quinta-feira, 28 de maio de 2020

LITERATURA E PESSIMISMO

Procure se lembrar, atravesse todo barulho dos muitos “eus”, da sociedade, de todos os meios de comunicação; Isto está sussurrando. Em geral, não ouvimos porque estamos distraídos ou ocupados com tarefas urgentes e inúteis. Isto é generoso, altruísta, delicado, atento à beleza. Isto é quem somos para além de todas as máscaras. Geralmente, não conseguimos ouvir, perdidos que estamos, até que uma grande dor abra nossa escuta. A Literatura ocidental, desde Shakespeare, é uma Literatura pessimista. Fitzgerald: “É claro que toda vida é um processo de demolição”. Tudo é sempre muito trágico e o homem caminha para seu próprio abismo. Por quê? Porque está desconectado de si. Já não se lembra de quem é. Não encontra dignidade em seu próprio coração e então se volta para o poder e a ascensão social: as disputas de poder das “dark plays” shakespearianas; a busca de ascensão social de Julien Sorel; O grande Gatsby; Judas, o obscuro; Extinção, de Thomas Benhard. Sempre o abismo como destino. Hemingway chegou mesmo a dizer que não se pode ser feliz e inteligente ao mesmo tempo. Não nego a etapa da dor. É difícil arrancar uma máscara afixada à face com Super Bonder, mas a grande dor é a fissura que abre o Ser à escuta de si. Na filosofia, Nietzsche também percebeu isso e, a partir daí, distanciou-se de Schopenhauer. Zaratustra sempre se volta à sua caverna e aos seus animais. E o que é o além do homem, se não o ser que goza em ser si mesmo, que não espera reconhecimento exterior, mas que se realiza ao desenvolver todas as potências da abertura que encarna? Nietzsche não vai pelo caminho metafísico; busca os céus com os pés na Terra; vislumbra, no entanto, o mesmo ser que os grandes instrutores eram: o iluminado. Se seu chamado é guerreiro, então regozije-se com a guerra; se é a literatura, realize-se com a escrita e não com a fama. Nosso valor não está no reconhecimento da sociedade, mas na realização do chamado mais fundo de nosso coração. A Literatura ocidental é pessimista porque o ser humano esqueceu de si; e, a maioria culta identifica-se com este lugar de perdição e errância. Há, no entanto, uma porta para outro lugar no interior. Olvidado no fundo do silêncio, aquilo que somos clama atenção. A Literatura pode ser alegre. Também.🐴

JUSTIÇA E HUMILDADE

Penso nestas duas palavras. Observo-me e vejo que é na vida diária que a transformação do real acontece. É quando lido com minha ex-mulher e consigo saltar os sentimentos negativos envolvidos num divórcio que sou justo. Porque nenhum homem é melhor que nenhuma mulher apenas por ser homem. Pratico a justiça quando reconheço que errei e tento reparar. Fui criado assim, cultura de periferia, mas isso não justifica: homens e mulheres têm os mesmos direitos, inclusive no que se refere ao sexo e ao prazer. Então, não deveria ter me dado ao direito de transgredir, porque a base de qualquer experiência de humildade é não se colocar num patamar superior; é recusar o privilégio. A História está cheia de humanistas para o mundo, mas tiranos em seus lares. Vejo, deste modo, que a prática da humildade, como tudo o mais, não começa com o outro, com os grupos historicamente marginalizados; às minorias – e a minoria é sempre qualitativa – não foi dada a opção de serem humildes, porque o poder as relegou a um papel subalterno; na marra. Sou eu quem devo me reconhecer singular em minha diferença e desejar ao outro o mesmo que desejo a mim: o melhor. Difícil, mas não impossível querer que a mulher que a gente um dia amou – eroticamente - encontre um parceiro e que o amor ressurja com todas as suas nuances, inclusive sexuais - o mais duro de imaginar para um machista como eu. Não podemos mais usar palavras esvaziadas de sentido como a sociedade, o homem, ou a humanidade. Tudo isso somos nós. É banal a intenção mudar o mundo, sem antes olhar nosso tirano interior. Sou eu, no cotidiano, quem tenho de estar disposto a dividir do modo mais justo as tarefas. Sou eu quem tenho de abrir mão de privilégios historicamente instituídos apenas por ser homem. É em mim, na minha casa, ao meu redor, que acontecem a justiça, a humildade, o amor e o mundo começa a mudar. Demorei muito tempo para escrever este texto, porque minha palavra sempre passa pela carne e foram necessários divórcios, dores imensas, relações naufragadas para reconhecer que, no íntimo, eu não era um homem honesto, nem justo, muito menos humilde; uma vez que não podia respeitar os contratos do amor. Estou esculpindo a mim mesmo com as ferramentas que encontro pelo caminho; tentando ser um homem melhor e ele nasce é nos pequenos gestos anônimos e diários como assar um bolo para alguém que amo🌻

A LUA CHEIA QUE EU GUARDEI

Eles sempre ficavam na praça, sentados-abraçados, olhando a lua. Quando a enchente arrastou o banquinho, nunca mais se sentaram lado a lado. Continuaram, no entanto, olhando a lua. Cada um sentado em sua própria solidão.

MOLEQUES

- E cês tão como?
- Nois tá tudo sofrendo do coração, Professor.

AQUELE LIVRO PERTURBADOR

Às vezes,
Acho que nem quero
Ler o livro do amor
Outra vez
Porque os finais são duros demais
De suportar
Eu quase morro
Emagreço, não durmo, enlouqueço
Por mais de anos

quarta-feira, 20 de maio de 2020

CASANOVA

Tenho consciência de que tenho sido uma mãe superprotetora. Toda a vida, exigi mais beijos, abraços e declarações de amor do que meu filho desejava ofertar. Quando o pai se foi, fiquei sem chão. Tenho muito amor dentro de mim que quer sair, doar-se, depositar-se em alguém, sabe? Talvez o excesso de amor também seja doença. Já fiz meu menino passar muita vergonha na escola, diante dos amigos. Por um tempo, acho até que invertemos os papéis; ele parecia o adulto e eu a criança. Depois que meu ex se foi, isso já tem quase quinze anos, nunca mais consegui engrenar um relacionamento. De perto ninguém é normal. Mas eu me doei, sabe, e não foi em vão. Ele tornou-se um homem bom. E não é isso o que uma mãe mais quer? Observar as atitudes do filho, mesmo as menores, e poder dizer: “Criei um bom homem!” Sei que, quando ele ficou adolescente, impliquei com algumas namoradas e só deixei que fosse à padaria, há dois quarteirões daqui, depois que completou dezesseis anos. Você tem de dar um desconto. Eu só tenho ele no mundo e é um mundo tão violento! Basta ligar a televisão ou entrar numa rede social: é só tragédia! E os jovens. Os jovens não acreditam na morte. Fiz essa mea culpa para chegar ao dia de hoje. Não me justifico nem estou me expondo a julgamento. Teimo, no entanto, em dizer que não fui uma mãe tão má. E que, mesmo forçando-o a dormir comigo até há pouco, ele se tornou um homem e tanto; difícil de entregar nas mãos dessas periguetes de hoje. Meu filho, você precisava ver, deixou o cabelo crescer desde que tinha quinze anos. Era a coisa mais linda. Liso, castanho clarinho, com algumas mexas loiras. Minhas amigas mesmo diziam: “Se fosse mulher, não teria cabelos assim!” Ele sempre adorou aquelas madeixas, xodó mesmo, sabe? Eu sou cabeleireira. As meninas perguntavam: “Você faz chapinha nos cabelos de seu filho, não faz?” Que pergunta, né? De jeito nenhum. Tudo natural. Ô menino lindo! E, então, veio essa crise. E a gente com aluguel pra pagar; tanto do salão, quanto da casa. As contas chegando sem parar e o salão fechado; semana após semana. Deu desespero, sabe? Crise de choro e tudo. Então, hoje, meu menino levantou cedo e saiu. Perguntei aonde ia e ele não respondeu. Voltou agora de tarde, meu filho, com a cabeça raspada; tirou mil reais dos bolsos e colocou em cima da mesa.
“Que diabos você fez?”
“Vendi meu cabelo pra ajudar a senhora a pagar as contas.”
Ah, eu chorei, sabe? Beijei! Cheirei ele da cabeça aos pés! Meu menino ficou ainda mais lindo de cabelos raspados.🐞

UM CARA LEGAL

Ainda há muita gente boa nesse mundo cão. A primeira coisa que você deve saber é que sou alcoólico, mas estou abstêmio há pouco mais de três anos. Abri mão de tudo para ser súdito do Rei Álcool. Perdi emprego bom, casa, carro, família e, por último, meu cão. Tanto minha ex, quanto minha filha não queriam me ver nem pintado. Não as culpo. Quando a filha se casou, sequer fui convidado, embora já não bebesse. Doeu. Caso não tivesse um propósito, teria bebido aquele dia. Foi um sábado estranho, demorou a passar. Eu nada podia fazer a não ser esperar. Depois dessa, pensei que nunca mais seria perdoado. Acontece que minha ex-mulher encontrou um novo parceiro. Meu antigo eu teria feito disso um fim de mundo. Demorou, mas aprendi que a banda não toca como quero e que os outros não estão aí pra fazer minha vontade. Só queria que eles pudessem perceber que, enfim, consegui mudar; que, embora aquele cara teimoso, arrogante, turrão, ainda esteja aqui; agora eu o mantenho sob controle, vigiado para que não faça merda. Já estamos separados há mais de cinco anos. De modo que fiquei feliz por ela ter encontrado alguém. Foi ele quem me ligou: “Olha, sou fulano de tal, atual companheiro de Layla. Estou ligando para te dizer que vamos nos casar e eu queria muito que você estivesse presente. Seria uma honra imensa.” A princípio, pensei que fosse alguma arapuca. Talvez o cara quisesse me humilhar; talvez minha ex tramasse vingança. De qualquer forma, resolvi aparecer. Quando cheguei à festa, o cara veio correndo me receber; como se eu fosse alguém especial. Acho que tinha minha idade e era muito afetuoso. Aceitou minha lembrancinha, abraçou-me, beijou meu rosto e disse:
- Estou muito honrado e feliz com sua presença.
Em seguida, acomodou-me numa grande mesa com toda a família. Mesmo sendo o noivo, passou o tempo todo me servindo, perguntando se estava tudo bem. Fiquei até sem graça. Quando vim embora, fez questão de que me despedisse da filha e de Layla com um abraço. Deixou, então, os demais convidados e acompanhou-me até a saída com a mão no meu ombro:
- Todos nós erramos muito na vida – disse. - Nunca é tarde demais, companheiro.
A vida bem que pode ser leve, afinal, se a gente não atrapalhar.🌻

A EXUMAÇÃO DE DONA MARIA DA QUITANDA

Dona Maria era a senhora mais alegre do bairro. Sempre de bem com a vida, sorridente, disposta a ajudar o próximo. Depois que o marido morreu, nunca mais se casou. Não se tornou, no entanto, uma daquelas viúvas amargas. Há três anos, morreu na cama. Lembro o semblante leve, tranquilo, parecia sorrir durante o próprio velório. Foi em paz. Hoje aconteceu a exumação. Como sou amigo do filho, fui junto; pra dar uma força. Ao abrirem o caixão, notamos um artigo cilíndrico, de tamanho mediano, esquecido entre o ilíaco e o ísquios. Quando o funcionário do cemitério tocou o objeto não identificado, o mesmo começou a vibrar; tal e qual ursinho do comercial das pilhas Duracell. Imediatamente, lembrei-me da gargalhada gostosa de Dona Maria da Quitanda e eu mesmo não pude conter a minha.
A vida também é feita dos pequenos prazeres.

UMA HISTÓRIA DE CAVALO

O potro e a eguinha nasceram no mesmo dia, com uma diferença de horas. Ambos eram cavalos de raça, destinados à corrida e à exposição. Embora não partilhassem a mesma mãe, cresceram na mesma fazenda. Brincaram juntos. Apostaram corridas pelo campo aberto. E, de tarde, enquanto o sol se punha, os dois deixavam de pastar, admirados. Ele esfregava, então, o focinho no pescoço dela, que sorria, bonita, faceira, fêmea e dizia:
- Eu ainda vou ganhar muitos prêmios. Vou ser a melhor égua do mundo!
E ele concordava com a cabeça, relinchava, e completava sem crer demais:
- E eu serei o maior cavalo. Quero correr!
Há no centro de todo ser um pressentimento de seu destino. Se fosse humano, os quânticos diriam que seu pessimismo atraiu o infortúnio. Como era apenas cavalo, nada pôde fazer quando ladrões invadiram a fazenda e o levaram. No começo, a eguinha sentiu saudade. Depois se acostumou. O cavalinho foi perdendo a cor em sua memória, ficando cada vez mais claro, mais claro e mais claro até desaparecer. Ela tinha muitos compromissos diários. Ele, por seu turno, nunca a esqueceu. Enquanto ela cresceu e se tornou de fato uma égua premiada; ele enfrentou as mais duras tarefas. Teve vários donos; um pior que o outro. Apanhou até de fio de ferro. Não tinha o couro nas costas; por conta da carroça que sempre pesava mais que podia carregar. E quando, por acaso, tombava, no meio da rua, era na base do chicote que precisava encontrar forças para se levantar.
Uma tarde, muitos anos depois, tornaram a se ver. Ela tinha ganhado mais um prêmio. Ao dono dele, permitiram que entrasse com a carroça para pegar o lixo reciclável. O coração do cavalo – prematuramente envelhecido - disparou. Talvez fosse amor. A égua famosa, premiada, imponente, não o reconheceu, no entanto. Sequer fazia ideia de quem era aquele cavalo todo esfolado, de olhos tristes, com bichos nas perebas e moscas atormentando as orelhas corroídas.🐴

UM ENREDO MUITO, MUITO TRISTE

Nós a chamávamos Diana, mas bem poderíamos tê-la chamado de Doçura. Era uma cadelinha preta, com uma mancha branca na nuca. Apareceu aqui na rua ninguém sabe de onde. Os meninos diziam ter visto um carro deixá-la, de manhã, bem cedo, antes da aula e, depois, partir cantando pneus. Diana ficou. Mendigando afeto. Como ninguém podia levá-la para casa – eu mesmo tenho três cachorros; estabeleceu morada no ponto de ônibus. E cada passageiro que esperava, fazia um afago, deixava alguma coisa para ela comer, seguia seu destino. Diana agradecia; dócil, abanando o rabinho que também tinha uma mancha. Algumas vezes, quando saía para caminhar, ela me acompanhava, vinha colada ao meu corpo e, quando algum cão de rua latia, escondia-se atrás das minhas pernas. Coitada, achava que eu era capaz de alguma coisa. Todos os vizinhos colocávamos comida e água. Não havia um combinado. Quem visse as tigelas vazias, simplesmente as enchia. Ninguém, no entanto, pensava em levar Diana de fato para casa. Pressupúnhamos que ela estivesse bem. Era gostoso acordar de manhã, para o trabalho, e vê-la subir na porta do carro, para dar bom dia, enquanto esperava o portão fechar.
Pois bem.
Essa madrugada, alguém, não se sabe porque cargas d’água, esmagou o crânio da cadelinha com um bloco de concreto.

QUEM SABERIA PERDER?



A velhice merece respeito. Só eu sei o que passei para chegar aos quarenta. Que se dirá, então, dos oitenta? Quanta decepção, resignação e resiliência para se atravessar; quanta dor sentida e provocada? Com o tempo, a gente não busca mais culpados. Aprende que a vida junta e separa. A menina acolhe um menino; tempos depois, a mulher deixa um homem. Quanto segredo de amor escondido por aí? Sou de uma geração que ainda sonhou encontrar um amor para a vida toda; igual ao dos pais. Ninguém se casa pensando em divórcio. Fracassei. Tenho dois filhos com duas mulheres diferentes e não vivo com nenhuma delas. A luta desta hora, no entanto, pede que eu saiba perder. Ver o lado bom. Não há outra opção. Ao menos, nessa dança das cadeiras, a gente se desvela por inteiro. É que cada dois formam um casal diferente. E aquele que fui com uma parceira, não é o mesmo que serei com outra. Cada mulher conhece um homem. Cada parceira cria em mim uma versão que permaneceria como potência. Não é pouco. Cada vinco e ruga do meu rosto guarda uma história de vida, sonho, sinceridade, amor e morte. Quem saberia perder sem procurar culpados? Não o menino de dezoito que fui.
Recomeço.

A FALTA

Acho que não acontece só comigo. Eu sinto falta. Em alguns momentos, há um motivo específico; em outros, é falta pura, fenda, lacuna. Não sei se esta falta nasceu comigo, se é fruto do trauma do parto, ou se surgiu de um gesto de amor não correspondido: o seio sem olhar, algum momento em que me senti abandonado quando pequeno. A falta é constitutiva do ser humano, ou adquirida na experiência? O pai de Sidarta Gautama, o Buda, privou o filho de qualquer visão que causasse sofrimento e trabalhou para que nada faltasse. Ainda assim, havia a falta, uma saudade imensa de. Talvez, todos nós a carreguemos, desde o instante anterior à concepção. E todas as vezes que esta ferida doi durante a vida - as coisas e pessoas que perdemos pelo caminho - é o chamado para nos lembrarmos de algo que. Alguém parte sem dizer adeus; alguém nos julga de modo injusto. A falta sangra. É dela que brota a saudade. Ôntica ou ontológica, pouco importa. Toda vez que a falta dói, há um chamado à mudança. E um ser humano não pode salvar-se do afogamento puxando os próprios cabelos. Nem conhecimento, nem dinheiro aquecem o núcleo oco do ser. Por outro lado, ainda que nos sintamos fracos, a princípio, há no vazio um manancial de força e criatividade. Se passarmos pelo portal, encontraremos todo um novo potencial de vida do outro lado. A vida a gente reinventa. O tempo da mudança chegou. Até ontem a porta esteve aberta. Agora, tranco a porta ao passado. Os pássaros cantam. Vou viver. Boa sorte.

MEU CORAÇÃO BATIA MAIS QUE O MORRO DO NHANGUSSU

Já perdi muito tempo sendo triste, mas também já fiz muita coisa boa. A gente pode se achar sofisticado por sofrer; mas a pessoa que compra um livro de autoajuda está doendo do mesmo jeito. Gemer não é sinal de inteligência. Enfim, quando trabalhava no bar, tinha dois tipos de fregueses: os que bebiam em bando e os que bebiam solo. Os que bebiam solo sempre puxavam papo. Um dia, um cara - não era um freguês habitual, morava no bairro só que não era muito de beber – pediu uma cerveja e puxou papo:
- Minha mulher tá com câncer, bicho – disse depois da terceira. – Vai começar a quimio. Olha, tá pesado... Parceirona, aí. Mas, caramba, não queria nem fazer o tratamento porque cai o cabelo e ela adora. Mas, porra, não tem outra opção.
- É um problema procê?
- Pra mim não, mas ela.
- Então por que tu também não raspa o cabelo? Enche a cara, aí tu já me ajuda, passa a zero e chega em casa bebo, careca e fazendo graça.
Ele saiu bêbado. Sim, senhor. Domingo seguinte, vi o cara voltando da feira com a mulher, de mãozinhas dadas. Ele, careca. Ela, com o lenço na cabeça. É bonito, não é? É ser humano!🌻

MEU AVÔ NASCEU DURANTE A QUARENTENA

Ele nasceu quando o vírus.
Naquele tempo, as pessoas já tinham se acostumado com a máscara havia mais de geração. Todos deviam usá-la, porque o ar estava, irremediavelmente, contaminado. De modo que várias empresas diferentes confeccionavam máscaras, as quais adaptavam-se ao rosto durante toda a vida. Quando um bebê nascia, antes do primeiro tapinha, o médico já inseria a máscara; produzida pela indústria farmacêutica de preferência. Era assim que se reconheciam facilmente os Bayer, os Pfizer, os Axé e os que mais sofriam perseguição: os Cimed, que usavam as máscaras mais baratas. Era só por isso que as pessoas ainda sabiam que a máscara estava lá. Do contrário, teriam-na esquecido. A máscara era o rosto.
Ele não era nenhum Messias. Não queria salvar mundo. Salvar-se já estaria de bom. Tampouco foi por escolha que resolveu tirar. Durante vinte anos, sofreu com as inflamações. A máscara simplesmente não se adaptava. Criava-se pus nas extremidades, perto do pescoço ou da nuca. Ele gastou muito dinheiro. Tentou todos os tipos de. Mas nenhuma era confortável. Até que, certo dia, não suportando mais a dor, Doni-Ê resolveu arrancar a máscara. Que se contaminasse. Que o vírus invadisse seus pulmões. Que deixasse de respirar. Que morresse!
Madrugada; solidão; ante o espelho; viva e deixe viver; puxou uma beiradinha da máscara que estava solta: pus, sangue, dor. Continuou arrancando. Era o mesmo que arrancar a própria pele. Ao mirar outra vez o espelho, deu-se conta de duas coisas: 1º continuava vivo; 2º seu rosto era uma ferida. Ferida é outro nome para vida. Desconsolado, constatou que teria de continuar a existir com uma massa de carne machucada no lugar da máscara. Com o tempo, no entanto, as feridas foram cicatrizando. E, a cada dia, seu rosto ganhava mais brilho, mais cor, mais beleza. Quando o processo de cicatrização terminou, mesmo com as marcas, Doni-Ê era o homem mais bonito do planeta, ainda que não se percebesse. No fim das contas, ele era o único que tinha um rosto; enfrentando a ânsia de viver com tudo o que há de bom e ruim nisto.🐴

OS AMORES DE MEU TIO-AVÔ

Quando Tunico, meu tio-avô, morreu; todo mundo dizia:
- Dona Laura não dura mais um ano.
Quem morreu, uma semana depois, no entanto, foi José, o louro. Dona Laura, danada, casou-se outra vez e viveu mais vinte e quatro anos.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

GORDON MORAVA NAS MONTANHAS

Eu tinha ido estudar no interior. Dez horas de viagem. No princípio, ainda tentamos manter o relacionamento. Eu sempre dava um jeito e, todo final de semana, voltava. Fracassamos, como era de se esperar. Sofri. Era o primeiro. Eu não sabia que passava, ainda que demorasse. No domingo final, dormi a tarde inteira, no quarto dela, com os gatos espalhados sobre mim como se fossem. Eles também já sabiam e sofriam a saudade antecipada. Naquela noite, peguei o último ônibus, o qual deixava o terminal Barra Funda exatamente à meia noite. Como sabia que não conseguiria dormir, comprei um livro de dois reais – Seleções - naquelas máquinas do metrô. E era simplesmente o melhor livro de todos os tempos. E, quando o casal se conheceu, sorri. E quando fizeram amor, gozei. E quando os corações se partiram, o herói era eu. Finda viagem, esqueci o livro no ônibus, não anotei título ou autor. Tudo isto já tem vinte anos. O tempo dá saltos. Alguém escreveu o melhor livro do mundo e ninguém reparou. Eu, no entanto, prefiro ter perdido para sempre o contato; não quero lê-lo outra vez. Não consigo. O final é triste; difícil demais de suportar.🌻

O POÇO DOS DESEJOS

O fantasma precisa do humano
Não porque quer assombrar
Mas pela necessidade de colo e compreensão
Quando há alguém em quem pregar peça,
Acreditamo-nos palpáveis, ao menos;
Quase vivos; quase crianças
Quando, porém, um espectro vaga só
Em seu castelo escuro
Pesadas correntes presas a um afeto morto
A cada dia ficamos mais invisíveis
Até desaparecermos para os outros e para nós
Até que os lençóis de linho se dissolvam
Até que não reste rastro de um ser humano
Ou de uma assombração
Até que o tempo grande se revista de um grande nada sem fim.

É UMA CAMA DURA

Conscientemente ou não
Fiz o que pude pra me isolar
Agora que consegui
Tudo parece tão pior
Observo meu coração
Secando ao sol feito pano de prato encardido
Escuto só uma velha canção Rock n' Roll
Bebo
Em companhia do vazio
O café amargo que eu mesmo passei
E, quando anoitece, deito-me sem companhia
Numa cama de pedra
Os golpes que nos dilaceram não vêm de fora
São como os talhos do cinzel
De algum Deus norteamericano
Esculpindo um Grande Canyon dentro da gente.

SE VOCÊ PUDESSE LER MINHA MENTE, AMOR

“Desculpe por não ser alegre”. Foi a primeira coisa que ele disse. No meu trabalho, enfrento todo tipo de homens: escrotos, pegajosos, chauvinistas, alegres, babacas; mas os que mais me procuram são os tristes. Deve haver um motivo. Sou garota de programa e não comecei ontem. De modo que conheço um pouco do ofício. Sei o que sei. Em sua grande maioria, são carentes, os homens. Eu ouço. Dou o que querem. Não é apenas um ou outro que prefere conversar. Pornografia eles vêm em toda parte, basta abrir um site; aceitação e abertura não. Ele veio com os amigos. Estavam dispostos a fazer farra. Os cartões de crédito não tinham limites e clientes assim são bem tratados. Eu não sei o que nos aproximou. Eu poderia ter encostado em qualquer outro, só que não. Alguma força, talvez, como aquela que opera entre o Sol e a Terra, entre a Terra e a Lua, entre a Lua e o mar, entre o mar e os afogados: a limalha de ferro ganhando a forma do ímã oculto; destino, enfim. Ele me tratou com carinho, mas fez com força. Um homem pode muito bem ser forte e terno ao mesmo tempo. E disse uma coisa:
- Eu já estou morto!
De um modo tão verdadeiro que quase pude ver através dele. Se abrisse a camisa naquela hora, creio que enxergaria o coração trincado como se fosse de vidro. Os heróis falham. Alguns homens são seres humanos. Temos de chamar as coisas pelo nome e aquilo era uma tremenda suruba. Acontece que, uma hora lá, ele me chamou para um quarto separado. Trepamos como. Pouco antes de amanhecer, pediu que eu buscasse mais uma cerveja. Demorei um pouco, porque estavam fechando o caixa. Quando voltei, ele tinha se enforcado com o lençol amarrado ao suporte da televisão. Como assim? Aquela carne roxa flutuando feito assombração? Semana seguinte, não consegui trabalhar. Agora, queria saber, que tipo de dor leva alguém a cometer suicídio, a se enforcar porra, no meio de uma orgia?

A VIDA: UMA FACETA

A vida é narrativa. Todos estamos aqui contando uma história com nossa fome, carne e sangue. Eu, por exemplo, quero escrever o romance sobre o poeta-jardineiro ferido, instável mentalmente, mas que ainda luta pra crer no amor e no ser humano. É a história do que somos que contamos a nós mesmos e aos outros. Sempre que atravessei uma grande dor, tentei caminhar como Elvis Presley, ou como Marlon Brando, em O último tango em Paris.

ANJOS

Devo confessar: passei dias difíceis. Sou nervoso, instável, acelerado; faço quatro ou cinco coisas ao mesmo tempo. Hiperativo. Estou sempre voltando com a pamonha. A gente busca o que não tem; daí a prática espiritual. Essa é uma das faces, a outra é o oco. Simplesmente não sinto. É como se fosse para outro lugar e observasse um robô aqui embaixo, limpando o coco dos cachorros, lavando o quintal, a louça, fazendo o café. É como se alguém desligasse a televisão da tomada bem no momento do gol. Cria-se, entre mim e minha própria vida, um abismo. Quem acompanha o que escrevo, deve ter observado o urubu sentado sobre as palavras. Sinto muito. Preciso, no entanto, escrever cru como me dói. Caso contrário, não me livro e, daí, corro perigo. Enfim, andei bem mal. Uma estranheza no sol, no ar, nas pessoas, no meu quarto, em tudo. De repente, eu era um estrangeiro de mim mesmo. Moro só com meus cachorros e eles percebem tudo. Preocupam-se. Ao colocar água e comida, já não fazia cafuné na Dara ou jogava a bolinha pro Bruxo buscar. Ele insistia. Pegava a bola e soltava perto de mim. Mas eu não tinha forças. Estava liquidado. Os cães, todavia, não desistem. Então, hoje de manhã, estava lavando a louça, como sempre faço, com a janela aberta. O Bruxo se aproximou e soltou a bolinha da boca bem ali. Como eu continuasse em silêncio, esbravejou latindo por uns cinco minutos.
- Como é? Vamos brincar, ou vai continuar de fuleiragem? Reage, homem! Deixe de ser frouxo! Bora! Olha esse sol!
Só parou quando fui até o quintal e joguei a bolinha longe. Aí, então, o Bruxo abriu o maior sorriso do mundo e saiu correndo louco, mobilizando todos os seus músculos de um pastor alemão de um ano e meio. Vocês precisavam ver. Pura vida, hermano! Foi lindo!🌻

ROCK N´ ROLL LULLABY

Trabalhando por quase vinte anos em escolas da periferia, testemunhei de tudo. Vi alunos serem presos, perdidos, mortos; mas o que mais acontece é a gravidez precoce. Todo ano, meia dúzia de meninas de dezesseis, catorze, doze anos, tornam-se mães. Por mais que a gente dialogue, alerte, não adianta; elas teimam em repetir o destino das próprias mães. Sempre ajudo como posso. Durante a gravidez, os professores passamos trabalhos. Quando a criança está prestes a nascer, alguém organiza um chá de bebê com o intuito de arrecadar fralda, lenço umedecido, Hipoglós. E, aí, depois que o neném ganha o mundo, a mãezinha volta à escola pra mostrar seu tesouro. Toda orgulhosa, mãe-mesmo-já, tira o xale e desvela o rostinho:
- Não é linda, profe?
- É a criança mais linda que já vi.
E sempre é mesmo, a mais linda. E então, elas caminham pelo colégio. As amigas brigando pra segurar o rebento como se fosse boneca. Algumas podem pegar um pouco no colo, mas só as mais chegadas. Fico feliz quando o paizinho vem junto também; orgulhoso, peito estufado, por ter feito papel de sujeito homem. Geralmente, no entanto, as meninas vêm só. Do mesmo modo como alerto sobre a gravidez indesejada, sempre jogo limpo em outros aspectos: “mais cedo ou mais tarde, o sexo vai acontecer” - e, para as meninas: “por mais que amem, façam só o que tiverem vontade”. – aos meninos: “respeitem as minas; sempre!”
Todo mundo sabe. Sou louco por música. Vou de Bach a Benito de Paula sem trocar o paletó. Modéstia à parte, conheço um pouco. Sei uma canção para cada ocasião. Quando uma visita assim acontece; no momento em que subo as escadas para a sala de aula; vou cantando uma canção que ouvi quando criança, a qual trata de uma mamãe-criança ninando o filho com canções rock n´roll. E sigo só, cantarolando baixinho, como se fosse uma prece, imitando o coro dos Beach Boys: “Shanãnãnã It'll be all right / Sha-na-na-na-na, Just hold on tight.”
Mãe, estende teu manto amoroso sobre estas crianças inocentes!🌻

segunda-feira, 4 de maio de 2020

EU JÁ ESTOU MORTO

Faço o melhor que posso com o que me foi dado, mas parece que estou sempre aquém. Hoje, foi aniversário do meu filho mais novo. Pois é, parece que nasceu ontem. Lembro de, no dia, chorar no banheiro, cansado, depois de passar a noite acordado, apoiando o parto. No mesmo dia, no cartório, o escrivão estranhou o nome longo; o sobrenome Lennon ali no meio. “É que sou fã do Paul McCartney” - brinquei. Agora, o cara tem catorze anos, bigode fino e fala grosso. A festa foi na chácara do meu ex-sogro. Cheguei cedo e levei presente. Cumprimentei minha ex, a família inteira: sogra, sogro, as irmãs, o irmão que costumava beber comigo. Todos me ignoraram - absolutamente. Mesmo meu filho se recusou a estender a mão quando ofereci o embrulho. Tenho parcela grande de culpa. Assim como cheguei, saí: cedo, invisível. Pra piorar, quando cheguei em casa, liguei a televisão e passava um filme em preto e branco sobre um rei da Dinamarca que tinha sido muito poderoso; mas que, agora, era só um fantasma triste, impotente; arrastando correntes pelos corredores de seu próprio castelo.
Mais tarde, quando olhei chorando o espelho oxidado do meu próprio banheiro, vi que o fantasma era eu.

OS HERÓIS FREQUENTEMENTE FALHAM

Há ferimentos tão profundos que só podem ser feitos pelas pessoas que amamos. E só elas ferem assim, porque só elas podem consolar. A família inteira estava comemorando o ano novo na praia. Como tinham bebido bastante, ninguém percebeu quando o adolescente começou a andar de costas, em direção ao mar. Por mas que sua alma dissesse pra voltar, ele não conseguia: as pernas tinham se rebelado. E continuaram andando, mesmo quando ele já não podia manter o nariz pra fora da água. E as pernas continuaram andando - pra trás, rumo ao mar escuro - até o menino morrer afogado.

APERTE O N. 2

O marido tinha um senso de humor peculiar; parecido com o do protagonista de Ensina-me a viver. Alguns dias, antes de trabalhar, enquanto tomava café, brincava dizendo que odiava tanto o emprego que um dia jogaria o carro de frente com um caminhão só pra se livrar. Ela não ria, ralhava. Qual não foi seu espanto, certa manhã, ao ligar a televisão, num desses programas matinais, e reconhecer o carro do marido envolvido num acidente. O motorista morrera carbonizado. Só a placa do veículo permaneceu intacta. Pelo resto da vida, ela teria de conviver com a pergunta: acidente ou suicídio? O sorriso triste - sempre triste - dele!
Simplesmente não conseguia entender.