quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O sol e a alma


O Mal puro existe; mas, assim como o Bem puro, ele é raro. O que existe mais é confusão e ignorância e isso acaba quase sempre em más ações, executadas por autômatos espirituais: Eichmann e seu desejo de realizar algo importante, de ser reconhecido, de fazer seu trabalho de modo organizado e eficiente, ainda que seu trabalho fosse o assassinato. Quando nos colocamos numa perspectiva de compreensão, reconhecendo o caminho do outro, suas dores e anseios, o modo como se organiza, abrimos uma fissura para a luz. Nossa relação com esse outro, a partir daí, torna-se mais harmoniosa. Mas isso é difícil porque o eu-egoico grita o tempo inteiro, cheio de seus próprios pré-conceitos, desejos e necessidades inventadas. No espírito onde quem comanda é esse poço sem fundo, não há espaço para o outro. Toda energia é gasta com o intuito de satisfazer as próprias necessidades; quando, na verdade, nossas necessidades reais são bem poucas. Acontece que esse tal eu-egoico, não é a totalidade do ser. Quando observamos nossos desejos, nosso eu, nossa mente barulhenta, essa gana doida de ter razão, percebemos que tudo isso é completamente oco, não tem qualquer substância; penetramos então no silêncio, não há mais desejos-autoengendrados: a luz nos atravessa travestida de alegria. É desse lugar que recebemos o outro e é prazeroso e é bom. “Que eu procure mais compreender que ser compreendido”; porque aquele que quer compreender alcançou um passo à frente no caminho, observou seu processo de individuação e percebeu que, no mundo das formas, tudo é instável e que, no fundo da alma, está o indiferenciado: o Uno do qual todos viemos, para o qual todos vamos, o qual todos somos agora. Os conflitos tendem a se dissolver quando alguém ousa se colocar em posição de receber, porque há aí uma força poderosa, meio feminina-maternal, agindo: a agressão se dilui, o diálogo floresce, nasce a amizade.
O sol ilumina porque nasce do fogo e não porque espera reconhecimento. O sol não tem desejos. Quando brilha o sol no fundo da alma, estamos plenos.

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