A palavra, em seu uso
cotidiano, é representação. Pagamos caro para nos entendermos, para que peçamos
dez pãezinhos na padaria e o balconista nos dê dez pãezinhos quentinhos,
recém-saídos do forno. Quando digo: “Isto é uma mesa”, apontando para a mesa, é
como se colasse uma etiqueta na coisa. O uso da palavra no poema é diferente,
só no poema devolvemos a palavra a si mesma e a libertamos de sua subserviência
à coisa. De modo que o poeta chacoalha a palavra, desgruda as etiquetas das
coisas, embaralha-as, usa-as como bem entende. Gil acertou, quando o poeta diz lata, pode estar querendo
dizer o incontível. O que estou querendo dizer é que a palavra literária é
a própria diferença. Já pressinto o tribunal, como assim? O que você está
querendo dizer de fato? Explique-se! Calma, vamos por partes, como diria Jack.
Um exemplo de um poeta de peso, embora magro. No Poema de sete faces, Drummond escreve: “as casas espiam os homens /
Que correm atrás de mulheres”, estes versos abrem um abismo entre a palavra e
aquilo que ela nomeia. Forçando uma analogia platônica, a casa de bloco, telha
e concreto seria o modelo e a palavra casa, a cópia. Entre ambas há uma
diferença. Ninguém pode se abrigar da chuva, do sol, ou dormir sob uma palavra.
Quando retiramos da cópia o original, como o poeta faz quando escreve casa, resta a diferença, pois a casa de
Drummond, esta que espia, não tem qualquer relação com as casas do mundo real.
Pergunta: mas afinal do que esta casa difere, se, no caso, ela não é mais
comparada ao original? Resposta: Difere de si mesma. A palavra poética carrega
em si a diferença em estado bruto, do mesmo modo que a lembrança. Se uso corda para amarrar um cavalo selvagem
ao toco e depois retiro o toco, o cavalo ainda terá a corda em volta do
pescoço. No poema, a palavra só remete a
si mesma e de si mesma difere. Aqui perdemos a imagem, a analogia com o mundo
real, a casa de Drummond não abriga gente, mas é viva e espia. O poema é a
diferença tornada palavra, no entanto, mesmo a palavra poética, sim, até mesmo
ela, é uma atualização, Clarice Lispector cravou: “Se for para escrever, que
não se esmague com palavras as entrelinhas”. Um texto fala muito mais pelo que
cala do que pelo que diz. Se a palavra é necessária, o é para apontar o silêncio.
É no silêncio do texto que a diferença repousa em sua pureza múltipla, porque
aí não há mais o modelo ou a cópia, nem a casa nem a palavra que a rotula, mas
permanece a diferença entre uma e outra. Todo poeta sonha ser a flauta deste
poema transparente, no qual, pelo branco da ausência de palavra, seria possível
partilhar o ser (a diferença é o ser) da mesma maneira que duas crianças
famintas partilham uma manga. Para a nossa tristeza, entretanto, tal experiência está reservada aos
místicos, exige esforços sobre-humanos e é incomunicável: vai e vem como um
oceano, só que sem água.
sábado, 22 de junho de 2013
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Ela me faz tão bem
Meninos se vão, meninas se vão,
mocinhos se vão, mocinhas se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão e sempre é
cedo demais para quem fica, porque nunca dissemos tudo o que deveríamos ter dito.
Não ouvimos o suficiente. Parece que o essencial se perdeu, nós não
demonstramos. Tinha sempre uma ponta de orgulho lá, cobrindo a nossa face
verdadeira, feito a máscara de monstro com a qual brincávamos na infância. Quem disse o quanto foi importante ter saído
do trabalho e encontrar o outro para comer umas esfihas com tubaína, hein? Isto
salva uma vida. O mundo é grande e cheio de gente. Encontro é uma palavra
poderosa, estala na língua. Dividir sonhos e angústias, encanações sexuais e
tudo o mais. Precisamos ser pacientes um com o outro como duas crianças
perdidas numa floresta em noite de tempestade: viver é mais imprevisível ainda.
Escolhemos um caminho, nos programamos, imaginamos um final, mas, no meio,
somos arrastados por forças poderosas. Todo dia é um tsunami, todo dia um Katrina.
Tão imenso universo, dói a cabeça de pensar, infinito é mais longe ainda. Que
Deus poderia imaginar que este planeta minúsculo, esta bolinha de gude que esfriou
um pouco mais e criou algum musgo por cima, poderia abrigar tantas histórias
extraordinárias? Não no corpo que habitamos, mas na história de nossas vidas
somos maiores que os deuses, maiores que o universo imenso e o sem-fim. De que
vale o big ben, um buraco negro, o infinito, diante do choro de uma criança? De
um cachorro atropelado? De um rostinho sujo que espera o pai, e o pai não vem,
o pai nunca vem, não há pai, nem paz, somos todos filhos do acaso como qualquer
menino de rua. Sim, meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas
se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão e é sempre cedo demais, porque mesmo
a velhinha ainda leva no corpo a menina que foi, a menina que é, aquela que
anseia sempre por aprovação e importância. Dia desses fui ver a Lygia Fagundes
Telles falar e ela falava como uma menina, faceira e terna feito uma adolescente.
Sou um homem simples que não espera mais que um café quente e um sorriso, mas
não aceito injustiça, nenhum tipo de injustiça e, para mim, não há injustiça
maior que a Morte e é por isto que escrevo. Para onde vão as histórias das
pessoas quando o corpo que as abrigava não está mais aqui? Será que nossa vida
é mesmo sempre bela, breve e inútil, como as luzes que piscam nas árvores de
natal, em casas do subúrbio, a cada final de ano? Cada piscar um emaranhado de
sonhos de grandeza, de mesquinharia e desejo que se acende e se apaga. Plin! E lá se foi uma vida em meio ao
rio que nunca nasce e que não encontra mar. Plin!
E lá se foi a menina que um dia sonhou ser poeta e foi fotografada tranquila e
ingênua no capô de um fiat 147. Plin!
E lá se foi Rogério, gnomo mais triste do mundo, com seus acordes certeiros no
baixo e o índio de cartola tatuado no braço! Plin! E lá se foi Daniel, a ferida que sonhava sempre a cicatriz. Bom
dia. Beijo para quem é de beijo, abraço para quem é de abraço. Hoje faz sol
depois de uma semana de chuva, mas Scarlet Moon morreu. Eu não a conhecia, mas
conheço sua história de amor com Lulu Santos, parceiro com o qual ela foi casada por 28 anos. Uma única história
de amor é a finalidade e, ao mesmo tempo vale mais, que todo o universo. O
homem, meus amigos, não é o Senhor do ente, Poder é ilusão, o homem é o pastor
do Ser. Meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas se vão,
velhinhos se vão, velhinhas se vão, mas não em vão. A terra se torna sempre um
pouco mais fria e misteriosa quando cada um de nós parte, mas reaquece no
instante seguinte, no choro que estreia o pulmão do amanhã.
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