Há destinos piores que a morte. É necessário que fique claro: Ana não se suicidou porque queria morrer; mas porque queria voltar a sentir. Estava cansada de passar os dias olhando o mar da varanda; em silêncio; em solidão – o barulho das ondas. A tristeza causada pelo belo dilacera mais.
- O pior já passou!
Não, Senhor, o pior estava por vir; não era a dor da morte do filho, do abandono, do golpe na autoestima causado pela traição. Onde há algo, ainda que seja uma dor, é indício de que a vida prossegue. Tudo isso tinha passado e, agora, não a vida, mas o nada; não o vazio, muito menos o oco, mas a ausência de buraco – esta coisa branca, invisível, impalpável. Ana fazia pequenos cortes com a gilete na batata da perna, arrancava as cascas das feridas. Tentava. Não era automutilação, era meio de se agarrar. A cada dia, produzia em si lacerações maiores. O espelho do banheiro estava quebrado por conta de uma cabeçada. Havia sangue proveniente da testa nas paredes brancas da sala e ninguém. Quartos escuros, prostitutas, meninos tristes, ostras, caranguejos e aranhas caranguejeiras, tudo de triste e obscuro. O que é isto que se comunica com nossa solidão a partir do momento em que se estabelece a paraplegia entre a alma e o corpo? Vocês querem gozar? Arquitetam traições em motéis fuleiros? Saem pra caçada em tempos de peste? Defendem a esquerda progressista? Não, nada; brancura. Neve onde não. Buracos de queijo sem o queijo; abismo sem borda. Não houvesse a varanda, levitaria. Diluir-se-ia no aberto, posto que era parte: corpo sem órgãos. Sim, há destinos bem piores! Uma sensação de cerco, acosso, como nos filmes de ação em que o herói é perseguido pela polícia e a máfia; só que sem polícia e máfia. Neste lugar da alma onde você ousou chegar, ninguém pode te seguir: Deus é uma dor vasta! Um nome de ferida. Você foi longe demais, menina e, agora, teu olhar em nada difere do olhar terrível de Friedrich Nietzsche, catatônico, indiferente, nos dias finais. Entre o nada e a dor, a gente escolhe a dor. Sentir ao menos o corpo explodindo de encontro ao chão: carne e catch up, omelete de sangue e vísceras espalhado na calçada. Bum! No exato instante-já do toque, entretanto, a vitória, a volta do sentimento, a dor grande que nos devolve ao corpo antes de nos tirar dele pela última vez.
Na rodovia: chuva, pista molhada, um automóvel cujo pneu toca o asfalto e depois não. O mundo que segue indiferente.🌻
quarta-feira, 25 de março de 2020
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