quinta-feira, 29 de novembro de 2018

LUTO 2 - O LIVRO DE JÓ



Até ontem, participava de uma corrente indicando alguns livros. Procurei me ater a um único gênero, o romance e, ainda assim, muitos grandes romances ficaram de fora. Fiquei pensando então: se pudesse indicar a alguém um único livro, qual seria? Resposta: a Bíblia, sem dúvida (nem mesmo o Tao Te Ching). A mesma Bíblia que Dostoievski leu e releu inúmeras vezes nos dez anos em que esteve na Sibéria. E, se homens imensos, como Nietzsche e Cioran, criticaram-na, principalmente O novo testamento, é porque estavam entranhados demais daqueles textos, precisavam diminuí-los dentro de si para construírem a própria obra. A gente percebe assim, fácil, a diferença entre a grandeza de Nietzsche e a pequenez dos nietzschianos; bem como podemos perceber a diferença entre Jesus Cristo e aqueles que se dizem cristãos. O grande problema da Bíblia é que ela é poesia e a maioria das pessoas a leem como se fosse um jornal. Do ponto de vista de uma sensibilidade poética - nem sequer falo de religião -, não há narrativa mais bonita que a do menino pobre, filho de carpinteiro, que nasceu em uma manjedoura, provindo de uma espécie de gueto, de favela, de periferia e que, sem ir muito longe, sem ter tido instrução formal, se tornou o maior homem do mundo. 
Por outro lado, há livros na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento, que também me deixam incomodado. Não consigo conceber um Deus ciumento, capaz de exigir o filho único de um pai, de mandar seus filhos para o fogo pela sua desobediência. Se eu, que sou um ser completamente imperfeito, jamais abandonaria um filho, como a Perfeição poderia fazê-lo? Como ainda ontem falava de luto, lembrei-me de um livro que, desde menino, deixava-me indignado, o livro de Jó. De que modo pode um Deus amoroso, do alto de sua grandeza, cair numa provocação tão corriqueira? E, mais, como pode um Deus amoroso brincar assim com o destino humano? Como pode um Deus ter um EGO tão grande? E, o pior de tudo, como pode um Deus amoroso desconhecer qualquer coisa de psicologia? Do próprio coração humano? Está escrito: “Depois que Jó orou por seus amigos, o Senhor o tornou novamente próspero e lhe deu em dobro tudo o que tinha antes”. Está escrito ainda que Jó teve mais sete filhos e três filhas e é exatamente aí que eu me pego. Primeiro porque as filhas e filhos são mencionados como se fossem patrimônio; e, segundo – aqui a questão do luto – os novos filhos eram outros! E cada ser é insubstituível! Como disse ontem, no luto queremos ser fiéis aos que se foram... Pode ser que, naquela época, os costumes fossem outros; mas o amor é atemporal - não creio na ideia pós-moderna de que o amor é um constructo do Romantismo... Pode ser que a pequenez do meu entendimento prejudique minha leitura; todavia, para mim, em tal passagem bíblica, quem é grande não é Deus nem o Diabo, mas sim Jó, o humano Jó.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O pai


Essa coisa de ser estranho atrapaia a gente um bocado no começo. Lembro que, uma vez, fui num show da Legião Urbana com meu irmão mais velho e uns amigos. Quando saímos, eles estavam diferentes, emocionados, os semblantes diferentes, um misto de euforia e, ao mesmo tempo, já nostalgia pelo show findado. “Que diacho!  – pensei  - As pessoas normais precisam do show pra sentir isso; eu vivo assim o tempo inteiro!” Antes disso, nos fim dos anos 80, meu pai era cobrador de ônibus da CMTC. Eu tinha uma vontade danada de cuidar dele, de dar presente. Ele tinha uma bolsa de couro parecida com aquela do Patropi, na qual carregava a marmita. Lembro do pai indo trabalhar, achava que ele caminhava meio triste. Ele tinha tido um bom salário como mecânico na Mercedes Benz, do Brasil; mas foi mandado embora por causa das greves do final dos anos 70 e não conseguia mais arranjar um bom emprego. Ficou marcado. Meu pai é daqueles que você quebra o pescoço dele, mas ele não enverga. Estava junto quando fundaram o PT, tomou até rabo de galo com o Lula. A mãe conta que tinha medo de ele ser preso. Sim, voltando, eu ficava olhando meu pai ir trabalhar e achava ele parecido com Dr. David Banner, o incrível Hulk depois que se destransformava. Assim que passava a ira, o herói era um homem comum, com um olhar triste, indo embora. Todo episódio terminava assim e eu via ali o meu pai. Logo que perdeu o emprego por causa da greve, ficou com a carteira suja, como diziam... Então ele, meu velho, ia até o Brás e comprava umas roupas para revender. Não dava muito certo. Ele tomava calotes. Não sabia cobrar as pessoas. Uma vez, foi levar umas costuras que minha mãe pegava pra fazer em casa e, quando voltou, perdeu todo o dinheiro. Nós iríamos comer uns bifes aquele dia. A mãe já estava com tudo preparado. Eu era neném ainda. A mãe me contou tempos depois. Teimoso e atrapalhado, mas que coração! Até hoje tem a mania de querer ajudar os outros. Quando conseguiu comprar um terreno e construir, fez uma edícula nos fundos pro povo que vinha de Minas ir se ajeitando. Ficaram por lá todos os irmãos da minha mãe, um bocado de primos; no total, umas vinte pessoas passaram pela casa ao longo do tempo. Ele nunca cobrou um centavo de ninguém. Uma vez, quando minha mãe estava grávida de mim, o pai pegou um mendigo, deu banho, alimentou e colocou dentro de casa. Pra você ter uma ideia da índole dele. Não é porque é meu pai, não. Ele se chama João, como meu filho, mas o apelido até hoje é Dó, porque tinha dó de todo mundo. Como éramos muito católicos, eu queria ser padre pra dar essa alegria aos meus pais. Talvez fosse esse o melhor presente que eu podia dar; mas, um dia, encontrei uns restos de uma revista pornográfica num terreno baldio e aí danou-se... O corpo perdeu a inocência. Aos domingos, depois do almoço, o pai colocava os discos do Roberto Carlos pra tocar na vitrola e ficava quieto, sentindo, organizando as coisas que andavam dentro dele. Eu ficava por perto observando e sofrendo junto com aquelas canções tão tristes.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

LUTO - 1



Há em todo luto um aspecto ligado à fidelidade. Quando estamos em luto, não nos permitimos ser felizes; pois, como podemos ser felizes se o ser amado morreu? Temos de morrer um pouco juntos pra provar amor, pra não abandonar aquele que amamos à própria sorte, rumo à Noite. Se uma canção nos faz feliz, trocamos de estação; o ser amado não pode ouvi-la; como podemos nos permitir? O momento agora é de sofrer até o fundo pra estar à altura daquele que desapareceu. O paladar perde o gosto, a pele perde o tato, o olho perde o prazer da cor. 
Sofrer por aquele que se foi é um modo de dizer ao morto que ele não está sozinho e que ele, apesar de haver tantos outros, é único: ESPECIAL. E o pior que se pode dizer ao menino que perdeu a gatinha é:
- Não chore, a gente arranja outra. – Ele vai chorar ainda mais, vai se indignar. A outra não é aquela e ele quer ser fiel à que se foi; como poderia trocá-la por outra justo agora, quando ela mais precisa? Sofrer pela gata morta é um modo de mantê-la viva e de acompanhá-la um pouco morte adentro. Na maioria das vezes, somos seres fiéis, só que doidos. Aqui, no lado pobre da cidade, havia uma mulher, esposa do dono da mercearia, que ficava com muitos homens quando o marido era vivo. Ela parecia não ter a menor consideração. O coitado vivia com o chifre inflamado, ouvindo canções do Fagner, do Christian e Ralph. Depois que ele, o marido, morreu, no entanto, ela disparou a frequentar a igreja, tornou-se beata. Terminou todos os casos. Ninguém nunca mais soube de namorico seu. Ao morto ela foi uma esposa fiel como nenhuma outra😱.
A meditação, pra mim, NÃO é um modo de me tornar morno, de ficar indiferente, de já estar morto quando a morte chegar; pelo contrário, é um meio de sentir tudo com mais atenção, com mais plenitude. E se a vida é pra doer, deixa ela doer! Se é pra gozar, deixa ela gozar! Assim, quando a morte vier, vai ficar espantada:
- Está aqui um cabra que vale à pena levar. Ele esteve consciente de tudo o que viveu! – Isso aí é ela quem vai dizer, a Dama-com-cara-de-caveira-levando-uma-foice-numa-mão-e -uma-ampulheta-na-outra.
Provavelmente, meu caixão, neste dia, vai ser pesado e os amigos vão beber à beça e contarão histórias das minhas presepadas: “E daquela vez que ele foi comprar um cabrito e voltou bêbo com um cachorro sarnento!”... "E daquela vez que..." Vou logo dizendo, eu quero é festa.
Mas, se o assunto era luto, por que foi que eu falei de meditação mesmo, hein?

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

REFORMAR UMA CASA SE LIMITA COM CURAR FERIDAS.


REFORMAR UMA CASA SE LIMITA COM CURAR FERIDAS.
Se da casa retiramos o reboco mofado,
Das feridas arrancamos as cascas.
Se lixamos as paredes e passamos massa fina antes de nova camada de tinta,
Das feridas limpamos o pus.
E se me dói na carne o mertiolate, quanto não doeria no concreto a desempenadeira?
Uma pele sem rugas e cicatrizes tem pouca profundidade.
Uma parede lisa não foi ainda morada humana.

Ontem sonhei que era, ao mesmo tempo, a casa em reforma
E o pedreiro sobre o andaime.
Tudo em mim, neste instante, se reconstrói de modo espiritual.
A casa se faz templo.
As coisas que me dilaceraram,
Fizeram-me mudar de endereço.
Hoje sou uma casa melhor para aqueles que precisam de abrigo.
Todas as portas e janelas estão abertas;
Entrai.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

E UM CHAPÉU DE CAUBÓI PARA O FILHO COBRIR O CORAÇÃO

Então este é o mundo que deixaremos nas mãos de nossos filhos?
Uma granada com pino puxado?
Um sapato furado? Laços rasgados?
Uma arma de grosso calibre para atirar no peito de seu irmão?
A pressão por ter mais; porque, pensamos, quem mais tem, mais é?
Ao diabo com metas e reformas!
Eu gosto é de gente!
No jardim do tempo, a velha tecelã cultiva uma roseira.
Entre as pétalas escorre uma água grossa
Meio orvalho, meio lágrima...
É Noite escura? Aurora de quê? Manhã sem nada?
Não é o futuro, mas o passado o que vem pela frente.
Então esta é a teia que tecemos?
Chumbo ao invés de afeto?
Disputa contra ciranda?
E o que se pode esperar de motoristas que não dão seta?
Estou cansado de tanta burrice & maldade & covardia.
(ONDE FOI QUE TUDO DEU ERRADO?)
As crianças já não saem de casa,
mas compramos jogos novos
& um chapéu de caubói para o filho cobrir o coração...
No enterro do melhor amigo.
De fato, é um mundo muito louco.

Há um menino novo no bairro.

sábado, 3 de novembro de 2018

E AS CRIANÇAS TRAZEM FLORES NOS CABELOS


canção para os nossos filhos
O mundo desmorona lá fora.
Não há paz na noite incendiada.
Da parte baixa da ampulheta, a areia evapora,
segue solta o caminho de volta.
Em um dia, recuamos cinquenta anos.
Em uma noite, ressuscitamos com carne crua os pterodáctilos.
Agora,
A História se dissolve.
A aula-comunhão é punida.
A Poesia é vigiada.
A Arte é combatida feito crime, menino.
Pelas ruas, coturnos engraxados perseguem os invisíveis
E os mais sensíveis sentem o corpo em carne viva.
Dos bueiros, sobe um cheiro estranho:
um quarto osso, um quarto cadáver;
um quarto medo, um quarto terror.
A tudo aquilo que é belo e bom, os loucos de Cristo respondem com a morte!
(Quando uma ovelha assim se assusta, todo o rebanho morre do coração.)
A tudo aquilo que cuida e crê, o louco eleito responde com a pólvora.
(Quando um lobo assim mostra as presas, toda a alcateia se lança sobre a carne tenra.)
A noite incendiada lambe suas feridas.
Cada estrela, um furo cego no lençol do céu.
Pelas costeletas do fascista - enquanto ele devora um delicado - como se fossem lágrimas do carpinteiro - escorrem gotas coloridas de suor.
Que foi feito de tudo o que disse aquele que andava entre putas e leprosos?
Neste teatro absurdo, não contamos com nenhum Deus ex-machina.
Como um machado, ergo o Amor sobre a cabeça
E desfiro um golpe no coração do meu inimigo.
Do peito dilacerado, brota uma cor avermelhada,
que tinge o céu e as nuvens feito o sol ao amanhecer
no tempo em que ainda existia sol e manhã.

Ao redor do fogo,
Reúno-me aos meus iguais para cantar as cantigas do sal.
E nossas crianças trazem flores nos cabelos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

AUTOPSICOGRAFIA - 2


Palavras abrem caminhos.
O poeta joga as chaves
Cabe àqueles que o leem
Encontrarem as portas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O sol e a alma


O Mal puro existe; mas, assim como o Bem puro, ele é raro. O que existe mais é confusão e ignorância e isso acaba quase sempre em más ações, executadas por autômatos espirituais: Eichmann e seu desejo de realizar algo importante, de ser reconhecido, de fazer seu trabalho de modo organizado e eficiente, ainda que seu trabalho fosse o assassinato. Quando nos colocamos numa perspectiva de compreensão, reconhecendo o caminho do outro, suas dores e anseios, o modo como se organiza, abrimos uma fissura para a luz. Nossa relação com esse outro, a partir daí, torna-se mais harmoniosa. Mas isso é difícil porque o eu-egoico grita o tempo inteiro, cheio de seus próprios pré-conceitos, desejos e necessidades inventadas. No espírito onde quem comanda é esse poço sem fundo, não há espaço para o outro. Toda energia é gasta com o intuito de satisfazer as próprias necessidades; quando, na verdade, nossas necessidades reais são bem poucas. Acontece que esse tal eu-egoico, não é a totalidade do ser. Quando observamos nossos desejos, nosso eu, nossa mente barulhenta, essa gana doida de ter razão, percebemos que tudo isso é completamente oco, não tem qualquer substância; penetramos então no silêncio, não há mais desejos-autoengendrados: a luz nos atravessa travestida de alegria. É desse lugar que recebemos o outro e é prazeroso e é bom. “Que eu procure mais compreender que ser compreendido”; porque aquele que quer compreender alcançou um passo à frente no caminho, observou seu processo de individuação e percebeu que, no mundo das formas, tudo é instável e que, no fundo da alma, está o indiferenciado: o Uno do qual todos viemos, para o qual todos vamos, o qual todos somos agora. Os conflitos tendem a se dissolver quando alguém ousa se colocar em posição de receber, porque há aí uma força poderosa, meio feminina-maternal, agindo: a agressão se dilui, o diálogo floresce, nasce a amizade.
O sol ilumina porque nasce do fogo e não porque espera reconhecimento. O sol não tem desejos. Quando brilha o sol no fundo da alma, estamos plenos.