O Mal puro existe; mas, assim
como o Bem puro, ele é raro. O que existe mais é confusão e ignorância e isso acaba
quase sempre em más ações, executadas por autômatos espirituais: Eichmann e seu
desejo de realizar algo importante, de ser reconhecido, de fazer seu trabalho
de modo organizado e eficiente, ainda que seu trabalho fosse o assassinato.
Quando nos colocamos numa perspectiva de compreensão, reconhecendo o caminho do
outro, suas dores e anseios, o modo como se organiza, abrimos uma fissura para
a luz. Nossa relação com esse outro, a partir daí, torna-se mais harmoniosa. Mas
isso é difícil porque o eu-egoico grita o tempo inteiro, cheio de seus próprios
pré-conceitos, desejos e necessidades inventadas. No espírito onde quem comanda
é esse poço sem fundo, não há espaço para o outro. Toda energia é gasta com o
intuito de satisfazer as próprias necessidades; quando, na verdade, nossas necessidades
reais são bem poucas. Acontece que esse tal eu-egoico, não é a totalidade do
ser. Quando observamos nossos desejos, nosso eu, nossa mente barulhenta, essa
gana doida de ter razão, percebemos que tudo isso é completamente oco, não tem
qualquer substância; penetramos então no silêncio, não há mais
desejos-autoengendrados: a luz nos atravessa travestida de alegria. É desse
lugar que recebemos o outro e é prazeroso e é bom. “Que eu procure mais
compreender que ser compreendido”; porque aquele que quer compreender alcançou
um passo à frente no caminho, observou seu processo de individuação e percebeu
que, no mundo das formas, tudo é instável e que, no fundo da alma, está o indiferenciado:
o Uno do qual todos viemos, para o qual todos vamos, o qual todos somos agora.
Os conflitos tendem a se dissolver quando alguém ousa se colocar em posição de
receber, porque há aí uma força poderosa, meio feminina-maternal, agindo: a
agressão se dilui, o diálogo floresce, nasce a amizade.
O sol ilumina porque nasce do
fogo e não porque espera reconhecimento. O sol não tem desejos. Quando brilha o
sol no fundo da alma, estamos plenos.
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