Há destinos piores que a morte. É necessário que fique claro: Ana não se suicidou porque queria morrer; mas porque queria voltar a sentir. Estava cansada de passar os dias olhando o mar da varanda; em silêncio; em solidão – o barulho das ondas. A tristeza causada pelo belo dilacera mais.
- O pior já passou!
Não, Senhor, o pior estava por vir; não era a dor da morte do filho, do abandono, do golpe na autoestima causado pela traição. Onde há algo, ainda que seja uma dor, é indício de que a vida prossegue. Tudo isso tinha passado e, agora, não a vida, mas o nada; não o vazio, muito menos o oco, mas a ausência de buraco – esta coisa branca, invisível, impalpável. Ana fazia pequenos cortes com a gilete na batata da perna, arrancava as cascas das feridas. Tentava. Não era automutilação, era meio de se agarrar. A cada dia, produzia em si lacerações maiores. O espelho do banheiro estava quebrado por conta de uma cabeçada. Havia sangue proveniente da testa nas paredes brancas da sala e ninguém. Quartos escuros, prostitutas, meninos tristes, ostras, caranguejos e aranhas caranguejeiras, tudo de triste e obscuro. O que é isto que se comunica com nossa solidão a partir do momento em que se estabelece a paraplegia entre a alma e o corpo? Vocês querem gozar? Arquitetam traições em motéis fuleiros? Saem pra caçada em tempos de peste? Defendem a esquerda progressista? Não, nada; brancura. Neve onde não. Buracos de queijo sem o queijo; abismo sem borda. Não houvesse a varanda, levitaria. Diluir-se-ia no aberto, posto que era parte: corpo sem órgãos. Sim, há destinos bem piores! Uma sensação de cerco, acosso, como nos filmes de ação em que o herói é perseguido pela polícia e a máfia; só que sem polícia e máfia. Neste lugar da alma onde você ousou chegar, ninguém pode te seguir: Deus é uma dor vasta! Um nome de ferida. Você foi longe demais, menina e, agora, teu olhar em nada difere do olhar terrível de Friedrich Nietzsche, catatônico, indiferente, nos dias finais. Entre o nada e a dor, a gente escolhe a dor. Sentir ao menos o corpo explodindo de encontro ao chão: carne e catch up, omelete de sangue e vísceras espalhado na calçada. Bum! No exato instante-já do toque, entretanto, a vitória, a volta do sentimento, a dor grande que nos devolve ao corpo antes de nos tirar dele pela última vez.
Na rodovia: chuva, pista molhada, um automóvel cujo pneu toca o asfalto e depois não. O mundo que segue indiferente.🌻
quarta-feira, 25 de março de 2020
terça-feira, 24 de março de 2020
DONIÉ: RICO, PUETA E MINTIROSO
Nesse tempo eu era casado de novo. Na festa, foi tanta cana que quase perdi a mulher. Fim de semana chuvoso assim, livre de quarentena, era todim no boteco do Buíque e eu, paulistano, filho de mineiro, virava nordestino igual. Buíque abria uma garrafa de Pitu, fatiava o caju; da padaria vinha véi Tavare, já devidamente bebo; Cunhado encostava a Kombi; Ciço alisava a careca, lambia o bigode. Eita porra! Gente tinha acordo: todo mundo cria na mentira alheia; por respeito. Duas cachaças e eu ficava rico. Falava de minha granja que tava só engordando frango, dia e noite, no Paraná; da fazenda de meu pai; do mercadinho que tinha comprado no Vila Mara - Edilsinho até me pediu emprego, mas já na segunda-feira; de modo que eu tava pobre de novo. - Vez em quando alguém exagerava; lírico. Ciço: “Tu crê, Doniê, que peguei um pacu de sessenta quilo?” Eu tumava um gole, chupava um caju: “Sessenta?” “Tô te falando, por essa luz!” “Pelamor, Ciço, a gente quer acreditar, mas diminui uns dez quilo”. O povo ria: cana pra dentro. Eu, por meu turno, fingia tão bem que, ou o povo cria, ou fingia crer, que eu também era pernambucano, nascido em Pedra, distrito de Buíque, pertim de Arcoverde. “E o que é que tem lá em Pedra, Donié?” “Tem nada não, só a Pedra mesmo!” Em quando ficava bêbo, cismava de buscar o fole em casa. Márcia prendia. Chamava a mãe. Coitada, pense numa menina nova, do interior, casada com um caba desmantelado! Sanfoneiro.
Pois bem. Dia de domingo, tinha feira na rua de casa. Eu morava de frente da casa de pai. O boteco do Buíque, ainda hoje, é na esquina. Cheguei cedo. Dia de feira era o melhor. Desci de cara duas lapadas. Copo cheio. Sacola cheia. Fiquei pueta. Alguém dava o mote e eu, em cima, cosia o verso. E aí vi a S10 cabine dupla do outro lado da rua:
- Hein, Buíque? É minha. Comprei ontem. Setenta mil, mas valeu. Carro bom. Nele, curva é o mesmo que reta.
Aí chegou Ciço:
- Donié comprou a máquina!
- Eita, porra, bora comemorá!
- Que seja, põe um quilo de linguiça na chapa, Buíque, e destampe as Brahma!
E foi que foi. E todo mundo elogiando meu carro, e eu taludo, orgulhoso de minha posse. Até que chegou o dono. Colocou as frutas no banco de trás, deu a partida e se-foi-se. Com meu carro!😱
Silêncio.
Todo mundo me olhando: oxente? E eu, ligeiro:
- Acode que o caba roubou meu carro aqui inda agorinha e ninguém faz nada. Empresta o celular que vou dar parte! Ciço, enche meu copo que tô infartando. Cunhado, qual é o número da Porto?
Tem hora que desconfio que escrevo só pelo gosto de mintir com arte.😉
Pois bem. Dia de domingo, tinha feira na rua de casa. Eu morava de frente da casa de pai. O boteco do Buíque, ainda hoje, é na esquina. Cheguei cedo. Dia de feira era o melhor. Desci de cara duas lapadas. Copo cheio. Sacola cheia. Fiquei pueta. Alguém dava o mote e eu, em cima, cosia o verso. E aí vi a S10 cabine dupla do outro lado da rua:
- Hein, Buíque? É minha. Comprei ontem. Setenta mil, mas valeu. Carro bom. Nele, curva é o mesmo que reta.
Aí chegou Ciço:
- Donié comprou a máquina!
- Eita, porra, bora comemorá!
- Que seja, põe um quilo de linguiça na chapa, Buíque, e destampe as Brahma!
E foi que foi. E todo mundo elogiando meu carro, e eu taludo, orgulhoso de minha posse. Até que chegou o dono. Colocou as frutas no banco de trás, deu a partida e se-foi-se. Com meu carro!😱
Silêncio.
Todo mundo me olhando: oxente? E eu, ligeiro:
- Acode que o caba roubou meu carro aqui inda agorinha e ninguém faz nada. Empresta o celular que vou dar parte! Ciço, enche meu copo que tô infartando. Cunhado, qual é o número da Porto?
Tem hora que desconfio que escrevo só pelo gosto de mintir com arte.😉
ENFIM
O que faz de um texto um poema é força do Qí que ele concentra. Neste momento, todos tememos a doença, porque estamos parados e nosso cotidiano é organizado de modo a empurrar a morte pra baixo do tapete. Agora, não há para onde fugir. O frio se impõe com o silêncio dos túmulos. Há, no entanto, coisas piores que a morte: arrastar um corpo vivo, mas morto de todos os sentimentos e carente de qualquer sentido; olhar a lua cheia e nada sentir, nada; ver a menina passar e não compor uma canção. Há vida antes da morte? O problema não é morrer, mas a vida que se vive até o desenlace e quem poderia dizer que estava realmente vivo mês passado? Quem poderia se dizer quente, entusiasmado, alegre? Amigável para com a amizade e amoroso para com o amor? Por um trabalho que não nos transforme em engrenagem, parafuso, chave de fenda. Jovem, fiz uma aposta radical: ou a vida seria celebração, ou seria nada. Falhei. Deve haver um meio termo. Que a face de meu irmão não me seja indiferente; que ela me lembre sempre o enigma que é o outro estar aí, existindo, habitando cada feixe de músculos, e moléculas, e átomos de seu corpo. Que a finalidade da vida não seja superar meu irmão, ou meus antepassados; mas louvar as borboletas, a serralha, uma florzinha qualquer sem nome.
E, se você não puder vir comigo, ao menos não me aponte o dedo.
Muito antes da doença, eu já sabia da morte e gostava de ficar em casa, só, em silêncio. Aceitei minha companhia insuportável e caminhei com minha sombra até poder dizer que há muito gozo em ser só; bem como há gozo em estar acompanhado. O problema é estar só no meio dos outros e trazer o outro, que só nos irrita, pra dentro da nossa solidão. Quando não há ninguém por perto, você pode arrancar a máscara e ver seu rosto real no espelho. É belo? Há amor no semblante refletido? Por que essa necessidade estúpida de ter razão? Quando tenho razão, que parte de mim se regozija? No fim, política, arte, competência, igualdade, compaixão, empatia, alteridade podem não ser mais que substantivos, alimentos para uma sombra vaidosa. Retiradas as máscaras, não conseguimos nos encarar, ou suportar o cheiro de carne podre. Quem sabe, depois da peste, eu tire novo diploma, ou troque de carro e continue mentindo. Por que a verdade só se dá a quem tem a coragem de ser humilde. E humildade é parar de representar. Saber-se falho, imperfeito, errante. Mesmo em solidão, a gente continua agindo como se houvesse plateia; sentindo os sentimentos que nos disseram ser louváveis. Não se trata de erguer altar à canalhice, mas viver de acordo com o que se diz e dizer a partir de uma profundidade que dissolve a máscara. Há uma grande mentira por aí, a qual leva do berço ao túmulo sem que o ser humano viva. Ela é alimentada pela família, pela escola, pela universidade, pela tevê, as celebridades, pelas redes sociais.
Enfim.
E, se você não puder vir comigo, ao menos não me aponte o dedo.
Muito antes da doença, eu já sabia da morte e gostava de ficar em casa, só, em silêncio. Aceitei minha companhia insuportável e caminhei com minha sombra até poder dizer que há muito gozo em ser só; bem como há gozo em estar acompanhado. O problema é estar só no meio dos outros e trazer o outro, que só nos irrita, pra dentro da nossa solidão. Quando não há ninguém por perto, você pode arrancar a máscara e ver seu rosto real no espelho. É belo? Há amor no semblante refletido? Por que essa necessidade estúpida de ter razão? Quando tenho razão, que parte de mim se regozija? No fim, política, arte, competência, igualdade, compaixão, empatia, alteridade podem não ser mais que substantivos, alimentos para uma sombra vaidosa. Retiradas as máscaras, não conseguimos nos encarar, ou suportar o cheiro de carne podre. Quem sabe, depois da peste, eu tire novo diploma, ou troque de carro e continue mentindo. Por que a verdade só se dá a quem tem a coragem de ser humilde. E humildade é parar de representar. Saber-se falho, imperfeito, errante. Mesmo em solidão, a gente continua agindo como se houvesse plateia; sentindo os sentimentos que nos disseram ser louváveis. Não se trata de erguer altar à canalhice, mas viver de acordo com o que se diz e dizer a partir de uma profundidade que dissolve a máscara. Há uma grande mentira por aí, a qual leva do berço ao túmulo sem que o ser humano viva. Ela é alimentada pela família, pela escola, pela universidade, pela tevê, as celebridades, pelas redes sociais.
Enfim.
O MARATONISTA
Quando foi para a Universidade, aprimorar seu treino como maratonista e, de quebra, conseguir um diploma de nível superior, Ed. Wilson já corria quinze quilômetros em menos de quarenta e cinco minutos. Era tido por muitos como gênio do esporte, ainda que treinasse em estradas de terra, no meio do canavial. Já em seu primeiro treino oficial, deram-lhe uma parafernália de equipamentos. Segundo o instrutor, Ed. Wilson não podia chegar assim e simplesmente correr. Primeiro, seria preciso passar uma gama infinita de etapas. Para começar, deveria correr com um suporte para as pernas, de modo que não forçasse demais os músculos. Tratava-se de um suporte igual àquele que Forrest Gump usava na infância. Com tal equipamento, Ed. Wilson foi um corredor medíocre, em nada se destacou dos demais. Havia regras para correr, sim senhor; de modo que ele não podia chegar e simplesmente dar seu pinote. Por quinze meses, treinou com o suporte para as pernas. Depois disso, permitiram-lhe correr sem tal equipamento. Ed, no entanto, tinha praticado tanta musculação e perdera de tal forma a naturalidade que seu tempo para percorrer os mesmos quinze quilômetros subira para mais de cinquenta minutos:
- Agora o senhor começa a entender do que se trata – disse o técnico, no final de mais um dia de treinos.
Mas Ed. Wilson, seguro de si, retirou o par de tênis e atirou no peito do treinador. Não queria disputar. Não lhe interessavam títulos. Voltou para as estradas de terra, no meio dos canaviais e é lá que corre até hoje.
- Ele poderia ter sido o maior de todos – disse o treinador, em entrevista outro dia, sem entender ainda que Ed. gostava de correr e não de competir.
- Agora o senhor começa a entender do que se trata – disse o técnico, no final de mais um dia de treinos.
Mas Ed. Wilson, seguro de si, retirou o par de tênis e atirou no peito do treinador. Não queria disputar. Não lhe interessavam títulos. Voltou para as estradas de terra, no meio dos canaviais e é lá que corre até hoje.
- Ele poderia ter sido o maior de todos – disse o treinador, em entrevista outro dia, sem entender ainda que Ed. gostava de correr e não de competir.
A VOCAÇÃO LITERÁRIA
Anteontem, assisti ao filme A estória sem fim, cujo enredo trata de um menino atravessando o luto causado pela morte da mãe. O garoto vai mal na escola, sofre bullying, é cobrado pelo pai para que tenha os pés no chão. Durante a fuga de uns valentões, entra numa livraria e, lá, o dono apresenta-lhe um livro de cuja estória o leitor pode participar. Ao chegar atrasado para a prova de matemática, o menino se tranca no sótão da escola para ler. No enredo do livro, o reino de Fantasia é ameaçado pela ofensiva devastadora do Nada. Aqui, o leitor de poesia e o psicólogo dariam as mãos; tanto o poema quanto o analisando nos falam de modo simbólico, apontando para um lugar sem nome: o interior do livro é o coração da criança. O trabalho tanto do psicólogo quanto do leitor não consiste, no entanto, em decodificar o símbolo, encontrar o significado exato para cada significante; mas em caminhar junto, fazer a travessia, estar ao lado enquanto uma alma percorre a trilha que leva a si mesma. Sobre a vocação de escrever. Grosso modo, ela é a possibilidade de dar sentido ao nada; mas não só. Trata-se também do ofício de fabricar o sonho. Ao protagonista, Bastian, Gmork, monstro-perseguidor, responde que seu trabalho é aniquilar o sonho e a esperança. Por quê? Controle. Pessoas tristes são mais fáceis de controlar. Durante todo o livro, Bastian vacila diante da ideia de que pode interagir com o livro e ajudar Atreil, um duplo do próprio Bastian, a salvar a princesa e o reino de Fantasia. No fim das contas, toda a trama tem por objetivo fazer com que Bastian, o menino terráqueo, atenda ao chamado do próprio livro para participar da estória. Esta estória sem fim é a Literatura, a canção da humanidade. A cada geração, em cada quarto isolado, algumas crianças desencaixadas do mundo lá fora são chamadas a dar continuidade a essa longa conversação da humanidade com ela mesma. Como no filme, muitas fracassam, pois acreditam que belas armaduras (palavras) são mais importantes que a fé no próprio coração. Como acontece na película: a esfinge as aniquila. E tem de ser assim, porque a busca literária não é separada da busca de si. A estética não é um artifício técnico, mas a beleza que brota tal qual rio no interior de cada ser. Encontrar a nascente é encontrar o veio, o jorro poético.
Enfim, cada cena do filme abre porta para o diálogo com a jornada do herói, de Campbell, com psicologia analítica, de Jung, com a própria literatura se movimentando ao longo do tempo. Deixo Drummond pra finalizar:
“E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.”🌻
Enfim, cada cena do filme abre porta para o diálogo com a jornada do herói, de Campbell, com psicologia analítica, de Jung, com a própria literatura se movimentando ao longo do tempo. Deixo Drummond pra finalizar:
“E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.”🌻
quinta-feira, 19 de março de 2020
ESSA VONTADE DE MORRER
Quando você vive muito tempo com uma pessoa e ocorre a ruptura, não é só do outro que você sente saudade. É de você mesmo e do mundo como era. Um mundo que agora está morto - para sempre. Em que parte do Universo uma manhã pode se esconder?
Eram os anos 1980. Ela achava que eu era gay. Sequer passava pela sua cabeça que eu era devoto. Vivíamos na mesma casa. Ela num quarto, eu no outro. Quando ela levava alguém para amar, podia ouvir os gemidos fluindo pela casa. Eu, assexuado, máquina celibatária; eu, monge, robô com a face maquiada e unhas pintadas de preto. Eu admirava Gabriella porque ela era tudo o que eu não conseguia ser: “Quando durmo com uma pessoa, Dani, entrego todo meu amor, tudo, tudo que sou e que tenho! Durante uma noite, eu dou”. Por meu lado, queria interagir com o mundo, mas me faltavam forças. Aquilo que corta nossas asas está sempre dentro. Ela, por seu turno, parecia fluir com a vida. Numa noite cantava num bar, na outra fazia strip. Doía-me o modo como desperdiçava seu mistério. Deitando-se com pessoas que só estavam interessados em sua_____: homens que só tinham aprendido a contar dinheiro; mulheres cujas mãos estavam vazias de delicadeza. Ela me atraía pela sua lacuna. Por aquilo que não tinha. A dor funda, e silenciosa, e sem nome; enigma; vontade-de-imensidão. No amor, a gente só dá o que não tem. Quando a doença chegou, Gabriella foi uma das primeiras. Cuidei dela. Levei ao médico. Dei banho. Limpei o cu quando ela não conseguia. Pouco antes de, ela me disse: “Sabe, não ligo de morrer. Era isso que eu ansiava. Não suportava mais. Uma noite, pedi ao Universo que me mandasse o fim”. E, no entanto, sempre me parecia tão feliz! No dia do enterro, nenhum dos seus muitos amantes compareceu. Tive de dividir as alças do caixão com os coveiros. Ao voltar pra casa, nesta mesma tarde, encontrei, no guarda-roupa dela, um caderno, no qual ela desenvolvia uma história em quadrinhos. Era uma narrativa muito meiga - o contrário do que ela mostrava ao mundo - na qual uma coraçãozinha solitária, vermelha, com boca, olhos, mãos e perninhas, encontrava um coraçãozinho solitário da mesma estirpe e, juntos, de mãos dadas, ambos saíam para conhecer, enfrentar e desfrutar o mundo.
O coração masculino, assim como eu, usava batom preto. Tarde demais nesta pátria de desencontros.🌻
Eram os anos 1980. Ela achava que eu era gay. Sequer passava pela sua cabeça que eu era devoto. Vivíamos na mesma casa. Ela num quarto, eu no outro. Quando ela levava alguém para amar, podia ouvir os gemidos fluindo pela casa. Eu, assexuado, máquina celibatária; eu, monge, robô com a face maquiada e unhas pintadas de preto. Eu admirava Gabriella porque ela era tudo o que eu não conseguia ser: “Quando durmo com uma pessoa, Dani, entrego todo meu amor, tudo, tudo que sou e que tenho! Durante uma noite, eu dou”. Por meu lado, queria interagir com o mundo, mas me faltavam forças. Aquilo que corta nossas asas está sempre dentro. Ela, por seu turno, parecia fluir com a vida. Numa noite cantava num bar, na outra fazia strip. Doía-me o modo como desperdiçava seu mistério. Deitando-se com pessoas que só estavam interessados em sua_____: homens que só tinham aprendido a contar dinheiro; mulheres cujas mãos estavam vazias de delicadeza. Ela me atraía pela sua lacuna. Por aquilo que não tinha. A dor funda, e silenciosa, e sem nome; enigma; vontade-de-imensidão. No amor, a gente só dá o que não tem. Quando a doença chegou, Gabriella foi uma das primeiras. Cuidei dela. Levei ao médico. Dei banho. Limpei o cu quando ela não conseguia. Pouco antes de, ela me disse: “Sabe, não ligo de morrer. Era isso que eu ansiava. Não suportava mais. Uma noite, pedi ao Universo que me mandasse o fim”. E, no entanto, sempre me parecia tão feliz! No dia do enterro, nenhum dos seus muitos amantes compareceu. Tive de dividir as alças do caixão com os coveiros. Ao voltar pra casa, nesta mesma tarde, encontrei, no guarda-roupa dela, um caderno, no qual ela desenvolvia uma história em quadrinhos. Era uma narrativa muito meiga - o contrário do que ela mostrava ao mundo - na qual uma coraçãozinha solitária, vermelha, com boca, olhos, mãos e perninhas, encontrava um coraçãozinho solitário da mesma estirpe e, juntos, de mãos dadas, ambos saíam para conhecer, enfrentar e desfrutar o mundo.
O coração masculino, assim como eu, usava batom preto. Tarde demais nesta pátria de desencontros.🌻
CORONAVÍRUS: A DOENÇA COMO PEDAGOGA
Ao longo de nossa jornada pessoal, toda dor é pedagógica; todo sofrimento traz um saber. A partir daí, temos dois caminhos: ou nos sentamos ressentidos e autopiedosos reclamando da sorte; ou absorvemos a lição e nos aproximamos um pouco mais da totalidade de nosso ser. No âmbito coletivo, não é diferente, toda tragédia vem nos lembrar de nossa humanidade. É assim que, a cada flagelo, vemos aflorar o que há de melhor e pior no ser humano: o egoísmo, a ganância, “o meu pirão primeiro”; mas também a solidariedade, a compaixão e o altruísmo. Que ser cindido e belo é o humano! Romancistas como Saramago, eu e Camus já abordaram tais questões em A peste, No céu com diamantes, ou Ensaio sobre a cegueira. Agora está acontecendo de novo. Além de todos os cuidados com a higiene e as aglomerações, o que este vírus vem nos ensinar? Primeiro vem dizer de nossa vulnerabilidade, a extinção é tão fácil, o ser humano – quando não é humilde - é uma piada no Universo; vem dizer também que, embora existam as diferenças sociais inventadas pelo ser humano, a humanidade é uma só e o mendigo pode infectar o magnata; mas, como vem ocorrendo neste caso, o magnata também pode infectar o mendigo e é só se todos se cuidarem e cuidarem uns dos outros que venceremos: precisamos nos unir. Terceiro, como toda doença, o Coronavírus vem dar um recado de nossa mortalidade. É preciso focar no que é importante e nada é tão importante quanto realizar o ser, deixar a marca daquilo que só nós podemos ser neste planeta; para tanto, é preciso focar no silêncio e nos momentos de solidão; porque é aí que o ser emerge, atravessando a angústia, o tédio, o nada; além disso, só enxerga o outro como um igual quem viu a si mesmo. Espero que a gente consiga aprender a lição; mas acho muito difícil.🌻
domingo, 15 de março de 2020
TE DOU UM DOCE
Te dou um doce se você adivinhar quem é. Tenho uma amiga a quem ninguém consegue ficar indiferente. Por onde passa, vai que nem vendaval. E, se vê um fusca azul, tal qual moleque arteiro, dá logo um tapão na orelha da gente. Ela é muito wiccana, sabe, e se amarra num docinho. Mistura de Magali e Jeannie é um gênio. Perto dela, a gente se sente logo à vontade, porque percebe ali um ser humano que não faz pose e tem gostos bem peculiares: vai de Zé Geraldo a AC/DC sem desmanchar o penteado. Quando recebe a conta num lugar qualquer, bate os olhos e diz logo: tá errado! Sem nem somar! Essa minha amiga, vou te contar, tem coisas que só acontecem com ela. Todos os dias a gente toma café junto, porque eu adoro ficar perto e, quando a gente se empolga com determinado assunto, um tem de pular por cima do outro pra conseguir falar. Tagarelice da braba. Então, ontem, estávamos tomando café da manhã juntos, antes do trabalho, como sempre. Pedimos uma média cada um e um pão na chapa. Aí ela pegou uma banda do pão e ia colocar na boca, já aberta, mas parou a meio caminho, arregalou os olhos – ela fala com o rosto, sabe? Não consegue disfarçar as expressões – e colocou o pão de volta no pratinho:
- Depois você fala que eu gosto de reclamar, mas dá uma olhada nisso aqui.
No meio do pão, tinha um pelo grosso, cumprido, enrolado, encharcado de manteiga derretida. Em suma, nojentão. Não teve jeito. Ela levantou e foi falar com o Zezinho no caixa. Eu fui junto, pra dar apoio moral. Pois tu acredita que o Zezinho abriu um pouco mais o pão, pegou o pelo, levantou contra a luz pra ver melhor, segurou ali por uns dois minutos, depois sentenciou:
- Isso aqui não dá nada não, colega, é do saco!😱
- Do saco?
- É, do saco de farinha! – E aí, o próprio Zezinho deu uma mordida no pão.🤣
Minha amiga olhou pra ele de um modo. A fúria de todas as feiticeiras queimando num único olhar. Ó céus! Achei que ela ia jogar o resto do pão com prato e tudo no rapaz; mas ele, percebendo o perigo, foi mais ligeiro: – Hoje não precisa pagar, Profe. Fica por conta da casa.
E a paz se restabeleceu, e mais um dia começou no Parque Santa Rita.
- Depois você fala que eu gosto de reclamar, mas dá uma olhada nisso aqui.
No meio do pão, tinha um pelo grosso, cumprido, enrolado, encharcado de manteiga derretida. Em suma, nojentão. Não teve jeito. Ela levantou e foi falar com o Zezinho no caixa. Eu fui junto, pra dar apoio moral. Pois tu acredita que o Zezinho abriu um pouco mais o pão, pegou o pelo, levantou contra a luz pra ver melhor, segurou ali por uns dois minutos, depois sentenciou:
- Isso aqui não dá nada não, colega, é do saco!😱
- Do saco?
- É, do saco de farinha! – E aí, o próprio Zezinho deu uma mordida no pão.🤣
Minha amiga olhou pra ele de um modo. A fúria de todas as feiticeiras queimando num único olhar. Ó céus! Achei que ela ia jogar o resto do pão com prato e tudo no rapaz; mas ele, percebendo o perigo, foi mais ligeiro: – Hoje não precisa pagar, Profe. Fica por conta da casa.
E a paz se restabeleceu, e mais um dia começou no Parque Santa Rita.
CONSCIÊNCIA
Do mesmo modo que um homem guarda seu rebanho, a Consciência guarda os pensamentos. Ela não é os pensamentos, é o observador. E, por muito, ela, a Consciência, pode andar de olhos fechados; assim como a semente de lótus pode repousar mil anos antes germinar. Ambas precisam de um trauma externo que fissure a casca. É pelas rachaduras que a luz entra. Então, Paulo era guardador de ovelhas e por elas nutria amor, mas suas mãos nunca tremiam no momento do abate. Pelo contrário, era cirúrgico em cada marretada. Parecia mesmo que as ovelhas ansiavam a morte. E o guardador, portanto, não se questionava. Todo mundo comia a carne e se cobria com o grosso pelo durante o inverno. Diferentemente dos porcos, os quais faziam tremendo escândalo, as ovelhas, em confiança a seu pastor, chegavam mesmo a baixar a cabeça para facilitar o trabalho. Doçura, as ovelhas eram dóceis à morte. Como os demais homens de sua terra, Paulo tinha um temor: a resistência. Todos sabiam que se, no momento do abate, o carneiro gritasse, era que a morte do próprio abatedor estava próxima. No trabalho cotidiano, entretanto, olvidava; tudo era maquinaria e oblívio, como o é no mundo inteiro. As pessoas temem o vírus e discutem política, mas todos estão dormindo. Como se chamam aqueles que falam dormindo? Não importa. Naquela manhã, Paulo teria de abater trinta animais; mas, na vigésima nona ovelha, o trauma aconteceu. De um determinado ângulo, como se tivesse acabado de passar por um prisma, a luz do sol percorreu o caminho que ligava o olhar do guardador ao olho da ovelha. E o animal tinha cílios grossos, os quais envolviam sua negra pupila. No meio da manhã que prosseguia, Paulo percebeu-se irmão e viu que o animal também estava nele; ambos aguardavam o mesmo destino. Mesmerismo e telepatia. A ovelha então gritou. Gritou como se entoasse um mantra; como se cantasse uma palavra de outro mundo; como se visse a morte e dissesse em alto e bom som: NÃO!
Paulo descansou a marreta. Já não era capaz de matar. Como alguém podia? Era absurdo. Dali por diante, sabia que teria de falar aos homens de seu tempo e lugar, ainda que isso o levasse a encontrar, alguns anos mais tarde, o mesmo destino que antes trazia aos animais: morrer com uma marretada bem no meio da testa, entre os olhos.🌻
Paulo descansou a marreta. Já não era capaz de matar. Como alguém podia? Era absurdo. Dali por diante, sabia que teria de falar aos homens de seu tempo e lugar, ainda que isso o levasse a encontrar, alguns anos mais tarde, o mesmo destino que antes trazia aos animais: morrer com uma marretada bem no meio da testa, entre os olhos.🌻
SESSÃO DA TARDE
Vou contar a coisa de que mais me envergonho ao longo dessa louca jornada. Não foi o dia em que bati o carro bêbado, ou o dia em que apanhei no Bilu. Isso foi antes. Há quase trinta anos, aconteceu esse show do Human League, em São Paulo. Eu era um fedelho mal saído. De modo que, dificilmente, minha mãe me deixaria ir. Só que eu tinha um amigo, o Timijo Norrego, ele também não era muito mais velho, mas a irmã, sim. Então, combinamos e ela, que já era maior de idade, foi pedir à minha mãe. Depois de muita resistência, Dona Geralda permitiu. Fomos. Antes de entrar, tomamos, cada um, duas ou três garrafas de Keep Cooler. Era o primeiro espetáculo a que eu ia e tudo me encantava. Enfim eu deixava de ser criança! Como demoraram a passar aqueles anos que separavam a infância da adolescência! Os primeiros pentelhos, que orgulho! Curti de tudo: os jovens, as cores, as risadas, as luzes, o som, a galera cantando junto. Quer dizer que a vida podia ser tão boa! E, eu não sabia, ficaria ainda melhor. Já tínhamos pulado como loucos, chorado ao som de Human, quando começou Don´t you want me. Puta que pariu! Nem nas tragédias gregas acontecia tal catarse. Todo mundo pulando, batendo palma e cantando junto; isso só na intro; antes de a música sequer começar. Foi lá pelo meio, quando a loira começa a cantar que a Tati, irmã do Ti mijo, me abraçou e me deu um selinho; tudo isso sem parar de pular. Aí; meu amigo, minha amiga; meti o louco. Nunca tinha beijado, mas já sabia que tinha de pôr a língua. Não deu outra. Tasquei-lhe um daqueles! E ela, gueixa, retribuiu e, com delicadeza, devolveu a própria língua pra dentro da minha boca. Como é bom beijar! Naquela noite, fui pra casa realizado. Já trabalhava na padaria, mas não dormi pra acordar cedo. Fiquei a noite toda imaginando o casamento. Ela entrado na Igreja vestida de branco, tocando A whiter shade of pale; em seguida, entraríamos no carro, ela colocaria meu excelente livro de poemas recém publicado no banco de trás. E aí nós nos beijaríamos e partiríamos para a lua de mel.
Passaram-se quinze dias e não tivemos qualquer contato. Timijo Norrego, assim como eu, não tinha um pingo de juízo. Falei com ele sobre a irmã e ele disse: “Por que você não vai lá na Unicsul e leva um presente pra ela?” Ela já estava na faculdade e eu no primeiro ano do ensino médio. Eniuei, comprei uma caixa de bombom em forma de coração e fui. Eu devia saber que ia dar merda! Quando cheguei, ela estava na porta de um daqueles barzinhos com a maior galera. Chamei-a de lado e falei dos meus sentimentos. Pensava em namoro sério, com aliança de compromisso e tudo. Ela olhava pros amigos e dava risada, sem graça. Eles também gargalhavam de lá. No fim das contas, ela aceitou a caixa de bombom; mas disse que tudo aquilo era absurdo. Rapaz! Depois as meninas reclamam quando os rapazes se fecham. Antes de ir embora, olhei pra trás e vi que os mais velhos continuavam rindo, enquanto dividiam minha caixa de bombom. Fiquei com vontade de voltar e tomar de volta. Desisti. Depois disso, nunca mais visitei os Matsunaga. Nunca.
Ontem, mais de trinta anos depois, trauma superado, consegui cantar de novo essa canção, em dueto, num karaokê e toda a galera cantou junto.
Todas as coisas passam.🌻
Passaram-se quinze dias e não tivemos qualquer contato. Timijo Norrego, assim como eu, não tinha um pingo de juízo. Falei com ele sobre a irmã e ele disse: “Por que você não vai lá na Unicsul e leva um presente pra ela?” Ela já estava na faculdade e eu no primeiro ano do ensino médio. Eniuei, comprei uma caixa de bombom em forma de coração e fui. Eu devia saber que ia dar merda! Quando cheguei, ela estava na porta de um daqueles barzinhos com a maior galera. Chamei-a de lado e falei dos meus sentimentos. Pensava em namoro sério, com aliança de compromisso e tudo. Ela olhava pros amigos e dava risada, sem graça. Eles também gargalhavam de lá. No fim das contas, ela aceitou a caixa de bombom; mas disse que tudo aquilo era absurdo. Rapaz! Depois as meninas reclamam quando os rapazes se fecham. Antes de ir embora, olhei pra trás e vi que os mais velhos continuavam rindo, enquanto dividiam minha caixa de bombom. Fiquei com vontade de voltar e tomar de volta. Desisti. Depois disso, nunca mais visitei os Matsunaga. Nunca.
Ontem, mais de trinta anos depois, trauma superado, consegui cantar de novo essa canção, em dueto, num karaokê e toda a galera cantou junto.
Todas as coisas passam.🌻
quarta-feira, 11 de março de 2020
MEU MENINO
(para meu amigo Xavier)
Esse menino sempre deu trabalho. Perdeu a mãe cedo e eu trabalhava dia e noite, no táxi, pra pagar. Naquela época, o que mais tinha era conta, porque eu tinha deixado de beber, só que agora havia de encarar o real. Toda fuga de um problema é a fuga pra dentro de outro maior. Sim. Eu ainda era jovem e como é que ia fazer com um menino de colo? As irmãs me ajudaram muito. Sem elas, não sei o que teria. E aí, um dia, Magdalena entrou no meu táx...i, vindo da noite. Eu tinha mais de quarenta; ela, menos de vinte. O amor quando acontece, a gente esquece mesmo que sofreu. Nessa época, o menino tinha uns oito. Meio que se virava sozinho. Madá tinha uma filha, ainda de colo. Essa menina também virou minha filha, porque pai é quem cria; foi ela quem me deu meu único netinho. O menino e a mulher, no entanto, desde o primeiro minuto, nunca se entenderam. Havia entre eles uma guerra não declarada; feito a guerra que se estabelece entre nosso cão e o gato do vizinho que insiste em se deitar em cima do muro. Pra resumir, Magdalena e eu tivemos uma vida. Trabalhamos. Estudamos no período noturno. Aumentamos a casa. O menino foi ficando. Existindo nos cantos. Ora dormia na fissura da parede; ora embaixo da escada; ora na teia-rede-de-aranha estendida no cantinho da porta. Nunca que trabalhou. Cedo largou da escola. Alegra-se por nada não fazer. Jamais discutiu, mas sempre fez de tudo pra pirraçar. E, quando a gente tenta conversar, ele se cala. Os vizinhos dizem que usa drogas, porque, dizer a verdade, tem semana que nem banho toma. Mas, e o dinheiro? De onde? Pra encurtar; mês passado, depois de mais de trinta anos, Magdalena foi embora. Havia algum tempo que ela fazia de tudo pra ficar longe. Passava férias e feriados com a família, em Prudente. E eu, velho, doente, sem conseguir dobrar o joelho, estou tendo, desde então, de me virar dentro dessa casa que ocupa quarteirão. E aí, ontem, depois de eu ter demorado mais de meia hora pra subir as escadas, gemendo mais que mulher na hora do parto, sentei na cama e chorei. É duro, sabe? Foi nessa hora que meu menino entrou: camisa rasgada, pescoço encardido, aquele cheiro. Tentei secar o rosto; não deu. Ele me ajudou a me ajeitar na cama imensa – quando Madá foi embora, tudo dobrou de tamanho –, depois me cobriu. E, então, passou a mão assim nos meus cabelos e perguntou:
- O senhor vai ficar bem?🌻
Esse menino sempre deu trabalho. Perdeu a mãe cedo e eu trabalhava dia e noite, no táxi, pra pagar. Naquela época, o que mais tinha era conta, porque eu tinha deixado de beber, só que agora havia de encarar o real. Toda fuga de um problema é a fuga pra dentro de outro maior. Sim. Eu ainda era jovem e como é que ia fazer com um menino de colo? As irmãs me ajudaram muito. Sem elas, não sei o que teria. E aí, um dia, Magdalena entrou no meu táx...i, vindo da noite. Eu tinha mais de quarenta; ela, menos de vinte. O amor quando acontece, a gente esquece mesmo que sofreu. Nessa época, o menino tinha uns oito. Meio que se virava sozinho. Madá tinha uma filha, ainda de colo. Essa menina também virou minha filha, porque pai é quem cria; foi ela quem me deu meu único netinho. O menino e a mulher, no entanto, desde o primeiro minuto, nunca se entenderam. Havia entre eles uma guerra não declarada; feito a guerra que se estabelece entre nosso cão e o gato do vizinho que insiste em se deitar em cima do muro. Pra resumir, Magdalena e eu tivemos uma vida. Trabalhamos. Estudamos no período noturno. Aumentamos a casa. O menino foi ficando. Existindo nos cantos. Ora dormia na fissura da parede; ora embaixo da escada; ora na teia-rede-de-aranha estendida no cantinho da porta. Nunca que trabalhou. Cedo largou da escola. Alegra-se por nada não fazer. Jamais discutiu, mas sempre fez de tudo pra pirraçar. E, quando a gente tenta conversar, ele se cala. Os vizinhos dizem que usa drogas, porque, dizer a verdade, tem semana que nem banho toma. Mas, e o dinheiro? De onde? Pra encurtar; mês passado, depois de mais de trinta anos, Magdalena foi embora. Havia algum tempo que ela fazia de tudo pra ficar longe. Passava férias e feriados com a família, em Prudente. E eu, velho, doente, sem conseguir dobrar o joelho, estou tendo, desde então, de me virar dentro dessa casa que ocupa quarteirão. E aí, ontem, depois de eu ter demorado mais de meia hora pra subir as escadas, gemendo mais que mulher na hora do parto, sentei na cama e chorei. É duro, sabe? Foi nessa hora que meu menino entrou: camisa rasgada, pescoço encardido, aquele cheiro. Tentei secar o rosto; não deu. Ele me ajudou a me ajeitar na cama imensa – quando Madá foi embora, tudo dobrou de tamanho –, depois me cobriu. E, então, passou a mão assim nos meus cabelos e perguntou:
- O senhor vai ficar bem?🌻
the writer
Quando a vida dói demais, eu a transformo numa estória e finjo que aquela dor é de outro. Ou talvez não, talvez seja a dor da estória que cresça em mim durante a gestação. A mãe de George Harrison disse que, no período da gravidez, o bebê chutava demais e só se acalmava quando ela colocava numa estação de música indiana. O que vem antes, a alma ou o feto?
Ou talvez eu tenha a maldição de sentir como se fosse em mim tudo aquilo que é profundo no outro.
A vida dói porque é bonita além da conta e aí já não cabe na gente. É uma ultrapassagem, um transbordamento.
E o meu medo maior é o espelho se quebrar.
Ou talvez eu tenha a maldição de sentir como se fosse em mim tudo aquilo que é profundo no outro.
A vida dói porque é bonita além da conta e aí já não cabe na gente. É uma ultrapassagem, um transbordamento.
E o meu medo maior é o espelho se quebrar.
O AMOR É ETERNO
Sabe, Nelson Rodrigues dizia que todo amor é eterno, se não for eterno é que não era amor. Concordo. Porque o amor é muito mais que essa coisa erótica entre homem e mulher, como pensava o Vinicius de Moraes. O amor transforma-se e, na maioria das vezes, muda a maneira de se expressar, só que não deixa de existir. Pelo contrário: cresce. Torna-se uma coisa cada vez maior... Até mudar o mundo inteiro. Ao invés de amor entre homem e mulher, homem e homem, mulher ...e mulher, passa a ser um sentimento entre um ser humano e outro ser humano, apenas. Almas despidas frente a frente. Só isso. Cabe muita gente dentro da nossa solidão. Freddie Mercury, por exemplo, escreveu Love of my life para sua primeira namoradinha, Mary Austin. Mas os dois não puderam seguir o relacionamento erótico porque Freddie era gay. Só que havia o Amor e Ele deu um jeito. Durante toda a vida, os dois nunca perderam contato. Nos momentos mais difíceis, Mary estava lá. Ao morrer, Freddie, mesmo tendo mãe, irmãs e um marido, deixou para Mary a maior parte de sua fortuna, além da guarda de suas cinzas. Acho isso lindo. E é eterno.
A SOLIDÃO E A TRISTEZA DE JESUS
Você não precisa, necessariamente, do viés religioso. Pode-se muito bem ler os evangelhos sob uma perspectiva literária e, neste sentido, creio que Jesus é a figura religiosa mais poética de todos os tempos. Nem Dickens, nem Hardy, transitam pela vida humilde com tanta beleza. Você consegue imaginar um Deus carpinteiro? O maior homem do mundo andava no meio das pessoas simples, de todos os desprezados pela sociedade: dos leprosos, aos pescadores e às putas. A biografia de Sidarta Gautama também é bonita e a vida dos dois maiores homens de todos os tempos têm muito em comum; mas, enquanto um era príncipe, o outro era carpinteiro. Nem melhor, nem pior, nem igual. Há muito que se resgatar nos evangelhos neste momento em que a mensagem é deturpada com virulência de fake news. É tudo tão simples: se você é cristão, vá ao texto. Se não é, vá ao texto - pelo aspecto poético. Vou falar um pouco sobre a tristeza de Jesus e de sua solidão. Há momentos em que leio o evangelho e sinto muita pena do Mestre; porque, embora estivesse quase sempre acompanhado, ensinando os homens sobre sua própria força interior, ninguém nunca O acompanhava. Ele era um corredor de maratona e os outros estavam paraplégicos. Cristo está o tempo todo se retirando pra sua solidão. Entre os homens, não havia um irmão que o compreendesse. A única compreensão possível era no plano transcendental. Quanto mais alto você está na montanha, mais frio e solitude sente. Ele vai pro deserto, Ele está distante no episódio em que surge caminhando sobre as águas; mas, pra mim, o momento mais triste e bonito é em Getsêmani, quando Jesus chora sangue e diz: “minha alma está profudissimamente triste até a morte!” O Mestre sabe que vai morrer e a solidão se torna ainda maior. Ele sabe da traição e da negação. No entanto, aceita seu destino: o frasco precisa se quebrar para que o perfume se espalhe pelo mundo. E, nas piores horas de sua curta vida, Jesus de Nazaré se sente sozinho, em completo abandono; até Pedro o negará - mas dessa negação, necessária, nascerá em cada discípulo a força futura pra enfrentar a morte; a resiliência que cresce em nós quando dizemos: "eu me acovardei uma vez, mas não mais." É como acontece com o índio de Gonçalves Dias.
Veja bem, o momento mais triste de todos, aquele instante em que quero pegar meu Deus no colo e acariciar seu cabelos, é justamente na hora mais humana: a hora da morte. Tenho certeza de que a Divindade falava com o carpinteiro todo o tempo, até comigo, que não passo de um idiota, Ela fala; mas no momento de maior dor e solidão, a voz se cala e, apenas mais um homem morrendo a morte mais dolorosa de todas, Jesus, o coração dilacerado, pergunta: “Pai, por que me abandonaste?” É literatura de arrepiar os pêlos dos braços.
Cristo não morreu pelos seus pecados, meu irmão. Ele morreu pra mostrar que era um ser humano exatamente igual a você, com fraquezas, vulnerabilidades, sujeito à raiva e ao medo. Por outro lado, viveu para mostrar como transcender tudo isso, por meio da compaixão, da humildade, do desapego, do amor, da ternura, da delicadeza; enfim, do coração sem contorno. Simples assim.🌻
Veja bem, o momento mais triste de todos, aquele instante em que quero pegar meu Deus no colo e acariciar seu cabelos, é justamente na hora mais humana: a hora da morte. Tenho certeza de que a Divindade falava com o carpinteiro todo o tempo, até comigo, que não passo de um idiota, Ela fala; mas no momento de maior dor e solidão, a voz se cala e, apenas mais um homem morrendo a morte mais dolorosa de todas, Jesus, o coração dilacerado, pergunta: “Pai, por que me abandonaste?” É literatura de arrepiar os pêlos dos braços.
Cristo não morreu pelos seus pecados, meu irmão. Ele morreu pra mostrar que era um ser humano exatamente igual a você, com fraquezas, vulnerabilidades, sujeito à raiva e ao medo. Por outro lado, viveu para mostrar como transcender tudo isso, por meio da compaixão, da humildade, do desapego, do amor, da ternura, da delicadeza; enfim, do coração sem contorno. Simples assim.🌻
aforismo 21
O mais difícil da exortação "ama ao próximo como a ti mesmo" não está no próximo, mas neste "ti mesmo". A maior parte do tempo, a gente se odeia. E espalha isso pelo mundo.
O SANTISTA
Todo santo dia era a mesma história. Depois de chegar do trabalho, cansado da responsabilidade e da pressão que existe quando você é piloto de avião, Mengálvio ainda tinha de lavar a louça, o quintal, limpar o ânus da cadelinha com lenço umedecido e passar álcool gel nas patas para que o bicho pudesse se deitar e dormir entre ele e a mulher. Ela, a mulher, era um ser humano muito depressivo e, por conta disso, não trabalhava; passava os dias fumando maconha e assis...tindo televisão. Era feminista também e, portanto, Mengálvio tinha de passar o próprio uniforme e fazer a própria comida ou comer fora. Às vezes, quando estava na rua, ela ligava pedindo que trouxesse um pote de sorvete, chocolate, ou alguma outra guloseima. Em tais momentos, o torcedor do Santos pensava que o egoísmo buscava nomes palatáveis para se olhar no espelho. Pedira à mulher, certa vez, que passasse uma das camisas, pois tinha um voo de madrugada e acordou atrasado; mas a mulher, ele não sabia se por distração, depressão ou pirraça, queimara a camisa. De modo que ele tinha sempre de se virar. Não bastasse a carga diária, havia também a ex-mulher, para a qual deixara todos os bens. Mengálvio ainda nutria certo afeto por ela e, por isto, não foi sem se abalar que voltou para casa aquela noite depois de ter passado a tarde com a ex, conversando. Ela abrira-lhe o coração. Chorara. Estava apaixonada outra vez; mas sofria, pois o amante era casado. Tentara largar o cara várias, não conseguia, contudo, porque o sexo era fenomenal e ela, tal qual adicta, acabava recaindo. O que faço, Mengálvio?
Ao menos era quarta-feira e o Santos jogaria. Ele ainda não tinha ciência, mas melhor seria se não houvesse jogo, porque, naquela noite, o Peixe seria desclassificado depois de perder por três a zero na Vila. Disso, no entanto, Mengálvio só saberia muito tempo depois, na prisão; porque, naquela noite, durante o intervalo do primeiro tempo, a esposa ligou o som no volume máximo, tocando Dartemi un martello, da Rita Pavone e disse:
- Aproveita que tá no intervalo e vai à padaria comprar um pudim de leite condensado pra gente!
Mengálvio fingiu obedecer, só que, em vez de ir à padaria, dirigiu-se à garagem, abriu a caixa de ferramentas e pegou sua marreta de borracheiro, com cabo de enxada e cabeça de mais de doze quilos. Era uma ferramenta e tanto!
Tchuru, tchurá, foi tudo o que os vizinhos ouviram.
Ao menos era quarta-feira e o Santos jogaria. Ele ainda não tinha ciência, mas melhor seria se não houvesse jogo, porque, naquela noite, o Peixe seria desclassificado depois de perder por três a zero na Vila. Disso, no entanto, Mengálvio só saberia muito tempo depois, na prisão; porque, naquela noite, durante o intervalo do primeiro tempo, a esposa ligou o som no volume máximo, tocando Dartemi un martello, da Rita Pavone e disse:
- Aproveita que tá no intervalo e vai à padaria comprar um pudim de leite condensado pra gente!
Mengálvio fingiu obedecer, só que, em vez de ir à padaria, dirigiu-se à garagem, abriu a caixa de ferramentas e pegou sua marreta de borracheiro, com cabo de enxada e cabeça de mais de doze quilos. Era uma ferramenta e tanto!
Tchuru, tchurá, foi tudo o que os vizinhos ouviram.
sábado, 7 de março de 2020
MEU BLACK POWER - ELA DISSE
Certa vez, ouvi uma menina sobre a força que surgiu dentro dela quando assumiu seu cabelo crespo e o sustentou num imenso Black Power. Um dia na vida, a gente percebe que não pode ser outro. Que para o bem ou para o mal, só podemos arar nosso próprio terreno. Eu também tive meus complexos e quis ser outro. Guardadas as devidas proporções, também fiz chapinha; engomei, sim, as dobras da minha jornada. É que eu me envergonhava das lacunas na minha educação, da minha cultura limitada, do meu amor pela música brega quando Theodor Adorno comentava Beethoven e Wagner. Os pais de todos os escritores que eu lia tinham curso superior, isso lá no começo do século passado ou antes, enquanto meus avós jamais tinham frequentado escola e meu próprio pai fazia supletivo, no período noturno, depois de um dia inteiro de trabalho. No ano em que nasci, um filósofo amigo meu estava na França; eu sequer conheço Franca. Chegou, porém, o dia em que percebi que jamais poderia ser como meu amigo; mas que poderia ser igual a mim mesmo: surgiu daí minha força: a flor em fúria do meu cabelo. Ele conhecia Paris, mas nunca tinha estado num boteco de quebrada. Ele falava grego e alemão, mas desconhecia o significado do verbo ramelar. Ou eu sustentava e escrevia quem eu era, ou seria só mais uma cópia de outra cópia de outra cópia. Em arte, o que parece defeito é nossa força: Vincent van Gogh se deprimia toda vez que tentava pintar como Millet, mas lhe explodiam sóis circulares amarelos, árvores que erguiam seus galhos para o céu. No corpo, este laboratório da criação (ainda não sabemos: o que pode um corpo?), também tive meus traumas: o que não mata engorda, diria Nietzsche, na favela, dando mortal pra trás: eterno retorno. Eu tinha vergonha de usar bermuda. Minhas canelas eram finas e deram origem a muitos apelidos: de galão; pois o peito é largo como um galo de briga; a palito. Até que, um dia, uma menina, depois do amor, beijou minhas pernas e disse: “Elas são as pernas mais lindas que já vi”. Não estou dizendo que meus traumas sejam profundos como os inscritos na carne pelo racismo. É que a gente acolhe a ferida do outro de dentro de nossa própria. E é nas encruzilhadas que ocorre a compreensão. E só há arte e verdade no ser; todo o resto é imitação da vida.
SOBRE PARASITA
Primeira conexão: Memórias do subsolo, de Dostoiévski. Há, no filme, dois níveis de seres: os da superfície, ou os ricos; e os do subsolo, que não sabemos bem se são ratos, baratas, fantasmas, seres humanos, ou algum outro tipo de ser metamorfo. É sintomático que, tanto a família-parasita, quanto o marido da governanta, vivam em porões. Existe alguma coisa errada na economia mundial que empurramos para o esgoto. A busca pelo pão no subsolo é guerra sem regras. Salve-se quem puder! Uma cena que resume: a filha-parasita fumando um cigarro sobre a privada entupida que transborda depois da enchente. Os excluídos são como o esgoto que, há qualquer momento, pode irromper e acabar com a festa, como de fato ocorre no fim da película. Vale destacar que são reconhecidos, os pobres, pelo cheiro. E é pelo cheiro, assim como é por causa do sol n’O Estrangeiro, de Camus, que ocorre o assassinato do patrão: não tivesse tapado o nariz para pegar as chaves sob o corpo do marido da governanta, não teria.
Por outro lado, e isto talvez seja o diferencial do filme, os pobres não são retratados como anjos, ou simples vítimas, como uma parcela da esquerda almeja. Pelo contrário, os pobres são mais canalhas que os ricos, ética é adorno burguês. Um dos diálogos da família-parasita dá a dimensão: os ricos não têm dobras. E, se são bons, não é por mérito, mas porque não têm de se preocupar com o esgoto entupido, com as contas vencendo, com a chance de perder tudo a cada chuva - como está acontecendo agora mesmo em Belo Horizonte, no Guarujá, em cidades do Rio - com a impossibilidade de ir para a universidade mesmo tendo capacidade. É fácil ser ético quando se tem internet ilimitada e as preocupações se resumem à decoração da festa de aniversário do filho mimado.
O humor ácido é outra nota a se destacar. Tal qual o Coringa, o protagonista de Parasita não consegue conter o riso desesperado-desesperador diante da tragédia.
Acho que os dois filmes mais importantes de 2019, Coringa e Parasita, apontam para o mesmo lugar: não há paz sem justiça social. Isto não quer dizer que há, necessariamente, mocinhos e bandidos. Há a macroestrutura injusta que desemboca no psicopata – Coringa; ou no antiético e amoral - Parasita. Se é verdade que há na arte um poder de vidência e profecia, como Kafka provou com sua vida e palavra, o futuro que nos espera é tenebroso. Enquanto isso, a gente espera a catástrofe com uma gargalhada maquiada no rosto. Sextou.
Por outro lado, e isto talvez seja o diferencial do filme, os pobres não são retratados como anjos, ou simples vítimas, como uma parcela da esquerda almeja. Pelo contrário, os pobres são mais canalhas que os ricos, ética é adorno burguês. Um dos diálogos da família-parasita dá a dimensão: os ricos não têm dobras. E, se são bons, não é por mérito, mas porque não têm de se preocupar com o esgoto entupido, com as contas vencendo, com a chance de perder tudo a cada chuva - como está acontecendo agora mesmo em Belo Horizonte, no Guarujá, em cidades do Rio - com a impossibilidade de ir para a universidade mesmo tendo capacidade. É fácil ser ético quando se tem internet ilimitada e as preocupações se resumem à decoração da festa de aniversário do filho mimado.
O humor ácido é outra nota a se destacar. Tal qual o Coringa, o protagonista de Parasita não consegue conter o riso desesperado-desesperador diante da tragédia.
Acho que os dois filmes mais importantes de 2019, Coringa e Parasita, apontam para o mesmo lugar: não há paz sem justiça social. Isto não quer dizer que há, necessariamente, mocinhos e bandidos. Há a macroestrutura injusta que desemboca no psicopata – Coringa; ou no antiético e amoral - Parasita. Se é verdade que há na arte um poder de vidência e profecia, como Kafka provou com sua vida e palavra, o futuro que nos espera é tenebroso. Enquanto isso, a gente espera a catástrofe com uma gargalhada maquiada no rosto. Sextou.
PEREGRINO
Ao mesmo tempo que faço o caminho
O caminho se inscreve em mim
Enquanto executo a travessia
A trilha me atravessa pelo meio
Entre o instante em que inspiro
E aquele em que expiro
A vida acontece: mutação
E já nem eu, nem o caminho somos os mesmos
Não é estranho que um ser ínfimo como eu
Possa mudar a Consciência de Deus?
Quero guardar meu tempo
Ofertar meu coração a cada transeunte
E partilhar os três tesouros
Ao partir,
Nem o mundo, nem o vazio seremos os mesmos.
O caminho se inscreve em mim
Enquanto executo a travessia
A trilha me atravessa pelo meio
Entre o instante em que inspiro
E aquele em que expiro
A vida acontece: mutação
E já nem eu, nem o caminho somos os mesmos
Não é estranho que um ser ínfimo como eu
Possa mudar a Consciência de Deus?
Quero guardar meu tempo
Ofertar meu coração a cada transeunte
E partilhar os três tesouros
Ao partir,
Nem o mundo, nem o vazio seremos os mesmos.
quarta-feira, 4 de março de 2020
A LITERATURA E O SILÊNCIO
A literatura é um jogo entre o atual e o virtual, o fato e o que poderia ser para além de todas as possibilidades: o inesperado; yin e yang, enfim; palavra e silêncio, o visível e o invisível. Um texto não diz tudo, porque o mundo é impronunciável em sua totalidade. Se conto a história de João, não conto a de José e, ainda que José aparecesse, seria sob outro ponto de vista. Então, há algo incomensurável que seria a soma de todos os livros escritos e... todos os livros possíveis e impossíveis em estado de latência, quase-coisa, campo quântico. Este todo é o silêncio. Num texto, o silêncio é o que permeia o espaço entre uma palavra e a outra. É mesmo o solo de onde cada palavra floresce. O texto era impossível antes de escrito e, no entanto, alguém foi lá e arrancou a primeira palavra junto ao silêncio e o impossível foi se tornando fato à medida que uma palavra à outra se conectava. Então, o silêncio, por ser tudo ao mesmo tempo, não pode ser dito, não há palavra que o abarque. Talvez a sílaba OM. O bom escritor não é grande apenas por aquilo que diz; mas, sobretudo, por aquilo que cala. Há uma figura de linguagem que representa este ponto de vazio nas coisas que escrevo: a elipse. Ela torna o silêncio presente e deixa o vazio para que o leitor preencha com sua própria palavra. Faz do leitor um autor também. A relação autor-leitor é sedução, dança, é cópula; o texto só ganha sentido quando os dois se entendem: ambos criam juntos o sentido que, em mim, é sempre amor.
ESPIRAIS
Todo fim é uma volta ao começo, mas não o mesmo, um outro começo.
O amor - loucura da razão - retorna disfarçado de outro corpo.
BAYGON
Nenhum animal, nem mesmo o gambá, é capaz de cheirar tão mal quanto o ser humano; mas o Fanho não era dos piores, embora estivesse há mais de cinco anos sem tomar banho. Desde que decidira morar na rua, talvez em virtude dos traumas decorrentes da fanhofobia, abstivera sua pele do contato com a água. Só que, neste dia 26 de janeiro, estava tão quente que até mesmo ele desejou um bom banho. O cheiro: fezes velhas, urina, ovo podre, tabaco, álcool, colchão, suor, jabá, cebola. Rio. Quarenta graus. Não gostava de incomodar os comerciantes. Havia, no entanto, mais de dois dias que as moscas, centenas, perseguiam-no. De modo que o mendigo entrou no Carrefour, caminhou até o setor de limpeza, dirigiu-se à prateleira dos aerosóis, pegou um Baygon e, sorrindo, borrifou-o inteiro nas moscas ao redor.
EU, VEGANO
E, quando o Paraíba, aquele meu barbeiro, me chamou pro seu churrasco de aniversário, falei que não comia mais carne. Ao que ele me respondeu:
- Não faz mal, também comprei um monte de linguiça; tem até de Bragança - porque num gosto de miséria, Deus que me livre e guarde - aí tu come, com pão, hein?
- Não faz mal, também comprei um monte de linguiça; tem até de Bragança - porque num gosto de miséria, Deus que me livre e guarde - aí tu come, com pão, hein?
ESQUENTAR OS PÉS
No ano da graça de 2003, eu era um jovem recém-formado com um diploma embaixo do braço e uma filha pra criar. De modo que dei graças, quando, lá pelo mês de abril, consegui algumas aulas na Educação de Jovens e Adultos (EJA) no período noturno. O trabalho com jovens e adultos é bem diferente do trabalho com crianças e adolescentes. Com as crianças, você tem de apagar o incêndio; com os mais velhos, tem de acender a chama. Enquanto os jovens gostavam de discut...ir; para os mais velhos, o importante era a lousa cheia. Foi difícil convencê-los de que a discussão, o debate e o diálogo também eram parte do processo de ensino e aprendizagem. Quando consegui, ao invés de debaterem os temas que eu trazia, os poucos que gostavam de falar – e não sei o porquê; mas, geralmente, eram as mulheres – preferiam trazer os dramas mais próximos, de suas vidas cotidianas mesmo. Meu trabalho então consistia em tentar enxergar junto a eles de que modo os problemas mais domésticos se conectavam às questões políticas, linguísticas, éticas, estéticas e etc e tals.
Em uma das salas, estudava um casalzinho evangélico. Ambos já tinham passado dos sessenta, filhos casados, e agora decidiam estudar para, sobretudo, compreender melhor a Bíblia Sagrada. Seu Vicente, o marido, era quieto, desconfiado, reservado; já a esposa, Dona Marialice, era sua antípoda. Tal qual as crianças da primeira série, ela encostava sua carteira à minha assim que eu entrava e danava a falar. Às vezes, descia a lenha no marido que, como nota de repúdio, resmungava apenas: “Ê, Maria, deixa o professor trabalhar! Diacho de tanto falar da nossa vida pros zãozotros!” Mas ela não ligava, faceira e serelepe; menina, vocês sabem.
Ocorre que, um dia, Dona Marialice disse a respeito do marido a coisa mais linda que já ouvi. Tagarelando, ela soltou:
- O senhor sabe, professor, que Vicente é amuado assim, brabo, sério; mas é um homem danado de bom? Sim, ele sempre me deixa esquentar os pés nele, porque ele tem as pernas quentinhas, sabe? E, mesmo quando a gente tá brigado, não interessa o tamanho da briga, eu durmo sempre com os pés no meio das pernas dele.
Fiquei pensando que aquela era a melhor definição de amor que eu já ouvira. Quando você ama alguém, não importa mesmo o tamanho da confusão, ou do frio, você sempre deixa a pessoa esquentar os pés em você quando anoitece.
Em uma das salas, estudava um casalzinho evangélico. Ambos já tinham passado dos sessenta, filhos casados, e agora decidiam estudar para, sobretudo, compreender melhor a Bíblia Sagrada. Seu Vicente, o marido, era quieto, desconfiado, reservado; já a esposa, Dona Marialice, era sua antípoda. Tal qual as crianças da primeira série, ela encostava sua carteira à minha assim que eu entrava e danava a falar. Às vezes, descia a lenha no marido que, como nota de repúdio, resmungava apenas: “Ê, Maria, deixa o professor trabalhar! Diacho de tanto falar da nossa vida pros zãozotros!” Mas ela não ligava, faceira e serelepe; menina, vocês sabem.
Ocorre que, um dia, Dona Marialice disse a respeito do marido a coisa mais linda que já ouvi. Tagarelando, ela soltou:
- O senhor sabe, professor, que Vicente é amuado assim, brabo, sério; mas é um homem danado de bom? Sim, ele sempre me deixa esquentar os pés nele, porque ele tem as pernas quentinhas, sabe? E, mesmo quando a gente tá brigado, não interessa o tamanho da briga, eu durmo sempre com os pés no meio das pernas dele.
Fiquei pensando que aquela era a melhor definição de amor que eu já ouvira. Quando você ama alguém, não importa mesmo o tamanho da confusão, ou do frio, você sempre deixa a pessoa esquentar os pés em você quando anoitece.
BOLSONARO É NOSSA SOMBRA NO PODER
Semana passada o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse que Bolsonaro era a soma de nossos erros. Meio mundo se apressou em dizer que o erro era dele mesmo, Maia, ou de outro qualquer, pois não tinham votado no Messias. O erro é sempre do outro, mas errar é muito mais que simplesmente apertar alguns botões no dia das eleições. Erramos ao revidar na mesma moeda. Olho por olho. Preferimos o combate ao convencimento. E o presidente não é a soma dos nossos erros, mas a sombra. A esquerda se tornou tão moralista quanto a direita. Moralismo não se refere só ao âmbito sexual. Moralista é aquele que se assenta sobre uma moral qualquer e de lá aponta seu dedo cumprido e pontiagudo aos demais; como se fosse, sob algum ponto de vista, melhor – moralmente. O fato é que perdemos as eleições, e vamos continuar perdendo, porque nos tornamos mestres em apontar o dedo. Você não pode dizer isso! Você não pode dizer aquilo! Tal palavra está proibida! Abaixo às touradas e ao churrasco! Como qualquer moralista, cagamos regras e aqueles que têm o dedo apontado para si, revoltam-se. Não estou dizendo aqui que todos devemos ser racistas, homofóbicos, ogros ou coisa que o valha. O que me pergunto é: o que fazemos com a nossa sombra? Ou, melhor, com nossa sombra coletiva? Reprimi-la não faz com que ela desapareça; pelo contrário, é na penumbra que ela grassa. Talvez precisássemos parar de mentir. Não uns para os outros, mas cada um diante do próprio espelho. Não somos seres só bonzinhos. Eu sei, é chato para a autoimagem e pode até acarretar depressão, mas o que a sombra quer é ser reconhecida. Ela quer se expressar, integrar-se, sair do subsolo, a sombra é a minoria da totalidade do ser. A arte pode ser um caminho, a jardinagem outro, a meditação – que opera para além dos limites do ego-sombra - funciona, os esportes competitivos podem ser uma terceira via. Educação, sempre. Mas como dar um canal ao mal que reside em nós, se preferimos as postagens bem boazinhas de Facebook e, o pior, acreditamos nelas? Queremos matar o outro motorista no trânsito, mas consideramo-nos bons, pois o outro é que fez a barberagem. Nós? Anjinhos veganos de esquerda. O mal não está encarcerado em meia dúzia de psicopatas; fosse assim, seria fácil e não teríamos o presidente que temos. O mal está em tudo e em todos o tempo todo, lambuzado também de bondade. O nosso problema não é político, mas psicológico. E a questão é: O QUE FAZER COM A SOMBRA? Quando conseguirmos dar curso a tal energia e fazer dela algo construtivo, teremos resolvido metade dos problemas que nos assolam neste momento. Enquanto não soubermos o que fazer com nosso Mr Hyde, o nosso Dr Jekyll terá um destino sombrio; pois o que estamos vendo no poder, neste exato momento, é o contra-ataque da sombra: BolsoHyde, versão do Bolsodória, o que há de mais primitivo (a selvageria dos homens das cavernas), vil, inescrupuloso; em outras palavras, o que há de mal em nós, tomando as rédeas do país. Não é um espetáculo bonito de se ver.
COMPAIXÃO, COMPREENSÃO, AMOR
Compaixão e compreensão são inseparáveis. Compadecer-se é se abster de julgar os sintomas, por mais incômodos que possam ser para nós; e, ao mesmo tempo, investigar a origem, compreender que tipo de sofrimento faz o outro ser sovina, ou autodestrutivo, ou arredio, ou agressivo, ou lamuriento. É partilhar a ferida do outro, senti-la como se fosse nossa: sofrer com e nunca abandonar. Cabe 'a compaixão também apontar a porta de saída e ser impassíve...l quando o outro se identifica com os sintomas de sua doença. Temos compaixão pelo ser humano e não pelas suas defesas e defeitos de caráter. Ter compaixão por uma pessoa não é fazer tudo o que ela quer, mas ajudá-la a ser inteira. Geralmente, não é o caminho mais fácil. Às vezes, a compaixão pode até levar a um distanciamento momentâneo. Só o tempo dirá que o amor se equivoca, mas não mente e é sempre rigoroso em seu querer bem.
POLÍTICA, MÍSTICA E LITERATURA
Acontece muito comigo. Às vezes, levanto os óculos até a testa e depois fico procurando. Neste momento, é sempre bom ter alguém que diga: “Ei, os óculos estão aí na sua testa”. Esta situação pitoresca lembra-me um pouco a psicanálise. É que, quando estamos profundamente dentro de um problema, dificilmente enxergamos a solução e aí precisamos de alguém de FORA que diga: “os óculos estão bem aí.” Mas o que tudo isso tem a ver com o título? Explico.... É que sempre me incomodou a afirmação mística: “é preciso estar no mundo sem ser do mundo”. Como assim? Então a espiritualidade não deve combater a injustiça? Não deve lutar por um mundo mais igual? Não deve erguer a voz para falar com os que não têm voz? Deve se contentar apenas com a salvação depois da morte? Questão intensa. Não foi só a mim que a afirmação anterior incomodou. Nietzsche também tinha convulsões quando ouvia algo assim. Meditando sobre o assunto, o sagrado soprou-me ao ouvido: “Estar no mundo sem ser do mundo é uma afirmação contra a alienação e não a favor”. Explico de novo. Todo o tempo, somos instados a participar dos acontecimentos. Sobre todas as coisas, temos de dar nossa opinião muito particular, mas igualzinha à da metade instaurada - neste momento histórico - à qual pertencemos. Alienação é ter de opinar sobre tudo o tempo inteiro, sem parar para ver a questão de um ponto além das próprias certezas. Alienação é não saber de si e querer prescrever o que é melhor para o mundo. Neste sentido, Nietzsche propôs o perspectivismo que, grosso modo, consiste em ver a questão sob todos os pontos de vista possíveis. Isto, no entanto, ainda não nos dá o Fora. Só a mística e a literatura proporcionam uma instância de onde somos capazes de olhar para nós mesmos como se fôssemos outro. Tanto a mística, quanto a literatura permitem-nos falar de nós na terceira pessoa; ou melhor, nas palavras de Ferlinghetti, na quarta pessoa do singular. “O eu é um outro” - disse Rimbaud. Só do espaço místico ou literário é que podemos de fato ver uma questão sem estarmos imersos nela; só daí, podemos dizer a nós mesmos: “os óculos estão bem aí na testa”. Somos, então, ao mesmo tempo, o analista e o analisando, o observador e o objeto da observação, aquele que tem os óculos na testa e o que diz: “os óculos estão aí”. Só deste lugar, além e dentro, é que podemos ver o mundo objetivamente. Estamos então no mundo, mas não pertencemos a ele; pertencemos a nós mesmos, à nossa própria alma. Em suma, estar no mundo sem pertencer ao mundo não é apatia, mas expansão de consciência e ação consciente. Alienação é o contrário, é estar demais no mundo e ter a vista turva pelo excesso de.
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O DIA EM QUE EU FIQUEI TRISTE
(Para roberto carlos)
Você não pode fingir que não é nada além da chuva. No dia em que fiquei triste, eu tinha sete anos. E fiquei triste. Aí me deitei no quintal de barriga pra cima; no sol de janeiro; só de cueca; e chorei, chorei, chorei. Até não ter mais nenhuma lágrima. E fiquei ali até o sal das lágrimas secar-cola no rosto. Quem me conhece, sabe que sou branco como leite; naquela época era mais. No outro dia, fui parar no hospital. Vermelho feito um pimentão. E meu rosto estava cheio de bolhas. No dia que fiquei triste, eu só tinha sete anos.
Você não pode fingir que não é nada além da chuva. No dia em que fiquei triste, eu tinha sete anos. E fiquei triste. Aí me deitei no quintal de barriga pra cima; no sol de janeiro; só de cueca; e chorei, chorei, chorei. Até não ter mais nenhuma lágrima. E fiquei ali até o sal das lágrimas secar-cola no rosto. Quem me conhece, sabe que sou branco como leite; naquela época era mais. No outro dia, fui parar no hospital. Vermelho feito um pimentão. E meu rosto estava cheio de bolhas. No dia que fiquei triste, eu só tinha sete anos.
COMENTÁRIO A RESPEITO DE JOHN
Não fui eu quem apertou o gatilho; mas, para dizer a verdade, como qualquer garota que cresceu nos anos sessenta, sou tão culpada quanto. O meu inconsciente, assim como o inconsciente do mundo inteiro, reuniu-se numa única frequência vibratória para, feito raio, odiar e atingir Yoko Ono. Ela era a periguete, a garota do outro bairro que roubou nosso namorado na saída da escola. Tudo arquetípico. Em silêncio, todas imaginávamos mortes com requint...es de crueldade para a ridícula e sua voz de marreco rouco. De John, por outro lado, você podia dizer qualquer coisa, menos que fosse frio ou covarde. Eu não esqueço: “a felicidade é uma arma quente”. E foi o amor de John Lennon o que protegeu aquelazinha. Por mais energia escura que o mundo inteiro enviasse, o amor dele sempre era maior e dissolvia a ira quando ela, a ira, adentrava a esfera. Mas o Diabo é sujo e o mal não prejudica só seu objeto - nunca se pode confiar no demônio -, aquele que deseja o mal, também é vítima de seus efeitos. O mal que você deseja, acaba por votar-se contra você. E, mais de uma década depois, Mark Chapman apertou o gatilho e disparou a bala que mirávamos em Yoko; mas que, por carma ou ironia, acabou por acertar John - aquele a quem amávamos -; em frente ao Edifício Dakota
COMENTÁRIO A RESPEITO DE JOHN II – O PÂNICO DO INCESTO
John Lennon nunca conviveu muito bem com sua mãe, Júlia. Aos cinco anos, seus pais se separaram porque Alfred, o pai, era marinheiro e, enquanto estava no mar, Júlia tinha casos. Num desses, acabou se apaixonando. Era uma mulher muito erótica e, para os padrões dos anos quarenta, podia até ser considerada uma. Quem criou John foi a rígida irmã mais velha da mãe, a tia Mimi, com a qual, por mais que tentasse, o menino rebe...lde não conseguia se identificar. Quando John se tornou adolescente, aconteceu uma aproximação maior com a mãe, ela também era ligada em música e até tocava alguns instrumentos. Deste modo, era na casa de Júlia que John e seu amigo Paul iam ensaiar, às vezes, para escapar às críticas da tia. Há, na biografia de Philip Norman, o relato de um incidente em que um John Lennon adolescente estava deitado com a mãe, na cama, conversando sobre música e teve uma ereção. Esse episódio aterrorizou o menino ao longo da vida e, segundo o biógrafo, só encontrou vazão durante a terapia do grito primal, da qual John participou nos anos setenta. Um dos primeiros tabus da humanidade, sugerido por Freud em Totem e tabu, foi o tabu do incesto. Por causa da culpa advinda do assassinato do pai, os irmãos estabeleceram tal tabu: os membros de uma tribo jamais poderiam se casar com mulheres da mesma tribo, ou a guerra se instauraria entre os irmãos. Muito antes da tábua de Moisés, o incesto foi instituído como pecado: começava a civilização. Agora a hipótese: a grande paixão de John Lennon, todos sabemos, foi Yoko Ono, uma mulher mais velha – a madre superiora – de uma origem étnica completamente distante. E mais: há rumores de casos homossexuais e, mesmo a amante, May Pang, era chinesa. Talvez um dos motores do amor de John por Yoko fosse o pânico do incesto. Qualquer mulher que pudesse provocar vaga lembrança da mãe instaurava o pânico. Claro, houve Cíntia e várias meninas ao longo da vida; mas com Cíntia, todos sabemos, não foi amor.
E talvez não também, talvez toda essa coisa freudiana que falei não passe de bobagem. Talvez fosse só o amor mesmo acontecendo sem qualquer explicação😉!
E talvez não também, talvez toda essa coisa freudiana que falei não passe de bobagem. Talvez fosse só o amor mesmo acontecendo sem qualquer explicação😉!
SOBRE O PERDÃO
Perdão não se dá, distribui-se; mas, o mais difícil não é perdoar, é pedir perdão a quem nos feriu. Sempre que há um desentendimento, é preciso que a gente veja só nossa parcela de culpa; sem cobrar. O outro é problema dele. Assim, o marido traído pede perdão 'a esposa; a mãe pede perdão ao filho ingrato; o filho pede perdão aos pais que o entregaram para adoção. Não há maior exercício de humildade que este e o Sagrado se comove diante de tal gesto. E o coração da Divindade se enche de júbilo; o qual se expressa, neste plano, como milagre. É o perdão que a gente pede, muito mais que o que a gente dá, que transforma o coração do outro. Mas a gente sequer consegue perdoar - porque o orgulho -, quanto mais pedir perdão. E, no entanto, seria este gesto simples o único meio de transformar o tumor em purpurina.
A FEDÔ E MEU AMIGO GUEGUÊ
Nossa república era na beira da favela. Quatro estudantes pobres. Uma vez, um caminhão de cerveja virou na Raposo e foram três dias de festa em todo o jardim Paraná; glória a Deus! Jovem é jovem e nenhum de nós era santo; de modo que sempre tinha alguém da comunidade na nossa. Dentre as visitas, uma das mais constantes era a Fedô. Ela ainda não tinha dezoito, usava boné, bermudão, camiseta sem manga. FEDÔ - isso é apelido que se coloque numa menina? ...– estava pichado na tabela de basquete da quadra comunitária. Acontece que a Fedô se apaixonou pelo meu amigo Gueguê, porque ele era alto, magrelo, meio corcunda e tinha aquela cara de cachorro que caiu da mudança. Foi engraçado vê-la chegando à nossa casa, sem aviso, de batom passado, esmalte nas unhas, sutiã e tudo mais. Ninguém tinha coragem de fazer graça, porque ela era braba igual a siri na lata. Eu soube, ela estava gostando. Mas o Gueguê era um menino problemático. Sofria de terror noturno. Às vezes acordava de noite gritando. “Dissestes que se tua voz / Tivesse força igual / À imensa dor que sentes / Teu grito acordaria / Não só a tua casa / Mas a vizinhança inteira”. No segundo semestre de 2002, a República se dissolveu. Gueguê foi morar sozinho, perto do Parque Buracão. Ele já estava planejando, as pistas estavam todas lá; mas, como num livro de mistério, num filme de terror, a gente só capta os indícios em retrospectiva, depois do suicídio consumado. Suicidas são mestres em enganar, fingir que estão bem. No dia em que soube da morte, encontrei a Fedô, como sempre rodeada de moleques, em frente ao Bar do Jura. Ela me abraçou, chorando, e disse:
- Estava de bobeira fazendo um pião no centro. Aí a gente passou em frente ao IML e o rabecão tava descarregando um corpo. Só de farra, fomos ver quem era. Eu e os moleque. Porra, quando olhei, era o cara lá, pelado, branco que nem ET. Eu nem consegui – e voltou a chorar. Daquele dia em diante, a Fedô nunca mais sentiu vontade de passar batom. Acho que aquela coisa feminina, meio maternal, tinha morrido também dentro dela.
- Estava de bobeira fazendo um pião no centro. Aí a gente passou em frente ao IML e o rabecão tava descarregando um corpo. Só de farra, fomos ver quem era. Eu e os moleque. Porra, quando olhei, era o cara lá, pelado, branco que nem ET. Eu nem consegui – e voltou a chorar. Daquele dia em diante, a Fedô nunca mais sentiu vontade de passar batom. Acho que aquela coisa feminina, meio maternal, tinha morrido também dentro dela.
terça-feira, 3 de março de 2020
AS LÁGRIMAS NO BOTECO
(Para Theodor Adorno)
Essa me lembra meu pai.
Eu nunca gostei de pub ou coisa assim. Lugares sofisticados me intimidam. Sempre fui de boteco. Durante muito tempo, inclusive, cuidei, muito mal, de um. Toda a minha vida, vivi no meio de gente simples, que preferia compartilhar uma única colher para o tira-gosto ao garfo e faca. Homens assim são arredios quando estão sóbrios. Homem não chora. Homem pobre engole ainda mais. E, se chora o menino, é manha. Só que eu mesmo participei de muitas catarses; nas quais um chorava, outro ria, outro gritava e todos, todos, cantavam juntos, abraçados. Bastava chegar algum violeiro banguela e o poder da Arte se instaurava. E todos nós - pedreiros, eletricistas, mecânicos, ajudantes, porteiros, motoristas, vagabundos, camelôs - lembravamos carregar um amor, um coração e um menino ferido precisando de cuidados.
Essa me lembra meu pai.
Eu nunca gostei de pub ou coisa assim. Lugares sofisticados me intimidam. Sempre fui de boteco. Durante muito tempo, inclusive, cuidei, muito mal, de um. Toda a minha vida, vivi no meio de gente simples, que preferia compartilhar uma única colher para o tira-gosto ao garfo e faca. Homens assim são arredios quando estão sóbrios. Homem não chora. Homem pobre engole ainda mais. E, se chora o menino, é manha. Só que eu mesmo participei de muitas catarses; nas quais um chorava, outro ria, outro gritava e todos, todos, cantavam juntos, abraçados. Bastava chegar algum violeiro banguela e o poder da Arte se instaurava. E todos nós - pedreiros, eletricistas, mecânicos, ajudantes, porteiros, motoristas, vagabundos, camelôs - lembravamos carregar um amor, um coração e um menino ferido precisando de cuidados.
APENAS SERES HUMANOS
O Rosa diz pela boca de Riobaldo: “Deus é paciência. O contrário é o Diabo”. E eu digo: sim, por certo. Jesus foi um tremendo pedagogo; Buda também e mesmo o lacônico Laozi; mas, aqui, fico com o Cristo. Ensinar exige paciência e o Mestre não media esforços para dizer de outro modo, tentar um método alternativo, experimentar novo caminho. Neste sentido, era pura paciência; mas, como homem que também foi, experimentou a ira e o que Jesus de Nazaré mais odiava era a hipocrisia. Houve o episódio dos mercadores do templo; mas houve outros também, nos quais o método pedagógico foi a patada: sempre que aparecia um fariseu aporrinhando, com uma pergunta que nada tinha de vontade de saber, levava uma. Estou dizendo isso tudo para chegar à afirmação: amor não é a ausência de ira; é a ausência de julgamento. Cristo irou-se; mas não julgou, pelo contrário, tinha horror aos juízes, aos moralistas, àqueles que se assentam sobre uma moral e de lá apontam o dedo. Neste sentido, a reportagem do Dr. Dráuzio sobre a vida das mulheres trans nos presídios lembrou-me uma passagem do Evangelho. Segundo a lei da época, a mulher adúltera devia ser apedrejada até a morte. E, então, surgiram os canalhas fazendo emboscada. Sem que o Mestre se preparasse para a defesa – os pensamentos vêm de outro lugar – os homens de bem da época prepararam a armadilha e perguntaram: o que fazer? Sorriram, dessa Ele não tinha como escapar: ou aprovava o apedrejamento, ou estaria também contra a lei. Jesus agachou-se por uns momentos e escreveu na areia. O quê? Não sabemos. Quando, por fim, colocou-se de pé, disse com a autoridade do amor:
- Quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra. – O chão tremeu, o céu se abriu, as hienas se afastaram.
O Dr. Dráuzio, a gente sabe, é ateu, mas faz trabalhos voluntários nos presídios há trinta anos e, o que é maior, sem o interesse de querer impor sua verdade. Aquelas mulheres são as renegadas dentre as renegadas; pois, mesmo dentro da cadeia, não têm lugar e, paradoxalmente, é só na cadeia que podem ser quem são. Quando não cabemos na lei, o caminho que se abre é fora da lei. Na reportagem, sensível, vemos que doentes, rejeitadas, abandonadas, foi entre a marginália, muito mais que entre os cidadãos de bem, que elas encontraram algum tipo de ternura humana. E não são vermes, baratas, ou animais peçonhentos, gente! São apenas seres humanos, como todos nós, todo o resto é bobagem, hipocrisia, ou canalhice. Ou você está do lado dos que acolhem, ou do lado dos que apedrejam.🌻
- Quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra. – O chão tremeu, o céu se abriu, as hienas se afastaram.
O Dr. Dráuzio, a gente sabe, é ateu, mas faz trabalhos voluntários nos presídios há trinta anos e, o que é maior, sem o interesse de querer impor sua verdade. Aquelas mulheres são as renegadas dentre as renegadas; pois, mesmo dentro da cadeia, não têm lugar e, paradoxalmente, é só na cadeia que podem ser quem são. Quando não cabemos na lei, o caminho que se abre é fora da lei. Na reportagem, sensível, vemos que doentes, rejeitadas, abandonadas, foi entre a marginália, muito mais que entre os cidadãos de bem, que elas encontraram algum tipo de ternura humana. E não são vermes, baratas, ou animais peçonhentos, gente! São apenas seres humanos, como todos nós, todo o resto é bobagem, hipocrisia, ou canalhice. Ou você está do lado dos que acolhem, ou do lado dos que apedrejam.🌻
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