terça-feira, 14 de abril de 2020

TARÂNTULA

Minha tia Helena era linda como uma deusa, mas também era a rainha dos relacionamentos conturbados. Teve inúmeros casos. Casou-se várias vezes. Sempre com homens que a agrediam: bêbados, drogados, estelionatários, todo tipo de foras da lei. Uma tarde, estávamos a sós. Eu dava voltas com minha BMX pantera no quintal, enquanto ela olhava, fumando e bebendo Martini Bianco, numa cadeira de praia. O quintal era grande, havia uma parte de cimento e outra de terra. Tínhamos até pomar. Eu devia ter dado mais de vinte voltas quando me distraí com a sombra e dei com a cara no pé de abacate. Como toda criança, eu nada fazia devagar; de modo que quebrei o nariz. A tia correu. Com a barra do vestido estancou o sangue. No desespero, seus seios saltaram e foi então que aconteceu. Atentos ao acidente, nenhum de nós percebeu o que se passava. Sobre nossas cabeças, o disco voador não chegou a pousar. Parou próximo ao chão e, do centro, um halo sugou-me, como se eu fosse um graveto dentro de uma pia cheia de água e alguém arrancasse a tampa; bem assim, só que ao contrário. Não sei se por causa da pancada ou da violência com que fora abduzido, estava sonolento. Lembro-me, no entanto, que no rádio tocava Cavalgada das Valquírias, quando a tarântula apareceu. Era um ser mecânico, enorme, rosado, com pelos espalhados pelo corpo. Beijou-me a boca. Desnudou meu corpo e introduziu alguns fios metálicos tanto no ânus quanto na uretra. Eu, é claro, senti uma dor imensa, como mais tarde sentiria em todos os verões quando o corpo se esforçasse para expelir as pedras que sempre se formam nos rins. Havia, entretanto, tenho de confessar, certo prazer. Resumindo, a aranha mecânica dissecou meu corpo como se fosse um cadáver. Esquadrinhou cada centímetro de pele. Nada poupou até que eu morri. Quando ressuscitei, tinha sido cuspido, nu, outra vez, no meio do quintal e a tia chorava passando a mão nos meus cabelos. Tinha sete anos e nunca mais fui o mesmo.🌻

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