(Para João Lennon e João Lopes)
Era menino e já trabalhava nas carvoarias quando o estrangeiro chegou à nossa cidade. Ele também conseguiu emprego e a primeira coisa que notei é que tinha um olhar muito, muito triste. Sempre trabalhava duro, suava a camisa, mas não tinha medo de encarregado ou patrão e, durante o café, ou à noite, quando os mais velhos se reuniam pra beber, falava-nos destes corpos alienígenas chamados direitos. Tinha um discurso único e usava palavras que nós não, como, por exemplo, dignidade. Aos domingos, desaparecia. Ninguém sabia. Gostava de ficar só. Não guardava. Tudo o que tinha, dava e comia pouco; muito pouco: “Alguém já viu passarim preocupado com a fruta pra beliscar no dia seguinte?” O povo ouvia e, embora não entendesse exatamente, era atingido por aquelas palavras; porque ele nomeava o que todo mundo sentia e não sabia organizar. Aos poucos, inculcou na gente a ideia de que não era certo colocar crianças pequenas num trabalho tão perigoso. E alguns pais, enxergando pela primeira vez os filhos cobertos pela fuligem, resolveram deixar as crianças em casa. Alguém já viu passarim? E, então, ele falou sobre descanso, lazer, alegria, arte, AMOR, sentido da vida, palavras que desconhecíamos. Tudo isso exigia tempo e, segundo o patrão, tempo era trabalho, e trabalho era dinheiro no bolso - dele. Veio a primeira surra e os primeiros dias na prisão. Soltaram-no e o mandaram embora; mas ele era teimoso e tinha aquele olhar e aquela fala. Tudo o que dizia, atingia o povo por dentro. E o povo se reunia ao redor, escondido, na mata, e queria saber resposta. Ele dizia não ter; o povo, no entanto, sabia que. E então ele falou de união e de como o formigueiro junto devorava escorpião: “vê como o fogo brando funde o ferro duro?” Foi a conta. O poder mandou seus coturnos procurá-lo e ele se recusou a se esconder: “DIGNIDADE!” - disse mais uma vez, antes de ter a cabeça explodida, feito jerimum, por bala de grosso calibre; mas o povo nunca mais e muita coisa exigiu de lá pra cá - qualquer maneira de amor, vale!
Com o tempo, seu nome foi ligado ao do Cristo – outro que. Eu, no entanto, depois que cresci, investiguei e perguntei por ele na cidade onde. Soube que, antes de chegar à nossa vila, tivera família e emprego bom, mas jogara tudo fora por um rabo. Tentou suicídio e não; e, então, partiu do lugar onde nascera. Daí aquele olhar. Talvez quisesse mesmo dar cabo de si; mas, em vez de fazer do gesto algo absolutamente nulo, resolveu fazer da própria morte algo para o outro. E fez. Ainda que, mais tarde, o povo o identificasse com o Cristo, acho que, no fundo, ele se sentia um pouco Judas. Tão triste e tão nobre destino humano: carregar em si a semente do amor e da traição.
Agora diga: o estrangeiro não era um pouco como você e eu?🌻
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