para outra investigação.
5 5. Resumindo para concluir
Começamos este trabalho sob inspiração da
investigação empreendida pelos policias-pesquisadores de origem alemã Jürgen
Wolff e Jörg Kjidretols, os quais realizaram trabalho hercúleo na tentativa de
descobrir se Martin Heidegger tinha ou não umbigo.
Descobrimos que, para Heidegger, a filosofia é a
disciplina dos famintos e nasce com o espanto e a tenacidade necessária para
sustentá-lo. De certo modo, o espanto nasce de uma possibilidade de chegar ao
mundo e, portanto, tudo o que existe se torna motivo de admiração, de susto.
O Dasein
heideggeriano percebe-se lançado no mundo, não se sente em casa na Terra.
Entretanto, segundo o que podemos levantar, o estranhamento não tem
necessariamente origem no nascimento. Heidegger teve uma infância feliz. Em
termos winnicottianos, encontrou sustentação no colo de uma mãe suficientemente
boa. Em termos sloterdjikianos, o pensamento de Heidegger é fruto de uma
catástrofe esferológica. Tal catástrofe não se dá, entretanto, segundo podemos
constatar, na primeira infância, mas na transferência de Meßkirch para Constança.
O amor de Hannah Arendt
seria para Heidegger a possibilidade de conquista da mundanidade que lhe
faltava. Ele, entretanto, assim como o homem do subterrâneo de Dostoiévski,
declinou do amor e se embrenhou cada vez mais no Fora, amparado pela palavra
poética.
Para finalizar, gostaria
de dizer que os anjos, mesmo Lúcifer, não têm umbigo. Quanto a Heidegger,
teremos de esperar o lançamento do livro dos policiais de Karlsruhe para saber.
Referências
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Aqui caberia
uma problematização pensada a partir da obra mais recente do filósofo
brasileiro Juliano Garcia Pessanha. Ninguém pode ser pastor do ser se morrer de
fome. Não há uma bolsa, ou aparato jurídico que garanta o almoço aos pastores
do ser. A queda, assim como o era para Adão, se torna hoje inevitável. Com a
reforma da previdência então, resta-nos a esperança de, depois dos 65 anos,
tornarmo-nos pastores do ser.