Até ontem, participava de uma corrente indicando alguns livros. Procurei me ater a um único gênero, o romance e, ainda assim, muitos grandes romances ficaram de fora. Fiquei pensando então: se pudesse indicar a alguém um único livro, qual seria? Resposta: a Bíblia, sem dúvida (nem mesmo o Tao Te Ching). A mesma Bíblia que Dostoievski leu e releu inúmeras vezes nos dez anos em que esteve na Sibéria. E, se homens imensos, como Nietzsche e Cioran, criticaram-na, principalmente O novo testamento, é porque estavam entranhados demais daqueles textos, precisavam diminuí-los dentro de si para construírem a própria obra. A gente percebe assim, fácil, a diferença entre a grandeza de Nietzsche e a pequenez dos nietzschianos; bem como podemos perceber a diferença entre Jesus Cristo e aqueles que se dizem cristãos. O grande problema da Bíblia é que ela é poesia e a maioria das pessoas a leem como se fosse um jornal. Do ponto de vista de uma sensibilidade poética - nem sequer falo de religião -, não há narrativa mais bonita que a do menino pobre, filho de carpinteiro, que nasceu em uma manjedoura, provindo de uma espécie de gueto, de favela, de periferia e que, sem ir muito longe, sem ter tido instrução formal, se tornou o maior homem do mundo.
Por outro lado, há livros na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento, que também me deixam incomodado. Não consigo conceber um Deus ciumento, capaz de exigir o filho único de um pai, de mandar seus filhos para o fogo pela sua desobediência. Se eu, que sou um ser completamente imperfeito, jamais abandonaria um filho, como a Perfeição poderia fazê-lo? Como ainda ontem falava de luto, lembrei-me de um livro que, desde menino, deixava-me indignado, o livro de Jó. De que modo pode um Deus amoroso, do alto de sua grandeza, cair numa provocação tão corriqueira? E, mais, como pode um Deus amoroso brincar assim com o destino humano? Como pode um Deus ter um EGO tão grande? E, o pior de tudo, como pode um Deus amoroso desconhecer qualquer coisa de psicologia? Do próprio coração humano? Está escrito: “Depois que Jó orou por seus amigos, o Senhor o tornou novamente próspero e lhe deu em dobro tudo o que tinha antes”. Está escrito ainda que Jó teve mais sete filhos e três filhas e é exatamente aí que eu me pego. Primeiro porque as filhas e filhos são mencionados como se fossem patrimônio; e, segundo – aqui a questão do luto – os novos filhos eram outros! E cada ser é insubstituível! Como disse ontem, no luto queremos ser fiéis aos que se foram... Pode ser que, naquela época, os costumes fossem outros; mas o amor é atemporal - não creio na ideia pós-moderna de que o amor é um constructo do Romantismo... Pode ser que a pequenez do meu entendimento prejudique minha leitura; todavia, para mim, em tal passagem bíblica, quem é grande não é Deus nem o Diabo, mas sim Jó, o humano Jó.
Por outro lado, há livros na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento, que também me deixam incomodado. Não consigo conceber um Deus ciumento, capaz de exigir o filho único de um pai, de mandar seus filhos para o fogo pela sua desobediência. Se eu, que sou um ser completamente imperfeito, jamais abandonaria um filho, como a Perfeição poderia fazê-lo? Como ainda ontem falava de luto, lembrei-me de um livro que, desde menino, deixava-me indignado, o livro de Jó. De que modo pode um Deus amoroso, do alto de sua grandeza, cair numa provocação tão corriqueira? E, mais, como pode um Deus amoroso brincar assim com o destino humano? Como pode um Deus ter um EGO tão grande? E, o pior de tudo, como pode um Deus amoroso desconhecer qualquer coisa de psicologia? Do próprio coração humano? Está escrito: “Depois que Jó orou por seus amigos, o Senhor o tornou novamente próspero e lhe deu em dobro tudo o que tinha antes”. Está escrito ainda que Jó teve mais sete filhos e três filhas e é exatamente aí que eu me pego. Primeiro porque as filhas e filhos são mencionados como se fossem patrimônio; e, segundo – aqui a questão do luto – os novos filhos eram outros! E cada ser é insubstituível! Como disse ontem, no luto queremos ser fiéis aos que se foram... Pode ser que, naquela época, os costumes fossem outros; mas o amor é atemporal - não creio na ideia pós-moderna de que o amor é um constructo do Romantismo... Pode ser que a pequenez do meu entendimento prejudique minha leitura; todavia, para mim, em tal passagem bíblica, quem é grande não é Deus nem o Diabo, mas sim Jó, o humano Jó.