1-)
Arame Farpado é seu primeiro livro
publicado; como se deu a confecção deste livro e, uma segunda parte deste
primeira pergunta, como se deu seu início na escrita, como você começou a
escrever?
R:
Arame Farpado partiu de uma escolha de alguns poemas compostos ao longo de dez
anos. A princípio, a ideia era conceber um livro com poemas que expressassem
várias vozes – como se fosse um tabloide mundial. Recordo que o nome seria
Legião e depois Almagene. Com o tempo percebi um vínculo de significação em
vários poemas (um vínculo que não sabia denominar na época). A maioria dos
poemas fazia referência às barreiras materiais e imateriais: sempre havia um
sujeito preso, um sujeito tentando ultrapassar uma barreira. Enfim, foi a
primeira vez que notei que havia uma obra, que havia um corpo e que havia uma
criança para nascer e ela deveria se chamar Arame Farpado.
Em
relação à segunda pergunta: comecei a escrever muito nova, aliás, comecei a ler
com quatro anos e isso tornou minha experiência com a escrita muito precoce.
Nem sabia o que era um escritor, achava que era normal ler e depois escrever. Nasci
dentro de uma família muito simples – minha avó era benzedeira, meu avô um
homem do campo e eles tinham uma mania de inventar muitas estórias no final do
dia, só que não escreviam. E, se não me engano, o primeiro conto que escrevi
foi sobre um fantasma que vivia na porteira da fazenda dos meus avós, o nome
dele era Tonho e ele só deixava passar pela porteira quem cantasse uma música.
Eu os ouvia contar sobre o Tonho e decidi inventar minha própria experiência
com o fantasma. Já a poesia eu comecei
na adolescência – tinha vários cadernos com poemas, tencionava ter uma banda de
rock, bem ao estilo punk/rock da Legião Urbana e Plebe Rude e tive a sorte de
conhecer uma turma da União Estudantil da minha cidade que também se
interessava por poesia e rock. Minha
poesia ainda caminhava com a intenção de ser musicada, mas, com o tempo isso
foi mudando, quando comecei a escrever contos e percebi que as letras era o
caminho para eu conseguir compreender minhas inquietações e fantasias.
2-)
Seu livro não saiu necessariamente por uma editora, mas por um coletivo: o Coletivo
Púcaro; como você enxerga a relação entre a arte de escrever e a indústria do
livro?
R:
Estou muito satisfeita de ter publicado pelo coletivo, tem sido uma experiência
muito generosa, além do que eu esperava. Eu posso afirmar que investi 10% e
lucrei mil. Sobre a pergunta: a relação que enxergo é que uma precisa da outra,
mas parece que não há um acordo justo entre as partes. Só há um lado que ganha
e nós sabemos qual. Eu nunca comprei um livro em branco e sei que sem a
contribuição do escritor não há livro. Nossa classe merece mais.
3-) Vamos estabelecer um diálogo com
outros escritores, Mário de Andrade disse “Sou trezentos, sou trezentos e
cinquenta, mas um dia, afinal, toparei comigo mesmo”, Walt Whitman escreveu “Me
contradigo? Tudo bem me contradigo, sou vasto por isso me contradigo”, Rimbaud enxergava o eu como um outro. Você
escreve, no poema Ecos: “O Eu original foi desconectado/ e tudo o que restou fomos Nós (esses
Eus sem paradigmas),/ no escuro de uma tabela periódica” e em Cartas para o Mundo: “Eu era todos: a menina do
tabuleiro, o cientista e a sombra.” Comente.
R: O Eu é um ser
multifacetado. Talvez Mário de Andrade, Whitman e Rimbaud em algum momento da
vida tenham se perguntado: “Quem sou eu?” e perceberam que a resposta ininterruptamente
variava. Eu pelo menos nunca conheci uma pessoa com comportamento imutável.
Acredito na metamorfose.
4-) Percebo no seu
livro um forte tom político, não partidário, mas político; como entende as
relações entre a arte e o mundo?
R: O mundo é minha
fonte, por isso tão inevitável o tom político. Tem um poema do Drummond que me
representa nesse sentido: “Sentimento
do Mundo” no qual o poeta empresta ao leitor o que ele assiste. E é exatamente
assim que me vejo como poeta: alguém que escreve sobre o que assiste. O final
desse poema é incrível:
(...)
Humildemente vos peço
Que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
Eu ficarei sozinho
Desfiando a recordação
Do sineiro, da viúva e do
microscopista
Que habitavam a barraca
E não foram encontrados
Ao amanhecer
Esse amanhecer
Mais noite que noite.
5-) Há algum assunto sobre
o qual você gostaria de falar, mas que não foi perguntado? Fique à vontade.
Agradeço pelo espaço e
pela entrevista. E deixo um poema do Arame Farpado aqui:
Eu bebia uma Irish Car Bomb
enquanto crianças eram
pulverizadas por bombas israelenses.
O Mal distante é legítima ficção
até o dia que
nos extraem de nós mesmos para
sermos outros.
Meu vizinho é um corpo de carne e
ossos
e se ele se incendeia eu penso em
performance.
Adel Kedhri (Tunísia): performer
Jampa Yeshi (Índia): performer
Lâm Văn Tuc (Vietnã do Sul):
performer
Prema Devi (Índia): performer
Contam que após o domínio do fogo
nossa espécie transubstanciou o
cérebro
para algo hábil a criar bombas e
rodas.
Adel Kedhri incendiou-se
Jampa Yeshi incendiou-se
Lâm Văn Tuc incendiou-se
Prema Devi incendiou-se
São Martinho articulava sobre o
Homem ser fogo,
Buda propunha que o coração é a
lareira
e Heráclito dizia: do fogo
tudo flui.
Adel Kedhri é uma mensagem
Jampa Yeshi é uma mensagem
Lâm Văn Tuc é uma mensagem
Prema Devi é uma mensagem
Sonho com uma tempestade de fogo,
sonho com olhos volvendo em
cinzas,
sonho com o cheiro amedrontador
do Deus dos Mortos
colhendo infanticídios nos campos
de girassóis da Ucrânia.
Adel Kedhri é um noticiário
Jampa Yeshi é um noticiário
Lâm Văn Tuc é um noticiário
Prema Devi é um noticiário
E
eu saboreio uma Irish Car Bomb.
(E eu saboreio uma
Irish Car Bomb | Arame Farpado (2015) )
MAIS INFORMAÇÕES:
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Site: http://lisaallves.wix.com/lisaalves



