Toda galera roqueira tem um serguei; pansexual egresso dos anos sessenta que, apesar do pessimismo – ele mesmo engraçado – , também nos encanta com seu humor e lirismo. Junto ao pessoal do Barão Vermelho, por exemplo, brilhava Ezequiel Neves. Junto a nós, Marquinhos. Foi ele quem me apresentou o som do Greateful Dead e a poesia de Lautreamont. Quando ficava bêbado, o que não era raro, Marquinhos costumava colocar uma peruca como a do Andy Warhol, citar Schopenhauer e, ao término de cada setença, entoar o refrão: “Eu odeio todo mundo!” Da boca pra fora. No fundo, era só um menino delicado, tentando não se despedaçar de encontro ao mundo. Uma vez, fomos acampar em Ubatuba e, já no caminho, Marquinhos entornava todas. Estava feliz. Quando chegamos, enquanto todos trabalhavam pra montar as barracas, ele praticava Tai Chi Chuan doidão e não caía: “Respeitem meus cabelos brancos, crianças! Sou discípulo de Bruce Lee e Maria Bethânia”. Nessa mesma noite, ficou tão bêbado que dormiu na areia, só de sunguinha vermelha entranhada no vale profundo. Na crocodilagem, alguém tirou uma foto e postou no Instagram sob o título: “A cueca comunista do Marquinhos!” Pra ser sincero, achei uma puta falta de sacanagem! Pensei que Marquinhos ficaria puto e bolado ao acordar. Mas que nada!
- Seux canalhax, vou amaldiçoar a todox! - disse tremelicando as mãos como se nos jogasse um feitiço.
Só que aí alguém respondeu:
- Caraca, Marquinhos, já tem trezentas e quinze curtidas e mais de sessenta compartilhamentos!
Arregalou os olhos, tirou a mesma sunga vermelha do rêgo:
- Trezentas e quinze? Então me empresta o celularrr urrrrgente que também vou compartilharrrr. Nada melhorrrr que quinze minutos de fama pra curar ressaca. Eu odeio todo mundo!
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