quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A MORTE DO OUTRO



A morte é sempre do outro. Nós, a partir do nascimento, começamos a morrer, mas nunca não. Porque, no exato instante em que cruzamos o umbral, já não estamos. Talvez reste, cônscios do outro lado, a possibilidade de fazer o sinal da cruz ao testemunhar a mulher com o cadáver nos braços. Tal qual o rio que não pode fugir de seu destino de tornar-se mar, também nós não podemos fugir. Não se pode parar ou retroceder o rio; mesmo que suas águas gritem no instante salgado do encontro - pedaços de mar despencando dos olhos de Tereza.
A morte que testemunhamos é sempre do outro. Ontem foi seu Sebastião e, com ele, um pedaço de mim: o tempo da adolescência e juventude, quando Serginho, o filho, e eu éramos unha e carne; a casa dos meus trinta anos, quando estava perdido e ele veio me aconselhar e orar por mim; todas as vezes que fechou o portão quando eu ia trabalhar e ele buscava Jeane e os netos. Há na morte um paradoxo; morremos o tempo inteiro: a criança morre para que o adolescente, o adolescente morre para que o jovem, o jovem para o adulto, o adulto para o velho e o velho para o incomensurável. Por outro lado, é à memória do pai que o filho há de recorrer num momento de dura decisão e é do avô que o neto há de lembrar quando segurar seu próprio neto nos braços: aquele que parte lega aos que ficam seus caminhos - seu legado. No fim das contas, a morte não existe, ainda que estejamos o tempo todo morrendo para uma versão de nós mesmos.
Um homem imenso caminhou por esta terra. Até a próxima, companheiro. Todos vamos sentir saudades.🌻

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