quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O MISTÉRIO

Sempre as via na praça onde faço atividade física. A loira era magra e usava muletas, fumava muito e não tinha mais que trinta anos. A morena era corpulenta, levava os cabelos sempre presos num coque e usava saias longas, até os tornozelos; provavelmente era evangélica e tinha um menino pequeno que brincava por perto, enquanto conversavam. Às vezes, a morena tinha um olho roxo ou outros hematomas. Há umas duas semanas, as duas conversavam chorando, a loira acendendo um cigarro atrás do outro; depois ficaram abraçadas por muito tempo, em silêncio. E então se despediram de um modo estranho. Desde aquele dia, vejo sempre a loura sentada no mesmo banco, fumando, as muletas tristes encostadas de lado. A morena, no entanto, nunca mais apareceu.

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