domingo, 15 de março de 2020

SESSÃO DA TARDE

Vou contar a coisa de que mais me envergonho ao longo dessa louca jornada. Não foi o dia em que bati o carro bêbado, ou o dia em que apanhei no Bilu. Isso foi antes. Há quase trinta anos, aconteceu esse show do Human League, em São Paulo. Eu era um fedelho mal saído. De modo que, dificilmente, minha mãe me deixaria ir. Só que eu tinha um amigo, o Timijo Norrego, ele também não era muito mais velho, mas a irmã, sim. Então, combinamos e ela, que já era maior de idade, foi pedir à minha mãe. Depois de muita resistência, Dona Geralda permitiu. Fomos. Antes de entrar, tomamos, cada um, duas ou três garrafas de Keep Cooler. Era o primeiro espetáculo a que eu ia e tudo me encantava. Enfim eu deixava de ser criança! Como demoraram a passar aqueles anos que separavam a infância da adolescência! Os primeiros pentelhos, que orgulho! Curti de tudo: os jovens, as cores, as risadas, as luzes, o som, a galera cantando junto. Quer dizer que a vida podia ser tão boa! E, eu não sabia, ficaria ainda melhor. Já tínhamos pulado como loucos, chorado ao som de Human, quando começou Don´t you want me. Puta que pariu! Nem nas tragédias gregas acontecia tal catarse. Todo mundo pulando, batendo palma e cantando junto; isso só na intro; antes de a música sequer começar. Foi lá pelo meio, quando a loira começa a cantar que a Tati, irmã do Ti mijo, me abraçou e me deu um selinho; tudo isso sem parar de pular. Aí; meu amigo, minha amiga; meti o louco. Nunca tinha beijado, mas já sabia que tinha de pôr a língua. Não deu outra. Tasquei-lhe um daqueles! E ela, gueixa, retribuiu e, com delicadeza, devolveu a própria língua pra dentro da minha boca. Como é bom beijar! Naquela noite, fui pra casa realizado. Já trabalhava na padaria, mas não dormi pra acordar cedo. Fiquei a noite toda imaginando o casamento. Ela entrado na Igreja vestida de branco, tocando A whiter shade of pale; em seguida, entraríamos no carro, ela colocaria meu excelente livro de poemas recém publicado no banco de trás. E aí nós nos beijaríamos e partiríamos para a lua de mel.
Passaram-se quinze dias e não tivemos qualquer contato. Timijo Norrego, assim como eu, não tinha um pingo de juízo. Falei com ele sobre a irmã e ele disse: “Por que você não vai lá na Unicsul e leva um presente pra ela?” Ela já estava na faculdade e eu no primeiro ano do ensino médio. Eniuei, comprei uma caixa de bombom em forma de coração e fui. Eu devia saber que ia dar merda! Quando cheguei, ela estava na porta de um daqueles barzinhos com a maior galera. Chamei-a de lado e falei dos meus sentimentos. Pensava em namoro sério, com aliança de compromisso e tudo. Ela olhava pros amigos e dava risada, sem graça. Eles também gargalhavam de lá. No fim das contas, ela aceitou a caixa de bombom; mas disse que tudo aquilo era absurdo. Rapaz! Depois as meninas reclamam quando os rapazes se fecham. Antes de ir embora, olhei pra trás e vi que os mais velhos continuavam rindo, enquanto dividiam minha caixa de bombom. Fiquei com vontade de voltar e tomar de volta. Desisti. Depois disso, nunca mais visitei os Matsunaga. Nunca.
Ontem, mais de trinta anos depois, trauma superado, consegui cantar de novo essa canção, em dueto, num karaokê e toda a galera cantou junto.
Todas as coisas passam.🌻

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