quinta-feira, 30 de abril de 2020
REZA
Se eu rezo? Moço, tudo que faço é rezar, dia e noite, noite e dia, e até de madrugada, quando levanto pra mijar. Por quê? Porque tem muita dor em mim e no mundo e eu tenho pena.
AFORISMO 49
Enquanto as pessoas conseguirem apreciar a beleza que existe em um pôr do sol, o futuro será possível.🌻
QUANDO OS HOMENS CANTAM
Não creio que os outros sejam tão diferentes de mim. E eu sou louco. Tenho a loucura da raiva, da luxuria, da insegurança, do orgulho, da inveja; mas, um dia, segurei meus filhos no colo e, naquele instante, a loucura desapareceu; dissolvida pela força do amor. E, diante da incerteza sobre o destino deles, fiz uma reverência. Ante o quê? Não importa. O que importa é que a força do cuidado instalou a humildade. O que eu não sabia é que há conforto na posição de quem suplica: você se encolhe feito feto, baixa a cabeça, estende a mão; já não tem de suportar o mundo nos ombros. Talvez, no primeiro dia, você sinta algum conforto; é com a prática, no entanto, que a trilha que leva ao Originário se sedimenta. E o Originário é calmo e acolhedor como um útero. Hilda Hilst: “tu podes ir; mas, ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti”. A quarentena está difícil, né? Mas trabalhar era fácil? A gente reclama se trabalha e se fica em casa. Se faz chuva, ou sol. E a gente reclama tanto porque não se sente em casa na gente mesmo, só que o Fora é a morte: ao menos do ego. Onde formos, estaremos condenados a nos levar junto. Foucault, na esteira de Nietzsche, foi um dos filósofos que mais cantou a alegria de criar a própria vida. Da boca pra fora. Michel: “Mas todas as manhãs, o corpo, esta ferida”. O homem científico criou vergonha de rezar; mas que mal há em se colocar na posição de pequenino, e solidário, e paternal – sim é o mesmo lugar que senti quando segurei meus filhos no colo – e baixar a cabeça e admitir que tem medo diante da incerteza, horror ante a escuridão, desespero diante do desamparo e da indiferença do mundo? Você não precisa saber, cientificamente, se há Deus ou não; isso é indiferente. O importante é que a atitude de reverência desloca o centro do ser. A mudança é psíquica. O centro já não é o ego, mas o incomensurável. A ciência, ao mesmo tempo que comprova nossa pequenez, alimenta nossa megalomania e os séculos mais científicos foram aqueles nos quais a mãe Terra mais sofreu. Estou a falar bobagens do tipo a Terra é plana? Não! A ciência tem seu lugar no modo como o homem toca o mundo; mas este toque pode ser de cuidado ou de destruição. Tem sido de destruição, porque tentamos aplicar ao interior a mesma ciência que aplicamos ao exterior: não cabe. Não há método que toque o mistério, o interior da diversidade humana. Os indivíduos, embora tenham traços comuns, não são equações. Aí a confusão interior faz o gesto em direção ao outro e o machuca. É por isso que eu rezo, sabe: o credo, o Om mani padme hum, o Odaimoku, o Pai nosso, o Hoponopono, o Silêncio, Valei-me meu pai Atotô Obaluaê, as canções do clube da esquina. É tão bonito passar diante de uma Igreja evangélica e ver as pessoas cantando hinos e chorando e acalentando seus corações: o órgão acompanhando baixinho. Fora do templo a loucura se instala outra vez, mas. Enfim, quando a gente consegue rezar, reclama menos e começa a fazer as mesmas atividades cotidianas de antes, só que com amor. A vida se torna espiritual. A busca leva aonde você sempre esteve. Todo o trabalho consiste em retirar o entulho de cima do coração.🌻
NO DESERTO
O anel que tu me deste, era vidro e se quebrou. E o amor que tu me tinhas, era muito; ainda assim se acabou. Mas há de retornar - Amor, coração de toda atividade criadora - com pés de pombo, como os pensamentos que movem o mundo.🐞
ÁGAPE
O inconsciente é o modo pelo qual a Desmesura move os seres humanos em direção uns aos outros; de acordo com suas necessidades. A filha, no seio do devir, torna-se mãe da mãe. Tive uma infância difícil, sabe? Era a oitava filha de uma família de onze crianças. Não passamos fome – sempre havia a macaxeira, o jerimum -, mas não houve luxo. Nunca uma festa de aniversário, dia das crianças, ovo de Páscoa ou presente de natal. Nunca. Isto não é grande coisa, reconheço. Não chega a constituir trauma neste mundo de agonias impensáveis. Eu, no entanto, invejava as crianças que tinham acesso a mimos. Hoje, graças a Deus, tenho uma vida estável e posso ofertar à minha filha todas aquelas coisas às quais nunca tive acesso. De modo que, nesta Páscoa, comprei meia dúzia de ovos de chocolate. Acontece que minha menina, cinco anos, tem uma amiguinha, a Vitória, vizinha aqui de lado. Domingo passado, Páscoa, as duas estavam conversando através da cerca:
“O que você ganhou de ovo de Páscoa, Vitória?”
“Nada. Meu pai não tá tlabalhando, causa do cololavilus, não tem dinheilo.”
Eu observava da janela da cozinha, enquanto passava o café. A filha entrou triste, quase chorando. “Mamãe – disse – posso dar um dos nossos ovos pra Vitória?” Meu coração gemeu. “Claro.” Ela se alegrou. Pegou o ovo do qual mais gosta, Alpino, e se preparou pra entregar à amiguinha. Quando nos viu voltando, Vitória não se conteve. Atravessou a cerca pelo meio. E correu pra receber. As duas meninas, então, abraçaram-se e choraram juntas, como se fossem comadres dividindo o pão escasso entre os filhos. Naquele momento, eu era Vitória e minha filha tornou-se minha mãe. Algo se acomodou e, de dentro do meu próprio coração, ouvi a voz de minha mãe sussurrar: “Deus te abençoe, minha filha”.
Descanso.🌻
“O que você ganhou de ovo de Páscoa, Vitória?”
“Nada. Meu pai não tá tlabalhando, causa do cololavilus, não tem dinheilo.”
Eu observava da janela da cozinha, enquanto passava o café. A filha entrou triste, quase chorando. “Mamãe – disse – posso dar um dos nossos ovos pra Vitória?” Meu coração gemeu. “Claro.” Ela se alegrou. Pegou o ovo do qual mais gosta, Alpino, e se preparou pra entregar à amiguinha. Quando nos viu voltando, Vitória não se conteve. Atravessou a cerca pelo meio. E correu pra receber. As duas meninas, então, abraçaram-se e choraram juntas, como se fossem comadres dividindo o pão escasso entre os filhos. Naquele momento, eu era Vitória e minha filha tornou-se minha mãe. Algo se acomodou e, de dentro do meu próprio coração, ouvi a voz de minha mãe sussurrar: “Deus te abençoe, minha filha”.
Descanso.🌻
ESTADO E RESISTÊNCIA
No começo, vivíamos em harmonia com a Natureza, feito qualquer tribo. A estrutura da sociedade era uma extensão da Natureza. Como só retirávamos o necessário, a mãe doava sua ordem à ordem da tribo e a ordem da tribo respeitava a manifestação da Desmesura em cada ser. Se um homem nascia profeta, seria o profeta da tribo. A ordem natural é a recompensa que o homem ganha em virtude de sua humildade ante o solo que o sustenta. Mas, então, chegaram os carecas engravatados. Distribuíram máscaras de carecas engravatados para que todos tivessem o mesmo rosto. Cuspiram na face da Terra, desrespeitaram o chamado natural com o qual a naturalidade nutria cada ser para que nada faltasse na organização social. Fundaram o Estado. Todo Estado quer crescer, violentamente. Seu pressuposto é a agressão à Natureza. O Estado, por seu turno, criou um braço armado; bem como invadiu a infância. Não devíamos construir mais escolas nos moldes que aí estão, mas implodi-las; elas são as fábricas de ferramentas. Já ouviram a expressão material humano? O Estado invadiu, desde o berço, o interior de cada ser, de modo que o homem esqueceu sua origem ontológica. Não é só o supereu que é a estrutura do Estado dentro da gente. É a tríade Supereu, eu, id. Tudo isso é uma imposição exterior à naturalidade. A máscara estatal aplicada ao ser. Agora, o Estado-exterior-enquanto-imposição já não é necessário, porque ele vive dentro de cada um: liberal na economia, conservador nos costumes. O mal-estar é o Estado em nós, sufocando a voz ontológica, o colo da Natureza. O Estado é sempre antinatural. Se quisermos surfar de acordo com a naturalidade, devemos ser resistência ao Estado. Parte-se do menor para o maior e, de novo, do maior para o menor, em espiral. A resistência é sempre uma minoria que teima em afirmar a face no lugar da máscara. Assim, o ser humano autêntico, está sempre do lado da minoria e contra o Estado. E a minoria das minorias é o próprio indivíduo, dentro de qualquer grupo. Mas não o indivíduo cujo interior já é uma reprodução do Estado, mas aquele do interior selvagem, incapturável: o Homem-Equus! Ele é o indivíduo que não se reconhece como centro, mas como parte; do maior para o menor: parte-se do Universo (ou céu), passa-se à Terra, da Terra ao grupo e do grupo à singularidade que nunca representa a voz de um ego, mas da própria Consciência. Aquilo que o indivíduo diz e que o girassol manifesta devem ter a mesma origem: este falar é sempre poético. Desconfio sim da Ciência, mas creio plenamente na Arte. Contra os carecas engravatados, contra toda cultura antinatural, contra o Estado. Sempre a favor daquela ordem maior, que nutre a órbita dos planetas e a pequena serralha nascendo entre dois blocos de concreto.🌻
BILOCALIDADE
O real não é estático; nem está em movimento. E não pode ser dito, a não ser por meio do paradoxo.
ZÉ GERALDO
Tudo aconteceu no dia em que o Mário Covas morreu. Hoje, ela não bebe mais; mas, durante muito tempo, Catirina. Naquele dia, ela tinha dezoito anos e desenhava HQ; e aí tomou um dos primeiros porres de uma longa carreira. Cagou e mijou na roupa. A mãe foi buscá-la e, enquanto lavava as partes íntimas, repetia: "Que nojo, sua porca! Porca! P-O-R-CA!" Catirina já não bebe. Milagre. De certo modo, superou o alcoolismo ativo, mas desenvolveu compulsão ainda pior. Ela tem a boceta em carne viva de tanto que a lava. Já usou, para a higiene íntima, água sanitária, escova de roupa e até palha de aço. Ainda assim, sente-se imunda. Eu acho que ela tem - sempre - cheiro de lírio do brejo, mas não tenho coragem de dizer. Sou só o louco quieto ao lado.
OBLIVION
A formiga sabe a folha que roi. Meu pai era absoluto. Ante sua voz, o mundo tremia. Cedo, então, vesti a máscara que me deram e dela fiz rosto. Trabalhei; aumentei o império da família; tomei decisões; disse nãos difíceis a pessoas que amava. Hoje tenho setenta anos, negócios espalhados pelos quatro continentes e um câncer em metástase. Casei-me uma única vez. Sou pai e avô presente, mas estou acabando. E, o que é pior, vivi uma vida holográfica, planejada com ênfase na exterioridade. A travessia acabou e não pude. Durante todo este tempo, esperei a vida começar, mas o que começou de fato foi o tumor. Por que adiamos tanto ser se, chegada a hora, enfrentaremos solitários o Dragão?
- As pessoas não vêem nada errado com você, Orlando - ele disse - mas eu sei essa dor branca que você finge não.
Ouvi isso aos dezessete. Faculdade. Foi como se ele tivesse a chave. Em outra boca, tais palavras seriam ocas de sentido. Do lugar onde ele se abria - o coração - tudo me fazia tremer; como se eu estivesse nu. Nesta noite, fizemos amor. Nos dias, meses e anos subsequentes, no entanto, ignorei-o; apavorado com o Bicho Papão solto lá fora. Nunca senti desejo por outro homem. Jamais busquei garotos de programa ou. Tampouco amei minha esposa, com a qual sou casado há mais de trinta. Condenei-me e não poupei o entorno. Ela toma uma dúzia de remédios para ansiedade. Eu estou morrendo como vivi; completamente só. Envergonhado de ofertar 'a Doce Senhora um cálice cheio de nada; vazio de vida que não aconteceu. Sei que isto não fará diferença ante os impessoais milênios, mas era a única vida que eu.
E ele tinha uma borboleta tatuada no pescoço.
E eu tenho uma consulta inútil no próximo dia 23.
- As pessoas não vêem nada errado com você, Orlando - ele disse - mas eu sei essa dor branca que você finge não.
Ouvi isso aos dezessete. Faculdade. Foi como se ele tivesse a chave. Em outra boca, tais palavras seriam ocas de sentido. Do lugar onde ele se abria - o coração - tudo me fazia tremer; como se eu estivesse nu. Nesta noite, fizemos amor. Nos dias, meses e anos subsequentes, no entanto, ignorei-o; apavorado com o Bicho Papão solto lá fora. Nunca senti desejo por outro homem. Jamais busquei garotos de programa ou. Tampouco amei minha esposa, com a qual sou casado há mais de trinta. Condenei-me e não poupei o entorno. Ela toma uma dúzia de remédios para ansiedade. Eu estou morrendo como vivi; completamente só. Envergonhado de ofertar 'a Doce Senhora um cálice cheio de nada; vazio de vida que não aconteceu. Sei que isto não fará diferença ante os impessoais milênios, mas era a única vida que eu.
E ele tinha uma borboleta tatuada no pescoço.
E eu tenho uma consulta inútil no próximo dia 23.
ACAPULCO
Houve dias em dezembro de 2018 em que me senti tão solitário quanto o Chaves no dia em que todos foram pra Acapulco
E tão incompreendido quanto o menino-órfão no episódio em que foi acusado de roubo e decidiu deixar a vila
E tão incompreendido quanto o menino-órfão no episódio em que foi acusado de roubo e decidiu deixar a vila
BASTA VER
Em todas as cenas cotidianas
No garoto comprando pão
Na menina atendendo ao balcão
No romance entre a orquídea e a vespa
No olhar da mãe em direção ao filho, entrando na escola
No coração deste filho
Há um poema
Há poema espalhado em tudo
Educa teu olho, irmã
De modo que ele observe curioso
Os múltiplos ângulos de uma situação
Até que a pérola se desvele
Ante a força do olhar
No garoto comprando pão
Na menina atendendo ao balcão
No romance entre a orquídea e a vespa
No olhar da mãe em direção ao filho, entrando na escola
No coração deste filho
Há um poema
Há poema espalhado em tudo
Educa teu olho, irmã
De modo que ele observe curioso
Os múltiplos ângulos de uma situação
Até que a pérola se desvele
Ante a força do olhar
CORONA
Tal e qual o vírus evidencia
Todos usamos máscaras
É nossa proteção quando vamos 'a rua
No silêncio do teu quarto, contudo
Tira tua máscara, irmã
Observa-a
E descobre que ela é
proteção, medo, defesa, resposta
Não toma nunca a máscara pelo rosto
Pelo contrário,
Confecciona, para ti, uma máscara
Que não seja diferente da tua própria face.
Este é já o segundo passo
O primeiro é desconfiar que existe uma máscara
Feita na infância
E que ela não é o rosto. 🌎
Todos usamos máscaras
É nossa proteção quando vamos 'a rua
No silêncio do teu quarto, contudo
Tira tua máscara, irmã
Observa-a
E descobre que ela é
proteção, medo, defesa, resposta
Não toma nunca a máscara pelo rosto
Pelo contrário,
Confecciona, para ti, uma máscara
Que não seja diferente da tua própria face.
Este é já o segundo passo
O primeiro é desconfiar que existe uma máscara
Feita na infância
E que ela não é o rosto. 🌎
OS MORANGOS NA GELADEIRA DO MEU PAI
Meus pais começaram a construir esta casa quando eu tinha uns cinco, seis anos. Meu pai queria dá-la de presente à minha mãe. Seria um monumento erguido ao seu amor monumental. Ambos trabalharam muito, sabe? O pai lecionava nos três períodos, eu mal o via; ao passo que a mãe cuidava da construção. Não haveria, aqui neste bairro distante do centro, casa maior ou mais bonita. Meia dúzia de quartos, cada um com seu próprio banheiro; duas salas; salão de jogos; uma cozinha grande; biblioteca e, claro, a sala de música do meu pai e o jardim. Demoraram quase dez anos para colocar tudo de pé. Neste período, estressaram-se à beça; brigaram entre si e com os funcionários da obra. Quase toda noite tinha uma discussão. Janelas de madeira ou alumínio? Cerâmica ou porcelanato? Chegou um tempo em que mal se falavam devido às discordâncias quanto à construção. Meu pai, além de trabalhar demais, começou a chegar em casa sempre de madrugada; embriagado e sabe Deus o que mais. Acho que minha mãe se sentiu abandonada e acabou tendo um caso com o engenheiro. Nos últimos tempos, mamãe dormia comigo, trancada, num quarto em cima - porque nenhuma de nós sabia do humor do velho ao chegar – e o pai dormia na sala de música, onde desmaiava logo que colocava seus discos antigos pra tocar no volume máximo. Uma noite teve até polícia. Diz minha mãe que foram os vizinhos. Não sei se, caso não tivessem inventado de construir esse mausoléu, ainda estariam juntos. Quem pode saber uma coisa dessas, não é mesmo? O que sei é que a construção, destinada a celebrar o amor, acabou virando seu túmulo. Há onze meses, minha mãe saiu de casa e me levou. Fiquei todo esse tempo sem ver meu pai, porque os dois estavam brigando na justiça. Hoje, enfim, pude vir passar o fim de semana aqui e ele tinha enchido a geladeira de morangos, porque sabe que eu gosto, e comprou uma dúzia de latas de leite moça também. É só o que estamos comendo desde sexta. Não acho ruim, não. O problema é que nessa casa faz um frio danado e não dormi desde que cheguei, acredita?
Acho que, com o tempo, outros fantasmas vão vir habitar os quartos vazios pra fazer companhia ao meu pai.🐞
Acho que, com o tempo, outros fantasmas vão vir habitar os quartos vazios pra fazer companhia ao meu pai.🐞
UM GOSTO DE VERDADE
Acho que a escrita tem de ter um gosto de verdade. Pode ser ficção, autobiografia, baseada em fatos ou o que for... Não existe escrita fiel ao fato; porque todo texto já é a busca de transpor em linguagem um recorte da vida - inventada ou não. O texto não tem de ser fiel a nada, sequer verossímil. A literatura não presta contas aos fatos. A fábula pode ser inventada, nunca mentirosa. Ela é fiel ao que transmite e não ao mundo compartilhado. O que um texto tem de ter é um gosto de verdade e isso parte do coração daquele que escreve. O escritor é alguém que deu defeito e sente as outras pessoas, o mundo todo, como se fosse sua própria carne. É por isso que, muitas vezes, ele não consegue trabalhar como os outros. Falta-lhe a estrutura de defesa que fecha o coração para que se possa funcionar no dia a dia. É duro ter um coração do tamanho do mundo. Parece esquizofrenia, mas tem âncora; caso contrário você não consegue voltar e transformar numa linguagem partilhada. Muita gente não suporta a pressão: bebidas, drogas, loucura, qualquer coisa que barre. Você está trabalhando, num dia normal; de repente, abraça alguém e sente, naquele indivíduo, toda uma corrente que resume a aventura humana. Na mesma hora vem o sentimento de obrigação. Fica difícil conter as lágrimas. Não creio que tenha a ver com paranormalidade, porque a gente não vê o fato; só sente no outro o Mistério. Daí por diante, tem de criar uma narrativa, ou poema, ou, que dê forma àquele sentimento - muitas vezes dolorosíssimo. Houve um tempo que eu tinha até erupções cutâneas. Ao escrever, o poeta toca o centro cardíaco do outro. De coração a coração. A cada texto, é como se aquele que escreve enfiasse os dedos por dentro da pele, rasgasse as costelas, arrancasse o coração e entregasse ao outro em forma de palavra. O leitor sensível sente na hora quando um texto tem sabor de verdade ou não. Ele lê nas linhas e entrelinhas que o cara sabe do que está falando, foi realmente até aquele lugar; conhece o sentimento indizível. Muitas vezes, o leitor não se lembra do enredo ou dos versos; só da sensação de ter sido transportado. Acho que isso é fenomenológico: ou se tem, ou não. E não pode ser simulado ou ensinado em oficinas de escrita criativa, cursos, faculdades etc.🌻
ÁGAPE II
Sempre foi amor
Desejo de doar
Vaidade não
E quando o mundo rejeitou o poema
Cultivei o jardim
De qualquer modo, partilhava a beleza
Se fui mais eficiente com enxada e facão
Ainda assim não abandonei a pena
O girassol amanhece girassol
A rosa anoitece sua cor
Nada pode fugir do que é
E a manhã tece seus próprios galos
Desejo de doar
Vaidade não
E quando o mundo rejeitou o poema
Cultivei o jardim
De qualquer modo, partilhava a beleza
Se fui mais eficiente com enxada e facão
Ainda assim não abandonei a pena
O girassol amanhece girassol
A rosa anoitece sua cor
Nada pode fugir do que é
E a manhã tece seus próprios galos
SONHO COM DEZEMBRO
A hora é agora. Tudo é urgente, necessário, emergencial. Chegou o tempo em que não podemos mais procrastinar. Já não se pode deixar pra dizer eu te amo amanhã. Já não se pode esperar pra perdoar semana que vem. Não sabemos quem de nós estará aqui. Não sabemos quem será capaz de atravessar a correnteza e ver o nascer de um novo dia do outro lado. Muitos vão se afogar. Então, qual é o motivo de deixarmos ainda o orgulho e o medo conduzirem o carro de nossas vidas? É preciso dizer as palavras antes que seja tarde. É tão simples, só pegar do telefone, por que não é fácil? Você sabe o quanto incomoda não ter mais o outro por perto pra dizer-lhe de seu valor? Na totalidade da vida, uma briga pode ganhar mais importância que todo o resto; porque, se o outro parte sem a gente se falar, nada mais importa. As palavras que não dissemos vão nos inflamar a garganta e não adiantará fazer cirurgia pra retirar as amígdalas. Devem ter acontecido momentos lindos, ou não? Nada impede a palavra de ser pronunciada; a não ser o orgulho. Sem autoengano! Por mais que a Máscara nos conte mentiras do tipo: “Ele sabe que eu o amo”; precisamos dizer as palavras; precisamos pedir desculpas. Dizer, dizer, dizer; sem exigir que o outro também diga. É nossa boca que tem de pronunciar! Alguém pode não estar à mesa no natal. Por que foi mesmo que brigamos? Toda manhã é manhã de repetir o afeto. Esta noite, sonhei que estávamos em dezembro e navegávamos já sobre águas calmas. Na ceia, havia pão leite e mel. Abraçamo-nos, os laços fortalecidos depois da tormenta, e alguém puxou uma oração. Vai passar e espero que todos fiquemos bem, embora saiba que, fatalmente, alguns não. Não precisamos sofrer tortura para confessar: sinto muito. Foi mal. Me perdoa. Eu te amo. Sou grato por ter partilhado a jornada contigo até aqui. É necessário, já que temos tempo, limpar não só casa física; mas, mais importante ainda, a casa do coração. Podemos sair melhores disso.🌻
DIÁLOGO DO PAI COM A FILHA GORDINHA
- Vai comer de novo, Sofia?
- É que o bichinho do rõe-rõe acodô.
- E esse bichinho só quer saber de comer, né?
- É, ele acoda cufome.
- E o que ele gosta de comer?
- Bligadelo.
- E que mais?
- Beijinho.
E é aí que o pai babão cobre a filha gordinha de beijos; enquanto ela morre de dar risada.🧁
- É que o bichinho do rõe-rõe acodô.
- E esse bichinho só quer saber de comer, né?
- É, ele acoda cufome.
- E o que ele gosta de comer?
- Bligadelo.
- E que mais?
- Beijinho.
E é aí que o pai babão cobre a filha gordinha de beijos; enquanto ela morre de dar risada.🧁
A CORAGEM DE ESCREVER
O poema não se fará dizer por meio de covardes.
“Nada vejo por esta cidade / Que não passe de um lugar-comum / Mas o solo é de fertilidade”. Flaubert, Deleuze e Zé Ramalho da Paraíba dizem o mesmo. Falam da besteira. É preciso ter coragem para escrever; porque há, na sociedade, um peso da mediocridade que quer nivelar tudo pelo meio. Então, se o escritor, por medo de machucar alguém que ama, ou de enfrentar a maioria, deixa-se puxar, perdeu-se. É preciso talento para escrever; mas, não menos, é preciso coragem. Besteria, bêtise, bestagem, tudo tem a mesma raiz: a besta. A cultura também pode ser bestial quando nos sufoca com uma muralha de palavras-de-ordem, chavões, frases-feitas, sentenças-politicamente-corretas, lugares-comuns; enfim, os discursos. Quando você escreve algo que difere disso, imediatamente estará magoando alguém (de direita ou esquerda): um amigo, namorada, professor, filho, parente. Ao saltarmos, toda a sociedade faz peso para baixo, em direção à média. Vão tentar intimidá-lo: falarão de Shakespeare, e António Machado, e Clarice Lispector; no tempo deles, todavia, enfrentaram a mesma incompreensão. A educação também quer nivelar. É preciso ler e parar de ler; educar-se a si mesmo. O poeta, sozinho, intenta puxar os outros para cima, levantar o humano; ao passo que a maioria força-o à linha mediana. Coragem! Para dizer o poema é preciso que, mergulhados com os outros na besteira, encontremos a nuance; a carta roubada sobre a mesa que ninguém viu. Ela está sempre aí, em qualquer situação cotidiana. É mergulhado na besteira que devolvemos à palavra sua alma, que a haurimos com o poema. A besteira é democrática, é mesmo a coisa mais bem distribuída do mundo e, no entanto, é o solo de fertilidade; pois, uma vez que restituímos à palavra sua magia, floresce o poema. Neil Young escreveu que a ferrugem nunca dorme. Ele é rancheiro e viu esta frase num depósito de materiais para construção. Ao transportá-la para o contexto dos anos 1970, mortos todos os sonhos dos 1960 - e muitos amigos de tristeza, overdose, depressão, suicídio - à sentença foi restituída sua dimensão sagrada de arte. A coragem, contudo, não é só uma virtude do poeta. Logo que dermos o primeiro passo em direção ao dizer, uma força descomunal brotará em nosso coração: é a força do poema.
“Nada vejo por esta cidade / Que não passe de um lugar-comum / Mas o solo é de fertilidade”. Flaubert, Deleuze e Zé Ramalho da Paraíba dizem o mesmo. Falam da besteira. É preciso ter coragem para escrever; porque há, na sociedade, um peso da mediocridade que quer nivelar tudo pelo meio. Então, se o escritor, por medo de machucar alguém que ama, ou de enfrentar a maioria, deixa-se puxar, perdeu-se. É preciso talento para escrever; mas, não menos, é preciso coragem. Besteria, bêtise, bestagem, tudo tem a mesma raiz: a besta. A cultura também pode ser bestial quando nos sufoca com uma muralha de palavras-de-ordem, chavões, frases-feitas, sentenças-politicamente-corretas, lugares-comuns; enfim, os discursos. Quando você escreve algo que difere disso, imediatamente estará magoando alguém (de direita ou esquerda): um amigo, namorada, professor, filho, parente. Ao saltarmos, toda a sociedade faz peso para baixo, em direção à média. Vão tentar intimidá-lo: falarão de Shakespeare, e António Machado, e Clarice Lispector; no tempo deles, todavia, enfrentaram a mesma incompreensão. A educação também quer nivelar. É preciso ler e parar de ler; educar-se a si mesmo. O poeta, sozinho, intenta puxar os outros para cima, levantar o humano; ao passo que a maioria força-o à linha mediana. Coragem! Para dizer o poema é preciso que, mergulhados com os outros na besteira, encontremos a nuance; a carta roubada sobre a mesa que ninguém viu. Ela está sempre aí, em qualquer situação cotidiana. É mergulhado na besteira que devolvemos à palavra sua alma, que a haurimos com o poema. A besteira é democrática, é mesmo a coisa mais bem distribuída do mundo e, no entanto, é o solo de fertilidade; pois, uma vez que restituímos à palavra sua magia, floresce o poema. Neil Young escreveu que a ferrugem nunca dorme. Ele é rancheiro e viu esta frase num depósito de materiais para construção. Ao transportá-la para o contexto dos anos 1970, mortos todos os sonhos dos 1960 - e muitos amigos de tristeza, overdose, depressão, suicídio - à sentença foi restituída sua dimensão sagrada de arte. A coragem, contudo, não é só uma virtude do poeta. Logo que dermos o primeiro passo em direção ao dizer, uma força descomunal brotará em nosso coração: é a força do poema.
QUALQUER CAMINHO
Era manhã de sol quando a kombi dos doces passou anunciando churros e sonhos. Meu avô me deu umas moedas antigas, daquelas que já não se fabricam, e disse:
- Se você correr, ainda dá tempo.
Voltei trinta anos depois. A família desfeita. Os sonhos embolorados e endurecidos num saco de papel pardo. E o vô tinha se tornado um retrato amarelado na estante da sala de minha mãe.
Às vezes, não sei o que fazer com o embrulho que me sobrou nas mãos.
- Se você correr, ainda dá tempo.
Voltei trinta anos depois. A família desfeita. Os sonhos embolorados e endurecidos num saco de papel pardo. E o vô tinha se tornado um retrato amarelado na estante da sala de minha mãe.
Às vezes, não sei o que fazer com o embrulho que me sobrou nas mãos.
DUCHAMP
Alguém com um cigarro nas mãos diz: fogo. Alguém num prédio em chamas diz: fogo. A frase é a mesma, mas o lugar de onde se diz é diferente. Ao deslocar um mictório para o centro de uma galeria, Marcel Duchamp fez arte. Isto porque Duchamp estava. Havia percorrido o longo caminho que leva outra vez aonde você sempre esteve. A jornada do herói. A arte também é um caminho espiritual. Picasso dizia ter levado a vida inteira, passado por todas as fases, para, só no fim, poder pintar como criança. Das três metamorfoses do homem, em Zaratustra: Camelo, leão e criança. Na infância, o homem não pode ainda ser criança, é camelo, acumula no lombo o máximo de cultura para atravessar o deserto. Na juventude, enfrenta um dragão no qual, em cada escama, está escrito: “tu deves!” Só então pode se tornar criança e brincar. Duchamp fez arte. Isto não quer dizer que qualquer objeto cotidiano seja arte. É, claro, a arte está lá, em tudo; mas é preciso que o artista arranque a fuligem das coisas e dos nossos olhos para que enxerguemos. A arte é uma hierofania.
terça-feira, 14 de abril de 2020
NOSSA SOLIDÃO
Sou um homem simples, rústico até. Sei trocar lâmpadas e torneiras, faço serviços de manutenção. Com uma enxada na mão, derrubo muito mato por aí e consigo mexer uma masseira sem precisar de ajuda, mas tenho esse defeito. Um buraco sem consolo no meio do peito. Uma vontade que não sei; de ser compreendido, aceito como sou, curado. Desejo de que alguém encontrasse esse vazio que escondo do mundo e me tocasse bem ali, delicadamente, onde ninguém. Criança costuma ter amigo imaginário. Eu, desde cedo, tive namorada. Era ela quem se deitava comigo nas noites frias; apalpava meu coração e perguntava: é aqui? E eu dizia sim e ela massageava e a dor arrefecia. Eu também sempre estava ali pra ela. No meio da noite, levantava-me e cruzava os braços ao redor de mim como se ela estivesse entre e dançávamos juntos até o dia. Quando raiava, ela se escondia de novo. Nosso segredo, sabe? Ela em mim enquanto todos os outros eram unos. E foi com essa mulher que ensaiei meu primeiro beijo. A primeira noite de amor. A pureza que guardei por esperança. Era ela quem me consolava quando eu perdia briga. Na periferia, não há vergonha maior. Seria essa mulher que não existe quem um dia se congratularia com minhas realizações e me deitaria no colo nas noites de fracasso. Tudo inútil; estúpido; antiquado. Quando as pessoas nos encontram, procuram fazer de nós seu próprio parceiro imaginário; do mesmo modo que nós. E todo o mundo, toda a travessia, geração após geração, envereda-se na mesma confusão. Mas e o amor? O amor? O amor? Chega a ser cômica a solenidade com que sofremos; como se fôssemos únicos, quando todos os outros, desde Adão e Eva, passaram pelos mesmos lugares, caíram nos mesmo buracos, sofreram do mesmo sofrimento. A dor parece única porque é grande. É por isso que penso em doar, sabe? Por pena do que vejo de mim no outro. O único sentido possível é se despojar de tudo: doar, doar, doar. Livrar-se primeiro de todos os bens materiais, depois dos documentos, do nome e até do pronome “eu”. Doar até dissolver a inveja, esquecer a vingança, até rasgar o orgulho. Doar até desaparecer; mas não por vingança do mundo e sim por amor. A vida é um lugar hostil. Sejamos delicados uns com os outros; toda a gente carrega um sonho apodrecido na barriga.🌻
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DOAR
Embora serena, a lua não é indiferente
Nela, ressoam todos os destinos humanos
Por isso, preciso doar
Quero doar minha casa
Meus versos, meu carro, meu tempo
Quero doar minhas vestes ao mendigo
Meu ouro aos meus filhos
Minha prata ao andarilho
Almejo pão e nudez
Coração que não calcula
Olhar que não malda
Chega de carregar nos ombros um peso inútil
A mim me basta o pandeiro
Quero doar meu coração
Meu amor
Meu sorriso fácil
Todos estes anos de luto e dor
Eu transformo e te dou em jardim
Aceita, então, minha amizade
As tardes de Maria Joana e chocolate
Como pude pronunciar o pronome "meu"?
Como pude dizer "eu" sem corar?
Sou tão leve sem posses
E me irmano ao passarinho
E canto sozinho ou acompanhado
Pelos faxineiros
Caminhoneiros
Saltimbancos e garis
Quero ser dono de nada não
Só cuido por um tempo
E depois abro mão
Ninguém pode possuir a lua.
Nela, ressoam todos os destinos humanos
Por isso, preciso doar
Quero doar minha casa
Meus versos, meu carro, meu tempo
Quero doar minhas vestes ao mendigo
Meu ouro aos meus filhos
Minha prata ao andarilho
Almejo pão e nudez
Coração que não calcula
Olhar que não malda
Chega de carregar nos ombros um peso inútil
A mim me basta o pandeiro
Quero doar meu coração
Meu amor
Meu sorriso fácil
Todos estes anos de luto e dor
Eu transformo e te dou em jardim
Aceita, então, minha amizade
As tardes de Maria Joana e chocolate
Como pude pronunciar o pronome "meu"?
Como pude dizer "eu" sem corar?
Sou tão leve sem posses
E me irmano ao passarinho
E canto sozinho ou acompanhado
Pelos faxineiros
Caminhoneiros
Saltimbancos e garis
Quero ser dono de nada não
Só cuido por um tempo
E depois abro mão
Ninguém pode possuir a lua.
O SOL
Quando a menina se apaixonou pelo sol, tentou partilhá-lo. Ela sabia que as rosas, e os girassóis, e até os peixes precisavam dele. Sabia que, sem o sol, os galos não teriam motivos pra cantar. O sol é o corpo físico de recomeço e esperança no céu. Mas a menina era ciumenta, oi. De modo que, com o tempo, quis o sol só pra ela. E trancou-o no quarto. A princípio, ele brilhou como nunca; mas, com o tempo, deprimiu-se. Enquanto o mundo se alimentava de sua luz, ele também se alimentava da gratidão do mundo. Aos poucos, então, foi-se apagando. Já não explodia com tanta paixão. Às vezes dava um estouro de manhã, outro de tarde e só.
Até que um dia escureceu por completo. E se tornou o maior buraco negro do universo.🌻
Até que um dia escureceu por completo. E se tornou o maior buraco negro do universo.🌻
A LUA
No início dos anos 1990, trabalhei como carcereiro num dos maiores presídios da América Latina. Havia um interno que não dormia, passava a noite inteira dependurado na grade, olhando a lua. Um dia, perguntei-lhe o porquê. Ao que me contestou:
- É que a lua que vejo daqui é a mesma lá de fora, chefe.
- É que a lua que vejo daqui é a mesma lá de fora, chefe.
TRISTESSE
Dia desses, fui visitar meu amigo trompetista. Agora ele é caseiro de um sítio. Tudo para se afastar das loucuras. Tempos atrás, quase morreu. Sempre que posso, ajudo-o. Às vezes, com dinheiro; outras, com mantimentos. Desta vez levei algumas roupas. Ele já tem mais de setenta, mas nunca conseguiu se aposentar. Estou tentando ajudá-lo nisto também. É um homem simples, esse meu amigo, que vive para a música. Durante a tarde, caminhamos pela propriedade, jogando conversa fora. Observando as árvores, notei pregos. Segundo ele, os antigos usavam tais pregos quando as árvores não davam frutos. “Não sou biólogo – ele disse – mas este abacateiro é o que mais dá”. Assim que a noite caiu, por diversão, entre um trago e outro, enquanto o jantar ficava pronto, decidimos tocar. É começar e não parar. Fumaça, fumaça, fumaça. Sopro. Virava e mexia, ele cuspia numa latinha. Sopro. Fumaça. E eu curioso. Quando pude, olhei. A latinha estava cheia de sangue. Mesmo sem ninguém por perto, meu amigo tocava diariamente. De modo que os lábios estavam sempre feridos. Isso não quer dizer que sua música seja triste. Pelo contrário: a alegria nos quadros de Van Gogh, entende? Não sou fã de sofrimento autoimposto. Quando vejo um buraco, desvio. Pode-se muito bem cantar na alegria e até no cinismo. Há uma grande arte cínica que passa por nomes como Salvador Dalí, ou Oscar Wilde. A mim, no entanto, toca mais a arte que é prego na carne, sangue no lábio: ostra confeccionando pérola para se curar. O Wilde que mais me emociona está em De profundis, não no primeiro. Depois do jantar, fiquei pensando qual seria o motivo para o mundo tratar tão mal seus líricos, seus cantores ingênuos, os puros. Existe um castigo terrível reservado neste mundo aos corações delicados.
Quando vim-me embora, pelo retrovisor, observava meu amigo se despedir, de dentro de minhas roupas largas demais. Parecia um espantalho. Eu e ele não somos muito diferentes, sabe? Temos a coragem do nosso próprio rosto. Independentemente do que vier.🌻
Quando vim-me embora, pelo retrovisor, observava meu amigo se despedir, de dentro de minhas roupas largas demais. Parecia um espantalho. Eu e ele não somos muito diferentes, sabe? Temos a coragem do nosso próprio rosto. Independentemente do que vier.🌻
TARÂNTULA
Minha tia Helena era linda como uma deusa, mas também era a rainha dos relacionamentos conturbados. Teve inúmeros casos. Casou-se várias vezes. Sempre com homens que a agrediam: bêbados, drogados, estelionatários, todo tipo de foras da lei. Uma tarde, estávamos a sós. Eu dava voltas com minha BMX pantera no quintal, enquanto ela olhava, fumando e bebendo Martini Bianco, numa cadeira de praia. O quintal era grande, havia uma parte de cimento e outra de terra. Tínhamos até pomar. Eu devia ter dado mais de vinte voltas quando me distraí com a sombra e dei com a cara no pé de abacate. Como toda criança, eu nada fazia devagar; de modo que quebrei o nariz. A tia correu. Com a barra do vestido estancou o sangue. No desespero, seus seios saltaram e foi então que aconteceu. Atentos ao acidente, nenhum de nós percebeu o que se passava. Sobre nossas cabeças, o disco voador não chegou a pousar. Parou próximo ao chão e, do centro, um halo sugou-me, como se eu fosse um graveto dentro de uma pia cheia de água e alguém arrancasse a tampa; bem assim, só que ao contrário. Não sei se por causa da pancada ou da violência com que fora abduzido, estava sonolento. Lembro-me, no entanto, que no rádio tocava Cavalgada das Valquírias, quando a tarântula apareceu. Era um ser mecânico, enorme, rosado, com pelos espalhados pelo corpo. Beijou-me a boca. Desnudou meu corpo e introduziu alguns fios metálicos tanto no ânus quanto na uretra. Eu, é claro, senti uma dor imensa, como mais tarde sentiria em todos os verões quando o corpo se esforçasse para expelir as pedras que sempre se formam nos rins. Havia, entretanto, tenho de confessar, certo prazer. Resumindo, a aranha mecânica dissecou meu corpo como se fosse um cadáver. Esquadrinhou cada centímetro de pele. Nada poupou até que eu morri. Quando ressuscitei, tinha sido cuspido, nu, outra vez, no meio do quintal e a tia chorava passando a mão nos meus cabelos. Tinha sete anos e nunca mais fui o mesmo.🌻
INVEJA, INFIDELIDADE E METANOIA
Conhecemo-nos na faculdade. Ambos escrevíamos, mas eu pensava em uma carreira e ela não. Menino-homem, achava que precisava ser bem sucedido pra ser amado. Sob minha influência, com o tempo, ela também se afirmou escritora. Acontece que, tudo que ela tentava neste sentido, dava certo; ao passo que todas as minhas investidas fracassavam. Ela foi publicada na Alemanha, leu em Portugal, ganhou prêmio; todos pronunciavam seu nome com respeito. Seus lançamentos lotavam, seu blogue era frequentado e, tempos depois, seu Facebook ainda mais. Não é grande coisa o sucesso literário num país onde ninguém lê e imperam as panelas; mas era nosso sonho e, enquanto o dela se realizava, o meu apodrecia e me apodrecia junto. Cada elogio dirigido a ela, feria-me, dilacerava meu ego e meu orgulho. E então, afastei-me e, como se a culpa fosse dela, decidi me vingar. Eu também sempre fui erótico, devo admitir: safado mesmo; mas, como a mulher do padeiro n’O alto da compadecida, eu a amava tanto, de modo tão confuso, que, quando a traía, sentia que matava-a um pouco dentro de mim. E, quando conquistava outra mulher, sentia que não precisava dela, tampouco de seu sucesso. Além disso, bebia. Com o tempo, a inveja e o fracasso me corroíam de tal modo que eu não queria mais fazer parte da realidade compartilhada. Bêbado, louco, não precisava de nada, nem de ninguém. Mentia e era o primeiro a acreditar na mentira. Eu estava muito doente, mas continuava trabalhando; dando aulas, odiando os alunos e meus colegas de trabalho, porque ninguém dava a menor importância para o que havia de bonito dentro de mim. Eu era como a matriarca que cozinha seu melhor banquete e nenhum dos filhos aparece; como o filho que leva o desenho que fez na escola pra mãe e a mãe joga fora. Eu odiava a tudo e a todos, menos meus filhos. Não me sentia bem dentro daquele tumor; mas, feito camelo na areia movediça, quanto mais eu me esforçava pra sair, mais me afundava. Até que veio a catástrofe. Fui internado. Perto dos quarenta, perdi completamente a liberdade. Aquilo não era uma clínica, era um covil de mafiosos. Alguns internos já tinham sido presos e afirmavam que era pior que cadeia. E, então, aconteceu a metanoia. Eu não tinha sequer como escrever, porque um interno podia furar o outro com a caneta. Dias e dias sem ouvir uma canção. Pensei em suicídio, mas o banheiro não tinha portas, as lâmpadas eram inacessíveis. Simplesmente, não tinha como morrer. Em situações assim, o ego se dissolve e foi aí que me lembrei da Bíblia que minha mãe tinha me mandado. Comecei a ler os evangelhos e o sentido me transpassou. Aconteceu também com Dostoiévski, na Sibéria. Não é nada de uma religião específica, só uma corrente de amor em mim. De lá pra cá, tenho retomado a vida, lentamente. O casamento acabou. Tenho dias bons e ruins, mas não quero ser senhor deles. Como os girassóis, tento virar o rosto em direção à luz a cada manhã. A sombra não precisa ser integrada. A luz não tem sombra. Se você conseguir transferir o ser para a luz; o ego, que é o objeto que produz a sombra, dissolve-se e, com ele, o reflexo na parede.🌻
quinta-feira, 9 de abril de 2020
LOBA
Loba, aumente o som
Enxugue os olhos
Sem ressentimentos, beleza?
Nenhum de nós é
Inocente, consciente, ou prudente
Quero fugir pra Minas
Tecer a canção
acordar seus sentidos
Com minha língua ferina.
Loba, eu conheço os caminhos
Mas não sei pra onde ir
Não cobre constância
De quem é pedra rolando
Sonho na pandemia
Colibri na tempestade
Desejo, solidão, incerteza
Há um ponto onde os caminhos se bifurcam,
Mas continuam paralelos
E eu te dou minha luz e meu tesão
Sem nada exigir,
Pois quem requer não merece
E quem merece não desdenha
Loba, deixe-me ir mais tarde
O coração está instável
E a estrada da catástrofe
Já levou homens muito melhores.🌻
Enxugue os olhos
Sem ressentimentos, beleza?
Nenhum de nós é
Inocente, consciente, ou prudente
Quero fugir pra Minas
Tecer a canção
acordar seus sentidos
Com minha língua ferina.
Loba, eu conheço os caminhos
Mas não sei pra onde ir
Não cobre constância
De quem é pedra rolando
Sonho na pandemia
Colibri na tempestade
Desejo, solidão, incerteza
Há um ponto onde os caminhos se bifurcam,
Mas continuam paralelos
E eu te dou minha luz e meu tesão
Sem nada exigir,
Pois quem requer não merece
E quem merece não desdenha
Loba, deixe-me ir mais tarde
O coração está instável
E a estrada da catástrofe
Já levou homens muito melhores.🌻
LA JUSTÍCIA DE DÍOS
Focado era uma foca macho, gerente do Banco Unificado das Nove Lagoas. Usava óculos e suspensórios. Também era o contador da Igreja Adventista do Sétimo mar. Levava uma vida pacata até o dia em que seu caminho se cruzou com o do Psicopato; um pato vida louca que já tinha cometido muitos crimes. Havia entre criaturas tão dispares, no entanto, um amor em comum: a música de Bob Lula, o maior nome do reggae de todos os tempos; que, agora, estava morrendo feito indigente num hospital nos confins do oceano. Psico invadiu a agência e anunciou o assalto; mas, neste exato instante, o celular do gerente começou a tocar e o toque era uma música pouco conhecida do mestre. Psicopato baixou a espingarda calibre 12 de cano cerrado e olhou para a foca: “Você também é?”
“Mais que fã, sou adicto à música de Bob.”
“Não sou anjo, mas cometo este assalto só pra comprar uma guitarra e ir tocar pra alegrar Bob nos seus últimos dias."
Não precisava mais. Focado pegou todo o dinheiro dos caixas e do cofre:
“Aonde você vai?”
“Com você.”
“Você é louco?”
“Não, sou focado, você é que é o Psicopato.”
Seguiram juntos. O xerife Tiburón na cola. No caminho, compraram guitarra igualzinha à primeira de Bob. Não precisaram invadir o hospital. Pagaram toda a despesa e ainda deixaram gorjeta. No quarto, Psicopato nem parecia um indivíduo perigoso, até o olhar mudou; suas asas assemelhavam-se agora às de um anjo. Sacou da guitarra e começou a tocar para o ídolo, sussurrando os versos com toda delicadeza que um bico pode. Ao ver que sua música chegava de modo tão forte aos ouvidos das novas gerações, Bob Lula chorou. O maior nome do reggae definhava sob as garras da doença de Hutington; sua esposa o havia deixado, sob comum acordo, e se casado novamente; seus filhos chamavam o novo marido de pai e o próprio pai de Bob. Além disso, as dívidas com o tratamento alcançavam proporções estratosféricas. De modo que o gesto dos dois malucos foi como um afago num mendigo, o qual, muito mais que pão, precisa de carinho e compreensão.
Dali por diante, Focado e Psicopato formaram dupla, espécie de robbin´s wood´s do mundo aquático. Os jornais os retratavam como foras-da-lei, mas eles viviam mesmo sob as leis de seus próprios corações.🌻
“Mais que fã, sou adicto à música de Bob.”
“Não sou anjo, mas cometo este assalto só pra comprar uma guitarra e ir tocar pra alegrar Bob nos seus últimos dias."
Não precisava mais. Focado pegou todo o dinheiro dos caixas e do cofre:
“Aonde você vai?”
“Com você.”
“Você é louco?”
“Não, sou focado, você é que é o Psicopato.”
Seguiram juntos. O xerife Tiburón na cola. No caminho, compraram guitarra igualzinha à primeira de Bob. Não precisaram invadir o hospital. Pagaram toda a despesa e ainda deixaram gorjeta. No quarto, Psicopato nem parecia um indivíduo perigoso, até o olhar mudou; suas asas assemelhavam-se agora às de um anjo. Sacou da guitarra e começou a tocar para o ídolo, sussurrando os versos com toda delicadeza que um bico pode. Ao ver que sua música chegava de modo tão forte aos ouvidos das novas gerações, Bob Lula chorou. O maior nome do reggae definhava sob as garras da doença de Hutington; sua esposa o havia deixado, sob comum acordo, e se casado novamente; seus filhos chamavam o novo marido de pai e o próprio pai de Bob. Além disso, as dívidas com o tratamento alcançavam proporções estratosféricas. De modo que o gesto dos dois malucos foi como um afago num mendigo, o qual, muito mais que pão, precisa de carinho e compreensão.
Dali por diante, Focado e Psicopato formaram dupla, espécie de robbin´s wood´s do mundo aquático. Os jornais os retratavam como foras-da-lei, mas eles viviam mesmo sob as leis de seus próprios corações.🌻
quarta-feira, 8 de abril de 2020
UM PAI
Você sabe o que é ver sua filha toda amarrada, igual a bicho, na camisa de força, doutor? Você imagina o que é ver aquela coisinha pequena que te esperava chegar do trabalho, doida pra pular no colo, crescer e querer tirar a própria vida? Dá uma sensação de fracasso, e descrença, e culpa, muita culpa. A gente examina a vida inteira, tudo o que fez e deixou de fazer pra saber onde errou e não encontra. Você sente a dor de um espinho encravado na carne, mas não sabe onde. É uma agonia sem começo. É como se o corpo inteiro fosse o espinho e o mundo, a carne. O senhor me diz que é para o bem dela. Pra ela não tirar a própria vida. Meu Deus, doutor, sabe como isso chega no coração de um pai? É fracasso, é impotência, é uma dor sem nome. Onde eu tenho de me corrigir? Olho e não vejo. E de onde tiro força? Que Deus pode amparar um pai que vê a filha toda mutilada, machucada, atirada na calçada que nem um cachorro e que, quando tenta amparar, ela grita na cara dele que dá mesmo; só que não por prazer, mas porque dói? Eu nado, nado e não alcanço. Não sei o que é isso. O senhor diz que ninguém tem culpa, que são coisas da vida. Vai dizer isso pro meu coração. Ontem, quando saí daqui, olhei os álbuns de fotografia. Outro dia, era só uma gordinha sapeca... Que foi que eu fiz? Que foi que eu fiz? Que foi que eu fiz? Eu dei meu melhor e foi tão pouco! Por que um pai não pode sofrer no lugar do filho? Às vezes, penso que tudo isso é por minha causa, que talvez ela tenha me puxado. Fui mulherengo na juventude, sabe? E também farreei um bocado. Mas, com ela, não é prazer. Ela faz isso pra morrer sem tanta dor. O senhor diz que não tenho controle, que são decisões dela, que tenho de aceitar. Eu escuto. Eu tento. Mas de que jeito se faz isso? Como a gente aceita a dor de uma filha que opta por morrer? O senhor diz que também tem o ex e que a vida bate mesmo em brancos e pretos, homens e mulheres, pobres e ricos e que todo mundo tem de aprender a se remendar se quiser seguir. Doutor, por que ela não confiou em mim? Por que preferiu se embrenhar cada vez mais no lodo, até que a morte parecesse a única saída? O que eu fiz para que ela nunca reencontrasse o caminho que leva de volta até meu colo? E a filha dela? Minha netinha? Como vai crescer no meio disso tudo? Não! Não precisa tentar responder. É só desabafo. Sei que ninguém tem solução. Eu é que tenho de arranjar forças pra me recompor e enfrentar. Se ao menos tivesse outro lugar pra ir! Mas tenho de voltar para aquela mesma casa onde ela cresceu; alimentar os bichos; fazer comida; e cuidar da menininha; e atravessar essa quarentena sem colocar o nariz na rua. É duro! Ela só tem trinta anos, doutor. Ainda é só uma criança...💔
terça-feira, 7 de abril de 2020
O CORAÇÃO INFINITO
O fardo parecia mais pesado para George porque, além de sofrer de alopecia areata, aquela enfermidade que derruba todos os pelos do corpo, trabalhava num escritório onde todos os colegas eram roqueiros. Edegar tinha um topete à la Elvis Presley. Tadeu, uma cabeleira semelhante à do Slash. Carlinhos sustentava madeixas como as de um Ringo Starr na juventude e o Paulão, um black power maior que o do Tony Tornado. Quanto ao nosso amigo, seu sonho era ter ao menos sobrancelhas. Mundo injusto: uns com tantos; e, outros! Na ânsia de resistir ao destino; George, certa vez, foi a um salão de cabeleireiro e desenhou sobre os olhos um par de sobrancelhas postiças. Como era de se esperar, durante toda a semana, foi motivo de chacota no escritório. De tanta vergonha (ao menos cílios!), George não saía. Finais de semana, ficava em casa: meditando, ou lendo, ou escrevendo, ou jogando videogame ou, o que mais fazia recentemente, cantando no karaokê. Chegou, porém, o fim do ano e, na festa da firma, todos os cabeludos davam em cima da Simone, a nova funcionária que estava além de todos os padrões de beleza. Edegar rebolou feito Elvis logo que pegou, já bêbado, o microfone para cantar no karaokê. Tadeu fez um solo com os vocais imitando o guitarrista do Guns em Sweet Child o´ mine. Paulão cantou Tim. Nenhum deles impressionou. Quando, no entanto, The George pegou do microfone e começou a cantar Sem limites pra sonhar, a moça assumiu o outro microfone e improvisou, em dueto, a parte da Bonnie Tyler. Daí por diante, os dois não pararam mais de cantar por todos os bares de karaokê da cidade. Como era de se esperar, casaram-se em maio de 2021, depois da quarentena, e foram felizes pra sempre. Há uma estação onde o trem tem que parar.🌻
LANCELOT
Considero-me um homem de esquerda, no sentido de saber que o mundo não começa com minha pessoa e que eu apenas sou mais um; contribuindo com a humanidade a partir dos meus braços e ideias. Não acredito, no entanto, no materialismo, ou numa revolução que reforme a sociedade sem levar em conta cada indivíduo. Como podemos mudar a ordem social para melhor, se a maioria de nós não consegue ficar bem consigo por alguns dias? Como pode haver um mundo melhor, quando a gente pensa numa distribuição de renda mais justa, mas cobiça sexualmente, apenas pra satisfazer o ego e o desejo, uma mulher casada, cujo amor é o bem mais precioso para outra pessoa? E, o que é pior, muitas vezes, cede. A gente fala de revolução, porque acha mais fácil mudar o mundo que a gente mesmo. E, ao projetar a sombra no mundo, tiramos parte de nossa responsabilidade em começar a alquimia, a única revolução que está bem aqui ao nosso alcance agora: a revolução interior. O capitalismo selvagem não é causa, mas consequência do ego desejante incomensurável. A confusão que vemos na sociedade é o reflexo do interior de cada indivíduo. Transformar o mundo, quando a gente ainda nem pensou em transformar a si mesmo, é um desejo que parece muito bonito, mas que também parte do ego e de sua estrutura megalomaníaca. Isso quer dizer que devemos aceitar passivamente a injustiça social? Não. Quer dizer que a tarefa é muito maior do que imaginávamos, mas que é possível e pode começar agora mesmo, com cada um de nós observando corajosamente seu próprio coração.
O inimigo não começa fora.
O inimigo não começa fora.
SOBRE MURDER MOST FOUL
Lembrei-me na hora do poema América, do Ginsberg. Da tradição americana de cantar o país - violento ou belo, amoroso ou cruel - que tem em Whitman seu expoente. Ecos de Cormac. A história subjetiva se confunde com a história da nação, como em Kerouac ou Jack London. Tudo isso com a mais bela trilha sonora, a qual vai de Stella by Starlight a Tommy, dos Beatles ao Fleetwood Mac, passando por Etta James, Stan Getz, Charlie Parker e mais um monte de sonzeira bonita. Estruturalmente, as repetições - a palavra PLAY com seus múltiplos significados - também nos remetem aos longos poemas norteamericanos. Lembram-se de Kadish?
Como no conto O outro, do Borges, um Dylan envelhecido encontra o jovem Bob. Quanta água de lá para cá, não é garoto? "Vocês sabem que eu sou?" Pergunta Kennedy no início da letra. Ao que o jovem de Duluth e seus amigos folkers respondem: "É claro que sabemos, Senhor Presidente!"
Piano, cello, algum violino, tudo tão terno,delicado e sábio. Sabedoria da maturidade. Trata-se de um poema com fundo musical, mas um fundo tão amoroso que nos transporta também àquele fatídico dia em Dallas. O que os Estados Unidos tem de melhor são sua música e literatura.
Dylan é um mestre em ambas as artes.🌻
Como no conto O outro, do Borges, um Dylan envelhecido encontra o jovem Bob. Quanta água de lá para cá, não é garoto? "Vocês sabem que eu sou?" Pergunta Kennedy no início da letra. Ao que o jovem de Duluth e seus amigos folkers respondem: "É claro que sabemos, Senhor Presidente!"
Piano, cello, algum violino, tudo tão terno,delicado e sábio. Sabedoria da maturidade. Trata-se de um poema com fundo musical, mas um fundo tão amoroso que nos transporta também àquele fatídico dia em Dallas. O que os Estados Unidos tem de melhor são sua música e literatura.
Dylan é um mestre em ambas as artes.🌻
RETRATO
Não se engane com este olhar inocente
Se você pudesse ver minha alma
Correria horrorizada ante as inúmeras cicatrizes
Cedo ainda, fui queimado,
Virado ao avesso feito tripa de porco
Cedo ainda, fui exposto à besta e ao aracnídeo
Toda a minha vida tem sido um combate
Em busca de restabelecer a fé no amor e na humanidade
Já não creio em culpados
Por renunciar à toga, não tenho muito a perdoar
Somos apenas crianças
E, se ferimos umas às outras, é porque estamos perdidos, sozinhos, na floresta escura, em noite de tempestade.
Quando trabalhava no circo,
Fui o alvo do atirador de facas e ele era estrábico
Vê a longa queloide na minha barriga?
E eu sei que te feri como nunca fui ferido por ninguém
Ante toda a humanidade, peço perdão e te perdoo
Às vezes, só às vezes
Não sei porque os dias ainda amanhecem
E meus olhos amanhecem com eles
Às vezes,
A vida é uma pausa
O que estamos esperando pra abrir o coração e começar?🌻
Se você pudesse ver minha alma
Correria horrorizada ante as inúmeras cicatrizes
Cedo ainda, fui queimado,
Virado ao avesso feito tripa de porco
Cedo ainda, fui exposto à besta e ao aracnídeo
Toda a minha vida tem sido um combate
Em busca de restabelecer a fé no amor e na humanidade
Já não creio em culpados
Por renunciar à toga, não tenho muito a perdoar
Somos apenas crianças
E, se ferimos umas às outras, é porque estamos perdidos, sozinhos, na floresta escura, em noite de tempestade.
Quando trabalhava no circo,
Fui o alvo do atirador de facas e ele era estrábico
Vê a longa queloide na minha barriga?
E eu sei que te feri como nunca fui ferido por ninguém
Ante toda a humanidade, peço perdão e te perdoo
Às vezes, só às vezes
Não sei porque os dias ainda amanhecem
E meus olhos amanhecem com eles
Às vezes,
A vida é uma pausa
O que estamos esperando pra abrir o coração e começar?🌻
sexta-feira, 3 de abril de 2020
SHAKESPEARE NO BECO: 3 DISCOS DE DYLAN
Foi John Lennon quem disse: “A gente aprendeu muito com Dylan, mas ele também aprendeu muito com os Beatles”. Em 30 de agosto de 1965, depois de conhecer e farrear com os Beatles, Dylan lançava seu sexto álbum, o primeiro eletrificado, acompanhado por uma banda de rock, a The Hawk. Dylan sempre fora também roqueiro, como atesta a biografia de Robert Shelton, e a autobiografia Crônicas. Na adolescência, martelava o piano imitando Jerry Lee e Little Richard; mas foi depois dos Beatles, e de ouvir a versão dos Animals para The house of rising sun, que optou pela guinada. Destaque para a clássica Like a rolling stone, e Ballad of a thin man e Desolation row.
Em maio de 66, Dylan lança seu melhor álbum, mas não o meu preferido, o duplo Blonde on blonde, com sessões em NYC e, principalmente, Nashville. Acompanhado novamente da The Hawk e dos melhores músicos de Nashville, o disco deve ser ouvido inteiro. Não tem como indicar uma ou outra faixa. Simplesmente não tem música ruim. E a poética de Dylan está mais afiada que nunca. A primeira canção que me fisgou foi Sad eyed lady of the Lowlands, para a esposa Sara Lownds.
Dedicado também a Sara é o meu álbum predileto, Blood on the tracks. O título é um trocadilho. Tanto evoca o acidente de moto e o sangue na faixa de asfalto, quanto o sangue em cada faixa do vinil. É um disco doído, sobre a separação traumática entre Bob e Sara. Acompanhou-me também nos tempos sombrios que se seguiram ao meu próprio divórcio. Destaque para Simple twist of fate, You´re big girl now, If you see her say hello (que o Renato Russo regravou como If you see him say hello) e o vômito Idiot Wind. Curiosidade: de algumas canções prefiro as outtakes.🌻
Em maio de 66, Dylan lança seu melhor álbum, mas não o meu preferido, o duplo Blonde on blonde, com sessões em NYC e, principalmente, Nashville. Acompanhado novamente da The Hawk e dos melhores músicos de Nashville, o disco deve ser ouvido inteiro. Não tem como indicar uma ou outra faixa. Simplesmente não tem música ruim. E a poética de Dylan está mais afiada que nunca. A primeira canção que me fisgou foi Sad eyed lady of the Lowlands, para a esposa Sara Lownds.
Dedicado também a Sara é o meu álbum predileto, Blood on the tracks. O título é um trocadilho. Tanto evoca o acidente de moto e o sangue na faixa de asfalto, quanto o sangue em cada faixa do vinil. É um disco doído, sobre a separação traumática entre Bob e Sara. Acompanhou-me também nos tempos sombrios que se seguiram ao meu próprio divórcio. Destaque para Simple twist of fate, You´re big girl now, If you see her say hello (que o Renato Russo regravou como If you see him say hello) e o vômito Idiot Wind. Curiosidade: de algumas canções prefiro as outtakes.🌻
ESPIRITUALIDADE
Você pode pensar que é demagogia, ou discurso de derrotado, mas não troco minha vida por outra. Ontem, reguei as plantas, limpei a casa, li uns poemas do Antero de Quental, ouvi umas canções do Dylan. Hoje, acordei cedo. Li uns poemas do Antero de Quental. Escrevi. Ouvi Nick Drake enquanto lavava o carro. Depois, dei banho na bicharada com um xampu fabuloso que tinha comprado. Aí lavei o quintal. Sabe, se eu tivesse dez fazendas, queria ter feito exatamente as mesmas coisas. Se tivesse feito pós-pós-doc-doc pela Sorbonne, as mesmas coisas. Se tivesse levado o Nobel de Literatura, não mudaria um segundo. Como não estou competindo, títulos e honrarias não me interessam. Como não tento impressionar, o que as pessoas pensam de mim, bom ou mau, é problema delas. Nada está fora. Em todas essas atividades banais, o Amor me acompanhava, a Divindade emanava alegria. Tudo o que é feito com amor, é Espiritualidade. Não reclamo, vivo. Tento mudar as coisas que não posso aceitar e aceito as coisas que não tenho como mudar; sem pressa; dizendo o que penso e tentando não machucar meu semelhante. Tem hora que não dá, mas passa rápido e eu peço desculpas. Que quarentena danada de boa! E como é bom conhecer as pessoas que conheço e estar exatamente onde estou. Viver é mó barato.🌻
SEXO E ESPIRITUALIDADE
Não é mesmo fácil, a jornada humana. Entre os outros animais, o sexo é natural e, portanto, sagrado. No ser humano, contudo, há uma sexualidade bela, sagrada, delicada, pura expressão de amor. Por outro lado, existe também o sexo que nos racha ao meio, porque podemos amar uma pessoa e querer dormir com outra (ou outras); mesmo sabendo o quanto aquilo é desonesto e vai doer no outro. Claro, tudo depende do contrato. Deve haver pessoas menos complicadas por aí. Vê-se de tudo neste mundo. Em mim, todavia, o sexo tanto pode ser expressão de pura doação de amor; quanto pode ser a face animalesca querendo saciar sua sede de tudo. São Francisco e o Marquês de Sade no mesmo coração. Quando há amor, fico bem depois. Quando não, sinto-me mal. Tudo isso é depois, porque o durante pode até ser melhor quando temperado pela força. É que a relação sexual me mostra uma face minha que me aterroriza. Há certa sede de poder, certa violência, uma vontade de destruir e ser destruído ao mesmo tempo. Um descontrole da consciência. E, mesmo tendo aprontado mil coisas, tendo cedido ao desejo quando isso representava desonestidade e sofrimento para a pessoa que eu amava; se a pessoa com quem estou me fala de seus outros relacionamentos, das relações sexuais que teve, isso me dói de modo insuportável. Eu não pergunto, mas faz parte da intimidade se abrir. É que eu queria ter estado lá, sabe? Dói-me como uma traição não ter sido eu. E quero ir embora. E esquecer. E ficar longe. E ir pra uma caverna, ou pro alto da montanha. Sei que nada disso é bonito e não me orgulho de tais sentimentos, mas não escrevo para construir uma imagem do que não sou, mas para me libertar. E só há libertação na verdade. Quando não consigo dormir de noite, mil fantasmas invadem o quarto. E, ainda assim, o desejo não dá trégua. E tenho de me virar com isso, pois o caminho que leva à realização plena do amor, é o mesmo que leva à sordidez. Não há como abolir um lado sem perder o outro. Tampouco funciona tratar a pessoa amada como depósito da loucura do momento do gozo. Penso que, com o tempo, a calma virá. Não sei se quero isso. Penso que não sou o único confuso neste mundo. Não posso me justificar pelo outro. Ofereço, então, tudo o que sou e tenho às forças maiores que eu e peço ajuda; misericórdia, pelo amor de Deus! Esse ser cindido e machucado é tudo o que tenho a ofertar. Espero que o milagre aconteça e uma força superior possa purificar meu desejo. Sozinho, não consigo; nunca consegui. O lótus precisa do lodo para florescer; mas, depois que floresce, a lama não se apega mais à flor. É como se ela estivesse untada. A sujeira bate nas pétalas, mas escorrega. Se há tamanha espiritualidade numa flor, porque ela não seria também uma imagem, metáfora, um aprendizado para a condição humana?🌻
BED OF ROSES
TONHÃO era o cabra mais forte do Itaim, Itaquá, Guaianases e região. O braço dele era mais grosso que minha coxa. Nunca tinha perdido briga de bar, queda de braço, treta de mão. Mas, na noite em que Rosinha foi-se embora, acordou todo quebrado. No hospital, a radiografia denunciou meia dúzia de costelas quebradas e o peito avariado. Deste dia em diante, quedou cambaio, ficou penso pro lado esquerdo; como se tivesse sido rasgado ao meio e remendado errado. Tornou-se imprestável, o pobre. TONHÃO. Podicrê.
PLAYCENTER
Existe entre os acontecimentos um fio invisível chamado destino. Você pode, por exemplo, se perguntar o que uma excursão ao Playcenter, minha professora da quinta série, meu divórcio, um lago e o Coronavirus têm em comum. Vou tentar explicar do melhor modo; sem omitir uma vírgula. Quando estava na quinta série, houve uma excursão ao PLAYCENTER e toda a escola firmou de ir; mas meu pai estava desempregado, de modo que.
Havia então uma professora muito austera, senhora já, de origem árabe em cuja aula ninguém ousava dar um pio: Sada Salomão Murad. Ela era tia do vereador comunista Jamil Murad. Pois bem, a velha prendia o cabelo liso num rabo de cavalo e usava sempre roupas muito sóbrias; parecia até aquelas fraus alemãs. Acontece que a Sada adorava-me, por eu ser parecido - só que mais bonito😉 - com o netinho dela, o qual vivia no Oriente. Assim que soube que eu era o único aluno que não iria 'a excursão, chamou-me fora da sala e presenteou-me com trinta cruzados novos. Vinte e cinco do passaporte da alegria e cinco do lanche.
Muitos anos mais tarde, quando minha mulher descobriu que eu tinha um segundo e-mail, tentou mil senhas: não conseguiu entrar. Solicitou então uma reedição de senha, cuja pergunta de segurança era: qual foi sua professora favorita?
Lembrei disso tudo ainda agora, enquanto olhava para um lago, no meio da pandemia. Definitivamente, existe um fio invisível que a gente chama de.🌻
Havia então uma professora muito austera, senhora já, de origem árabe em cuja aula ninguém ousava dar um pio: Sada Salomão Murad. Ela era tia do vereador comunista Jamil Murad. Pois bem, a velha prendia o cabelo liso num rabo de cavalo e usava sempre roupas muito sóbrias; parecia até aquelas fraus alemãs. Acontece que a Sada adorava-me, por eu ser parecido - só que mais bonito😉 - com o netinho dela, o qual vivia no Oriente. Assim que soube que eu era o único aluno que não iria 'a excursão, chamou-me fora da sala e presenteou-me com trinta cruzados novos. Vinte e cinco do passaporte da alegria e cinco do lanche.
Muitos anos mais tarde, quando minha mulher descobriu que eu tinha um segundo e-mail, tentou mil senhas: não conseguiu entrar. Solicitou então uma reedição de senha, cuja pergunta de segurança era: qual foi sua professora favorita?
Lembrei disso tudo ainda agora, enquanto olhava para um lago, no meio da pandemia. Definitivamente, existe um fio invisível que a gente chama de.🌻
SOB A VIA LÁCTEA
Estávamos conversando na cabana, sob a lâmpada elétrica piscando por conta do mau contato. Por dois ou três minutos, a luz invadia o cômodo e alegrava tudo. Depois, a escuridão.
- Não seria melhor sair e caminhar até o rio?
Peguei a lanterna e, enquanto caminhávamos, tentei dizer o que pensava. É dura a tarefa de traduzir-se o tempo todo. A gente aponta a lua e as pessoas olham o dedo. Sinto como se falasse uma língua só minha. Dá vontade de desistir. A gente mal abre os olhos e já começa a queimadura, como se o mundo fosse uma lagarta de fogo. De novo isso! No começo, até rezei pra esse vírus me. Uma oportunidade e tanto. Seria um modo calmo de partir sem magoar quem amo. Estou cansado. E não me venha com esse papo de lado certo e errado da História. É só briga pra ter razão. E aqueles que tentam falar em nome dos demais, não diferem dos canalhas de cara limpa. Homens, mulheres, negros, brancos, minorias, maiorias: cortejo de canalha$! Chega uma hora que a gente cansa de tudo. Mudem o mundo vocês. Fiquem vocês com essa porra! Eu só consigo ver cópias. Como se os seres humanos tivessem sido sequestrados e em seus lugares implantadas bonecas que só sabem meia dúzia de comandos. Você aperta a barriga e elas dizem: “Vai pra cuba!” Você aperta o peito e elas respondem: “Mas o macho branco hétero!” Não se escuta uma palavra que parta do coração. E, quanto mais a pessoa estuda, menos verdadeira se torna. De nada adiantam os livros se um dia você não parar pra ler seu próprio coração. É uma pena que seja assim, mas é, só os caboclos rachados é que possuem aberturas para o além.
- Hoje despertou pessimista? Você se acha melhor que os outros.
Errada! Eu não me acho melhor que os outros, só tento ver o mundo com meus próprios olhos. E não preciso de selo pra gostar de uma canção. Eu sei me abrir pra boniteza, sem que um especialista me diga. Os seres humanos originais estão em outro lugar. Aqui só ficaram as cópias. Você escuta o povo e de fato são poucos os que dizem algo que brote neles; mas você escuta os intelectuais, os politizados, os estetas, a elite do pensamento e entre eles há ainda menos pensamento. Do que foi mesmo que nos esquecemos?
Chegamos ao rio. Revolto. Havia ódio na água. Iluminei o rosto dela com a lanterna. Meu Deus, como era linda! E tudo tem de morrer:
- Te conheço, meu amor. Você acha que pensa, mas só pensa mesmo em sexo. O resto é autojustificativa.
Sobre nossas cabeças, a via Láctea cantava num idioma desconhecido.🌻
- Não seria melhor sair e caminhar até o rio?
Peguei a lanterna e, enquanto caminhávamos, tentei dizer o que pensava. É dura a tarefa de traduzir-se o tempo todo. A gente aponta a lua e as pessoas olham o dedo. Sinto como se falasse uma língua só minha. Dá vontade de desistir. A gente mal abre os olhos e já começa a queimadura, como se o mundo fosse uma lagarta de fogo. De novo isso! No começo, até rezei pra esse vírus me. Uma oportunidade e tanto. Seria um modo calmo de partir sem magoar quem amo. Estou cansado. E não me venha com esse papo de lado certo e errado da História. É só briga pra ter razão. E aqueles que tentam falar em nome dos demais, não diferem dos canalhas de cara limpa. Homens, mulheres, negros, brancos, minorias, maiorias: cortejo de canalha$! Chega uma hora que a gente cansa de tudo. Mudem o mundo vocês. Fiquem vocês com essa porra! Eu só consigo ver cópias. Como se os seres humanos tivessem sido sequestrados e em seus lugares implantadas bonecas que só sabem meia dúzia de comandos. Você aperta a barriga e elas dizem: “Vai pra cuba!” Você aperta o peito e elas respondem: “Mas o macho branco hétero!” Não se escuta uma palavra que parta do coração. E, quanto mais a pessoa estuda, menos verdadeira se torna. De nada adiantam os livros se um dia você não parar pra ler seu próprio coração. É uma pena que seja assim, mas é, só os caboclos rachados é que possuem aberturas para o além.
- Hoje despertou pessimista? Você se acha melhor que os outros.
Errada! Eu não me acho melhor que os outros, só tento ver o mundo com meus próprios olhos. E não preciso de selo pra gostar de uma canção. Eu sei me abrir pra boniteza, sem que um especialista me diga. Os seres humanos originais estão em outro lugar. Aqui só ficaram as cópias. Você escuta o povo e de fato são poucos os que dizem algo que brote neles; mas você escuta os intelectuais, os politizados, os estetas, a elite do pensamento e entre eles há ainda menos pensamento. Do que foi mesmo que nos esquecemos?
Chegamos ao rio. Revolto. Havia ódio na água. Iluminei o rosto dela com a lanterna. Meu Deus, como era linda! E tudo tem de morrer:
- Te conheço, meu amor. Você acha que pensa, mas só pensa mesmo em sexo. O resto é autojustificativa.
Sobre nossas cabeças, a via Láctea cantava num idioma desconhecido.🌻
ELE NUNCA SUPEROU
Porque ambos gostavam de flores, o negócio do casal era uma floricultura. Estavam casados havia oito anos. Não tinham filhos. Eram jovens; de modo que, por algum tempo, queriam curtir o amor. Com a floricultura, não ficariam ricos; levavam, entretanto, uma vida confortável e podiam namorar o dia inteiro; entre rosas. Além disso, as vendas de fim de ano garantiam uma viagem todo mês de janeiro.
A ideia fora dela. Vira no site da cidade a respeito de uma feira de orquídeas raras em Holambra: “por que não vamos? A gente aproveita pra passear. Fechamos no almoço, passamos a tarde lá e, de noite, voltamos”. Foi um lindo dia de sol; mas, no final da tarde, começou a chover e não parou.
Na volta, aconteceu.
Ela estava cansada. Ele sugeriu – e isso o marcaria para todo sempre – que ela se deitasse no banco traseiro pra dormir melhor. E, aí, no meio da Bandeirantes, do nada, o carro apagou: pane elétrica. Ainda chovia. Sem se desesperar, como era de seu feitio, ele foi jogando, aos poucos, o carro para o acostamento. Mas havia um treminhão no meio do caminho; o qual, na faixa derradeira, tentou desviar do Pálio justamente pelo acostamento, onde a colisão aconteceu. O corpo dela atravessou o para-brisa e aterrissou dois metros à frente, no asfalto molhado, coberto de flores e besuntado de tanto sangue que até parecia cobertura de morango em bolo de casamento. Daí pra frente, ele nunca se recuperou. Anda com a mesma calça de moletom imunda há anos e acompanha todos os enterros que acontecem no cemitério Primavera II - Guarulhos; na esperança de encontrar outra vez a mulher que ama; viva ou morta.
É branco, macho e heterossexual. Em suma, um canalha.🌻
A ideia fora dela. Vira no site da cidade a respeito de uma feira de orquídeas raras em Holambra: “por que não vamos? A gente aproveita pra passear. Fechamos no almoço, passamos a tarde lá e, de noite, voltamos”. Foi um lindo dia de sol; mas, no final da tarde, começou a chover e não parou.
Na volta, aconteceu.
Ela estava cansada. Ele sugeriu – e isso o marcaria para todo sempre – que ela se deitasse no banco traseiro pra dormir melhor. E, aí, no meio da Bandeirantes, do nada, o carro apagou: pane elétrica. Ainda chovia. Sem se desesperar, como era de seu feitio, ele foi jogando, aos poucos, o carro para o acostamento. Mas havia um treminhão no meio do caminho; o qual, na faixa derradeira, tentou desviar do Pálio justamente pelo acostamento, onde a colisão aconteceu. O corpo dela atravessou o para-brisa e aterrissou dois metros à frente, no asfalto molhado, coberto de flores e besuntado de tanto sangue que até parecia cobertura de morango em bolo de casamento. Daí pra frente, ele nunca se recuperou. Anda com a mesma calça de moletom imunda há anos e acompanha todos os enterros que acontecem no cemitério Primavera II - Guarulhos; na esperança de encontrar outra vez a mulher que ama; viva ou morta.
É branco, macho e heterossexual. Em suma, um canalha.🌻
ELE NUNCA SUPEROU - II
Há, no mundo, dores que podem levar até os espíritos mais fortes à loucura. Quando o filho morreu, vi seo Edmir enlouquecer. O velho ficou preso no momento mais doloroso que um ser humano pode. Neste tempo, eu tomava conta do bar. Antes do crime, ele já bebia; não tanto. Era aposentado; ainda assim, continuava trabalhando, vendendo tuppeware, panela, prato, numa Kombi velha. Depois do incidente, eu o via chegar logo cedo, os olhos vermelhos e inchados de ter chorado a noite inteira, pedir uma pinga, pegar o copo e desabar de novo, antes mesmo de levar o copo à boca. Talvez o rei Davi tenha se sentido assim quando Absalão morreu. Triste. Seo Edmir tinha cinco filhos. As quatro mais velhas eram meninas; e, então, depois de mais de dez anos, veio o menino; já filho da velhice. Crescemos juntos. No quintal deles, tinha tudo que era pé de fruta. Quando era tempo, eu ia lá comer amora, ameixa, manga. Seo Edmir era louco pelo menino. Do nosso bairro, ele foi o primeiro a ter videogame. Crescido, ganhou moto e foi justamente nesta moto que ele.
Tornou-se um rapaz bonito, o filho. Aonde quer que fosse, as meninas disputavam. A gente andava junto. No dia em que morreu, eu devia ter ido, na garupa. Talvez a bala tivesse o endereço da minha própria cabeça. Aconteceu assim: tínhamos combinado de ir a uma cachoeira; mas, no último instante, dei pra trás. Ele foi, só. Quando chegou lá, algumas meninas ficaram encantadas, mas estavam acompanhadas. Pra escapar da confusão, meu amigo veio embora. Houve, no entanto, perseguição e alguém atirou na cabeça; a bala entrou pela parte de trás do capacete.
Eu estava assistindo ao Fantástico quando uma das irmãs veio me dar a notícia. Abraçou-me chorando e eu senti. Tudo isso tem mais de vinte anos. Seo Edmir acalmou um pouco com o tempo, mas jamais se recuperou. Há dias, de manhã, em que estou tomando café na padaria, e ele entra pra comprar pão, e nem me reconhece. Tem o olhar mais triste. E sei que guarda no peito a maior dor do mundo. 🌻
Tornou-se um rapaz bonito, o filho. Aonde quer que fosse, as meninas disputavam. A gente andava junto. No dia em que morreu, eu devia ter ido, na garupa. Talvez a bala tivesse o endereço da minha própria cabeça. Aconteceu assim: tínhamos combinado de ir a uma cachoeira; mas, no último instante, dei pra trás. Ele foi, só. Quando chegou lá, algumas meninas ficaram encantadas, mas estavam acompanhadas. Pra escapar da confusão, meu amigo veio embora. Houve, no entanto, perseguição e alguém atirou na cabeça; a bala entrou pela parte de trás do capacete.
Eu estava assistindo ao Fantástico quando uma das irmãs veio me dar a notícia. Abraçou-me chorando e eu senti. Tudo isso tem mais de vinte anos. Seo Edmir acalmou um pouco com o tempo, mas jamais se recuperou. Há dias, de manhã, em que estou tomando café na padaria, e ele entra pra comprar pão, e nem me reconhece. Tem o olhar mais triste. E sei que guarda no peito a maior dor do mundo. 🌻
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