sexta-feira, 3 de abril de 2020
SEXO E ESPIRITUALIDADE
Não é mesmo fácil, a jornada humana. Entre os outros animais, o sexo é natural e, portanto, sagrado. No ser humano, contudo, há uma sexualidade bela, sagrada, delicada, pura expressão de amor. Por outro lado, existe também o sexo que nos racha ao meio, porque podemos amar uma pessoa e querer dormir com outra (ou outras); mesmo sabendo o quanto aquilo é desonesto e vai doer no outro. Claro, tudo depende do contrato. Deve haver pessoas menos complicadas por aí. Vê-se de tudo neste mundo. Em mim, todavia, o sexo tanto pode ser expressão de pura doação de amor; quanto pode ser a face animalesca querendo saciar sua sede de tudo. São Francisco e o Marquês de Sade no mesmo coração. Quando há amor, fico bem depois. Quando não, sinto-me mal. Tudo isso é depois, porque o durante pode até ser melhor quando temperado pela força. É que a relação sexual me mostra uma face minha que me aterroriza. Há certa sede de poder, certa violência, uma vontade de destruir e ser destruído ao mesmo tempo. Um descontrole da consciência. E, mesmo tendo aprontado mil coisas, tendo cedido ao desejo quando isso representava desonestidade e sofrimento para a pessoa que eu amava; se a pessoa com quem estou me fala de seus outros relacionamentos, das relações sexuais que teve, isso me dói de modo insuportável. Eu não pergunto, mas faz parte da intimidade se abrir. É que eu queria ter estado lá, sabe? Dói-me como uma traição não ter sido eu. E quero ir embora. E esquecer. E ficar longe. E ir pra uma caverna, ou pro alto da montanha. Sei que nada disso é bonito e não me orgulho de tais sentimentos, mas não escrevo para construir uma imagem do que não sou, mas para me libertar. E só há libertação na verdade. Quando não consigo dormir de noite, mil fantasmas invadem o quarto. E, ainda assim, o desejo não dá trégua. E tenho de me virar com isso, pois o caminho que leva à realização plena do amor, é o mesmo que leva à sordidez. Não há como abolir um lado sem perder o outro. Tampouco funciona tratar a pessoa amada como depósito da loucura do momento do gozo. Penso que, com o tempo, a calma virá. Não sei se quero isso. Penso que não sou o único confuso neste mundo. Não posso me justificar pelo outro. Ofereço, então, tudo o que sou e tenho às forças maiores que eu e peço ajuda; misericórdia, pelo amor de Deus! Esse ser cindido e machucado é tudo o que tenho a ofertar. Espero que o milagre aconteça e uma força superior possa purificar meu desejo. Sozinho, não consigo; nunca consegui. O lótus precisa do lodo para florescer; mas, depois que floresce, a lama não se apega mais à flor. É como se ela estivesse untada. A sujeira bate nas pétalas, mas escorrega. Se há tamanha espiritualidade numa flor, porque ela não seria também uma imagem, metáfora, um aprendizado para a condição humana?🌻
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