quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A TERRA PLANA E O MAL RADICAL


Não gosto dos termos sujeito e objeto. De todo modo, creio que a questão da Terra plana refere-se muito mais ao sujeito que ao objeto. Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro. O que é plano é o olhar e não a Terra. A Terra é múltipla. Não se trata de uma questão científica. O perigo que se nos avizinha é o do Mal, sempre radical, de que falava Hannah Arendt. O Mal radical é a aniquilação de toda diferença. Ou melhor, é a aniquilação. Como Canetti observou, um tirano tal qual Hitler começa por perseguir o diferente, mas se volta também para o igual. Quando a derrota se tornou iminente, Hitler continuou ordenando a morte, desta vez aos soldados alemães. Terminou por destruir-se a si mesmo. Quanto mais mortes, menos diversidade. No fundo, o tirano quer ser o único a sobreviver. Almeja ser o rei sobre uma pilha de cadáveres, porque é inseguro, fraco, não confia em ninguém e, enquanto existe o outro, ele se sente ameaçado. O olho plano aí tornou-se escravo de Tânatos; sujeito real por trás das marionetes. Quando não há mais o outro para matar, mata-se a si mesmo. É perigoso. É doentio. É triste. É real.

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