quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

SAPATO VELHO

Prosseguir é retornar. Naquele dia, os filhos tinham discutido na frente deles. Nenhum dos dois tinha tempo ou disponibilidade. Não eram maus é que a vida moderna: trabalho, filhos, contas, impostos, casas, dívidas, dúvidas, cônjuges. Não, não eram maus filhos, pelo contrário. A sociedade, no entanto, era disposta de tal forma que não havia espaço para. Havia muito, era o Google o depositário da sabedoria e os anciãos já não. Ambos tinham mais de oitenta e, se ele sofria de Parkinson, o diagnóstico dela era Alzheimer. Ele se sabia velho, seu corpo se tremia inteiro e, durante a noite, quando conseguia dormir um pouco, era a tosse que o despertava para uma madrugada de horror. Ela, aos poucos se apagava, feito sol de fim de tarde e era muito, muito doloroso testemunhar aquele poente; de modo que, para ele, ela não tinha envelhecido. Olhava e ainda via a mesma mocinha de sessenta anos antes. O espelho, por outro lado, lhe dizia que o tempo. O sentimento que grassava no peito não era orgulho, mas dignidade, e amor, e cuidado, e empatia e uma delicadeza sem par neste mundo de automatismos. De modo algum queria que os filhos se sentissem culpados. Não havia, entretanto, outro caminho. O suicídio também pode ser um gesto afirmativo da vida. Algo assim escrito em bilhete: “Vivemos até o fim, sugamos o néctar enquanto houve vida. Agora podemos morrer como vivemos, plenamente.” E, então ele, muito lentamente, preparou a sopa e diluiu em meio ao caldo as pastilhas que havia algum tempo comprara pressentindo este momento. Alimentou-se como pôde e ajudou sua namoradinha a se alimentar do mesmo modo. Depois do jantar, penteou os cabelos dela que ele via negros, embora estivessem. Colocou, em seguida, um par de meias nos pés dela e nos próprios. Desde os anos cinquenta, verão ou inverno, ela sempre dormia de meias. Estendeu, por fim, seu corpo trêmulo ao lado, abraçou-a e cantarolou: “você lembra, lembra, eu costumava andar...” E ela sorriu. E, no guarda-roupas, dormiam tanto o vestido, quanto o sapato velho que ela calçara no dia do casamento.

PRECE

Que eu seja uma ponte
Entre dois homens chamados João:
Um deles, meu pai
O outro, meu filho
E que eu sempre me lembre de reverenciar
Aos que vieram antes de mim
Tanto quanto aos que vierem depois que eu me for
Elo sólido da corrente
Mãos dadas pela vida afora
Os indivíduos morrem, Nina, mas a vida, linda, segue
E que e eu sempre seja grato
Mas que minha bondade e delicadeza
Nunca, jamais, sob qualquer hipótese,
Espere gratidão.

A MORTE DO OUTRO



A morte é sempre do outro. Nós, a partir do nascimento, começamos a morrer, mas nunca não. Porque, no exato instante em que cruzamos o umbral, já não estamos. Talvez reste, cônscios do outro lado, a possibilidade de fazer o sinal da cruz ao testemunhar a mulher com o cadáver nos braços. Tal qual o rio que não pode fugir de seu destino de tornar-se mar, também nós não podemos fugir. Não se pode parar ou retroceder o rio; mesmo que suas águas gritem no instante salgado do encontro - pedaços de mar despencando dos olhos de Tereza.
A morte que testemunhamos é sempre do outro. Ontem foi seu Sebastião e, com ele, um pedaço de mim: o tempo da adolescência e juventude, quando Serginho, o filho, e eu éramos unha e carne; a casa dos meus trinta anos, quando estava perdido e ele veio me aconselhar e orar por mim; todas as vezes que fechou o portão quando eu ia trabalhar e ele buscava Jeane e os netos. Há na morte um paradoxo; morremos o tempo inteiro: a criança morre para que o adolescente, o adolescente morre para que o jovem, o jovem para o adulto, o adulto para o velho e o velho para o incomensurável. Por outro lado, é à memória do pai que o filho há de recorrer num momento de dura decisão e é do avô que o neto há de lembrar quando segurar seu próprio neto nos braços: aquele que parte lega aos que ficam seus caminhos - seu legado. No fim das contas, a morte não existe, ainda que estejamos o tempo todo morrendo para uma versão de nós mesmos.
Um homem imenso caminhou por esta terra. Até a próxima, companheiro. Todos vamos sentir saudades.🌻

KURT COBAIN/PAULO FREIRE; OU CONHECIMENTO E SUPERIORIDADE

Essa semana o colunista da Folha Joel Pinheiro viralizou ao perguntar nas redes sociais se haveria show do Nirvana no Brasil. Tudo bem, forçou um pouco e rir bem que é bom; mas esse episódio trouxe à tona uma questão que me incomoda: o acúmulo de informação como forma de se sentir superior. Não difere do cara que compra carrão ou iate pelo mesmo motivo. Alguns acumulam bens materiais, outros. E tem gente que está sempre relendo; não se permite dizer que está entrando em contato com a obra de algum autor pela primeira vez. No fim das contas, quando sei algo que o outro não sabe, sinto-me um pouquinho mais inteligente, melhor, superior: é o tal do ego - sempre. Só que ninguém sabe tudo o tempo inteiro. Todos estamos aprendendo e o cara que conhece tudo de Bartók provavelmente não vai saber quem é Túlio Milionário; bem como o cara que conhece Nirvana pode não ter ouvido falar de Mischa Maisky. A vida em sociedade valora o conhecimento; mas não há um conhecimento “melhor” que o outro, há conhecimentos diferentes. Foi o que Paulo Freire, humildemente, constatou ao trabalhar com alfabetização de adultos. Ao mesmo tempo em que ensinava, o educador também aprendia e o processo de ensino-aprendizagem era aí concebido como uma relação entre sujeitos; bem diferente da educação bancária; na qual um mestre, que detinha o conhecimento superior, depositava tal conhecimento nos alunos; num processo no qual o professor era sujeito e o aluno o objeto. Acho que a saída deste mato sem cachorro no qual nos metemos não passa pela dicotomia diretira/esquerda, mas pelo cultivo em cada um da humildade. Só uma humildade radical pode nos tirar dessa enrascada. O mestre enfrentou o sistema e, ainda assim, lavou os pés de seus discípulos. By the way, o colunista conhece Leadbelly; e você que fez piada? Conhece?

DA HUMILDADE

Humildade não é autohumilhação, é não se comparar ou depender da opinião alheia. Ser humilde é ser; é reconhecer que temos defeitos e qualidades. O mecanismo que nos faz sentir melhores que os outros é o mesmo que nos faz sentir inferiores. Autopiedade e autoelogio são dois polos do mesmo.

O VIDENTE

Talvez, nosso maior problema seja gramatical: a estrutura sujeito, verbo, objeto. Como se houvesse um sujeito - ponto zero - do qual partiria determinada ação. Na verdade, é bem o contrário; não foram Hitler ou Napoleão que fizeram história, mas a História que produziu tanto um quanto o outro. Nossa vaidade não dos deixa ver que nada fazemos, mas somos conduzidos pelo invisível. A razão nada pode aí, a não ser que seja o caso de um iluminado, porque aquilo que nos conduz captura-nos pelo inconsciente. Nem tudo é matéria e o raio tem poder de cindir toda pedra. Pode ser que cada um de nós, com seus traços de caráter, personalidade, inteligência e tudo o mais, não sejamos mais que peças num tabuleiro de xadrez - sonhando livre-arbítrio - jogado sabe Deus por quem. Alguns têm movimentos e características mais limitadas e são peões; outros são a Torre, o Bispo, o Cavalo. Talvez a mesma peça seja remontada no tempo com outros atores: o drama e a farsa, o eterno retorno; mas tal qual a peça nunca é exatamente a mesma a cada apresentação, aquilo que se repete historicamente também não é o mesmo, mas o círculo descentrado, o movimento em espiral, o tempo fora dos eixos. Estar atento aos movimentos do círculo é saber pra onde caminha a espiral, é ser profeta: fornos no futuro.
Estamos na nascente de uma violência monstruosa.

SOBRE A DIFERENÇA ENTRE O SÁBIO E O POETA



De repente, no momento de crise, o um se faz dois: o que sofre e o que observa. Esse outro que observa é a cura, porque ele ainda sou eu e, aqui, vou chamá-lo de Senhor. O Senhor poderia rir de tudo; dos sofrimentos, da comédia, do cair e levantar, da confusão do outro Daniel: mundano, pai, trabalhador, adúltero, piadista; o que atua, enfim, historicamente, imerso no seu tempo. As agruras desse outro Daniel são como um filme para o Senhor. Quando estou no Senhor, não sofro porque ele é imutável, inatingível, atemporal. Ele é vazio, silêncio, paz, mistério, leveza. O grande problema é que a criação poética só surge quando o Senhor passa por dentro da fissura do outro Daniel: o maior atravessando o menor, a divindade que se faz carne e se torna trôpega, cambaleante, ébria. Deus não escreve poemas, o poema nasce do entre; da condição de se ter tanto tripas quanto coração. Aí está toda diferença entre o sábio e o poeta. O poeta escolhe voltar, sua essência é compaixão. Quando tomei ayahuasca, o espírito da planta me disse que só viera confirmar uma coisa: as pessoas precisavam dela pra alcançar o estado de poesia, ao passo que eu me movimentava nele todo o tempo: no espanto que sinto ao ver uma flor desabrochar e que me dá vontade de parar o momento, esbofetear as pessoas para tirá-las do automatismo e perceberem o êxtase que é existir; e eu choro, e canto, danço, e dou risada, e fico quieto, sozinho, no meu jardim. Em verdade vos digo que nenhuma substância exterior é necessária para alcançar a compreensão. É tanto milagre que eu nem sei por onde começar a ficar boquiaberto. E FELIZ🌻.

O OLHAR DE MEU PAI PELOS MÓVEIS DA CASA

Eu era a filha louca e pouco tempo antes recebêramos a notícia de que meu pai estava com os dias contados. Eu não tinha quarenta anos e já passara por três divórcios e o quarto casamento também não andava muito bem. Era bruxa, maconheira, macumbeira, pombagira; ao passo que toda a família era evangélica. Meu marido tinha tido um filho com outra alguns meses antes e meu coração oscilava entre dois sentimentos: o ódio e o vazio. O ódio que eu sentia era tão grande que não cabia mais só na trilha que levava até meu marido, sua amante e o bastardinho. Eu odiava a humanidade inteira; mas, principalmente, o gênero masculino. Tinha até me cadastrado num site para me vender a homens que quisessem apanhar, ser submissos, lamber as botas de uma Dominadora. Quanto ao vazio, ele é o sentimento que irmana o suicida ao psicopata. Foi nestas circunstâncias que soube da notícia e minha mãe ligou dizendo: “Ele quer te visitar.” Naquele dia, limpei a casa inteira. Troquei tapetes, cortinas e lençóis. Em certos momentos, eu ia lavar o pano de chão e me diluía em lágrimas junto à água que despencava da torneira.
“Hoje não brigamos” - disse ao meu marido.
Os velhos vieram. Beberam café e comeram bolo. Leram a Bíblia.
Pouco antes de partir, meu pai correu os olhos pelos móveis da casa e sorriu. Havia tanta ternura em seu rosto. Todas as brigas, as surras, os desentendimentos tinham ficado para trás. Li os pensamentos dele: “Estou contente que tenha tomado juízo, minha filha. Eu te amo. E sempre tive orgulho de você. Você é a filha que mais se parece comigo. Aquela cujo temperamento em nada difere do meu” – e então o velho me abraçou e, por alguns instantes, tive tanta vontade de ter sido outra, quem sabe mais maleável; mas não podia fugir do que era. E ele, meu único pai, era um homem bom que estava morrendo. Severo, duro, doutrinador; mas muito, muito bom.
Menos de um mês depois, ele.🌻

domingo, 9 de fevereiro de 2020

O PRIMEIRO INSTANTE DE CALMA DEPOIS DA TEMPESTADE

Há cerca de um mês, encontrei Alípio. Como você bem sabe, ele e eu crescemos juntos, na mesma vila, à beira do. Éramos três: Alípio, mais Luizinho - o terrível - e mais eu. Conhecíamos aquele rio como a palma e se, em crianças, gostávamos de mergulhar nele como quem chupa manga; na juventude, ele, o rio, nos falava de mundos distantes, e mulheres bonitas, e lugares onde a vida. Anoiteciam-se os dias e nós à margem, fumando, imersos em silêncio e telepatia, porque a correnteza era nossa língua comum. Paranapanema foi o nome do nosso mistério. A água que nos uniu e, depois, já homens feitos, também nos separou; porque o rio que une é o mesmo que distancia. Cada qual seguiu o seu. E os três mosqueteiros tornaram-se três homens normais, solitários, envoltos em suas lutas diárias e seus segredos. Perdemos completamente o contato por mais de vinte anos, até que, mês passado, na praia, encontrei Alípio. Bebemos muito aquela noite. Dia seguinte, ele partiria com a família; só que, antes, me deu o endereço do Luizinho. Por quinze ou vinte dias, adiei, envolto em silêncio, dopamina e alegria; saboreando o momento em que Luizinho abriria a porta e me veria em carne, osso e luz - vertical - do outro lado da porta. Ah! meu amor! Ele, com certeza, não ia acreditar!
Aconteceu semana passada. Tomei coragem. Comprei um litro de aguardente e fui ver meu amigo. Apertei a campainha e uma mulher muito bonita atendeu sem abrir por completo a porta:
- Sou Danielzim, amigo de infância, vim ver Luiz.
Ela me mandou entrar e foi aí que me deu a notícia: havia uma semana, Luiz morrera afogado, ao visitar nossa cidade e tentar atravessar a nado o rio de nossa infância. Eu desmoronei e perdi. Bebi café e abracei a moça e contei, ao filho de treze, estórias do pai travesso. Depois vim-me embora, debaixo daquela chuva que alagou. Quando bati à sua porta naquela noite, você abriu e, sem eu dizer, sorriu e o seu riso foi como o silêncio do primeiro instante de calma depois de uma tempestade muito, muito forte.🌻

A SOMBRA E O SER: DUAS POSSIBILIDADES DO MASCULINO

PORRA, MANO!
Eu o conheci na quarta-série e era só um menino catarrento como todos nós; pretos ou brancos, sardentos ou cabeçudos; meninos, enfim, de favela e nunca nos mudamos. Só que eu cresci e me tornei professor (não que seja melhor, ou pior, ou igual. Só existem diferenças) ao passo que ele se tornou. Benedita também estudou conosco, durante muito tempo, e se, fui eu o primeiro a beijá-la, foi com ele que ela se casou. Todos do bairro sempre soubemos que ele batia. A opressão de verdade não acontece quando nos agridem, mas quando nos impedem de chorar. “Engole o choro!” – É o que o tirano diz. Mas ela não conseguia ficar em silêncio e gritava. Quanto mais ele batia, mais ela gritava, até que os vizinhos fomos conversar com ele. Domingo de noite; quem tinha trabalho tendo de acordar cedo na segunda-feira; e, no barraco deles, aquele furduncio, aquela gritaria, coisas quebrando, álcool, catiripapos, violência e dor, dor, dor. Feito um cavalo batendo os cascos no asfalto. Ele acenou com a cabeça. Estávamos certos. Daria um jeito no problema. A conclusão a que todos chegamos foi que deixaria de agredi-la, mas ele estava distante demais de seu coração e, em vez de buscar serenidade, cortou a língua da própria mulher para que ela aprendesse a apanhar calada. Porra, mano!
OS HOMENS DA ESQUINA
Mas eu sonhei com um lugar onde os homens poderiam ser diferentes: na barra do vestido de Kuan Yin. Uma esquina, um bairro, ou um planeta inteiro onde não teríamos vergonha de beijar o rosto uns dos outros, como fez o Cristo. E, quando um irmão tivesse uma enfermidade qualquer nas costas, o outro irmão não teria vergonha de tocá-lo em massagem, pois não haveria em cada qual o medo da própria sexualidade. Os homens desse lugar, estaríamos em paz com nosso próprio feminino e não teríamos vergonha de pintar o rosto ou a boca, ou de usar brincos grandes e roupas coloridas. Tudo isso seria muito natural; não fruto da vaidade - esse câncer, mas de um cultivo cotidiano do belo. Assim como o jardineiro cuida do jardim, cada homem cuidaria do próprio corpo. Todos estaríamos bem próximos de nossa natureza angelical e fazer um favor não seria questão de poder; mas de amorosidade, carinho, cuidado, kindness: de homem para homem, de homem para mulher, de mulher para mulher e de mulher para homem. Não nascemos para estar em guerra, mas para caminhar juntos, de mãos dadas; os deuses caminham em pares dentro de nós. E as noites aí seriam para o fogo, a dança e a música; porque as armas estariam proibidas, mas os instrumentos musicais nunca não. Eu vi com meu olho de dentro. Vem comigo! Vamos construir! A cura a Terra dá. Eu posso muito bem passar seu vestido, enquanto você colhe flores para o nosso quarto, entoando um lalalá🌻.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

ELE TINHA UM OLHAR MUITO, MUITO TRISTE

(Para João Lennon e João Lopes)
Era menino e já trabalhava nas carvoarias quando o estrangeiro chegou à nossa cidade. Ele também conseguiu emprego e a primeira coisa que notei é que tinha um olhar muito, muito triste. Sempre trabalhava duro, suava a camisa, mas não tinha medo de encarregado ou patrão e, durante o café, ou à noite, quando os mais velhos se reuniam pra beber, falava-nos destes corpos alienígenas chamados direitos. Tinha um discurso único e usava palavras que nós não, como, por exemplo, dignidade. Aos domingos, desaparecia. Ninguém sabia. Gostava de ficar só. Não guardava. Tudo o que tinha, dava e comia pouco; muito pouco: “Alguém já viu passarim preocupado com a fruta pra beliscar no dia seguinte?” O povo ouvia e, embora não entendesse exatamente, era atingido por aquelas palavras; porque ele nomeava o que todo mundo sentia e não sabia organizar. Aos poucos, inculcou na gente a ideia de que não era certo colocar crianças pequenas num trabalho tão perigoso. E alguns pais, enxergando pela primeira vez os filhos cobertos pela fuligem, resolveram deixar as crianças em casa. Alguém já viu passarim? E, então, ele falou sobre descanso, lazer, alegria, arte, AMOR, sentido da vida, palavras que desconhecíamos. Tudo isso exigia tempo e, segundo o patrão, tempo era trabalho, e trabalho era dinheiro no bolso - dele. Veio a primeira surra e os primeiros dias na prisão. Soltaram-no e o mandaram embora; mas ele era teimoso e tinha aquele olhar e aquela fala. Tudo o que dizia, atingia o povo por dentro. E o povo se reunia ao redor, escondido, na mata, e queria saber resposta. Ele dizia não ter; o povo, no entanto, sabia que. E então ele falou de união e de como o formigueiro junto devorava escorpião: “vê como o fogo brando funde o ferro duro?” Foi a conta. O poder mandou seus coturnos procurá-lo e ele se recusou a se esconder: “DIGNIDADE!” - disse mais uma vez, antes de ter a cabeça explodida, feito jerimum, por bala de grosso calibre; mas o povo nunca mais e muita coisa exigiu de lá pra cá - qualquer maneira de amor, vale!
Com o tempo, seu nome foi ligado ao do Cristo – outro que. Eu, no entanto, depois que cresci, investiguei e perguntei por ele na cidade onde. Soube que, antes de chegar à nossa vila, tivera família e emprego bom, mas jogara tudo fora por um rabo. Tentou suicídio e não; e, então, partiu do lugar onde nascera. Daí aquele olhar. Talvez quisesse mesmo dar cabo de si; mas, em vez de fazer do gesto algo absolutamente nulo, resolveu fazer da própria morte algo para o outro. E fez. Ainda que, mais tarde, o povo o identificasse com o Cristo, acho que, no fundo, ele se sentia um pouco Judas. Tão triste e tão nobre destino humano: carregar em si a semente do amor e da traição.
Agora diga: o estrangeiro não era um pouco como você e eu?🌻

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

MESMO DE BRINCADEIRA

Sabe o que eu vejo por trás da ira, do egoísmo, da manipulação, da inveja, da violência, da esquizofrenia de olhos azuis, do modo como os homens e mulheres que têm alma me olham, do meu próprio medo? Dor. Tirando toda a tralha, peneirando o excremento, jogando fora o resíduo denso do disfarce: a dor da criança para a qual os pais deram as costas; a dor do cão que, ao lamber a mão do dono, foi esbofeteado. Há um espinho de peixe atravessado na garganta de todo vilão. Iago não sofria menos que Otelo e Edmundo é uma Cordélia sem sapato de princesa. Deus detesta aquele cuja fé não vacila, pois não passa de um puxa-saco travestido de humilde; e quem pode amar um lambe-botas? Nem Javé em sua infinita misericórdia. Ainda não confio naqueles cujos espíritos não oscilam e farejo em cada gesto a mentira da paz forçada. Não nego o semblante verdadeiro e pacífico de um Cristo, um Laozi, um Buda; mas são raros e não os vejo nos programas de televisão. Sinto tanta pena! Meu coração é um orfanato criminalmente incendiado e as crianças estão todas dentro, trancafiadas. Meu coração é o asilo onde o ser, ainda vivo, fede a mofo e flor de plástico; onde o amor entra em putrefação enquanto respira. Eu amo a Deus, mas será que Deus ama os homens? Sei que quem ama educa, mas as moderníssimas escolas pedagógicas não creem no castigo como método. E é cada cipoada que a gente leva no lombo toda vez que, sem perceber, transgride a Lei. E tudo isso, irmã, tenho suportado calado, tentando enxergar qual é a lição escondida em cada decepção. Não se pode culpar alguém por não vencer, só por não tentar e eu tenho tentado tanto... Tenho passado meus dias em silêncio, enquanto cada inspiração é uma pedra no rim, um parto de criança cabeçuda. Queria te mostrar; mas, como o silêncio não pode ser dito, lanço mão de mil artimanhas para torná-lo presente. E isto aqui não é literatura, essa puta velha bem maquiada, essa cadela do bom gosto e do requinte. Não, isso é uma súplica, um pedido, uma prece ajoelhada lançada por uma boca salgada de lágrimas nos ouvidos do Enigma: Senhor, Senhor, ou me mata ou tende misericórdia! Se eu pudesse mostrar-lhes os meus ontens, as minhas noites em vigília, o modo como continuo caminhando entre meus iguais com o coração desmoronando. Se fosse só minha dor que me doesse, seria tão fácil; mas fui nascido com uma alma sem contorno e, se vejo um cão abandonado, é em minha pele que a sarna se instala; se vejo um menino de rua, é meu corpo que fede a carniça e indiferença; se observo a boca anciã que já não consegue mastigar, é meu estômago que não digere a desgraça dessa vida. E se alimento o cão, dou cem reais ao menor abandonado e preparo a sopa da terceira idade em farrapos isso não disfarça ou diminui a ferroada da impotência. Viver é se equilibrar no absurdo.
Será que o mundo foi tomado? Será o universo um malvado demiurgo? Ferida que vira as bordas ao contrário para devorar a si mesma?
Hoje é domingo, vou levar meu filho ao parque e tentar ensiná-lo a ser um bom homem. Vamos almoçar juntos e tomar sorvete. Vamos nos perder entre homens e mulheres sonâmbulos: elas - sempre puras, inocentes e injustiçadas - culpam seus maridos pela mediocridade; eles culpam-nas porque não podem saltar o fracasso. Seria cômico, não fosse terrivelmente. Mais tarde vou preparar o leite com Toddy - porque meu menino não gosta de Nescau - e levar na cama com tudo o que me sobrou de bom. Eu não sei como salvá-lo e minha fé foi passear de montanha-russa. Não pensem que sou mau ou niilista, tudo o que me dilacera é por excesso de amor. “Que vontade de ter, de querer te abraçar, de correr pela areia”.🌻

VERMELHO

Eu queria ter um amigo calmo
Que sabendo que não posso beber
Me oferecesse um café e um pedaço de queijo
E, me abraçando, dissesse que tudo vai terminar bem
Eu queria ter um amigo em cujo colo pudesse descansar
meus tantos tormentos
Queria um amigo otimista, sem ser banal
Um companheiro pras horas difíceis da vida
Um cara que compreendesse os buracos e ribanceiras da estrada
E me lembrasse um pouco a paz de Minas Gerais
Um sujeito simples, honesto, sem competição
Que me vendesse o carro velho sem pensar em lucro
E, boiadeiro, tocasse em frente
Um amigo a quem eu também ajudaria
Porque sou sincero e amoroso
Queria tanto um amigo que dissesse que isso faz parte da vida
E que é normal se sentir tão só, mesmo no meio do mundo véio sem porteira
Queria um amigo para os dias de chuva e de sol
Alguém que me ajudasse a cantar a canção
E que, mesmo sem instrumento, batesse as palmas das mãos
Queria tanto ter um amigo - e tenho muitos,
Mas todos estão dispersos pelo mundo,
Disfarçando suas próprias feridas.

O OLHAR DO OUTRO



Duas pessoas com as quais convivo e pelas quais nutro imenso afeto disseram, recentemente, coisas semelhantes a meu respeito. Uma delas disse: “Você se acha melhor que os outros”. E a outra: “Não vai se achando a última bolachinha do pacote”. Acusei o golpe. Como assim? um menino tão bom😱! Há no ser um vapor que embaça o espelho; o qual é chamado, o vapor, no popular, de ego. Aqui não é o ego da psicanálise. O primeiro ímpeto que a gente sente quando recebe críticas assim é se defender; o que é errado, porque as críticas não são endereçadas à totalidade de nosso ser, mas a um de nossos muitos defeitos de caráter. Como seres humanos, todos temos qualidades e defeitos e podemos nos tornar melhores se observarmos o que em nós não é motivo de alegria. Não sou advogado do meu ego ou dos meus defeitos, pelo contrário. Também já não faço como antes, quando tentava justificar meus defeitos apontando as falhas do outro; o que, inevitavelmente, gerava discussão. Hoje, é difícil, mas eu tento acolher críticas assim e mudar. Sim, porque todos estamos o tempo todo mudando, mesmo que permaneçamos os mesmos. Nada é pelo outro, tudo o que tento melhorar é para que eu mesmo sofra menos. Ainda sinto vontade de pedir desculpas por mancadas que dei há vinte anos; mesmo que aquele cara já não exista objetivamente. Por um ou dois dias, parei, pensando nessas críticas, e observei minha travessia até o presente e, de fato, há em mim uma coisa horrorosa: a tendência ao autoelogio. O elogio é sempre do outro; quando a nós nos voltamos é vaidade: o horror. Investiguei as causas e não foi preciso ser um Sherlock Holmes para perceber que este meu comportamento é fruto de uma tremenda insegurança, de um complexo de inferioridade, como se diz por aí. Eu nunca sei se o que fiz foi bom. Acho que qualquer outro poderia ter feito melhor. E aí, espero o elogio e, quando ele não vem, eu mesmo o faço na esperança de que o outro confirme e eu me sinta um pouco melhor. Vou dar um exemplo: hoje não, mas quando era mais novo, era puro ciúme. No fundo, não achava merecer o afeto de uma pessoa que admirava. Por outro lado, pensava: é tudo uma grande coincidência, sou eu aqui, mas podia ser qualquer outro. Eu não sou especial. Caso eu não existisse, o mundo continuaria do mesmo modo. Hoje dou risada; mas, quando você tem dezesseis anos, um pensamento assim fere fundo. Eu não sei como resolver estes meus defeitos. Acho que reconhecê-los e estar atento já é um começo. Depois, o que faço é observá-los e colocá-los no sopro, durante a meditação. Você não precisa crer em Deus ou algo assim; mas tem de reconhecer que vivemos dependurados no Mistério. Há algo vedado lá no fundo. O ar que respiramos, por outro lado, é um presente-milagre que não valorizamos. Bastava faltar oxigênio e a vida se dissiparia. É um exercício de humildade, perceber-se menor que uma lufada e, quando coloco as falhas que percebo em mim no sopro, elas, aos poucos, perdem poder. Melhorar é coisa demorada. Tarefa de uma vida inteira. Enquanto isso, ouço Beatles🌻
O que não se pode contradizer é a Lógica ou a Matemática e nós somos seres humanos, não equações.

TALARICO E PARAÍBA



Só quem corta meu cabelo é o Paraíba. Lá, o cabra entra bonito e sai imprecionante, como diria o ministro. Com o Paraíba, o sistema é bruto, nem cartão aceita e fica ofendido se o chamam de cabeleireiro: “Eu corto, mas não aliso cabeça de macho”. Além de ser o melhor barbeiro de São Miguel, Guaianases, Itaim, Itaquá e região, o Paraíba sempre tem um causo pra contar. E, você sabe, eu me amarro em estórias. Hoje tem setenta e dois anos e é da Congregação Cristã do Brasil, graças a Deus; mas, durante muito tempo, foi do mundo, como diz. Casou-se sete vezes e, não tivesse se convertido, estaria na oitava.
Estou sentado na cadeira de olhos fechados e ouvidos abertos:
- Pense numa doença ruim, menino: ciúme! O caba enlouquece. É, meu irmão! Uma vez, segui um ônibus até o Camargo Velho pensando que minha quinta mulher tava dentro e ia se encontrar com o outro. Fui até o ponto final. Daqui lá dá o que? Uns vinte quilômetro. Chegou no fim, a mulher desceu e, quer saber? Nem era minha mulher🤣! Assunta: eu tava cego, doido mesmo, de ciúme. Mas nem sempre fui. De novo, era seguro, mas depois que minha segunda mulher, perdi a fé. Aquilo foi paixão maior do mundo, rapaz! Eu não tinha olho pra mais. Enlouqueci. Foi. Larguei mulher com filho pequeno e fui morar com ela. A bicha era boa de cama e de carinho. Parecia que eu não tinha controle de mais. Era arrastado, tipo assim aquele troço, como é? Tsumena... Tsumane... Como é? Tsunami? Pois é, que seja. Vai vendo como o Diabo é sujo. Enrabichei bonito. Pois eu tinha um amigo que era mesmo que irmão. Tinha vindo do Norte comigo. A gente se conhecia desde berço, tu crê? Comia junto. Bebia. Emprestava dinheiro. Tô te falando! Pois foi que foi e, mais de uma vez, cheguei em casa, tarde da noite, depois de fechá o salão, e peguei o caba lá. É certo isso? Fiquei com a pulga. Aí, pastorando, um dia voltei pra casa antes. Entrei devagar, nas ponta, ouvi o gemido, olhei pela fechadura e tavam lá, os dois, na minha cama, bicho! Pense num desgosto grande! Que eu fiz? Nada. É, fiz não! Passou uma sumana e o caba tava sentado aí, nessa mesma cadeira que tu tá, o pescoço estirado e eu com a navalha na mão. Assunta: o cão quando não vem manda office-boy. Rapaz, por essa luz. As vista chega escureceu e eu vi o caba com o pescoço cortado de ponta a. Sim. Quando vi, foi Deus, joguei a navalha longe. Larguei mulher, esqueci de amigo. Eles se ajuntaram, só que não viveram um ano. Que se fodam pra lá, Deus que me perdoe. E eu nunca mais fui ingual. Peguei essa doença de. Agora que me converti foi que melhorei. Graças a Deus! Tô com essa mulher e até que nóis vevi bem; ainda assim, se chego em casa e ela num tá; o cão sussurra. Mas diga lá, e o pezim tá bom ansim?
Aceno um sim com a cabeça.
- Então tá bom, mais um cliente sastifeito. Com o Paraíba é ansim: o caba entra bonito e sai impressionante!

TÃO BONITA

Talvez, há muito tempo, alguém tenha te humilhado em público. Talvez tenha sido teu próprio pai, ou mãe, ou o menino de quem gostava na escola. Pode ser que algum idiota tenha criticado teu nariz, teu corpo, teu cabelo, tua cor e tudo isso fez você se sentir a pessoa menos atraente do mundo. Alguém, por certo, mencionou seu jeito efeminado, se você fosse menino; ou seu jeito masculino, se fosse menina. Janis Joplin foi eleita o menino mais feio de todo o colégio! E cantou como ninguém, mas nunca se recuperou. Provavelmente, nas revistas, na televisão, as pessoas que ocupavam o imaginário adolescente não se pareciam nem um pouco contigo. E, no teu quarto, durante a noite, ou nos livros que lia, você se imaginava outra: Diana Ross? Molly Ringwald? Sharon Tate? Tua pereba é o que ilumina teu olhar. A pérola é o curativo da concha. E sua magia é sua pérola. Só quem sofreu se torna interessante. Aqueles que nunca despencaram do palco, ficam na superfície. Não correm o risco de seu tormento. Porque te feriram fundo e despertaram em você o poder da ira, você não tinha a obrigação de voltar esse ódio contra si e, por extensão, contra o mundo. Todos nascemos iguais, mas a ferida que encarnamos depois, que é muito anterior, nos torna únicos. Por vezes até charmosos, não para todo mundo, é claro, só para os raros. Aos que conseguem ver, há mais beleza e talento em Mama Cass que em Michelle Phillips. E daí que te chamaram de negra, narigudo, bicha, gorda, sapatão, vagabundo? Comparado contigo, és tão bonito! Não renegue o mundo porque alguém, algum dia, disse isso e aquilo e aquilo outro. Não encolha a cabeça pra dentro do casco, tal qual cágado, porque certa vez, algum idiota te deu um cascudo quando desafinou. Se a gente fracassa, os canalhas gargalham sobre nosso túmulo. Se você faz mil plásticas, até não ter mais nariz, é o monstro quem triunfa. O poder nasce dos traumas superados. E a magia que um sorriso espalha, não tem outra origem além do coração dilacerado. As pessoas desacreditadas são aquelas que movem o mundo. A dor lhes dá a autoridade de criar. O charme de uma gargalhada vem das agruras que deixou pra trás. Então, dirija sua raiva para a ação, pois não há combustível melhor e, enquanto cria, plante flores no caminho. Quero te dizer, baixinho, um segredo: comparado contigo, você é tão bonita!🌻

ASTRONAUTA APOSENTADO

Sabe o que admiro nas mulheres? A capacidade que elas têm de demonstrar afeto umas pelas outras sem a necessidade de estarem ébrias. Os homens precisam ao menos do álcool pra romper a barreira. Meninos são treinados assim. É por isso que, muitas vezes, a gente encontra um amigo que ama; mas não diz que ama, diz que o considera. E, logo que dois amigos assim se encontram, ficam sem saber o que fazer. O jeito então é quebrar uma pra engrenar o papo; o que, no fim das contas, pode acabar em vexame. Por muito tempo, nunca superei nada, adormeci tudo; mas, por baixo da casquinha, o pus proliferava, a coisa inflamava e, quanto mais inflamava, mais eu precisava de analgésicos, até que construí transporte e me tornei astronauta: Major Lopez, distante milhares de quilômetros da Terra, de onde nada me chegava além de ecos. E, na segunda-feira, perguntavam-me: você viu o avião que caiu? Assistiu ao jogo? Ao debate político? Eu não sabia de nada. Tinha estado longe. Preferira o princípio de prazer ao princípio de realidade. Naqueles últimos anos, estive completamente só, na minha nave, no meu mundo. Até que a nave despencou do espaço e o impacto da queda quase; mas, como disse Nietzsche: “o que não mata engorda”. Não, isso são os meninos que dizem quando pegam doce do chão. A frase é: “o que não mata fortalece”. Ou ao menos faz continuar. Que seja! Ao tomar por maestro o girassol, virei o rosto em direção à luz. Ainda anoitece, é claro. E, no inverno, as noites são mais longas. Acontece que, agora, estou certo das manhãs. E observo, extasiado, os feixes de luz brilharem de encontro à superfície de metal da minha nave em ruínas.

PRAÇA DA SÉ

O bêbado chamava-se Francisco. Havia mais de dez anos, quando tinha por volta de cinquenta, abandonara mulher com quatro filhas e foi viver nas ruas. Anos atrás, tinha sido homem: trabalhara, construira casa, estivera ao lado da mulher, segurando sua mão, no momento dos partos; agora, era um bêbado, como todos os outros bêbados do centro. Já não sabia se tinha começado a beber por conta de toda aquela culpa, ou se sentia culpado por beber tanto. Os últimos dez anos eram um bloco indiscernível, no qual bebia para dormir e acordava para beber. E, no entanto, lá no centro, no cerne, no meio no coração dele, havia ainda tanto amor! Tanta vontade de se doar ao mundo, de ajudar seu semelhante, o calor da centelha divina; mas a bebida. Havia um cão-companheiro que, certa vez, recebera spray de pimenta nos olhos por tentar defendê-lo. Era tudo.
Na manhã em que a coisa aconteceu, Francisco já tinha dado algumas beiçadas no corote de um amigo. Fazia sol depois de uma semana inteira de chuva. Sem entender direito, olhou para o alto das escadarias da catedral e viu o circo armado: o homem com o revólver apontado para a cabeça da moça; a gente da tevê; a gritaria; os policiais ao redor. Todos somos feitos de luz e sombras. Sorrateiro, vivido, malandro velho das ruas, Francisco subiu como quem não queria, pela lateral, enquanto a polícia se comunicava com o criminoso pelo megafone. O próprio sequestrador não entendeu quando aquele velho sujo, esquálido, semimorto se aproximou e pulou sobre ele. Não sabia que a moça feita refém tinha idade semelhante à de qualquer das quatro filhas do velho e que aquela batalha era seu modo de se redimir, seu jeito de dizer: errei muito, meninas; mas nunca foi um plano magoar vocês, agora dou minha vida, ainda que não valha muito, para saberem o quanto as amo. E Francisco Lima lutou com o sequestrador. E recebeu três tiros na barriga. E não resistiu; mas a moça, uma balconista, saiu ilesa.
- Ele foi um herói – disse o representante da polícia militar.
Em seu enterro, porém, numa cova comum, num cemitério de periferia, não havia nem dez pessoas.
Só uma das filhas compareceu.

A SEGUNDA MANHÃ

Certa manhã, G. acordou cedo e se sentiu muito só. Ao tentar jogar a coberta para o lado, notou que ela parecia uma chapa de metal. Por toda a vida, tivera intensas variações de humor; naquela manhã, contudo, a sensação de culpa, e perda, e dor, e ciúme, e autopiedade, e angústia; em outras palavras, confusão, era muito maior. Lentamente - a coluna curva como tivesse noventa anos, embora acabasse de chegar aos quarenta – escovou os dentes, separou a louça suja na pia e começou a lavá-la. No fundo, preferia estar morto. Matar-se, no entanto, também era trabalhoso e ele pensou nos filhos, nos pais, nas mulheres que amava, em seus cães, amigos e flores. E se fosse o contrário? Já não tinha direito. Todos estamos espalhados. O jeito era coar um café forte e continuar. No quintal, os cães latiam brincalhões, felizes que o dono tinha acordado. Sempre há anjos. Ele colocou ração e água. Lá fora, no mundo grande, a ganância e a injustiça prosseguiam. Lá fora, todo mundo reivindicava alguma coisa. Chorou, andava muito ultimamente: qualquer beijo de novela, qualquer tragédia de noticiário. Tanta dor sem pássaro! Tanta pobreza sem sombra! A falta até de pão. Como era verão, as pessoas exigiam gelo, ninguém, porém, se dispunha a encher as forminhas. Os bichos é que sabiam doar, sem espera. E, sem exigir, também recebiam. Eram alimentados; tinham sempre água fresca na tigela; o cocô era retirado e o quintal lavado diariamente. Quando G. os banhava, nos dias mais quentes, massageava as barrigas... Não se pode exigir amor. O amor é sempre doação. Para G., as manhãs eram sempre piores, depois o dia engrenava; mas, naquela, ao ligar a mangueira para limpar a sujeira dos bichos, percebeu um arco-íris se formar sobre o feixe. Aos poucos, as cores espalharam-se pelo ar. Deus não manda telegrama. Como se lhe fora revelada, G. viu a verdade de todas as coisas e tudo era tão bonito! E a beleza incutia nele a vontade de ser bom; de sair à rua e perguntar às pessoas o que elas estavam precisando. Viu os cães por dentro e eles não eram feitos de órgãos, mas de cores e energia. Havia agora em seus olhos uma espécie sonar. De um presente ao outro, as formas dissolveram-se. Ainda havia contornos; mas, como no quadros de Vincent, era preciso estabelecê-los na marra, com uma linha grossa. Nada era isolado. Todas as coisas eram vivas e tocavam o cerne umas das outras, como se não houvesse mais pele. A dança que ele via não era dos átomos, era mais profunda; mais profunda que a valsa dos elétrons, mais profunda que o samba das energias. Como que carregada por uma mão invisível, a angústia partiu. Tudo se fez leve. As vértebras corrigiram-se edificadas de baixo para cima por uma coluna de ar. Os cães sorriram e, como numa nova manhã dentro da outra, o sol deu a graça de seu poder. Ainda trêmulo, trôpego, lívido, G. agradeceu e, voltando a face aos céus, pôde apenas murmurar:
- Misericórdia... Misericórdia...
E as lágrimas que atravessaram o rosto já não eram de tristeza, mas de alegria e de uma certeza que não mora neste mundo. Por trás das formas individuais, tudo era tão belo e ele sabia que não teria de carregar o peso de seu eu por toda a eternidade. Quando chegasse a hora, seria tão bom partir, para que outros.🌻

SERENIDADE

Rapaz, espie só como o cão é. Ainda agora fiz um post aqui dizendo que tal filme era bom. Pois me sai um abençoado, sabe Deus de onde, e escreve nos comentários: “teu cu!”😱 Bem assim, no meio de uma tarde de domingo. E agora é bagunçado assim, é? O que ele não sabia é que ando meditando duas vezes por dia, caminhando, andando de bicicleta e comendo banana, amêndoa, chocolate amargo, cápsula de magnésio e tudo mais que produz serotonina. Quero ser uma pessoa melhor, sabe? Um cabra calmo. Pusitivo. Mudar até, quem sabe, pra Calmão Viana – Mogi das Cruzes. De modo que tirei de letra. É! Aí minha filha, que tava aqui, disse assim: “Pai, me leva ali no shopping Itaquera?” E eu: “Claro, meu anjo!”, isso porque sou deveras muito sereno, e prestativo, e espiritualizado. No caminho, levei uma fechada daquelas. Respirei fundo e segui. Disse a mim mesmo: “em Buda e no Cristo cuspiram na cara”. Foi. Isso é nada comparado. E aí chegamos ao shopping e demorei quarenta minutos pra achar uma vaga. Domingo e tals. Fiquei nervoso? Eu? Praticante de meditação e hatha yoga? Que nada! Aí pensei: “vou naquelas cadeiras de massagem pra relaxar. Estou perdendo um tiquim da serenidade.” Pois fui lá e me sentei na cadeira. Que aconteceu? A diaba engoliu minha nota de vinte! É, perdi meus vintão e fiquei sem massagem. Tentei ligar no número que tinha lá e ninguém atendeu. Melhor aceitar a perda. Bens materiais, cousa pouca. E daí resolvi ir ao Extra, porque se você comprar mais de quarenta reais, não precisa pagar o estacionamento. Pois fui, comprei um bocado de coisa, até umas ameixinhas de vinte contos pra soltar o intestino. Quando saí, tava uma chuva danada e eu tinha lavado o tênis sexta-feira. Corri até o carro. Cheguei à catraca pra sair, cadê o tíquete? O povo buzinando. Não teve Cristo que achasse o papel. Mais meia hora até retornar e achar outra vaga. Corri, debaixo de chuva, até o caixa do estacionamento; mas não consegui resolver, pois precisava saber o número do chassi. Voltei correndo – o tênis encharcado, o cu molhado, chovendo horrores – peguei o documento, preenchi os papéis, tudo em duas vias. E o preço por perder o tíquete? Quarenta estalecas! Reclamei de leve. Sabe o que a moça respondeu?
- Não tenho culpa do Senhor ser descuidado! - Assim na lata. E eu? Sabe o que foi que eu fiz?
Respirei fundo, entoei o mantra om com toda vibração do meu ser e, só de raiva, permaneci calmo, sereno, impassível. Aqui na zona leste de São Paulo, gente, pode até ter alguém calmo que nem eu, mais calmo não existe😇. E ponto! Agora contrarie pra ver.😅

SOBRE BACURAU

Bacurau é uma alegoria tosca; mas isso não é defeito, pelo contrário: vem daí sua força. A alegoria é um braço da metáfora mais ligado à moral e arte e moralidade não combinam. Mesmo que não exista o parágrafo final com a inscrição: moral da história; na alegoria, subentende-se tal sentença. Ela, a alegoria, é ligada à fábula e, quando acontece, conecta-se facilmente o significante ao significado; não tem erro; é o momento em que a linguagem conotativa está mais próxima da denotativa. Em Bacurau, o enredo é uma alegoria do momento político atual. Em arte, prefiro outro ramo da metáfora: o non-sense, bastante explorado pelos surrealistas e por gente como Kafka, ou, no cine, David Lynch. Encontramos aí o absurdo, o irreconhecível e o significante pode conectar-se a múltiplos significados. A linguagem artística é a linguagem condensada e carregada à enésima potência. No caso de Bacurau, por outro lado, a mensagem tem um desespero e um vigor muito mais ligado ao político que ao estético e, em verdade, o desleixo estético também é um manifesto estético, como no caso do Punk. Um Madmax no sertão pernambucano não poderia soar como a nouvelle vague.
Outro ponto que chama a atenção é o pastiche, recurso usado à exaustão e com maestria por Tarantino. Em Bacurau, percebe-se o tempo todo o diálogo com outras obras: dos discos voadores toscos de Ed Wood à pílula de realidade de Matrix. Como desde o primeiro modernismo, passando pela tropicália, nossa tradição é identificada conceitualmente à antropofagia, creio que isso também é uma nota positiva no contexto geral da película. O Kleber Mendonça não recorta e cola, mas engole, deglute e defeca algo diferente, original em certo sentido; assim como o mangue beat também fez.
Como professor, gostei do momento em que o prefeito descarrega um caminhão de livros no meio da cidade. Não é outra coisa o que os governos, mesmo de gestões de esquerda, fazem há algum tempo. Incentivar a leitura não é só despejar livros.
Pra encerrar, reafirmo que Bacurau é um bom filme e, grande parte das críticas que ouvi em relação, referem-se ao pouco refinamento estético. Negócio é o seguinte: pobre não tem etiqueta, não enfeita o prato pra comer. O feio é o belo às avessas. No final dos anos setenta, por não ter instrumento de sopro, um jovem brincou com uma vitrola encontrada no lixo e nasceu o hip hop. Uma coisa não exclui a outra: pode-se muito bem gostar de O cidadão Kane e de Bacurau; do mesmo modo como gosto de Bach e dos Ramones.
Abaixo às cercas embandeiradas que separam quintais.

MEIA-IDADE

Menina, olhando em retrospectiva, parece que foi ontem: você dorme com dezoito e acorda com quarenta; só que não. Muitas coisas rolaram: casamentos, filhos, empregos. Quer saber de uma coisa? Em todas as vezes que esquentei a cabeça, em cada uma das noites de insônia, por mais que eu tenha uma imaginação porreta, jamais vislumbrei o futuro que se tornou presente. Então, você que é jovem, relaxe e respire, você está no lugar certo e nada está sob controle. Não quero com isso dizer que tudo vai acontecer de acordo com seu sonho e que basta você desejar e todo o universo vai se movimentar e tals. Comigo foi bem o contrário e, quer saber, dou graças! O que eu queria não era o que me tornaria um ser humano melhor. O que é um ser humano melhor? É bem simples: aquele que se sabe parte. Parte de uma comunidade na qual você tem de atuar sem querer mandar, parte da raça humana, parte – muito idiossincrática – da espécie animal, parte de um planeta que a gente tem de cuidar; porque nossa vida acaba, mas o mundo não e as crianças confiam tanto! O sistema econômico vigente tem de alimentar nosso ego, pois sem o ego e sem os desejos, ele morre. Então é preciso alimentar a ideia de que somos mais bonitos, melhores, mais sábios; enfim, a última bolachinha do pacote. A vida assim não é uma celebração, mas uma competição, na qual só os vencedores têm direito a celebrar. Eu queria ser um astro do rock, sabe? Viver loucamente e morrer jovem. Não rolou. Quis ser um escritor reconhecido. Não rolou. Fui ficando humilde. Desejei ao menos viver da minha pena; tampouco. Eu, cada vez menor e menor até caber no meu destino que é ser professor de uma escola no bairro onde nasci. Para o ego foi uma surra; mas ainda posso cantar com os amigos, se quiser, e nada me impede de escrever diariamente. Quando deixa de se comparar com os outros, de querer ser mais, a gente se percebe único e daí vem uma dignidade que não é do ego. Você se sabe singular, mas não especial e é só de mãos dadas que funcionamos, porque nenhum ser humano é autossuficiente. Um cozinha bem, outra escreve, outro assenta tijolos. Só junto, em comunidade, que a gente beira a perfeição; pois o que falta em um ser humano, sobra no outro. Na prática da vida, não há um saber melhor que o outro; pois, para que o Doutor faça sua palestra, é preciso que as faxineiras limpem a sala, e que uma porção de pedreiros tenham assentado os tijolos, e que um técnico tenha ajeitado o som. Como no milagre dos peixes, cada um dá o pouco que tem e nada falta. No fim das contas, todo mundo devia ser aplaudido de pé. Sim, o meio da vida parece chegar de repente. Solte as rédeas e procure agir de acordo com; pra saber o quê, exercite o silêncio. Coisas muito boas acontecem sempre. Eu, por exemplo, não fiquei careca – ainda.😉

QUALQUER MANEIRA DE AMOR

O que é melhor, meu irmão, o ódio ou o amor? Se você respondeu o ódio, deve estar sofrendo mais do que é suportável e eu me solidarizo com sua dor. Se respondeu amor, eu complementaria que o amor, como tudo que é vivo, quer se expressar e que, dentre as muitas formas de se expressar o amor, o sexo é uma delas. Você poderia me falar da tal ordem natural das coisas e eu responderia que a ordem natural entre almas é o que vale, sabe? Há muito, o sexo humano se distanciou do animal e, mesmo no sexo animal, há inúmeras espécies que se relacionam com seres do mesmo sexo. O sexo animal é para a reprodução. O sexo humano pode ser uma necessidade física; mas é, sobretudo, expressão de amor. Se fôssemos falar de ordem natural, teríamos de excluir todos os métodos contraceptivos. E, mesmo o nosso presidente tão conservador, fez duas vasectomias numa só vida. Então, que problema há no modo como duas pessoas que se gostam expressam esse amor? Se elas se abraçam, se apertam as mãos, se se beijam, ou se transam, que mal há? E, ainda que não seja amor, no modo como duas pessoas sedentas saciam sua sede? O problema? Qual? O macaco deseja banana; a vaca, o capim; mas eu almejo a felicidade; o outro deseja um carro; um terceiro, conhecimento. O desejo no ser humano também é bem diferente. Se você crê que temos uma alma por que, quando se trata de sexo, acha que devemos nos ater ao animal? Eu fecho com o Rosa: "qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura". Tudo o que precisamos: mais amor e menos julgamento; mesmo porque o próprio amor é já a ausência de julgamento.