quinta-feira, 22 de outubro de 2020

UM PORTO ALÉM DE MIM


No tempo em que nasci cigana, lembro-me de ler as mãos, com cheiro de cebola, deste homem calado. Ele perguntou sobre companhia e disse que tinha medo. Era viúvo e cuidava, só, de um casal de filhos. Lavava, passava, cozinhava; daí o cheiro de. As linhas falavam de silêncio e incomunibilidade. Ele via o mundo de um lugar vedado. Na juventude, tinha sido internado por falar do que. Agora, guardava para si. Esperava essa outra alma com quem pudesse. E eu, menina ainda, filha do fogo, falei de desejo e tragédia. Não me envolvo com o que leio. Sou tal e qual carteiro que entrega. Neste dia, porém, o telegrama falava de frio e paisagens brancas. Alguém pode entregar a mensagem da morte de uma criança sem se envolver? Dizer do horror e negar o abraço? E eu me deitei e doei o que tinha: tambores d'Africa, Egito, lilases, regatos, feitiços, o Sol, a Terra, placas tectônicas em movimento e marés. Algo que cresce e consome. Minha forma de cuidado, sabe? Ele pediu que ficasse e leu um poema feito de magma. Eu, nômade, disse que precisava e deixei de consolo um casal de salamandras. Décadas mais tarde, quando voltei, a filha era prefeita. Levou-me ao túmulo, cujo epitáfio era um poema intitulado Salamandras e que falava de amor, fogo e de um lar que nunca tivemos juntos e que nunca terei. E eu, filha do fogo, sentei ali na relva, larguei no chão as rosas vermelhas e confessei que sempre o compreendera. Tarde demais neste mundo de desencontros; agora, ele estava longe, era menino estrábico sofrendo bullying no estado de Connecticut

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