sábado, 28 de setembro de 2019

ENQUANTO A PALHA PESA IN



Sabe, senhora, sempre sobra alguma coisa: álbum de retrato, lembrança, filho adolescente, gato vagabundo, cachorro tomba-lata deitado ao sol. Vi uma veiz: mei da rodovia, o homem parou auto, abriu a porta e soltou; no nada - nonada - fora do azul; um cachorrão grandão; bom-bonito, fiável. Adespois, fechou, deu partida e se-foi-se. O bichim, tadim, saiu correndo atrás, à toda. Deu conta não. Correu inté onde. E, daí, parou, carro à vera e caminhão de para-choque duro alderedor; olho-de-bicho-em-desespero, sem entender... suzim, sem dono, no aberto: eu.
Eu, às vezes, m’identifico-me co’milho; e, numinoso, reganho meus dente ao sol. Outras, sou o espantaio e, braços abertos, qual Cristo sangrando dessagrado, n’entrada do campo, esbarro quem quer conhecer meu interior. Indassim, urubu faz ninho no chapéu, enquanto a palha pesa in. Sobrosso, senhora! Condição de pólo. E tudo na vida é milagroso.E tudo na vida é tão banal.
🌻

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

POETICAMENTE, MORRE-SE

 Há um verso de Hölderlin: "Poeticamente, mas cheio de méritos, o homem habita esta terra". Sobre este verso, Heidegger escreveu páginas belíssimas; mas aqui não. Outro dia quiçá. Embora estejamos enraizados numa placa tectônica - numa superfície metafísica - científica, creio que o homem é por meio da poesia. O ser do cão é lealdade; do gato, elegância; o ser do humano é poesia. O humano não é o animal racional: é o ente poético. Assim, o que me encanta... na medicina tradicional chinesa e, de certo modo, em toda a medicina do Oriente e indígena, é que ela é poética. Não há a separação cartesiana entre corpo e alma, psique e soma. Tudo é psicossomático. Deste modo, se a pessoa não sabe para onde ir, ou sente-se preso de algum modo, provavelmente desenvolverá um problema nas pernas, ou na coluna. E, se a atmosfera está irrespirável, hão de proliferar os casos de problemas respiratórios. Fernanda Young morreu de asma, depois de uma semana inteira de queimadas na Amazônia. Nunca li seus livros e, pra ser honesto, acho que não gostaria. Tenho aversão a gente que parece descolada demais. Trauma da adolescência, talvez. Pode ser. O fato é que a Fernanda era poeta e mulher: dois dínamos de sensibilidade. Deve haver muitas outros como ela morrendo por aí. O ar está mesmo irrespirável. Eu, que dificilmente pego uma gripe, acordei outro dia, no meio da madrugada, com falta de ar.
Vá, menina, e encare o que há para além da pele-fashion, da vaidade e do ego: "Time to die".

O BALDE TRINCADO

Às vezes, mais de manhã, eu me sinto como um balde furado. Tudo o que coloco em meu coração, vaza. Acordo perdido, sem nada; cansado. Não tendo dormido direito, abro os olhos e não consigo decidir se primeiro escovo os dentes, ou se desligo o despertador. Qualquer decisão parece impossível. Tudo esmaga. Faço meu café, recito uma prece. Ainda assim, quando levanto o balde trincado que sou para lavar o quintal, ele parece mais pesado que se estivesse cheio de concreto.
Today,
I would prefer not to.

AINDA CARAVELA

 Senhora pergunta só coisinha e eu desembesto falar. É que gosto, quando tenho ouvido. Se me incomoda? Pois se gosto e é mais que licor de pequi! Vô? Sim, presença marcante; ausência inda mais. O buraco que ficou onde ele vivia engole agora o derredor: virou dolina, desbarranco, oco. Noite que ele fez passagem, Caravela fugiu. Já tava velhinha, sem préstimo de montaria, mas pulou cerca e desapareceu no vau do mundo. Pensava, ainda pouco, antes d’a Senhora cheg...ar, em bicho. Mó de Caravela. Diz que bicho não ama, mas amor mesmo só cresce – credo meu – onde gente se apequena. Vô dizia que, no amor, das duas uma: ou a gente machuca ou sai machucado. Sem saída. Sem empate. Nunca é recíproco na mesma medida. Quem mais ama, mais machucado sai. Quem menos ama, mais machuca. Punhal, mira, chumbo; espora, machado no meio da gente. Vô dizia isso daí e eu - ainda de pouca idade, alma nova no curral do mundo - creio que ultrapassei, formulo: “nunca perde quem mais amou e, se sente que perdeu, é porque amor não era, mas egoísmo, vaidade, sebo das almas, o anti disfarçado de Cristo”. À vera. O de dentro da fêmea é templo; digo e refirmo. Sim, Caravela foi dele desde a idade de trinta e tantos. Dizia pros meninos, partindo rapadura e farinha aos punhados, que não foi de mulher, mas da égua que aprendeu o amor. A pirralha ria: “nóis também!” De sentido vário, malino, a criançada. Vô não. Contava causo. Eu absorvia. Diz que a cavala tinha criado no dia. Quando foi de noite, Caravela - que era meio bicho, meio gente – quebrou do estábulo a trinca e batia que batia doida com os cascos na porta da casa. Vô saiu bravo. Fosse outra montaria, apanhava, mas era. Que foi, menina? Que foi? Que tu tem, preta? E era guincho e desespero de mãe maluca, maculada e machucada. Caravela voltava, olhava vô e apontava o focinho mesmo que fosse dedo. Pro lado do brejo. Em buraco de poço. Vô ouviu os grito. Era o potrinho que tinha caído e, sem ter jeito de sair, agora se afogava. A mãe, que era aquela mesma Caravela, tinha ido buscar socorro. Vô chamou Mathias, que era contratado, e os dois tiraram o potrinho. Foi difícil e a égua não saiu da beira. Amor que de tal nome é digno, eu penso Senhora, só assim, igual que nem dessa égua por seu potrinho. O mais é negócio. Acordo de conveniência. Pode ser que seja bom, mas deve-se chamar por outro nome: de casório, ou putaria; ou_______

O DESEJO QUE A GENTE ENGOLE VIRA VIOLÊNCIA

 Mal acostumado. Ligo de ficar preso aqui não. Senhora sabe. A grade grande não é de fora nem de ferro. É dentro. Tô pra dizer que o ser humano descende antes de Passarim de cativeiro que de macaco. Passarim criado em gaiola, uno pode deixar a portinhola aberta que não sai. Com gente é do mesmo. Liberdade é coisa séria, porque o mundo é grande e a responsa, ser-si-mesmo-próprio, maior aún. Da gaiola, gente conhece as grade. E do mundã...o que não tem fim? Ser livre é coisa rara. Nisso que chamam de amor; uns prende e outros fica preso. Ou alguém crê que o guarda que passa vinte e quatro horas no pé da cela é livre? Nada, tão preso quanto o outro. Senhora sabe, meu trabalho me trouxe aqui. Sem outra oportunidá, fui vender doce e, vosmicê quem disse, anestesia - va. Como é? De médico e louco? Hein, mas ali também tava tudo preso, mesmo no meio da rua. É porque aqueles só queria saber de: bala, doce, pó: dipin lik é pirulito no saquinho... E, na ânsia de ter, não viam o dia, a noite, a lua cheia. Nada não. Caía avião e ninguém ligava. Autismo? Sei não. Pois é, se-assemelha-se sim. Quem cai não quer saber do mundo. E vinga-se, ora; pois que pensa ansim: se o mundo não quer saber de mim, também não quero saber. Vou ficar até findar. Se gostei do brinquedim? Quem não gosta de ouvir um sonzim, némemo? Hein? Das grade? Já falei. E quem é livre? Conto causo porque acho orelha. De Igreja também fui. Católica no começo e evangélica no final. Tal qual Sinhô, avô meu. Que é uma Igreja se não um monte de preso e guarda uns dos outros ao mesmo tempo? E tudo revoltado. Querendo matar aquele que faz o que uno quer e a Igreja num permite. Tinha uma mulher na congregação cuja graça era Dona Sarah Remédios. Sim, todo mundo sabia que apanhava do marido. Era ciúme de doente. Dona Sarah era mulher séria, cumpria à risca o doutrinado. Mas o marido encarnava que não; e batia. Pegava celular. Caçava caso. O ciumento encontra prova onde não há, tal e qual esse juiz que ganhou cargo de ministro. E, sim, o marido. Puxava pelos cabelos e dizia nome feio. Batia de rancor, da traição mais feia imaginada. Mordia a mulher. Deixava roxa. E o povo da Igreja dizia que não. Que ela era anja-santa-e-salvação. Ela que apanhava e ele que era a vítima, precisava de ajuda. Pode? Pois foi que foi e separar não se podia, porque a Igreja. Ele surrava e arrependia, igualzim os viciado, ficava bonzim uns dias e, aí, a mágoa crescia, o ciúme voltava, num dava outra, batia traveiz. O que Deus uniu o homem não separa - diziam. Pois é, foi que foi até que o marido matou. Morta ficou ela. E a Igreja? Sem culpa. Acho que gostaram. O desejo que a gente engole vira violência. Eu? Vou ficando. Tenho pressa não. Me soltarem, voo. Comigo não. Que não deixem a grade aberta. É hoje.

CRIAR

 Criar os filhos exige sempre soluções novas, porque o mundo cada vez muda mais depressa; e nós também somos mudança sobre a mutação. Os paradigmas tornam-se líquidos. Não podemos tentar criar nossos filhos – EXATAMENTE - do mesmo modo como fomos criados, há aí um abismo hermenêutico; seria o mesmo que tentar tocar uma fita k7 no celular. Claro, os pilares éticos provavelmente serão os mesmos; são heranças culturais e o ninho faz o pássaro. Por outro lado, ser pai ou mãe... hoje exige que sejamos cada vez mais artistas, mais originais na solução dos problemas que a paternidade nos traz. As crianças já não se contentam com respostas evasivas ou o argumento de autoridade; o que elas querem antes de tudo é a sinceridade. Às vezes, os pais podem pensar que, uma vez que não tiverem todas as respostas, serão desautorizados; mas criar é um ato conjunto entre nós e eles; trata-se de um fazer coletivo da vida e as repostas surgem na relação dialógica, no entre. Esse é também o grande barato de ser pai; o trabalho é que nos ensina. A gente se inventa enquanto é. A mãe surge com o bebê. O pai surge com o bebê. É automático. Todo um novo conjunto de sentimentos floresce em nosso coração assim que vemos o embrulhinho sair do ventre; no caso da mãe, acho que já na gestação. De algum modo, sabemos que nunca mais seremos os mesmos. Perdemos inclusive a liberdade de sermos autodestrutivos. Sobre não se importar com a opinião alheia, aprendo muito com o João. Sobre como conduzir minha vida financeira e emocional, aprendo com a virginiana Sofia. Acho que eles também aprendem comigo, muito mais pelo modo como sou do que pelo digo. Ambos valorizam a amizade - sem esse papo de que amigo só Jesus -, os dois respeitam e amam os animais, gostam de arte; embora o João, entrando na adolescência, agora queira estabelecer sua identidade pelo contra. Natural. Vou dizer uma coisa: na maioria dos conflitos que tivemos, os dois lados estavam certos e errados ao mesmo tempo. Eu podia ter razão, mas errei ao tentar impor. Os pais têm a mania de achar que têm razão porque nasceram antes. Isso pode gerar facilmente na gente o microfascismo e, quando um fecha a porta ao diálogo, o outro também fecha. Boa parte dos conflitos, e aqui não falo só sobre a relação entre pais e filhos, ocorre não porque queremos convencer o outro a enxergar as coisas como vemos, mas porque o ego quer se regozijar por ter razão. Os pais também têm egos, pois é. Enfim, é um trampo difícil porque não há mapas, fórmulas, ou garantias. No meu caso, tento de tudo e, quando nada mais funciona, aposto no amor: solvente que dilui a raiva, a mágoa, o ressentimento, a incompreensão, a tristeza, o medo, o___________
Setembro chegou, uai. Vem aí a primavera.

NA FERIDA


 Em O mal-estar na cultura, Freud retoma uma questão que já perpassa alguns textos de Maquiavel, Schopenhauer e Nietzsche. É o seguinte, o ser humano tem uma face violenta, bestial, animalesca que a cultura – ou civilização - tenta amansar; funciona – der Kultur - como se fosse uma espécie de brida, freio mesmo. Daí o mal-estar, ou alguém imagina que o cavalo se sente confortável com um freio de ferro na boca? Essa parece ser uma lição que esquecemos. Vivemos tão ime...rsos na imagem, querendo parecer bonzinhos, que mentimos para os outros e para nós mesmos sobre a besta em nós. Acho que os antigos compreendiam muito melhor esta questão e incorporavam sua sombra coletiva por meio da catarse: daí as tragédias gregas, o prazer da guerra nos heróis homéricos, as arenas romanas, as mortes públicas na Idade Média. Havia aí um veio para descarregar a volúpia animal, o ódio, a raiva, a ira, a violência. A alma também precisa cagar! Nós suprimimos tais tendências e esperamos que elas milagrosamente desapareçam. Acho que colocamos fé demais no poder da cultura enquanto amansador das bestas. E aí o animalesco explode em focos, em outros pontos, na sociedade, seja por meio dos crimes de ódio – acho que não existem crimes de amor – seja por meio das posições políticas que se situam nos extremos. Quando apertamos demais o parafuso, ele espana. Estou falando tudo isso porque enxergo um estádio de futebol como um espaço pós-moderno de catarse. A torcida ali dentro cospe o que há de mais vil e violento em sua alma. Para algumas pessoas, xingar o juiz é suficiente. Para outras, no entanto, a violência acaba extrapolando o âmbito verbal. É uma questão complexa. Semana passada um juiz parou um jogo por conta de gritos homofóbicos. É a recomendação da FIFA; ela mesma corrupta e violenta. Eu, é claro, sou totalmente a favor; mas fico me perguntando: vigiar e punir é suficiente, muda de fato o interior das pessoas violentas, preconceituosas, homofóbicas? Qual seria o espaço da educação na conscientização? O Estado detém o monopólio da violência para coibir a violência; penalizar – com cadeia que a gente sabe que não resolve – é algo que contribui para a diminuição da homofobia ou só aumenta a ignorância e o ódio latente? Eu não tenho resposta, mas não me contento com as repostas superficiais que estão sendo oferecidas. Repito: qual é o papel da educação na conscientização das pessoas?
Boa semana.

FLUÊNCIA

Quando os sábios do Oriente insistem que é preciso calar o desejo, referem-se ao desejo do ego; do cogito que se imagina puramente racional, mas é desejo tanto quanto razão. Há que se distinguir desejo, vontade e fluência. O desejo é egoico; a vontade é aquela que tanto Schopenhauer, quanto Nietzsche e o primeiro Cioran enxergaram. A vontade é menos individualizada que o desejo. O problema é que enxerga a natureza apenas como luta. A fluência é próxima do ela vit...al, de Bergson. É a naturalidade criativa com que o rio flui para o mar, sem desejo. Quando o sábio cala o desejo, é para seguir a fluência, não é para morrer em vida. É por isso que Deleuze, Guattari, Foucault, _____________ não convencem em sua desconstrução do sujeito. Permanecem presos ao desejo, às máquinas desejantes que se apropriam do eu. Heidegger afirmava que, antes de Dizer, precisamos ouvir o Ser (Eu Sou). Quando calamos o desejo, ouvimos a fluência, a voz do Ser. Estamos de acordo com o destino do mundo. E, se pensamos, é o pensar do Ser: o modo como o Ser se manifesta unicamente no ente humano; pensar poético que supera o Humanismo e dá ao homem a possibilidade de pensar com humildade, em consonância com a Terra.

TESOURO DE UM AMOR QUE VAI CHEGAR

 O que eu vendia era morte, Senhora sabe, mas também era sonho, serenidade, sorriso, som de passarim no mato de manhã... Fim feito colo de mãe; menino entrado no riacho; mocita recebendo regla primeira. De negócio não entendo e de trabalho não gosto. De meu feitio é entrar n’água, qualquer filete já me cura um pouco. E, nas Minas, subia nos morro e olhava o imenso. É Deus, num sabe, aquilo que não cabe na gente, extravasa: tantão de tão; Imens...idades. Quando vem o Mayor é ansim, com pézim de bailarina, como quem não quer, e é sol se pondo, avermelhando, u’as nuvem, azul de dez diferenças: o sol. Parecia que não era nada e então é lágrima que corre porque é boniteza demais pra pele de menos: o sol. E é Deus-menino pregando peça, tecendo beleza no céu e derramando do coração da gente: o sol. Eu queria era ser livre e olha onde vim. Qualquer maneira, quando a gente caminha na beira, não tapa o sol com a. Eu penso é que tudo é Deus espalhado: cheiro de cravo, calor de canela, passarim, joaninha, cheiro de erva, a folhinha que morre quieta entre as pedras do rio; mãe minha fofocando na janela e a música que tocava no meu radim de madrugada. Vou dizer, Senhora, eu descolava da vida quando a solidão vinha morar ni mim. Doía tanto que eu nem sabia respirar; que dirá dizer a outrem. Falar? Falo. Primeira coisa que vier? Pois é nome próprio: Mariana. Mariana-mulher, massa do pão e luz do suor. Conto. Tinha u’a menina cuja graça era Sandra e eu gostava dela de muito. Sim. Mas não dizia, porque tinha medo. Uma vez, comprei bombom, mas não dei. Era amor de menino, puro que nem mel quando gente aperta a colmeia entre as mãos lavadas. Eu tinha amigo, nome não digo. Amigo meu devera. Era carne e unha, unha e carne. Onde um parava, outro demorava. Pois eu amava a menina e não dizia porque. Tímido? Sim, até hoje quando não conheço e onde tem gente demais. Fico sem jeito. Enfim, gente estudava tudo junto e Sandra, no fim, se-enamorou-se foi desse amigo meu. Perderam junto a virgindade. E eu? Fiquei chorando só, de madrugada, doendo, criando bolha no coração, ouvindo rádio romântico. Meu amor e amigo meu; meu destino em solidão. Óia, hã. Sei que pegaram namoro e garraram andar de mão dada pela rua. Meninada bulia comigo. Menino sente pena não. Por despeito, fui pra zona, levado por patrão meu. Moço novo, dono da padaria onde eu vendia sonho nessa época. É aí que entra Mariana.
- É cabaço – disse a Dona – e cabacim assim quem quebra é Mariana.
Tinha idade mesma; ou quase.
- Vou cuidar de você. – E me abraçou pelada, cobra di vrido. E, se Deus fez coisa melhor que corpo de mulher, esqueceu de pôr no mundo. – Vou te ensinar o amor. – E foi, Mari-mariana.
Saudade, sim.
Que foi feito da casa de nossa infância, Senhora?

BUM, BUM, BUM

O milagre o povo sabe o que significa. Ele mudou da água para o vinho - dizem. Querendo dizer que a pessoa parece outra, mas que, na verdade, apenas voltou pra casa. Resgatou a criança. É sintomático que, na parábola, isso ocorra numas bodas, em Canaã. No casamento com o Sagrado, ou melhor, em nossa reconciliação, mudamos, reencontramos a criança em estado de brincadeira e inocência. Quero largar a carcaça no deserto e regressar ao lar do meu coração, agora livre de toda fuligem e ferrugem. Em breve, será tempo de pipa outra vez. E o céu há de se vestir com a cor de todo menino.
Estou pronto.
A casa está limpa.
Venha pra morar de vez dentro de mim.

COMO?

 Já o que dói em mim não é a dor que a vida impõe. Julgo-me musculoso suporte para qualquer chaga. O que hoje me fere é a dor que espalho ao passar: o inseto esmagado pelos meus pés cegos, a vida ceifada - mesmo vegetal - que alimenta minha rotina, a mulher cujo anseio não posso atender. Ando tão difuso que já não sei se o que dói em mim é meu rim ou o rim do mundo. Não há delicadeza que nos impeça de ferir. E quando cravo a enxada no chão, ainda que seja para plantar amor e ternura, ouço os gritos sagrados da Terra. Como?

SERENADE

 Deus num tem pressa; não há carreira no eterno. Age na lei do manso, Deus. Tem cavalo que. Uno passa a mão no focinho e o bicho oferece a cabeça; cheio de Deus por dentro e milagre no olho. Cachorro também. E gato. E os homens; na música, gente bruta fica delicada, um precisa do outro, outro necessita do um: vamo fazê isso junto? Um acompletando o outro, que nem humanidade, ciranda, criança de mão dada à roda do quintal. Serenade, sol, sereno, geada nas planta de man...hã; nuvem na baixa em riba do pasto. E na cidade também tem, mas é menos: vi criança de rua brincando com bebê que tava em cadeirinha, banco de trás de carrão importado, hein? E sorriam, os dois, sem saber de abismos. Mas o sinal: verde vã esperança: vrum. E foi. Deus. Deixou perfume de flor. Vontade de suspirar dentro da gente e ajudar a quem precisa. Passou passarim e era Deus de novo, se amostrando pra outro que nem percebeu. Num é só Diabo, Deus também mora no detalhe; tudo pequenim, delicado, amoroso: cafunês. Milagre não num faz estrondo. Eu via, pois, tempo que vendia doce, tinha vô, tiozim-já, que levava a neta no ponto, cinco hora da manhã, e só voltava pra casa depois que a menina entrava no buzo, sô. Como é o nome disso? É Amor. É Humano. É Deus. Oferenda de tudo que se é ao outro. Quem ama fica miudim pra se alegrar na grandeza do outro. É Deus no meio; na semente rompendo a casca, no pintim trincando o ovo. Quem quiser que explique, eu suspiro e choro. Sou cientista não. Menino admirado. U’a veiz, Senhora, fiquei tão triste que pensei morrer. Tenho disso. Triste que nem bicho triste. Que nem sinal de fábrica às sete da manhã. Que nem... Peguei faca na cozinha e tava em ponto de rasgar a goela de ponta a; mas Deus entrou na mão e eu desviei a faca pro bucho e a ferida se-fez-se filha e flor e Sofia; u’a rosa vermeia crescendo em mim; que era o Cristo mesmo feito em flor. Eu sinto, Senhora, que não estou dentro: neste cuerpo cheio de nervo, osso e veia; eu fico é Fora e me visito vestido de brisa, suavidá, Amor meso, uai. Que diferença faz se esse cuerpo não for? Se ele roxear e apodrecer? Eu continuo, no Fora, no meio de Deus, atravessando a brincadeira entre menino milionário e menino de rua. E o que fui – e que só eu podia ser – fica também, na palavra, dentro de quem cuido e amo: u’a rosa, u’a Benedita.
Meu nome já não pode ser Mineirim, só Amor.