sexta-feira, 13 de setembro de 2019

POETICAMENTE, MORRE-SE

 Há um verso de Hölderlin: "Poeticamente, mas cheio de méritos, o homem habita esta terra". Sobre este verso, Heidegger escreveu páginas belíssimas; mas aqui não. Outro dia quiçá. Embora estejamos enraizados numa placa tectônica - numa superfície metafísica - científica, creio que o homem é por meio da poesia. O ser do cão é lealdade; do gato, elegância; o ser do humano é poesia. O humano não é o animal racional: é o ente poético. Assim, o que me encanta... na medicina tradicional chinesa e, de certo modo, em toda a medicina do Oriente e indígena, é que ela é poética. Não há a separação cartesiana entre corpo e alma, psique e soma. Tudo é psicossomático. Deste modo, se a pessoa não sabe para onde ir, ou sente-se preso de algum modo, provavelmente desenvolverá um problema nas pernas, ou na coluna. E, se a atmosfera está irrespirável, hão de proliferar os casos de problemas respiratórios. Fernanda Young morreu de asma, depois de uma semana inteira de queimadas na Amazônia. Nunca li seus livros e, pra ser honesto, acho que não gostaria. Tenho aversão a gente que parece descolada demais. Trauma da adolescência, talvez. Pode ser. O fato é que a Fernanda era poeta e mulher: dois dínamos de sensibilidade. Deve haver muitas outros como ela morrendo por aí. O ar está mesmo irrespirável. Eu, que dificilmente pego uma gripe, acordei outro dia, no meio da madrugada, com falta de ar.
Vá, menina, e encare o que há para além da pele-fashion, da vaidade e do ego: "Time to die".

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