A formiga sabe a folha que roi. Meu pai era absoluto. Ante sua voz, o mundo tremia. Cedo, então, vesti a máscara que me deram e dela fiz rosto. Trabalhei; aumentei o império da família; tomei decisões; disse nãos difíceis a pessoas que amava. Hoje tenho setenta anos, negócios espalhados pelos quatro continentes e um câncer em metástase. Casei-me uma única vez. Sou pai e avô presente, mas estou acabando. E, o que é pior, vivi uma vida holográfica, planejada com ênfase na exterioridade. A travessia acabou e não pude. Durante todo este tempo, esperei a vida começar, mas o que começou de fato foi o tumor. Por que adiamos tanto ser se, chegada a hora, enfrentaremos solitários o Dragão?
- As pessoas não vêem nada errado com você, Orlando - ele disse - mas eu sei essa dor branca que você finge não.
Ouvi isso aos dezessete. Faculdade. Foi como se ele tivesse a chave. Em outra boca, tais palavras seriam ocas de sentido. Do lugar onde ele se abria - o coração - tudo me fazia tremer; como se eu estivesse nu. Nesta noite, fizemos amor. Nos dias, meses e anos subsequentes, no entanto, ignorei-o; apavorado com o Bicho Papão solto lá fora. Nunca senti desejo por outro homem. Jamais busquei garotos de programa ou. Tampouco amei minha esposa, com a qual sou casado há mais de trinta. Condenei-me e não poupei o entorno. Ela toma uma dúzia de remédios para ansiedade. Eu estou morrendo como vivi; completamente só. Envergonhado de ofertar 'a Doce Senhora um cálice cheio de nada; vazio de vida que não aconteceu. Sei que isto não fará diferença ante os impessoais milênios, mas era a única vida que eu.
E ele tinha uma borboleta tatuada no pescoço.
E eu tenho uma consulta inútil no próximo dia 23.
quinta-feira, 30 de abril de 2020
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