sábado, 23 de novembro de 2013

As fotografias 3X4 do escritor Fernando Rocha

        

Na escola, aprendemos desde cedo, nas aulas de gramática, a não separar o sujeito do verbo e nem o verbo do objeto. Seria preciso rever a gramática normativa. Há muito que o sujeito não engendra ações, mas é completamente arrastado pelas circunstâncias ou simplesmente está separado da ação, não por uma vírgula, mas por uma imensa impotência. Com a crise do sujeito estamos acostumados, não é novidade. No século passado, autores como Roland Barthes, Maurice Blanchot, Jacques Derrida, Michel Foucault e Gilles Deleuze bateram pesado no conceito de sujeito, mas que dizer da crise do verbo, se no princípio era o verbo? Em seu livro de estreia, a coletânea de contos Sujeito Sem Verbo, o escritor, músico, professor e fotógrafo paulistano Fernando Rocha parece pôr em xeque tanto o conceito de sujeito quanto o de verbo. Eu, explico, melhor, abaixo...
            Sujeito Sem Verbo é composto de cinquenta narrativas curtas nas quais a ausência de ação é notória, assim como a ausência de nomes próprios nas personagens. As narrativas parecem emergir de um fundo indiscernível. Não é o mundo que passa a existir a partir da visão de um sujeito, mas um fundo que é o nada, ou o caos que engendra, apesar de o verbo ser inadequado, pequenas individualides, todas elas sempre impotentes. É como se num pântano de água escura flutuassem, em vez de vitórias-régias, fotografias 3X4. E nós vemos emergir nessas fotografias um velho que chora, mas para o qual oferecem colírio, sinal dos tempos brutos; uma menina que mergulha em festas para disfarçar o vazio, o toque do vazio; um neurótico que se recusa a se juntar aos outros, em vez de anônimo, neurótico autônomo; vemos o aniversário de uma senhora na terceira idade nos lembrar o próprio Feliz Aniversário, de Clarice Lispector.
            Se fôssemos buscar um correspondente dos contos de Sujeito Sem Verbo no cinema, o encontraríamos, sem dúvida, no flerte com o silêncio do desajustado personagem Travis, do filme Paris, Texas, de Win Wenders. Se buscássemos tal correspondência na música, encontraríamos nos álbuns de Lou Reed, ou nas canções banda indie escocesa Belle and Sebastian. Assim como na obra destes outros artistas vemos deslizar nas narrativas de Fernando Rocha um longo comboio de desajustados. O narrador, a maioria dos contos é narrada em terceira pessoa, parece os tratar com imparcialidade, mas há uma ternura misteriosa que nos toca mesmo com o uso escasso de adjetivos.
            Em se tratando de literatura, talvez Fernando Rocha encontre seus correspondentes em escritores concisos, como Juan Rulfo, Graciliano Ramos ou Dalton Trevisan. A diferença é que, com exceção do último, todos estes escritores citados anteriormente se ligam de uma forma ou de outra ao regionalismo. Fernando é um escritor urbano, estaria mesmo mais para Lou Reed, ou para uma mistura homogênea entre o  Graciliano de Vidas Secas e a Virgínia Woolf de Mrs Dalloway.
            Em seu livro O que é filosofia? Deleuze estabelece o conceito de gosto que seria a tripla faculdade do conceito ainda indeterminado, do personagem conceitual ainda nos limbos e do plano de imanência ainda transparente. Deleuze aproxima assim a filosofia da arte, posto que a filosofia, em vez de ser a busca pela verdade, seria uma questão de gosto: proustiano. A busca da verdade estaria ligada à filosofia da representação e aos tribunais da filosofia jurídica de Kant. A crítica literária parece ter, por muito tempo, seguido este mesmo caminho, o do tribunal. Mas eu, que não sou crítico, fecho com Deleuze e Rilke, que em sua Carta a um jovem poeta diz que só o amor pode entender a obra de arte. Amo ou detesto, mas não julgo. E, no caso das narrativas deste Sujeito Sem Verbo, posso dizer que foi amor à primeira vista.
Abaixo, como degustação, um trecho do conto que intitula o livro:

Seu desapego era crescente, já não ligava mais para a boa aparência, despia-se de seu formato original para agora repousar no infinito nada, seu último verbo foi chegar, conjugado na primeira pessoa do singular, assim como vários outros já tinham feito, estes que em um tempo anterior poderiam formar a terceira do plural e agora, inconscientemente, são seus companheiros: somou-se a eles em um inseparável nós, chegou ao ponto final.


SUJEITO SEM VERBO, de Fernando Rocha. Lançamento dia 27/11, a partir das 19:30 na Casa das Rosas. Avenida Paulista, 37 - Bela Vista

domingo, 3 de novembro de 2013

Lance de dados

Cada lance de dados mergulha mundos na Sombra. Tudo o que se desvela, vela algo latente. O caminho que tomo agora, suprime o fato de que poderia ter ido por outro caminho. No entanto, de certa forma, em alguma dobra do tempo, estou no caminho velado que agora se desvela velando o anterior. E também estarei no outro caminho... E no outro... E no outro... E no outro. Até que só me reste o resultado do primeiro lance de dados. E novamente estarei nesta estrada da qual jamais escapei... E depois na outra... E na outra... E ainda na outra, feito um rato de gaiola percorrendo sua roda, tendo a ilusão de que sai do lugar. Que estou dizendo? Um lance de dados afirma todas as possibilidades de uma vez. Se jogo os dados duas vezes, o fato de ter dado o número 5 na primeira, não exclui o fato de que o 5 possa vir a dar novamente, e novamente, e novamente. Para continuar com a imagem do rato e da roda, o rato poderia nunca ter estado na roda, porque os lances se seguem e afetam o ponto de lançamento uns dos outros. Para Heidegger é o Ser (com maiúscula) quem se dá a desvelar, quem joga os dados e sabe o resultado, o que nos aparece como acaso é na verdade destino, plano do Ser. Quando as possibilidades se esgotarem, elas tornarão a se repetir, como numa equação cristalina. Isso nos leva aos dois ensinamentos do mestre Zarathustra, que ensina primeiro o eterno retorno do mesmo, o que livra o homem do seu maior ressentimento, o ressentimento contra a morte, e o libera para o segundo ensinamento de Zatrathustra, o além-homem, aquele que diz sim. Os dados são lançados, ninguém os lança, não há sujeito ou escolha, o acaso não é o meio pelo qual o Ser, ou o Espírito se dão a conhecer. Estes são os maus lances de dados que se inscrevem nas mesmas hipóteses. Aqui, o próprio acaso é o fim, o ser, e mantem os dados girando numa velocidade tão grande que os próprios dados se desintegram, desprendem-se os pontos pretos, restam raios, fluxos e o branco, soma de todas as cores. Lá onde se espera o diferente, pode vir a repetição, onde se espera a repetição, pode vir eternamente o diferente. Os dados não caem ordenadamente, primeiro o 1, depois o 2, depois o 3, o 4, o 5, o 6. Podemos jogar os dados 12 vezes e nas doze vezes cair o número 1, ou o número 1 pode não cair em nenhuma delas. Voltando ao eterno retorno, o sim só vale se for um sim à transitoriedade, um sim à plena transitoriedade. O ser é unívoco, se diz sempre de uma mesma maneira sobre todas as coisas, mas o que essa boca fala é a própria diferença, a única coisa permanente é a mudança, o devir. Império do fantasma e do simulacro. O idêntico é a própria diferença, não espera a repetição de uma mesma identidade, mas de uma singularidade pré-individual. Talvez o sim aqui seja  aquele sim a que Nietzsche tenha chegado somente em Ecce Homo, quando afirma ter sido Alexandre, o grande, numa das vezes em que passou pela Terra. Fica algo de Dionísio em Alexandre, algo de Alexandre em Napoleão, algo de Napoleão em Nietzsche, mas ao que me consta Alexandre não tinha bigodes. Já Belchior... Um Nietzsche brasileiro seria ainda mais nietzscheano. Jamais acreditaria num deus que dançasse a valsa vienense, só acreditaria num deus que dançasse samba.