Mal acostumado. Ligo de ficar preso aqui não. Senhora sabe. A grade grande não é de fora nem de ferro. É dentro. Tô pra dizer que o ser humano descende antes de Passarim de cativeiro que de macaco. Passarim criado em gaiola, uno pode deixar a portinhola aberta que não sai. Com gente é do mesmo. Liberdade é coisa séria, porque o mundo é grande e a responsa, ser-si-mesmo-próprio, maior aún. Da gaiola, gente conhece as grade. E do mundã...o que não tem fim? Ser livre é coisa rara. Nisso que chamam de amor; uns prende e outros fica preso. Ou alguém crê que o guarda que passa vinte e quatro horas no pé da cela é livre? Nada, tão preso quanto o outro. Senhora sabe, meu trabalho me trouxe aqui. Sem outra oportunidá, fui vender doce e, vosmicê quem disse, anestesia - va. Como é? De médico e louco? Hein, mas ali também tava tudo preso, mesmo no meio da rua. É porque aqueles só queria saber de: bala, doce, pó: dipin lik é pirulito no saquinho... E, na ânsia de ter, não viam o dia, a noite, a lua cheia. Nada não. Caía avião e ninguém ligava. Autismo? Sei não. Pois é, se-assemelha-se sim. Quem cai não quer saber do mundo. E vinga-se, ora; pois que pensa ansim: se o mundo não quer saber de mim, também não quero saber. Vou ficar até findar. Se gostei do brinquedim? Quem não gosta de ouvir um sonzim, némemo? Hein? Das grade? Já falei. E quem é livre? Conto causo porque acho orelha. De Igreja também fui. Católica no começo e evangélica no final. Tal qual Sinhô, avô meu. Que é uma Igreja se não um monte de preso e guarda uns dos outros ao mesmo tempo? E tudo revoltado. Querendo matar aquele que faz o que uno quer e a Igreja num permite. Tinha uma mulher na congregação cuja graça era Dona Sarah Remédios. Sim, todo mundo sabia que apanhava do marido. Era ciúme de doente. Dona Sarah era mulher séria, cumpria à risca o doutrinado. Mas o marido encarnava que não; e batia. Pegava celular. Caçava caso. O ciumento encontra prova onde não há, tal e qual esse juiz que ganhou cargo de ministro. E, sim, o marido. Puxava pelos cabelos e dizia nome feio. Batia de rancor, da traição mais feia imaginada. Mordia a mulher. Deixava roxa. E o povo da Igreja dizia que não. Que ela era anja-santa-e-salvação. Ela que apanhava e ele que era a vítima, precisava de ajuda. Pode? Pois foi que foi e separar não se podia, porque a Igreja. Ele surrava e arrependia, igualzim os viciado, ficava bonzim uns dias e, aí, a mágoa crescia, o ciúme voltava, num dava outra, batia traveiz. O que Deus uniu o homem não separa - diziam. Pois é, foi que foi até que o marido matou. Morta ficou ela. E a Igreja? Sem culpa. Acho que gostaram. O desejo que a gente engole vira violência. Eu? Vou ficando. Tenho pressa não. Me soltarem, voo. Comigo não. Que não deixem a grade aberta. É hoje.