quarta-feira, 8 de abril de 2020

UM PAI

Você sabe o que é ver sua filha toda amarrada, igual a bicho, na camisa de força, doutor? Você imagina o que é ver aquela coisinha pequena que te esperava chegar do trabalho, doida pra pular no colo, crescer e querer tirar a própria vida? Dá uma sensação de fracasso, e descrença, e culpa, muita culpa. A gente examina a vida inteira, tudo o que fez e deixou de fazer pra saber onde errou e não encontra. Você sente a dor de um espinho encravado na carne, mas não sabe onde. É uma agonia sem começo. É como se o corpo inteiro fosse o espinho e o mundo, a carne. O senhor me diz que é para o bem dela. Pra ela não tirar a própria vida. Meu Deus, doutor, sabe como isso chega no coração de um pai? É fracasso, é impotência, é uma dor sem nome. Onde eu tenho de me corrigir? Olho e não vejo. E de onde tiro força? Que Deus pode amparar um pai que vê a filha toda mutilada, machucada, atirada na calçada que nem um cachorro e que, quando tenta amparar, ela grita na cara dele que dá mesmo; só que não por prazer, mas porque dói? Eu nado, nado e não alcanço. Não sei o que é isso. O senhor diz que ninguém tem culpa, que são coisas da vida. Vai dizer isso pro meu coração. Ontem, quando saí daqui, olhei os álbuns de fotografia. Outro dia, era só uma gordinha sapeca... Que foi que eu fiz? Que foi que eu fiz? Que foi que eu fiz? Eu dei meu melhor e foi tão pouco! Por que um pai não pode sofrer no lugar do filho? Às vezes, penso que tudo isso é por minha causa, que talvez ela tenha me puxado. Fui mulherengo na juventude, sabe? E também farreei um bocado. Mas, com ela, não é prazer. Ela faz isso pra morrer sem tanta dor. O senhor diz que não tenho controle, que são decisões dela, que tenho de aceitar. Eu escuto. Eu tento. Mas de que jeito se faz isso? Como a gente aceita a dor de uma filha que opta por morrer? O senhor diz que também tem o ex e que a vida bate mesmo em brancos e pretos, homens e mulheres, pobres e ricos e que todo mundo tem de aprender a se remendar se quiser seguir. Doutor, por que ela não confiou em mim? Por que preferiu se embrenhar cada vez mais no lodo, até que a morte parecesse a única saída? O que eu fiz para que ela nunca reencontrasse o caminho que leva de volta até meu colo? E a filha dela? Minha netinha? Como vai crescer no meio disso tudo? Não! Não precisa tentar responder. É só desabafo. Sei que ninguém tem solução. Eu é que tenho de arranjar forças pra me recompor e enfrentar. Se ao menos tivesse outro lugar pra ir! Mas tenho de voltar para aquela mesma casa onde ela cresceu; alimentar os bichos; fazer comida; e cuidar da menininha; e atravessar essa quarentena sem colocar o nariz na rua. É duro! Ela só tem trinta anos, doutor. Ainda é só uma criança...💔

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