Na escola, aprendemos desde cedo, nas aulas de gramática, a não separar o sujeito do verbo e nem o verbo do objeto. Seria preciso rever a gramática normativa. Há muito que o sujeito não engendra ações, mas é completamente arrastado pelas circunstâncias ou simplesmente está separado da ação, não por uma vírgula, mas por uma imensa impotência. Com a crise do sujeito estamos acostumados, não é novidade. No século passado, autores como Roland Barthes, Maurice Blanchot, Jacques Derrida, Michel Foucault e Gilles Deleuze bateram pesado no conceito de sujeito, mas que dizer da crise do verbo, se no princípio era o verbo? Em seu livro de estreia, a coletânea de contos Sujeito Sem Verbo, o escritor, músico, professor e fotógrafo paulistano Fernando Rocha parece pôr em xeque tanto o conceito de sujeito quanto o de verbo. Eu, explico, melhor, abaixo...
Sujeito Sem Verbo
é composto de cinquenta narrativas curtas nas quais a ausência de ação é
notória, assim como a ausência de nomes próprios nas personagens. As narrativas
parecem emergir de um fundo indiscernível. Não é o mundo que passa a existir a
partir da visão de um sujeito, mas um fundo que é o nada, ou o caos que
engendra, apesar de o verbo ser inadequado, pequenas individualides, todas elas
sempre impotentes. É como se num pântano de água escura flutuassem, em vez de
vitórias-régias, fotografias 3X4. E nós vemos emergir nessas fotografias um
velho que chora, mas para o qual oferecem colírio, sinal dos tempos brutos; uma
menina que mergulha em festas para disfarçar o vazio, o toque do vazio; um
neurótico que se recusa a se juntar aos outros, em vez de anônimo, neurótico
autônomo; vemos o aniversário de uma senhora na terceira idade nos lembrar o
próprio Feliz Aniversário, de
Clarice Lispector.
Se fôssemos buscar um correspondente dos contos de Sujeito Sem Verbo no cinema, o
encontraríamos, sem dúvida, no flerte com o silêncio do desajustado personagem
Travis, do filme Paris, Texas, de
Win Wenders. Se buscássemos tal correspondência na música, encontraríamos nos
álbuns de Lou Reed, ou nas canções banda indie
escocesa Belle and Sebastian. Assim
como na obra destes outros artistas vemos deslizar nas narrativas de Fernando
Rocha um longo comboio de desajustados. O narrador, a maioria dos contos é
narrada em terceira pessoa, parece os tratar com imparcialidade, mas há uma
ternura misteriosa que nos toca mesmo com o uso escasso de adjetivos.
Em se tratando de literatura, talvez Fernando Rocha
encontre seus correspondentes em escritores concisos, como Juan Rulfo,
Graciliano Ramos ou Dalton Trevisan. A diferença é que, com exceção do último,
todos estes escritores citados anteriormente se ligam de uma forma ou de outra
ao regionalismo. Fernando é um escritor urbano, estaria mesmo mais para Lou
Reed, ou para uma mistura homogênea entre o Graciliano de Vidas Secas e a Virgínia Woolf de Mrs Dalloway.
Em seu livro O que é filosofia? Deleuze estabelece o
conceito de gosto que seria a tripla
faculdade do conceito ainda indeterminado, do personagem conceitual ainda nos
limbos e do plano de imanência ainda transparente. Deleuze aproxima assim a
filosofia da arte, posto que a filosofia, em vez de ser a busca pela verdade,
seria uma questão de gosto: proustiano. A busca da verdade estaria ligada à
filosofia da representação e aos tribunais da filosofia jurídica de Kant. A
crítica literária parece ter, por muito tempo, seguido este mesmo caminho, o do
tribunal. Mas eu, que não sou crítico, fecho com Deleuze e Rilke, que em sua Carta a um jovem poeta diz que só o
amor pode entender a obra de arte. Amo ou detesto, mas não julgo. E, no caso das narrativas deste Sujeito Sem Verbo,
posso dizer que foi amor à primeira vista.
Abaixo,
como degustação, um trecho do conto que intitula o livro:
Seu
desapego era crescente, já não ligava mais para a boa aparência, despia-se de
seu formato original para agora repousar no infinito nada, seu último verbo foi
chegar, conjugado na primeira pessoa
do singular, assim como vários outros já tinham feito, estes que em um tempo
anterior poderiam formar a terceira do plural e agora, inconscientemente, são
seus companheiros: somou-se a eles em um inseparável nós, chegou ao ponto final.
SUJEITO
SEM VERBO, de Fernando Rocha. Lançamento dia 27/11,
a partir das 19:30 na Casa das Rosas. Avenida Paulista, 37 - Bela Vista
