segunda-feira, 4 de maio de 2020

EU JÁ ESTOU MORTO

Faço o melhor que posso com o que me foi dado, mas parece que estou sempre aquém. Hoje, foi aniversário do meu filho mais novo. Pois é, parece que nasceu ontem. Lembro de, no dia, chorar no banheiro, cansado, depois de passar a noite acordado, apoiando o parto. No mesmo dia, no cartório, o escrivão estranhou o nome longo; o sobrenome Lennon ali no meio. “É que sou fã do Paul McCartney” - brinquei. Agora, o cara tem catorze anos, bigode fino e fala grosso. A festa foi na chácara do meu ex-sogro. Cheguei cedo e levei presente. Cumprimentei minha ex, a família inteira: sogra, sogro, as irmãs, o irmão que costumava beber comigo. Todos me ignoraram - absolutamente. Mesmo meu filho se recusou a estender a mão quando ofereci o embrulho. Tenho parcela grande de culpa. Assim como cheguei, saí: cedo, invisível. Pra piorar, quando cheguei em casa, liguei a televisão e passava um filme em preto e branco sobre um rei da Dinamarca que tinha sido muito poderoso; mas que, agora, era só um fantasma triste, impotente; arrastando correntes pelos corredores de seu próprio castelo.
Mais tarde, quando olhei chorando o espelho oxidado do meu próprio banheiro, vi que o fantasma era eu.

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