Nossa república era na beira da favela. Quatro estudantes pobres. Uma vez, um caminhão de cerveja virou na Raposo e foram três dias de festa em todo o jardim Paraná; glória a Deus! Jovem é jovem e nenhum de nós era santo; de modo que sempre tinha alguém da comunidade na nossa. Dentre as visitas, uma das mais constantes era a Fedô. Ela ainda não tinha dezoito, usava boné, bermudão, camiseta sem manga. FEDÔ - isso é apelido que se coloque numa menina? ...– estava pichado na tabela de basquete da quadra comunitária. Acontece que a Fedô se apaixonou pelo meu amigo Gueguê, porque ele era alto, magrelo, meio corcunda e tinha aquela cara de cachorro que caiu da mudança. Foi engraçado vê-la chegando à nossa casa, sem aviso, de batom passado, esmalte nas unhas, sutiã e tudo mais. Ninguém tinha coragem de fazer graça, porque ela era braba igual a siri na lata. Eu soube, ela estava gostando. Mas o Gueguê era um menino problemático. Sofria de terror noturno. Às vezes acordava de noite gritando. “Dissestes que se tua voz / Tivesse força igual / À imensa dor que sentes / Teu grito acordaria / Não só a tua casa / Mas a vizinhança inteira”. No segundo semestre de 2002, a República se dissolveu. Gueguê foi morar sozinho, perto do Parque Buracão. Ele já estava planejando, as pistas estavam todas lá; mas, como num livro de mistério, num filme de terror, a gente só capta os indícios em retrospectiva, depois do suicídio consumado. Suicidas são mestres em enganar, fingir que estão bem. No dia em que soube da morte, encontrei a Fedô, como sempre rodeada de moleques, em frente ao Bar do Jura. Ela me abraçou, chorando, e disse:
- Estava de bobeira fazendo um pião no centro. Aí a gente passou em frente ao IML e o rabecão tava descarregando um corpo. Só de farra, fomos ver quem era. Eu e os moleque. Porra, quando olhei, era o cara lá, pelado, branco que nem ET. Eu nem consegui – e voltou a chorar. Daquele dia em diante, a Fedô nunca mais sentiu vontade de passar batom. Acho que aquela coisa feminina, meio maternal, tinha morrido também dentro dela.
quarta-feira, 4 de março de 2020
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário