quinta-feira, 30 de abril de 2020

DUCHAMP

Alguém com um cigarro nas mãos diz: fogo. Alguém num prédio em chamas diz: fogo. A frase é a mesma, mas o lugar de onde se diz é diferente. Ao deslocar um mictório para o centro de uma galeria, Marcel Duchamp fez arte. Isto porque Duchamp estava. Havia percorrido o longo caminho que leva outra vez aonde você sempre esteve. A jornada do herói. A arte também é um caminho espiritual. Picasso dizia ter levado a vida inteira, passado por todas as fases, para, só no fim, poder pintar como criança. Das três metamorfoses do homem, em Zaratustra: Camelo, leão e criança. Na infância, o homem não pode ainda ser criança, é camelo, acumula no lombo o máximo de cultura para atravessar o deserto. Na juventude, enfrenta um dragão no qual, em cada escama, está escrito: “tu deves!” Só então pode se tornar criança e brincar. Duchamp fez arte. Isto não quer dizer que qualquer objeto cotidiano seja arte. É, claro, a arte está lá, em tudo; mas é preciso que o artista arranque a fuligem das coisas e dos nossos olhos para que enxerguemos. A arte é uma hierofania.

Nenhum comentário: