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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

AMOR DE ÍNDIO


Acho que todo mundo fez coisas na vida das quais não se orgulha. Eu me casei aos quinze e me separei aos dezesseis. Seguiu-se uma época sombria, de álcool, drogas e loucuras. E, aí, quando a gente começa a gostar de verdade de alguém, fica com medo que a pessoa descubra as coisas feias que a gente já fez e deixe de gostar. A gente sente pena até de contar e ferir o outro. Há coisas, no entanto, que não tem como esconder. Faz alguns meses que encontrei esse menino. Ele me trata bem, toca tudo quanto é instrumento e até compõe um monte de músicas só pra mim. Só que eu fiz aquelas coisas e, por medo de que ele descobrisse, terminei várias vezes. Quase enlouqueci ele. Todo mundo fez coisas na vida das quais sente vergonha; só que, quando você conta a coisa feia que fez e o outro, em vez de julgar, abraça e acolhe você, aí então você fica gostando mais ainda. De um jeito que dá até vontade de gritar na janela. Eu sofri um exposed. Foi isso. Naqueles dias tristes, participei de um ménage que acabou caindo na rede. Depois daquilo, achei que nunca mais. Até que. A coisa mais difícil que já tive de fazer na vida foi contar. Recuei várias vezes. A voz simplesmente não saía. Quando, por fim, consegui falar, esperei que ele fosse embora sem olhar na minha cara: "E você tem vontade de repetir essas coisas?" Respondi que não. "Então esquece, a gente não vive no passado". E, como se o que eu tinha contado não tivesse a menor importância, pegou do violão, me deu a mão e a gente foi junto - de mãos dadas - ao trailer da praça pra cantar Legião Urbana e comer um cheese-tudo

O CULTO DA VOVÓ


Lembro que foi na época em que o Chorão morreu. Vovó e eu assistíamos às reportagens na tevê e eu pensava que não estava muito distante do mesmo destino. Como o músico, estava separado e metendo as ventas. Um pé no abismo e o outro na casca de banana. Era questão de tempo. A vó, vivida, comerciante, ganhava tudo: "Meu filho, por que tu não vem ao culto comigo? Pela última vez". Pela última vez, vó? A velha já dava o óbito como certo😲 De medo, resolvi. E fui. A velhinha se ajoelhou no banco e chorou. Segurando minha mão. Quando estamos desandados e não temos, as emoções ficam à flor. Uma vez chorei vendo uns cachorros cruzar. Mas, enfim, lá estávamos nós; na Igreja. Eu, todo fodido por dentro, com aquela sensação de culpa. E aí chegou essa outra velhinha. Pediu que me abaixasse e começou a orar na minha cabeça. Senti um arrepio. Ela rezava, gritava, dava uns tapas, falava em línguas e contou toda a minha vida: desde o dia em que levei uma pedrada na cabeça na terceira série até o dia em que pulei, loucão, de cima do viaduto da Vila Carrão. Eu era um cara cético; mas, naquele dia, senti a visita do Espírito Santo. E aceitei internação. E consegui parar. E, de lá pra cá, nunca mais. Pois bem, hoje estava com meus filhos, tomando café na casa da vó, e, nem sei o porquê, relembrei aquele dia e o milagre que se deu. A vó começou a gargalhar. Riu até engasgar, até perder o fôlego, até os óculos caírem no chão. E foi então que confessou: "Foi tudo armado, malandro, agora que você está firme no caminho do Senhor, posso confessar. Marialice é a professora de teatro da Igreja. Contei tudo e combinei com ela de te dar um choque. Psicologia de vendedor. Tinha certeza que ia funcionar. Tu tava doido pra comprar a salvação. Só dei um empurrãozinho". Pense num cabra com cara de tonto! As amigas da vovó chamaram no portão e nós fomos juntos. Estava na hora de deixar meus filhos. Fiquei olhando aquelas velhinhas sapecas batendo bengala rumo à Igreja e pensei que o Maior age mesmo de modos misteriosos. Mas, como a ferrugem nunca dorme e o Diabo quando não vem manda office-boy, ao entrar no carro, vi um pino fechado, inteirinho, perdido no vão do meio fio. Fechei a porta e acelerei.

CÁLIX BENTO


O lago é a meditação da água. Ele, todavia, era inquieto; de modo que dirigir. Naquela manhã, no entanto, não podia libertar. Não curtia o ressentimento, nem por isto conseguia. Não se queria expor na prateleira. O que não significava que não quisesse ser. Lembrava o pai, pedreiro, que enchia o peito e sorria ao encerrar uma obra. "'É o melhor pedreiro de São Miguel, Itaim, Guaianases e região!" E a alegria da mãe quando elogiavam sua comida? Não era diferente do pai quando assentava um tijolo, ou da mãe quando picava a cebola em quadrados minúsculos. O zelo com o que fazia era o mesmo. Para tudo o mais - ganhar dinheiro, pagar contas, andar de ônibus, comprar pano de chão, assinar contrato - era inútil. Só sabia emendar palavras, mas precisava pagar. Alguém acenderia lâmpada para esconder embaixo da cama? Haveria ali alguma lâmpada de fato? Duvidava. Revoltava-se. Voltava a ser apenas humano. Fraco. Insatisfeito. Semi-mesquinho. Andava querendo acabar com tudo; só que o trânsito. No semáforo, uma velhinha com os dentes enferrujados, vendendo doce de abóbora em forma de coração, daqueles que já não se vêem por aí: "E o seu sorriso de menino? Quantas vezes se escondeu? É por conta, faz falta não, pega!" E era Deus ali, fantasiado de necessitada. Luz verde, o trânsito andando e a vida era isso aqui mesmo e não aquilo lá com o que sonhava. Sem cavar dualidade. Sem criar resistência ao que é. Seja feita a Vossa vontade. Torna, no entanto, nossa alma dócil, Senhor, de modo que sejamos macios ao nosso destino.
Ensina-nos a parar de doer

UM PORTO ALÉM DE MIM


No tempo em que nasci cigana, lembro-me de ler as mãos, com cheiro de cebola, deste homem calado. Ele perguntou sobre companhia e disse que tinha medo. Era viúvo e cuidava, só, de um casal de filhos. Lavava, passava, cozinhava; daí o cheiro de. As linhas falavam de silêncio e incomunibilidade. Ele via o mundo de um lugar vedado. Na juventude, tinha sido internado por falar do que. Agora, guardava para si. Esperava essa outra alma com quem pudesse. E eu, menina ainda, filha do fogo, falei de desejo e tragédia. Não me envolvo com o que leio. Sou tal e qual carteiro que entrega. Neste dia, porém, o telegrama falava de frio e paisagens brancas. Alguém pode entregar a mensagem da morte de uma criança sem se envolver? Dizer do horror e negar o abraço? E eu me deitei e doei o que tinha: tambores d'Africa, Egito, lilases, regatos, feitiços, o Sol, a Terra, placas tectônicas em movimento e marés. Algo que cresce e consome. Minha forma de cuidado, sabe? Ele pediu que ficasse e leu um poema feito de magma. Eu, nômade, disse que precisava e deixei de consolo um casal de salamandras. Décadas mais tarde, quando voltei, a filha era prefeita. Levou-me ao túmulo, cujo epitáfio era um poema intitulado Salamandras e que falava de amor, fogo e de um lar que nunca tivemos juntos e que nunca terei. E eu, filha do fogo, sentei ali na relva, larguei no chão as rosas vermelhas e confessei que sempre o compreendera. Tarde demais neste mundo de desencontros; agora, ele estava longe, era menino estrábico sofrendo bullying no estado de Connecticut

COR DE MARAVILHA NUA


Ontem, quando voltava da praia, vi cruzes à beira do caminho. Foi ao chegar aqui e olhar a gaiola vazia, entretanto, que a solidão bateu. Encontrei-o há alguns anos; ferido. Talvez, por isso mesmo, tivesse um canto tão. Tratei. Dei alpiste do melhor e proteína de ovo importada. Aos poucos, foi ganhando força e, com a força, confiança. Seu canto mudou. Se antes lamentava as dores da vida; agora louvava alguma força invisível. Dizia-se grato; ainda assim, exigiu gaiola maior, com balancinhos dourados. Todas as manhãs, todavia, sorria e cantava para mim; só para mim. As vizinhas; fofoqueiras, intrigadas; perguntavam-me a respeito. Em pequenas expedições, cautelosa, comecei a trazê-las para vê-lo em ação. Primeira vez na vida, eu tinha importância. Ele, por outro lado, não gostava da exposição. Sentia-se usado. A cada manhã, acordava mais mal humorado. Reclamava de tudo. Dizia que minhas amigas falavam alto e não prestavam atenção. Certa noite, depois de uma discussão, primeira vez, falou em partir. Gritou que tinha saudade da mata, da convivência com outros de sua espécie e, sem qualquer pudor, usou a palavra liberdade. Acusei-o de ingratidão. Disse que estava quase morto quando. Respondeu que preferia ter mesmo morrido e me deu as costas. Para tentar acalmá-lo, passei a pendurar a gaiola no jardim todas as tardes, o que se mostrou ainda pior. Seu canto tornou-se uma ode ao ódio. Algo assim como. Já não conversávamos e ele passou a recusar; primeiro o canto, depois a comida. Comprei do melhor alpiste, sementes importadas e tudo o mais. Nada. Estava decidido como só um pássaro. No dia derradeiro, abri a gaiola e disse que podia. Tarde demais. Já não tinha forças. Antes de amanhecer, encontrei o cadáver no fundo da gaiola. Parecia um menino. Como era seu desejo, joguei o corpo no mar. Agora seu canto é o silêncio e minha solidão, uma gaiola vazia

BABALORIXÁ


Um rei é rei mesmo varrendo o chão
A genialidade não está ligada ao ofício
Todo aquele que apaga seu eu na atividade
É um gênio no que faz
Há garis que limpam uma lixeira
Como se fossem Cristo ou Buda
E há artistas incensados que não movem uma palha de nosso coração
O gênio não pensa
Está vazio quando faz
Quanto menor o ego, maior a arte,
Pois ela pode vir de toda parte
Inclusive do fundo de si mesmo
Não faz diferença
Uma vez que dentro e fora são só um caso de respiração

O ROSTO DO MEU IRMÃO

 

Quando nosso pai chegava bêbado, meu irmão me pegava pelo braço e levava pra rua, pra gente empinar pipa. De vez em quando, algum moleque maior queria tomar nossa linha e ele defendia, dando umas latadas. Com a pipa no alto, a gente esquecia dos problemas. Podíamos passar horas olhando o céu; torcendo para que, quando chegássemos, o pai tivesse dormido. Hoje, pedi à minha mulher que saísse com as crianças e chamei meu irmão aqui. Ele ficou feliz. Chegou com seus três cachorros. Tive de deixar os bichos entrarem também. O pescoço dele estava preto, como se sujo de graxa. Meu irmão fedia. Há mais de seis meses, ele mora sob a marquise de um supermercado que fechou. Acho que, durante todo esse tempo, nunca tomou um banho. Dei café e pão. "Como é? Bora empinar?" Eu tinha combinado de a gente empinar pipa no Parque do Carmo. "Só preciso chegar no banheiro". Foi nessa hora que dei o sinal para os caras da clínica. Eles pegaram meu irmão à força, quando ele abriu a porta. Na confusão, os cachorros morderam um dos rapazes e as pipas foram pisoteadas; ficando rasgadas ali no chão. Antes de entrar na ambulância, meu irmão me olhou de um jeito estranho e, com aquela expressão, perguntou: por quê? Sei que essa é a única forma de ele continuar vivo. Eu deveria estar feliz, cultivando a esperança e tudo mais; só que, quando lembro do rosto do meu irmão, tudo o que brota no meu coração é um sentimento de Judas.

OLHOS DE MAR DE ESPANHA


Eu ia completar dezoito; quando, primeira vez, deixei minha cidade com destino a São Paulo. Vinha trabalhar em casa de família e, como tinha pouco, aceitei carona que um amigo de meu pai, de passagem pela cidade. Deveria ter descido em Beagá; o motorista, todavia, não me avisou e fui parar em Mar de Espanha. Era quase meia. Ônibus só no dia seguinte. Decidi passar a noite na rodoviária. Juntei os trocados para tomar um Guarapam. Sentia uma coisa estranha: alegria por sair da casa de meus pais, onde não se podia respirar por sermos da Assembleia; e medo, porque estava só e o mundo é casa de muitos perigos. No bar, havia um jovem cabeludo, tocando violão. Tinha olhos quase de azuis tão. Olhei. Noite vasta; bar vazio. Na pausa, puxou conversa. Havia largado faculdade no Rio e, agora, vivia assim, tocando daqui e dali. "Um dia, morena, ainda gravo com Bituca". Findou-se a apresentação. "Em vez de dormir aqui, vem descansar no meu quarto". Confesso que tive medo de ser. As tantas histórias de meu pai, mas ele tinha aqueles olhos, o violão e cantava como se fizesse cafuné no ouvido da gente. Deitamos os dois na cama de solteiro. Ele tinha tanto, era um mundo; e eu, só meu desejo de vida. E aconteceu a magia. Primeira vez na vida, experimentei o amor. Manhã seguinte, a gente se despediu. Desejamos boa sorte um ao outro e nunca mais. Ele não ficou famoso e eu me casei com este homem bom que me tem acompanhado durante toda a jornada. Já dei minha contribuição e, chegado o momento, entreguei o mundo aos filhos e, agora, aos netos. Não me lembro mais do cheiro ou do rosto daquele desconhecido que um dia me amou numa cama de solteiro. Conforta-me saber, no entanto, que ele deve estar em algum lugar, sob a abóbada celeste. Às vezes, em sonho, revejo aqueles olhos. Olhos da cor do mar de Espanha.

AMAR AS COISAS É LIBERTÁ-LAS


Amar as coisas é libertá-las
Porque ninguém perde aquilo que um dia amou
A Terra nos une
Existimos todos no mesmo colo
E, se é assim, posso amar distante
Porque não há fronteira
Quando o pensamento sorri de amor
Não estamos circunscritos entre boné e botas
Todo o mundo é meu se não construo gaiolas
Vigiar é perder
Prender é perder
Então, antes de partir para o internato, o órfão se despediu da irmã mais nova:
- Abre a mão que vou te dar uma coisa.
A pequena obedeceu.
O menino, mãos vazias, fingiu entregar um bichinho muito delicado:
- O que é?
- Um beija-flor invisível. Sempre que sentir falta, é só querer, com toda força, que você vai ouvir as asinhas batendo.
Desde então, a menina nunca mais sentiu medo.
Nem quando ficava só.
De castigo num quarto escuro

O BLACK METAL NORUEGUÊS


Doni estava em maus lençóis; desempregado havia anos, bebendo demais, vivia de favor na garagem da ex-mulher, a qual desfrutava agora as segundas núpcias com um rapaz vinte anos mais novo. Na noite em que ocorreram os fatos, Doni dormia em um dos muitos pontos de ônibus do centro da cidade, quando seu destino cruzou o destino dos integrantes da banda de black metal Valhala. Os garotos de classe média portavam, não se sabe como, duas granadas. A primeira explodiu no interior de uma Igreja Católica no bairro de Santa Teresa D'Ávila. Segundo um dos integrantes, o bando não sabia muito bem o que fazer com a segunda granada até que o vocalista, um tal Death, avistou o desempregado adormecido; tendo, em seguida, perguntado:
- Vocês duvidam eu explodir ele?
Como ninguém respondesse, menos de um minuto depois, o corpo do desempregado voava pelos ares junto aos pedaços de metal, telha e concreto que consituíam o ponto de ônibus.

CAFÉ DA MANHÃ


Certeza de ter sido a pior - e a melhor - coisa na vida da pessoa que você mais ama. Saudade de ter dezoito, cabelos fartos e fé na vida. Juntos, repartimos chiclete. Juntos, sonhamos o mesmo sonho; partilhamos futuro e violão. Na manhã de um dia frio, você disse pela primeira vez: "te amo!" E me mostrou os seios brancos. Mas Satanás, já aí, nos botou um feitiço e, mais de mil dias depois, numa tarde estranha, você me olhou calada e saquei que já não me conhecia. Saudade de nós, das coisas simples: rock antigo, jovem guarda, licor de cereja, baile de formatura. No momento em que a valsa começou, teu corpo no meu, tesão: boca, língua, orelha: sussurro sacana! Mas o Diabo nos jogou sua maldição e, quando cheguei cansado do trabalho, dezembro: teus armários abertos, as prateleiras vazias, a falta das malas. Recordo o café da manhã: "põe mais um pouco pra mim!", o rosto do filho, a noite do parto, a sensação de tornar-me pai: tudo tão eterno, infinito, tão ontem ainda. Mas o Demônio nos rogou aquela praga e, crianças de mãos dadas, no meio da tempestade, imaginando-nos invencíveis, não percebemos a noite que se avizinhava.
E nem, tampouco, a vida que nos perseguia como um mouro com a espada na mão🌻

SATÉLITES


Ela gostava do magrelo, mas foi o gordinho quem a procurou com uma caixa de bombom aberta: "O Lennon que mandou. Estava completa, mas não resisti. Só comi os crocantes, ao leite, meio amargo, os de banana e Serenata. Sobrou o Alpino. Ele falou se você não quer jogar videogame na casa dele depois da aula". E lambeu o resto de chocolate nos dedos, enquanto aguardava a resposta. Naquela tarde, almoçaram juntos. O pai dele estava por dentro; tinha inclusive financiado o chocolate. O menino mostrou seu cães, os gatos, a tartaruga, as camisetas de time, os livros. Ela olhava guardando encanto. Entrava naquele mundo masculino com pés de bailarina. "Que você quer jogar, FIFA?" "Não, vamos jogar algum que a gente fique do mesmo lado." E escolheram os bonequinhos. Ele, magrelo, preferiu um avatar mal encarado e musculoso. Ela, gordinha, escolheu uma japonesinha delicada, cuja arma era um guarda-chuva. E saíram, juntos, para enfrentar todo tipo de inimigos; enquanto o pai, atento, lavando a louça, torcia a favor da delicadeza e da ternura. No quintal, os cães, curiosos, esperavam petiscos e informações

O NINHO E O PÁSSARO


Quando cheguei, pude ouvi-lo dizer à mãe: "se o menino não me tivesse puxado tanto, Maria, poderíamos ter sido mais próximos". Meu pai veio morrer em casa. Não há mais que fazer. O câncer, feito incêndio, espalhou-se pelo corpo, pela casa, o país, o mundo. Ele ainda consegue se sentar na poltrona e assistir ao Datena; mas já não pode tomar banho, ou caminhar de volta ao quarto. Por isso estou aqui. "Não precisava ter vindo, sou duro o suficiente para encarar mais essa sozinho". Madrugada passada, entretanto, ouvi-o chorando. Sei que está com medo, mas a couraça não o deixa admitir. Receia que eu cante vitória. Não voltei para isso. Nessa guerra não houve vencedores. Nenhum ser humano quer fazer sozinho essa viagem; nossa família, porém. Nunca conseguimos conversar. Eu também não admitiria. Somos iguais, mas antípodas. Eu me tornei meu pai pela negação e, embora esteja desarmado, não consigo fugir à discussão. Quando, contudo, no primeiro dia, instalei-me no meu antigo quarto, encontrei, perdido em uma das gaveta, o carro de boi de brinquedo que entalhamos juntos há mais de trinta. Aquele foi o primeiro objeto. De lá para cá, tenho confeccionado violões, contrabaixos e guitarras para alguns dos músicos mais importantes do mundo. Tinha me esquecido, foi o pai quem me deu o primeiro formão. Agora ele está morrendo; a cada segundo. E não conseguimos conversar

VITAMINA DE ABACATE


Dona Geralda é assim, com os netinhos ninguém pode falar alto; mas, quando a gente era pequeno, a história era diferente. Uma noite, uns parentes foram nos visitar e a mãe bateu um liquidificador de vitamina de abacate. Como sempre, quem se serviam primeiro eram as visitas. E, nós, os meninos, de olho. Aí, um parente, magro, alto, daqueles que comem e não engordam, tomou um copão: "hum! Dilícia!" E repetiu. E, nós, de olho. Tomou outro. Repetiu o refrão. Quando ia encher o copo pela terceira vez, não aguentei: "Vai tomar tudo, ô?" A mãe me pegou pelas oreia, sorriu sem graça pras visitas. Falou: " Depois a gente conversa!"
Caraio😰.
Depois que os parentes partiram, a velha me sentou numa cadeira, bateu dois litros de vitamina de abacate e me fez tomar tudo sozinho. Por conta da desfeita.
Pra descontar, pirracento, tive caganeira também e não deixei ninguém dormir a noite inteira.
E ouviamos TORNERÓ 🥑

PENA BRANCA

 

Pela boca de sua principal personagem conceitual, Shakespeare afirmou a precedência do Mistério ao mundo desencantado. E Freud, nascido num berço de tradição patriarcal, reconheceu o fantasma do pai no interior da neurose. O caso que vos narro lança, pois, âncora tanto sobre o mistério, quanto sobre a figura do pai. Assim como eu, meu pai foi músico, ainda que ele tenha sido muito mais famoso. Devo confessar que, apesar de gritar o tempo inteiro, o pai nunca me agrediu fisicamente. Por outro lado, aplicava castigos de extrema violência psicológica. O mais recorrente era me deixar sentado diante de um espelho, sem poder fechar os olhos, por dez, doze horas. Pouco antes de ele levar aqueles cinco tiros, tivemos uma conversa. Parecíamos prever. Ele disse que, caso algo acontecesse, indicar-me-ia, por meio de uma pena branca, que tudo estava bem do outro lado. Pois bem, o pai foi morto. Nos anos que se seguiram, enveredei por uma espiral de vício e ideação suicida. Nunca comentei o episódio da pena. E, então, mês passado, numa tentativa desesperada de parar, viajei rumo a uma tribo isolada no meio da floresta amazônica com o intuito de passar por um ritual de cura calcado nas medicinas da floresta. Na mais tensa das sessões, o xamã, que de modo algum tinha como saber da conversa entre mim e meu pai, entregou-me, num momento em que pude sentir a presença do outro, uma pena branca e, nesta mesma tarde, ao voltar para a oca, fiquei horas sentado ante o único objeto: um espelho. Desde então, meus amigos, a compulsão pareceu ceder

SOBRE TEUS SEIOS BRANCOS


Desde menino, Arlo gostava das canções por conta das linhas de baixo. Ao crescer, tornei-ne, portanto, baixista. Quando você está numa banda, ela se torna mais que sua família. Se alguém ofende seu baterista, é como se ofendesse a irmã, ou o pai. Todos, então, sofreram muito quando desenvolvi uma fibromialgia que me deixou incapaz de tocar. Antes da doença, entretanto, já havia outro problema. Arlo não conseguia ficar perto de uma mulher depois do orgasmo. Isto o incapacitava para o amor. De nada adiantava explicar que sofria de claustrofobia post coitum. Ninguém acreditava. Com o intuito de consolá-lo ante o inconsolável que era parar de tocar, Ava, a mais maternal das backing vocals, deu-lhe bola um dia. Arlo não só acolheu, como, pela primeira vez na vida, adormeceu, ali, sobre os seios brancos, depois do gozo. Apesar da sensação de incesto, ambos souberam o que nascia. Como diziam os antigos: sempre que fecha uma janela, Deus nos abre uma porta.

COMO AS IRMÃS DE LÁZARO


Quando, hoje, depois de trinta anos, encontrei Cesário, senti uma coisa estranha; algo parecido ao que sentimos ante um vaso quebrado, ou na presença de alguém com uma dor impenetrável, como aquela que intuímos, mas não alcançamos, no interior de alguém que perdeu os filhos adolescentes num acidente. A ferida aí ultrapassa qualquer expressão e a pessoa fica com um ar assim alheio, abobalhado; como se estivesse em outro lugar. Na juventude, fomos loucos um pelo outro. Ambos quase largamos família. Agora, Cesário vivia de favor num cômodo de cortiço. Estava grisalho, gordo, banguela. Depois de muitas tentativas, tinha desistido de tentar parar e, o pior, já não escrevia. Há pessoas que cometem suicídio, mas há outras que vão desistindo aos poucos. E se acostumam ao ato de deixarem-se morrer. Ele ficou feliz ao me ver; eu, entretanto, me sentia como as irmãs de Lázaro. Ao nos abraçarmos, senti cheiro de coisa morta. E chorei. Não por ele, nem por mim, mas por tudo o que perdemos pela beira do tempo, ao longo do caminho. "Se cuida, gatinha!" - disse quando a gente estava se despedindo e, então, sorriu. Em algum lugar no interior daquele morto-vivo, o menino resistia e agora sorria através de uma face deformada. No sorriso vazado de Cesário, vi ecos da menina que eu mesma enterrei há muito. Tal e qual prédio antigo caindo em câmera lenta na tela da tevê, algumas vidas são um lento processo de demolição

UM CABRA MUITO AZARADO - I


Bebeto era moleque piranha. Cabelo na régua, bigode fino, várias pratas no pescoço e a risquinha da putaria na sobrancelha. Nunca saía só de baile. De uns tempos pra cá, no entanto, conhecera Nathally Kathlleen e, desde então, tentava sossegar. Vez ou outra, porém, recaía. Deixava a mina em casa e voava de moto pra curtir. Invariavelmente, a moça descobria. Na periferia, cada amiga é um Nelson Rubens. A tragédia toda aconteceu em quatro dias. Na quarta-feira, o casal estava bem. Foram juntos ao supermercado Nagumo da Vila Curuçá e, na saída, resolveram jogar na Mega-Sena. Fizeram três apostas e Nathally foi quem guardou os bilhetes. Na quinta-feira, passaram o dia inteiro em êxtase de amor e chocolate. Na sexta, entretanto, depois de sair da casa da namorada, Bebeto resolveu curtir o baile do Robru. Foi lá que, na madrugada, Nathally Kathlleen o encontrou agarrado a uma periguete. Estava de TPM. Já não suportava tanta promessa e jura. De modo que, depois de quebrar a cara dos dois, prometeu a si mesma que nunca mais. E, aí, no sábado, vai vendo como o Diabo é sujo, acertou os seis números da Mega-Sena! Prêmio duplo: dinheiro e vingança😱. Pobre Bebeto; tão alegre, tão safado! Provavelmente, de toda aquela bolada,

SAMBA PA TI


Tinha motivos para estar estressada. Meu pai fora um canalha na juventude e, agora, sofria com as dores do Parkinson. Durante a noite, não dormia, nem me deixava dormir. E eu tinha aquele trabalho terrível, telemarketing, e, havia mês, terminara o noivado. Além disso, o folgado do meu irmão só aparecia aos domingos, para assistir futebol e pousar de bom filho. Enquanto isso, eu tinha de lavar, engomar, cozinhar, suportar a gemedeira. E, se eu cobrasse alguma coisa, respondia: "Deve tá de TPM". De modo que, naquele dia, o copo transbordou. Quando comecei a falar, não parei mais; disse tudo que estava engasgado. O pai também não é fácil. É pelo limão que se conhece o limoeiro. Tudo o que eu dizia, retrucava. Acontece que moramos num sobrado geminado e os vizinhos estavam pintando a casa para entregar. Tinham se divorciado e agora cada um seguiria seu caminho. Neste instante derradeiro, no entanto, pintavam juntos e o rapaz colocou uma de suas playlists românticas: Bread, Chicago, Bee Gees, Boca Livre. Eu ainda xingava, quando percebi que meu pai estava chorando. As mãos agarradas à bengala, como se quisessem segurar a morte, desarmaram-me. "Que foi, pai?" "Essa canção tocou no dia em que sua mãe e eu nos casamos. Ainda sinto muita falta dela". Não consegui pedir desculpas, mas a briga parou. Fiz um chá de camomila e entreguei uma xícara. Só então reparei como estava velhinho. E quase passei a mão nos cabelos ralos ao levar as xícaras de volta à cozinha

MULHER DEPENDURADA NA MANHÃ


O outro já não saía de casa, tornara-se eremita; mas, disso, ela não sabia. Observava os corpos nus pelo espelho no teto. Embora houvesse tatuagens e intervenções estéticas, nada disso trazia de volta a rigidez. Vivia os últimos e o ponteiro de segundos soava o Inexorável. Agora, depois do orgasmo, sentia-se um pouco. Por outro lado, a imagem no teto daria uma boa pintura. Em outra encarnação, quiçá. O garoto roncava. A juventude só precisa ser jovem. Já a maturidade pode nos trazer prêmios, reconhecimento, dinheiro e a sensação de que. O que procurávamos mesmo com tanto afinco? O Sol, a Terra; arquetipologia e solidão; nada em particular. Zapeou os canais; parou por instantes em um no qual uma péssima atriz gemia. Desligou. Banheiro. Água-rosto-retorno. Sentou-se na cadeira, pegou uma fruta e, aí, o garoto acordou. Feito neto, levantou fazendo barulho, coçando-se, abrindo janelas. Atirou-se ao chão e executou sequência de flexões... E, Deus, como falava! Logo de manhã! Blá, blá, blabíceps e tríceps... Para que se calasse, ofereceu uma maçã:
- Estão murchas, gatona!
Só aí percebeu que a vida em suas mãos tinha um gosto de plástico; ou de morte; ou de terra.
Apesar do som de estacas, a manhã seguiu lenta e resiliente como a fila do mercado pra terceira idade. Em algum momento do passado, o monge havia dito: "Deve ter algo mais, vou me sentar até descobrir o segredo".
Que inveja ela sentiu, enquanto apanhava as chaves do quarto e do carro.
A imagem pode conter: comida
Lívia Regina, Bianca Nóbrega e outras 15 pessoas
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