Mostrando postagens com marcador entrevistas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador entrevistas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Entrevista com Samuel Malentacchi: O abismo é um instante

1 -) Samuel, em Poética, Manuel Bandeira diz: “Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem comportado / Do lirismo funcionário público com livro de ponto / Expediente, protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.” Em Tesouro, você escreve:  “me lembro da vez / em que você mijou nos meus pés / enquanto tomávamos banho / naquele hotel escroto na Armênia; / - foi a maior declaração de amor que já recebi.” Diz aí, você vê alianças entre a Poética do Bandeira e sua própria poética? Há uma conexão entre estas declarações viscerais?
bem, Daniel, vejo aproximações & distanciamentos. Bandeira teve um papel importante na minha formação de leitor de poesia! no decorrer do traço, fui me afastando, mas trago comigo as leituras excessivas do livro “a cinza das horas”, primeiro do Bandeirão, com aquele tom melancólico & delicioso sabor de hemoptise. Talvez, com o peso dos anos tenha mais conexão as visceralidades que com Manuel! me agrada muito a ideia de escrita enquanto queda & também horror, no sentido de relato (distorcido & delirante na mesma medida em que tenta ser registro fiel) do quanto existir é um espanto.

2-) Abismo é uma palavra recorrente nos seus poemas. Em Abrindo Abismos, você escreve: “pertenço à classe das fendas”. Além disso, o poema que encerra o livro intitula-se O Abismo é Um Instante. Quando abismo não aparece, surgem vocábulos similares como, por exemplo, oco. Certa vez, comentando a poesia de Artaud, Blanchot escreveu que, em Artaud, o que é primeiro não é o ser, mas a fenda e a fissura. Na canção Anthem, Leonard Cohen escreveu algo como: “Há rachaduras em tudo é assim que a luz entra”. E no Tao Te Ching, Lao-Tsé diz que erguemos paredes e casas, mas é pelas janelas e portas que a luz e nós mesmos podemos entrar. Sem mais delongas, qual é a importância do abismo, da fenda, do vazio na sua poética e na sua vida?
uau, que pergunta difícil! talvez nunca consiga respondê-la, o que não é a mesma coisa de não ter o que falar a respeito. a questão da fenda, da fratura, do abismo, são inquietações que me acompanham desde muito (sem que eu soubesse disso, claro), acho que o abismo me é ontológico! penso que talvez só seja possível estar no mundo humano através da fenda. a escrita se faz letra na fratura. e talvez possamos pensar esse vazio, que é diferente do Nada, ao menos pra mim, no sentido de um lugar. um lugar entre eu & o(s) outro(s). por exemplo: o que eu escrevo não é o que o outro entende, e o que o outro me comunica não é o que eu entendo. desse equívoco, desse tipo de ruído & desencontro, é possível criarmos um espaço potencialmente habitável. nem em mim, nem no outro. mas entre. um lugar quase, paradoxal e precário, um terceiro lugar viável onde talvez possamos construir um idioma possível ao “nós”. esse “fazer-junto” este terceiro lugar é possível através de um gesto corajoso, um convite ao diferente (o não-eu), para que ele coabite & construa comigo esse espaço quase, insustentável por natureza. possível por definição. esse espaço entre é lugar do Fazer, de um fazer poético, que não tem necessariamente ligação com um fazer poesia, verso. Vejo essa disposição poética no sentido de uma condição de Fazer existência no momento em que ela acontece, um viver criativo. podemos fazer um bolo criativamente e nunca escrever um poema e, ainda sim, sermos muito mais criativos que um tanto de fazedores de poesia & prosa!
com relação ao nosso traçado, meu amigo, acho que o escritor, nem tanto no que escreve (o produto de sua criação, sua escolha estética & de estilo etc.), mas na disposição a inscrever, faz registro dessa queda da certeza de sermos entendidos. entretanto, só é possível registrar (fazer letra) habitando esse espaço entre, que talvez nem seja um lugar, visto que fisicamente não é visível, hehe, mas uma disposição ao risco & ao encontro com a diferença, o nada, enfim, o abismo.

3-) A sua poesia, apesar de ser sempre muito suja, muito corporal, muito rueira é também uma poesia muito culta. Há nela desde Kierkegaard, até o Fiat Tipo. Como você concebe sua estética? Não gosto muito desta palavra; mas, na falta de outra melhor...
Hehe, também me incomoda um pouco essa palavra, mas talvez possamos pensa-la no sentido de uma sensibilidade & de um estilo mesmo. na verdade, nem eu sei muito bem como cheguei nisso. meus livros anteriores são completamente diferentes uns dos outros, acho que estava na procura de um “jeito”, e talvez tenha sido encontrado por ele. podemos pensar que tem algo a ver com o que escrevi na pergunta anterior, uma disposição existencial de tentar (nem sempre é possível) despir meu narcisismo (não abandoná-lo) da certeza delirante de ser entendido pelos outros. esse gesto é cruel, um pouco masoquista & quedante. Escrevo desse lugar e por conta dele. então, se posso pensar numa estética, é a estética do chão.

4-) No poema A Nick Cave´s Call - em minha opinião um dos mais tocantes do livro, principalmente o verso: “a ausência, já presente, de meu pai.” - você descreve seu início na escrita aos nove anos, já dedilhando na máquina de escrever “frases sem sentido”. Conte-nos mais a respeito. Que forças o impeliram a escrever? A poesia está em tudo quanto é lugar, mas como foi seu início nos poemas?
então, eu era poeta e não sabia. a gente nunca sabe na verdade, né? a poesia é “o princípio do prazer no uso da linguagem”, me disseram certa vez. e eu acreditei! então, ela não precisa ter um porquê, dar respostas, indicar caminhos, elevações espirituais ou qualquer merda dessas. poesia é. é fazer. demorei muito pra entender algo disso aí. dito isso, eu não tive uma criação “intelectual”, embora tenha aprendido a ler & escrever aos três anos de idade, minha família não tem uma tradição de leituras, pra você ver, aprendi a ler com as legendas do filme “a hora do pesadelo” que meus pais assistiam, hehehe. mas eu gostava de fazer letra, sempre gostei. empiricamente, meu primeiro contato com poesia foi através do punk. me envolvi com a cultura punk aos 13 anos & aquilo me virou do avesso. lendo zines, letras de bandas como Cólera e Olho Seco, aquilo me tomava o corpo (só de falar me lembro & me arrepio nos pelos do braço!). dali foi um passo para montar minha primeira banda. acabei tocando bateria por acidente, mas de um jeito ou de outro, eu sempre acabava escrevendo as letras. meus cadernos escolares eram cheios de letras, eu tinha ideia o tempo todo, era uma maluquice do caralho, mas era delicioso! nessa fase, descobri também a poesia, no verso mesmo. Augusto dos Anjos foi o primeiro poeta que li fora daquela chatice que nos ensinam que é poesia na escola. o ensino de literatura na escola muitas vezes é tão antierótico que torna a coisa traumática, bicho! O tempo foi passando e a poesia ficou no meu íntimo, não falava pra ninguém, escondi tanto que esqueci que gostava. fui relembrar na faculdade de comunicação. E através de uma pessoa que se tornou grande amiga pra vida. o nome dela é Cris Amorim, no meu primeiro ano de curso, super bicho do mato, achando que o ambiente acadêmico não era pra mim, encontrei com ela e através dos nossos papos, ela me disse: “cara, por que você não começa a escrever poesia? você é poeta, porra!”. Ela me apresentou Maiakovski, Augusto dos Anjos, que me foi um reencontro potente. A partir daí fui lendo & lendo & lendo, conhecendo mais poemas & poetas, quando me vi, estava também escrevendo.

5-) Velho, vejo em seus poemas tudo quanto é tipo de referência – do artista enquanto liquidificador -. Desde Nick Cave e Joy Division, passando por Burroughs e o já citado Kierkegaard. Quem são seus heróis? Os caras que dizem algo que fala ao seu coração e com os quais você estabelece, de algum modo, aliança?
putz, isso sempre é transitório, né? mas a gente tem uns de cabeceira, não importa a hecatombe que nos tome, é com esse pessoal que a gente conta no final. Como escrevi na pergunta acima, Augusto dos Anjos é um deles. Tenho um ritual obsessivo de comprar várias edições do “Eu”, é meio doentio, mas acho que quero guardar ele só pra mim, tirar do mundo, saca? Hahaha. É bizarro.
Bom, se eu puder listar, Augusto já está aí, colocaria mais ou menos assim: Freud, Sándor Ferenczi, Melanie Klein, Kafka, Burroughs, Poe, Lovecraft, Ginsberg, Sylvia Plath, Emily Dickinson, Juan Gelman, Hilda Hilst, Eunice Arruda, Roberto Piva e Manoel de Barros. Essa turma faz os dias melhores por aqui.

6-) Se houve algum assunto que você queria abordar, mas este entrevistador não perguntou, essa é a hora. Diga o que quiser. Faça aí suas considerações finais. Desde já agradeço a entrevista e a atenção. Abraço, compadre.
agradeço o interesse & a leitura de meu livro! Acho que por aqui está bom, falei pra caralho, haha,
grande abraço fraterno, bicho!
Penalux, 2017

sábado, 30 de janeiro de 2016

Entrevista com Lisa Alves: POETA.

1-) Arame Farpado é seu primeiro livro publicado; como se deu a confecção deste livro e, uma segunda parte deste primeira pergunta, como se deu seu início na escrita, como você começou a escrever?
R: Arame Farpado partiu de uma escolha de alguns poemas compostos ao longo de dez anos. A princípio, a ideia era conceber um livro com poemas que expressassem várias vozes – como se fosse um tabloide mundial. Recordo que o nome seria Legião e depois Almagene. Com o tempo percebi um vínculo de significação em vários poemas (um vínculo que não sabia denominar na época). A maioria dos poemas fazia referência às barreiras materiais e imateriais: sempre havia um sujeito preso, um sujeito tentando ultrapassar uma barreira. Enfim, foi a primeira vez que notei que havia uma obra, que havia um corpo e que havia uma criança para nascer e ela deveria se chamar Arame Farpado.
Em relação à segunda pergunta: comecei a escrever muito nova, aliás, comecei a ler com quatro anos e isso tornou minha experiência com a escrita muito precoce. Nem sabia o que era um escritor, achava que era normal ler e depois escrever. Nasci dentro de uma família muito simples – minha avó era benzedeira, meu avô um homem do campo e eles tinham uma mania de inventar muitas estórias no final do dia, só que não escreviam. E, se não me engano, o primeiro conto que escrevi foi sobre um fantasma que vivia na porteira da fazenda dos meus avós, o nome dele era Tonho e ele só deixava passar pela porteira quem cantasse uma música. Eu os ouvia contar sobre o Tonho e decidi inventar minha própria experiência com o fantasma.  Já a poesia eu comecei na adolescência – tinha vários cadernos com poemas, tencionava ter uma banda de rock, bem ao estilo punk/rock da Legião Urbana e Plebe Rude e tive a sorte de conhecer uma turma da União Estudantil da minha cidade que também se interessava por poesia e rock.  Minha poesia ainda caminhava com a intenção de ser musicada, mas, com o tempo isso foi mudando, quando comecei a escrever contos e percebi que as letras era o caminho para eu conseguir compreender minhas inquietações e fantasias.

2-) Seu livro não saiu necessariamente por uma editora, mas por um coletivo: o Coletivo Púcaro; como você enxerga a relação entre a arte de escrever e a indústria do livro?
R: Estou muito satisfeita de ter publicado pelo coletivo, tem sido uma experiência muito generosa, além do que eu esperava. Eu posso afirmar que investi 10% e lucrei mil. Sobre a pergunta: a relação que enxergo é que uma precisa da outra, mas parece que não há um acordo justo entre as partes. Só há um lado que ganha e nós sabemos qual. Eu nunca comprei um livro em branco e sei que sem a contribuição do escritor não há livro. Nossa classe merece mais.

3-) Vamos estabelecer um diálogo com outros escritores, Mário de Andrade disse “Sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, mas um dia, afinal, toparei comigo mesmo”, Walt Whitman escreveu “Me contradigo? Tudo bem me contradigo, sou vasto por isso me contradigo”,  Rimbaud enxergava o eu como um outro. Você escreve, no poema Ecos: “O Eu original foi desconectado/ e tudo o que restou fomos Nós (esses Eus sem paradigmas),/ no escuro de uma tabela periódica” e em Cartas para o Mundo: “Eu era todos: a menina do tabuleiro, o cientista e a sombra.” Comente.
R: O Eu é um ser multifacetado. Talvez Mário de Andrade, Whitman e Rimbaud em algum momento da vida tenham se perguntado: “Quem sou eu?” e perceberam que a resposta ininterruptamente variava. Eu pelo menos nunca conheci uma pessoa com comportamento imutável. Acredito na metamorfose.

4-) Percebo no seu livro um forte tom político, não partidário, mas político; como entende as relações entre a arte e o mundo?
R: O mundo é minha fonte, por isso tão inevitável o tom político. Tem um poema do Drummond que me representa nesse sentido: “Sentimento do Mundo” no qual o poeta empresta ao leitor o que ele assiste. E é exatamente assim que me vejo como poeta: alguém que escreve sobre o que assiste. O final desse poema é incrível:
(...)
Humildemente vos peço
Que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
Eu ficarei sozinho
Desfiando a recordação
Do sineiro, da viúva e do microscopista
Que habitavam a barraca
E não foram encontrados
Ao amanhecer
Esse amanhecer
Mais noite que noite.

5-) Há algum assunto sobre o qual você gostaria de falar, mas que não foi perguntado? Fique à vontade.
Agradeço pelo espaço e pela entrevista. E deixo um poema do Arame Farpado aqui:


Eu bebia uma Irish Car Bomb
enquanto crianças eram pulverizadas por bombas israelenses.
O Mal distante é legítima ficção até o dia que
nos extraem de nós mesmos para sermos outros.
Meu vizinho é um corpo de carne e ossos
e se ele se incendeia eu penso em performance.

Adel Kedhri (Tunísia): performer
Jampa Yeshi (Índia): performer
Lâm Văn Tuc (Vietnã do Sul): performer
Prema Devi (Índia): performer

Contam que após o domínio do fogo
nossa espécie transubstanciou o cérebro
para algo hábil a criar bombas e rodas.

Adel Kedhri incendiou-se
Jampa Yeshi incendiou-se
Lâm Văn Tuc incendiou-se
Prema Devi incendiou-se

São Martinho articulava sobre o Homem ser fogo,
Buda propunha que o coração é a lareira
e Heráclito dizia: do fogo tudo flui.

Adel Kedhri é uma mensagem
Jampa Yeshi é uma mensagem
Lâm Văn Tuc é uma mensagem
Prema Devi é uma mensagem

Sonho com uma tempestade de fogo,
sonho com olhos volvendo em cinzas,
sonho com o cheiro amedrontador do Deus dos Mortos
colhendo infanticídios nos campos de girassóis da Ucrânia.

Adel Kedhri é um noticiário
Jampa Yeshi é um noticiário
Lâm Văn Tuc é um noticiário
Prema Devi é um noticiário

E eu saboreio uma Irish Car Bomb.
(E eu saboreio uma Irish Car Bomb | Arame Farpado (2015) )

MAIS INFORMAÇÕES:
Página no facebook: https://www.facebook.com/Arame-Farpado-1034332163257619/?fref=ts

Site: http://lisaallves.wix.com/lisaalves

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Entrevista com o escritor Gláuber Soares

O escritor Gláuber Soares fala um pouco sobre o seu processo criativo, sua vida, suas leituras, suas influências, conversa ainda sobre a origem do seu segundo livro e primeiro romance publicado Face Emplumada, a sua estreia na literatura foi com o livro de contos Remédio Forte, o qual foi traduzido e será lançado esse ano na Argentina...

Seu primeiro livro publicado foi a coletânea de contos Remédio Forte; entretanto, você já escrevia textos de maior fôlego antes de se dedicar à forma mais sintética que constitui o conto. Como se dá a passagem de uma forma literária à outra no seu processo de criação? Quando começa a escrever, você já tem certeza da extensão? Ou aos poucos o texto vai se constituindo como romance, novela ou conto?

No início, só pensava em textos mais longos. Já imaginava o começo, o meio, o fim. No ano de 2000, comecei a escrever o meu primeiro romance finalizado (não publicado). Em 2002, ele estava pronto -- no formato tradicional de livro daria umas 160 páginas. Somente após participar de uma oficina de criação literária, em 2010, comecei a escrever contos, meio que por obrigação. Praticando, acabei me apaixonando também pela forma dos contos. Suas nuances. Hoje, geralmente, eu penso: tal enredo daria um romance ou conto. Mas Face Emplumada desorganizou a minha lógica. Comecei escrevendo o que seria um conto. O texto foi ficando mais longo, pedindo mais personagens, enfim, percebi que ali a melhor forma seria uma novela ou romance.

Já que  mencionou a criação de personagens, devo dizer que achei muito interessante a galeria de personagens que atravessam Face Emplumada, desde o cabeleireiro queer Sandrinho até o Seu Galdino da fazenda Asa Azul. Considerando que a construção de um romance envolve cinco instâncias que se interpenetram (a saber, o tempo, o espaço, a linguagem, o enredo e as personagens. Há romances cuja força motriz está no tratamento do tempo, como À sombra do vulcão, de Malcolm Lowry; há romances cujo centro é a desterritorialização, o tratamento do espaço, como On the road, de Kerouac; Clarice Lispector desconstrói a linguagem, Luiz Brás recoloca o enredo em evidência e ao falar de Dom Casmurro, logo pensamos na personagem enigmática de Capitu...) Você diria que, enquanto criador, a sua maior potência está na criação das personagens ou em uma das outras quatro instâncias? Sei que tais categorias não surgem compartimentadas quando se escreve algo, mas quando você relê o trabalho, onde você acha que está a maior força da sua escrita?

Rapaz, neste ponto não sei se tenho a melhor resposta. Não costumo consumir energia me autoanalisando. Nem tenho as ferramentas teóricas para isto. Mas, sem fugir de uma resposta, eu me preocupo mais com a linguagem e com o enredo, balancear essas duas instâncias. As performances, forças das personagens, a meu ver, vêm como consequências deste balanceamento.

Acho que a linguagem também é uma força da sua prosa: enxuta, desenvolta, variável; vai das gírias mais urbanas à musicalidade mais sertaneja. Penso, inclusive, ser um traço extremamente original da sua escrita esta mistura do provinciano e do cosmopolita, do urbano e do rural. Já na epígrafe, você une provérbio baiano e David Bowie. A trajetória de Gustavo vai do interior de São Paulo, à capital paulista e de lá à Quixadá. Na música, também muito presente no livro, nós vimos essa antropofagia, essa deglutição do pop pelo pelo sertanejo, tanto no tropicalismo, quanto no mangue beat. Diz aí, na literatura quais são suas influências na criação deste estilo híbrido? E nas outras artes? Quais são os artistas de esferas exteriores à literatura que influenciam sua escrita?

Na literatura, curto bastante o João Antônio, Luiz Bras, Marcelino Freire, Patativa do Assaré, Lygia Fagundes Telles, entre outros. Nas artes plásticas, Carybé, o mais baiano dos argentinos, sua vasta obra me desperta a atenção. A música sempre me influenciou. Das batidas às letras; de Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi a Morrisey e Ramones. Lembro-me que ainda no meu primeiro romance citado, imaginava o projeto do livro com um CD encartado, ou seja, tinha a sua trilha sonora. Em Face Emplumada, Bowie foi um dos músicos que me inspirou, ajudou a dar o tom.

O que mudou e o que se manteve na sua escrita de Remédio Forte a Face Emplumada?

Remédio Forte foi uma coletânea de contos. Havia a preocupação social, passagem do tempo, a morte – temas que dão unidade ao livro. Algumas narrativas, como Próximo, Juntinhos, Rio Cachoeira, Isabela e o conto que dá nome ao livro já sinalizavam para este estilo mais impregnado que em  Face Emplumada. Acredito que não houve mudança, talvez tenha tido um amadurecimento, uma afirmação. 


Você publicou Face Emplumada por uma editora independente, como enxerga o mercado editorial brasileiro?

Para quem está preocupado com a arte, e não em ser uma celebridade, o comportamento do mercado não faz muita diferença. Levando em conta os números da população brasileira, o nosso mercado editorial, principalmente o literário, é incipiente. Somos um dos países da América Latina em que menos se lê. As grandes editoras ganham dinheiro vendendo livros didáticos para os governos. No gênero Literatura, meia dúzia delas formam uma elite que se mantém no topo com os best-sellers importados. Com alguma exceção, não estão preocupadas com a literatura brasileira, desejam o lucro fácil. Os prêmios literários ajudam a maquiar. Tentam, com o glamour, iludir, e até têm conseguido, como se a desprezada literatura nacional tivesse, de fato, importância. O que sobrou da mídia não percebe o engodo. Um outro vilão são as livrarias. Não investem no processo de publicação – tudo bem, este não é o papel delas, no entanto, as livrarias só querem levar vantagem. Muitas só aceitam livros em consignação e pra pagar à editora, quando pagam, pedem um prazo de 90 dias. É claro que os maiores grupos editoriais têm poder de negociação. O que não impediu a excelente Cosac Naify, há pouco, noticiar que vai fechar, dando como um dos motivos este longo prazo. Ainda assim, diante de tanta dificuldade, nem tudo está perdido. As pequenas editoras, com as suas pequenas tiragens, continuam fomentando a nada incipiente arte literária brasileira.

Há algo que você gostaria de dizer, mas não foi perguntado nesta entrevista? Fique à vontade.

Apenas dizer para os leitores ficarem atentos com a cena literária paulista. Você sabe, Daniel, temos uma geração de ótimos escritores. Poesia, romance, conto, há muita coisa boa sendo feita por aqui. O seu romance A Delicadeza dos Hipopótamos, por exemplo, é um livro sensacional. Enfim, prestigiem mais a literatura brasileira.




segunda-feira, 29 de abril de 2013

Uma entrevista

(ACIBEL): Quando descobriu que tinha vocação para ser escritor? Fale um pouco de seu início nas escritas.

(DANIEL LOPES): R: Antes de tudo era o desencaixe. A sensação de espanto diante do mundo. Lembro de uma vez que estava na igreja com minha mãe, ela era catequista, e fiquei espantado de ela existir e ser alguém, e ter um rosto, uma personalidade e de estarmos ali, naquele exato lugar, naquele exato momento, lançados neste planeta doido e doído, e eu me perguntava: pra quê, afinal de contas? Não seria mais natural o nada? Por que existíamos e sabíamos, e tínhamos certeza, de que um dia não existiríamos mais? Enquanto o homem é, está na aporia da morte. Foi o que desesperou Buda. Se eu fosse um homem de fé verdadeira, se tivesse certeza de que Deus existe, então tudo estaria resolvido, e eu talvez não escrevesse uma linha sequer, mas não consigo acreditar com este fogo. Todas as coisas podem não ser mais que mera coincidência. Talvez não tenha sentido algum as milhares de pessoas que já pisaram neste planeta e sofreram, e amaram, e morreram e... Drogas... Alcoolismo... Incestos... Amores mal resolvidos... Mais incestos... Humilhações... Assassinatos... A minha escrita é só o registro, com sangue e plasma, deste desconforto: a materialização de tantas questões que, apesar de tudo, não podem ser respondidas, sequer formuladas com palavras. Talvez a música toque. A escrita, entretanto, começou efetivamente na adolescência, em vários cadernos que eu preenchia, só porque registrar a angústia aliviava. Não há respostas, só o constante arranhar a face do enigma.

(ACIBEL): Em seus livros você gosta de usar uma ordem cronológica ?

(DANIEL LOPES): R: Não, não me preocupo com o tempo ou com questões formais. Tanto pode haver uma ordem cronológica como não. Minha preocupação não é inovar a prosa, mas tocar o plasma, o humano. Não é uma literatura para a cabeça, mas para o espírito. Não quero ser inovador, quero ser verdadeiro, embora, às vezes, para ser verdadeiro, precisemos inovar. Mas não vem de fora para dentro e sim de dentro para fora.

(ACIBEL):Ao escrever PIANISTA BOXEADOR buscou inspiração em alguma historia cotidiana ou usou alguma técnica que facilitasse a criação?

(DANIEL LOPES): R: Acredito que o artista parte do cotidiano, mas enxerga o interior das coisas onde os outros enxergam a casca. Van Gogh só precisava de um girassol murcho e de seu próprio quarto pra revelar sua verdade. O artista enxerga o brilho de todas as coisas e percebe nelas portas para o Absoluto, uma espécie de panteísmo no qual tudo é santo. Para o arquiteto, ou engenheiro, ou político, uma janela é só uma janela. Para o artista, a janela pode ser o lugar onde um cachorrinho vira-latas esperava o dono todos os dias voltar da escola, até o dia em que o dono morreu atropelado e o cachorrinho continuou esperando. A Arte, a literatura, são humanas e o humano tem o dom de Mundificar a Terra, Larificar a Casa, enfim, encher de sentido a matéria, a primeira vista, opaca. Um balanço seria só um balanço, não houvesse crianças, a madeira seria para sempre opaca, mas o menino pode brincar nele e sonhar, enquanto vai e vem, e sentir saudades do pai separado que não o visita há muito tempo. Tanto o médium quanto o artista podem perceber isto. Também se pode tomar um ácido, ou ler Heidegger... Nosso planeta está destruído porque expulsamos o sagrado para o além. Começou com Platão e o processo só se intensificou com o cristianismo, que Nietzsche dizia não ser mais que platonismo para a ralé. Tinha razão. As sociedades primitivas respeitam cada árvore porque todas elas SÃO. Nossos Deuses estão no além, a Terra é o domínio do Mal, consequência da metafísica, podemos destruí-la de consciência tranquila. Jeová ainda fazia suas visitas à Terra, depois silenciou, retirou-se.

(ACIBEL): O livro  PIANISTA BOXEADOR traz em seus trechos partes interessantes de um personagem que retrata sua realidade e algumas vezes ficções, como "... ver brotar na sua barriga ... um botão de rosa" , há alguma momento em que você fica em duelo entre continuar a escrever com essa riqueza que traz a ficção ou escrever mais sobre a realidade?

(DANIEL LOPES): R: O que é a realidade? A imaginação é parte da realidade. Não é o mundo historicamente instituído, ou o que é científico, que é real. A desgraça de nosso tempo é que as crianças já nascem científicas. O real é o mundo que se constrói sobre a Terra. Os pré-socráticos chamavam de physis o abraço entre o ser e o ente, não havia uma separação metafísica entre o transcendente e o temporal. O mundo não era opaco, pois tudo tinha o brilho de ser e de abrir-se para o Ser. Não é o racional que é real. Não é o científico que é real. Não é o social que é o real. O real é o Todo. Neste sentido, sou o mais realista dos escritores. Ainda que seja um péssimo escritor, sou um um bom amanuense e vejo coisas que enganam a lógica e driblam a razão.

(ACIBEL):O que o leitor pode esperar de mais surpresa no livro e onde adquiri-lo? 

(DANIEL LOPES): R: Antes de terminar, gostaria de agradecer profundamente à Acibel. O que o leitor pode esperar do livro é que não seja um artifício técnico, ou uma mentira bem embalada. Foi um livro escrito por um homem, não por um autor. Durante a revisão, cada palavra que precisava ser cortada, era como uma parte do meu próprio corpo que era arrancada. Não moro só no corpo, moro no que vejo e no que escrevo. O livro é um abraço, um amigo que espera o encontro com aqueles que passaram pelos mesmo lugares. Pianista Boxeador pode ser comprado pela internet em quase todas as livrarias ou no site da editora Confraria do Vento.