Matheus
Então ela
não conseguia se dispersar. Estranho, houve um momento em que ambos não sabiam
o que fazer com as mãos, estranho mesmo.
- E aí?
- E aí o
quê?
- O que
você vai querer, ué?
- Tire a
roupa.
O
vestido vermelho escorregou fácil e se deitou preguiçoso no chão, feito um
prato de cerejas. Ele acariciou a maçã e mamou um pouco. Pediu que ela se
virasse, ajoelhou no chão e passou a língua manchada de nicotina sobre o
morango: maduro. Dos lábios dela escapou um gemido. Agora sabia o que era a
verdade. A verdade é uma fruta vermelha e todas as filosofias nunca foram mais
que a ausência de cor.
Deitaram-se
nus. Abraçaram-se e foi então que ele aconchegou a cabeça entre os seios dela e
começou a chorar. A princípio em silêncio, só as lágrimas escorriam. Aos
poucos, porém, começou a soluçar e a gemer num choro convulso. Em determinados
momentos, chegava a perder o fôlego.
- Chiiiu
– Ela disse, afagando-lhe os cabelos, e começou a recitar sussurrando o trecho
do Drummond que decorara desde os tempos imemoriais do colégio de freiras. – Vamos, não chore, a infância está perdida,
a juventude está perdida, mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou, o
segundo amor passou, mas o coração continua.
- Não é
verdade, o coração não continua. Só dói o tempo todo, como uma rosa pisada e
repisada. Uma rosa sobre a qual sambaram.
- Ainda
assim a rosa é uma rosa e continua vermelha.
- Você
se aproxima em ondas, eu sei por dentro, estávamos em pólos opostos da
circunferência, mas, ao longo do tempo, fomos girando em círculos concêntricos
e agora estamos aqui. Eu te pressinto desde os tempos em que andava procurando
pela Galileia. O impacto do encontro me petrificou.
- E por que
é que você está chorando tanto? O encontro não é bom?
- O
espetáculo me emociona. É a beleza que me faz chorar. Tudo, absolutamente tudo,
está em chamas, você não percebe? Lá fora, homens incendiados caminham sobre
ruas incendiadas. Pardais incendiados cantam na copa de árvores incendiadas. Carros
incendiados chocam-se com trens incendiados. Os números, mais que as palavras,
explicam tudo, mas qual equação desvenda a chama?
- É um
espetáculo bonito mesmo, mas é triste.
- Sim
triste, e os atores, que são ao mesmo tempo espectadores uns dos outros, estão
distraídos. Alguns cochilam. Outros estão embriagados demais para se lembrar
qual era a fala. O bebê não se
envergonha de seu sexo, ou de suas fezes, mas nos homens colocamos roupas; e
nas roupas, carros; e nos carros, garagens; e nas garagens, casas; e
nas casas, telhados. Idolatramos a casca, não a fruta. É preciso esconder a criatura, pois
sempre angustia o que perece. E o que defeca, morre, e o que procria, morre,
como qualquer gato, qualquer cachorro. No lado escuro da Lua brotam flores vermelhas, azuis, amarelas e roxas. Admiramos,
na ficção, os homens que, mesmo no corredor da morte, mantêm a cabeça erguida.
Estamos no mesmo corredor, o nosso é só um pouco mais longo. É preciso esforçar-se
pelo Sim, viver como um condenado que faz dançando, só de pirraça, o caminho
que leva da cela ao patíbulo. É hora de honrar a vida. É hora de ser para a
morte. Contar o que nos é sussurrado e calar. O mesmo ventre nos aguarda do
outro lado. Somos eternidade escura que um dia, por acaso, brilhou. O tédio é a
lembrança de quando não éramos. É melhor morrer de tédio que de vodca... E a palavra... A
palavra é uma forma muito pequena para um bolo grande demais. Eu queria
transformar a própria forma em
bolo. Sabe o que estou querendo dizer?
- Puxa como você fala... Sem chance,
cara, eles nunca comeriam um tal produto da tua confeitaria. Ninguém dá a
mínima.
- É, eu
sei. Estou ocupado! Dizem. Há carros demais, marcas demais, rótulos demais,
viagens demais, às vezes pagas a prazo em longas e suaves prestações. O véu de Maya
venceu, os homens não conseguem ver a realidade das coisas por baixo dele. Uma
vez, quando era pequeno, fui com minha família, num passeio de férias, a Búzios.
Meus pais brigaram. Meu velho me arrastou pelo pulso até um quiosque no qual
tomou treze caipirinhas e dormiu embriagado sobre a mesa. Tentei acordá-lo, mas
não consegui. Saí desesperado pela praia em busca de ajuda. Não encontrei
qualquer pessoa que tivesse vindo com a gente. Estavam todos invisíveis. Mas,
no canto da praia, dentro de um castelo de areia, havia um velho albino de
barba branca que corria até o mar com um baldinho dourado, pegava um pouco de
água, voltava e jogava a água do baldinho amarelo, dentro de outro balde um
pouco maior, vermelho e sem fundo. A areia ao redor estava encharcada, um
lamaçal danado em volta. O
que é isso aí? Perguntei ao velho. É a vida, ele respondeu... Repeat: O que é isso aí? Perguntei ao
velho. É a vida, ele respondeu... Estou só passando o tempo. Viver é encher de
água um balde sem fundo. Saí correndo dali, acabei adormecendo na praia, e
quando acordei já era grande. Tinha dezenove anos. Era no meu peito que as
ondas vinham quebrar.
- E os
seus pais?
- Como
disse, isso tudo faz muito tempo. Eles ainda estão juntos, envelheceram juntos.
Hoje moram em Ourinhos.
-
Ourinhos?
- É.
- Já
passei por Ourinhos.
- Faz
tempo que eu não os visito.
Pause
- Posso
te pedir uma coisa?
- Falaí?
- Me
fode. Vai por mim. Tenho experiência. Ninguém fode como um desesperado.
Ele,
porque era um camundongo, também habitava a fenda, mas era das cavidades
redondas que mais gostava e foi lá que construiu abrigo sobre o morango
esmagado. Dentro dos casulos acomodados no jasmim em frente à janela do quarto,
as lagartas dormiam e sonhavam borboletas.
- Fodeu,
acho que vou ficar louca por você. Ela pensou baixinho pra ele não ouvir,
enquanto dormia como uma criança entre seus seios.
Do outro
lado da cidade, o menino acordava para beber água. Tinha sonhado um sonho bom.
Jogava num time grande e marcava, no último minuto da final da Champions League, um golaço de
bicicleta. Nos lábios crescia um sorriso cada vez maior.