Acontece muito comigo. Às vezes, levanto os óculos até a testa e depois fico procurando. Neste momento, é sempre bom ter alguém que diga: “Ei, os óculos estão aí na sua testa”. Esta situação pitoresca lembra-me um pouco a psicanálise. É que, quando estamos profundamente dentro de um problema, dificilmente enxergamos a solução e aí precisamos de alguém de FORA que diga: “os óculos estão bem aí.” Mas o que tudo isso tem a ver com o título? Explico.... É que sempre me incomodou a afirmação mística: “é preciso estar no mundo sem ser do mundo”. Como assim? Então a espiritualidade não deve combater a injustiça? Não deve lutar por um mundo mais igual? Não deve erguer a voz para falar com os que não têm voz? Deve se contentar apenas com a salvação depois da morte? Questão intensa. Não foi só a mim que a afirmação anterior incomodou. Nietzsche também tinha convulsões quando ouvia algo assim. Meditando sobre o assunto, o sagrado soprou-me ao ouvido: “Estar no mundo sem ser do mundo é uma afirmação contra a alienação e não a favor”. Explico de novo. Todo o tempo, somos instados a participar dos acontecimentos. Sobre todas as coisas, temos de dar nossa opinião muito particular, mas igualzinha à da metade instaurada - neste momento histórico - à qual pertencemos. Alienação é ter de opinar sobre tudo o tempo inteiro, sem parar para ver a questão de um ponto além das próprias certezas. Alienação é não saber de si e querer prescrever o que é melhor para o mundo. Neste sentido, Nietzsche propôs o perspectivismo que, grosso modo, consiste em ver a questão sob todos os pontos de vista possíveis. Isto, no entanto, ainda não nos dá o Fora. Só a mística e a literatura proporcionam uma instância de onde somos capazes de olhar para nós mesmos como se fôssemos outro. Tanto a mística, quanto a literatura permitem-nos falar de nós na terceira pessoa; ou melhor, nas palavras de Ferlinghetti, na quarta pessoa do singular. “O eu é um outro” - disse Rimbaud. Só do espaço místico ou literário é que podemos de fato ver uma questão sem estarmos imersos nela; só daí, podemos dizer a nós mesmos: “os óculos estão bem aí na testa”. Somos, então, ao mesmo tempo, o analista e o analisando, o observador e o objeto da observação, aquele que tem os óculos na testa e o que diz: “os óculos estão aí”. Só deste lugar, além e dentro, é que podemos ver o mundo objetivamente. Estamos então no mundo, mas não pertencemos a ele; pertencemos a nós mesmos, à nossa própria alma. Em suma, estar no mundo sem pertencer ao mundo não é apatia, mas expansão de consciência e ação consciente. Alienação é o contrário, é estar demais no mundo e ter a vista turva pelo excesso de.
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