quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A ETERNIDADE NUM MOMENTO DE CARINHO

Tire-se do caminho. Deixe que algo maior se expresse através de você. Dê-lhe o nome que quiser; ou melhor, não nomeie. Há uma passagem no Evangelho de Mateus, na qual Jesus diz que, se tivéssemos fé do tamanho de um grão de mostarda e ordenássemos a uma montanha que se jogasse no mar, ela obedeceria. A questão central é: o que é a fé? Fé é abandono, renúncia, ausência de eu. Nenhum poder aí seria meu. Eu estaria encolhido num cantinho de mim para que a Desmesura pudesse se pronunciar. Não haveria, nesta ordem, qualquer traço de um desejo meu; apenas meu coração vazio, feito flauta, para soar a ordem. Tal comando não dependeria de minha vontade. Se fosse eu mesmo a dá-la, nenhum grão de poeira se moveria. Ter fé não é pedir facilidade, almejar ter os desejos mais mesquinhos satisfeitos; pelo contrário, ao Cristo destinaram a paixão. Nossa fé é ínfima porque temos medo. Por medo, duvidamos - os filhos tarde da noite na rua. Por medo, mentimos. Por medo, refugiamo-nos na fé e, por medo, ainda não temos fé o bastante. Se nossa fé fosse do tamanho de um grão de areia, não haveria necessidade de ordenar que a montanha se atirasse ao mar. Pelo contrário, gozaríamos em aprender com o obstáculo. Toda montanha é uma dificuldade; mas, do alto dela, nossa vista se torna mais ampla. Ter fé é, por fim, querer a montanha aí onde ela está e ser grato por possuir, apesar do esgotamento, forças para escalá-la. Ter fé é aceitar o caminho e adaptar-se a ele tal qual olho d'água que desce esta mesma montanha.

A fé não murmura, aprende

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