quinta-feira, 22 de outubro de 2020

TOMAR CONTA DA AMIZADE


Mesmo antes da quarentena, já andava isolado. O que não quer dizer que não sinta falta, ou deixe de me preocupar. É que sempre tive limitações e andei adquirindo outras novas. Aprendi também, no entanto, ao longo da jornada, que não precisamos estar no mesmo espaço para cuidar. Quando você pensa em alguém com carinho, uma onda de energia boa dá um jeito de chegar. Então, fico na minha, aqui em casa; tocando a vida, cuidando das crianças, das flores, dos bichos, lendo um pouco, meditando, escrevendo. Vira e mexe, penso, todavia: e fulana? Será que encontrou um cara legal? Está se alimentando direitinho? E fulano? Será que está pegando leve? E cicrano? Está conseguindo administrar o divórcio? E beltrano? Será que arranjou um trampo? E o pescador? Será que tem pegado bons peixes? Diga-me com quem tu andas e eu te direi. Meus amigos são tudo meio doido. Tem um, lá em Pira, que dividiu comigo um ovo frito. Se você ouvisse as conversas, ficaria abismado. Eu também não bato muito bem. Como disse Jidu: "não é sinal de saúde ser bem adaptado a uma sociedade profundamente doente". Há tardes de domingo em que coloco um som e penso em cada um deles com amor; em todas as barras e farras que enfrentamos juntos, e, tal e qual Coltrane, nesta hora sagrada, creio na canção como forma de cura. Se há um Deus nesse mundo, em tais momentos Ele se materializa no sorriso bobo que se forma no meu rosto e nessa vontade doida que sinto de abraçar cada um e nem precisar dizer: eu te amo. Que a vida nos toque com delicadeza

AMOR DE ÍNDIO


Acho que todo mundo fez coisas na vida das quais não se orgulha. Eu me casei aos quinze e me separei aos dezesseis. Seguiu-se uma época sombria, de álcool, drogas e loucuras. E, aí, quando a gente começa a gostar de verdade de alguém, fica com medo que a pessoa descubra as coisas feias que a gente já fez e deixe de gostar. A gente sente pena até de contar e ferir o outro. Há coisas, no entanto, que não tem como esconder. Faz alguns meses que encontrei esse menino. Ele me trata bem, toca tudo quanto é instrumento e até compõe um monte de músicas só pra mim. Só que eu fiz aquelas coisas e, por medo de que ele descobrisse, terminei várias vezes. Quase enlouqueci ele. Todo mundo fez coisas na vida das quais sente vergonha; só que, quando você conta a coisa feia que fez e o outro, em vez de julgar, abraça e acolhe você, aí então você fica gostando mais ainda. De um jeito que dá até vontade de gritar na janela. Eu sofri um exposed. Foi isso. Naqueles dias tristes, participei de um ménage que acabou caindo na rede. Depois daquilo, achei que nunca mais. Até que. A coisa mais difícil que já tive de fazer na vida foi contar. Recuei várias vezes. A voz simplesmente não saía. Quando, por fim, consegui falar, esperei que ele fosse embora sem olhar na minha cara: "E você tem vontade de repetir essas coisas?" Respondi que não. "Então esquece, a gente não vive no passado". E, como se o que eu tinha contado não tivesse a menor importância, pegou do violão, me deu a mão e a gente foi junto - de mãos dadas - ao trailer da praça pra cantar Legião Urbana e comer um cheese-tudo

VARRER UMA CASA


Hoje, quando varria a casa, não pude deixar de resmungar. Todos os dias, o mesmo trabalho. A cada manhã, a rotina bate forte. As crianças deixam as coisas espalhadas; bebem água e esquecem o copo sobre a pia. Difícil sim; mas, então, do nada, lembrei-me da alegria com que, pela primeira vez, varri este chão. Saíamos de uma casa de dois cômodos alugada. Por todo o piso, a cerâmica branquinha. O trabalho era o mesmo, mas quanta diferença! Cada filho agora teria seu quarto e eu limpei este mesmo chão com um senso de sublime gratidão. Emular aquele sentimento bastou para que a tarefa se tornasse mais leve. Olhei meus filhos adolescentes e saudáveis. Boas pessoas, pô! Coloquei uma canção pra tocar e realizei que isso de viver não é só sobre ganhar prêmios, ou vencer debates. A vida é também varrer o chão, regar as plantas, cuidar dos bichos, ver as crianças crescendo, fazer amor com quem a gente gosta. Não é necessário pintar o teto da capela Sistina, ou viajar para Marte. Não é necessário sequer escrever poemas. Qualquer atividade é veículo; linguagem propícia para dizer do quanto amamos. Como nada mudara por fora, mas eu era completamente outro por dentro, a filha se ofereceu para limpar o banheiro e meu menino perguntou:
- Ô pai, já cuidou dos bichos? Se não, deixa que eu cuido.
O trabalho não terminou. Nunca termina. Agora é hora de preparar o almoço, o qual se segue de uma pia de louça suja. Não há como fugir dessas tarefas. Mas, como tudo o que fazemos na vida, é mais fácil e fica melhor se a gente faz com amor.

O CULTO DA VOVÓ


Lembro que foi na época em que o Chorão morreu. Vovó e eu assistíamos às reportagens na tevê e eu pensava que não estava muito distante do mesmo destino. Como o músico, estava separado e metendo as ventas. Um pé no abismo e o outro na casca de banana. Era questão de tempo. A vó, vivida, comerciante, ganhava tudo: "Meu filho, por que tu não vem ao culto comigo? Pela última vez". Pela última vez, vó? A velha já dava o óbito como certo😲 De medo, resolvi. E fui. A velhinha se ajoelhou no banco e chorou. Segurando minha mão. Quando estamos desandados e não temos, as emoções ficam à flor. Uma vez chorei vendo uns cachorros cruzar. Mas, enfim, lá estávamos nós; na Igreja. Eu, todo fodido por dentro, com aquela sensação de culpa. E aí chegou essa outra velhinha. Pediu que me abaixasse e começou a orar na minha cabeça. Senti um arrepio. Ela rezava, gritava, dava uns tapas, falava em línguas e contou toda a minha vida: desde o dia em que levei uma pedrada na cabeça na terceira série até o dia em que pulei, loucão, de cima do viaduto da Vila Carrão. Eu era um cara cético; mas, naquele dia, senti a visita do Espírito Santo. E aceitei internação. E consegui parar. E, de lá pra cá, nunca mais. Pois bem, hoje estava com meus filhos, tomando café na casa da vó, e, nem sei o porquê, relembrei aquele dia e o milagre que se deu. A vó começou a gargalhar. Riu até engasgar, até perder o fôlego, até os óculos caírem no chão. E foi então que confessou: "Foi tudo armado, malandro, agora que você está firme no caminho do Senhor, posso confessar. Marialice é a professora de teatro da Igreja. Contei tudo e combinei com ela de te dar um choque. Psicologia de vendedor. Tinha certeza que ia funcionar. Tu tava doido pra comprar a salvação. Só dei um empurrãozinho". Pense num cabra com cara de tonto! As amigas da vovó chamaram no portão e nós fomos juntos. Estava na hora de deixar meus filhos. Fiquei olhando aquelas velhinhas sapecas batendo bengala rumo à Igreja e pensei que o Maior age mesmo de modos misteriosos. Mas, como a ferrugem nunca dorme e o Diabo quando não vem manda office-boy, ao entrar no carro, vi um pino fechado, inteirinho, perdido no vão do meio fio. Fechei a porta e acelerei.

ESCREVER PARA DECEPCIONAR

 ESCREVER PARA DECEPCIONAR. Para ir tanto contra os bons costumes, quanto contra o politicamente correto. Escrever para arrancar dos meus ombros as mãos daqueles que me dão tapinhas e dizem: "ele é um dos nossos!" Não sou um de vocês, tampouco sou um dos outros. Não tenho intenção de ofender, mas se ser quem sou ofende, então ofendam-se. É uma ofensa querer ser livre? Manifestar o que sente no fundo do coração? Todos têm a receita para os problemas do mundo. Todos nos querem parte da tribo, da igreja, do bando, da empresa, do partido. Posso até caminhar um pouco com a galera ao longo da jornada, mas não me esperem dizendo amém. Não me esperem seguindo ordens ou, pior ainda, dando-as. Nem no que chamam de amor vocês conseguem escapar desse jogo sujo entre dominador e dominado. Esses lados opostos engendram-se mutuamente, o que não quer dizer que sejam iguais. Fora de mim a hipocrisia, essa gente que posta sobre responsabilidade afetiva, mas engana o parceiro com o melhor amigo; que não come carne, mas sacaneia o colega de trabalho; que diz preservar a natureza, só que joga o entulho na rua. Eles são muito bons pra fiscalizar e apontar o dedo. Odeio juízes! Tampouco esperem que meu coração acompanhe os que visam o lucro, os que tratam a Terra sem o menor respeito, os canalhas que se acham superiores. Escrevo para decepcioná-los a todos: aos que me querem só dócil ou só revoltado. A vida não cabe nos seus esquemas. Os dias derrubam-se uns aos outros. Na vida, há a fúria do pai que teve a filha de cinco anos abusada; mas também a ternura entre os velhos jogando xadrez e partilhando a dor das enfermidades. Na vida, acontece a violência gratuita, mas também o amor sem porquê. Escrevo para decepcionar, porque as ideias são enrijecidas e a vida não acontece sem paradoxos. Escrevo para agredir, porque vocês me agridem diariamente, a cada instante, não dão folga, porra, repetindo sempre essa ladainha que não brotou aí, que ouviram em outra parte. Nos dias em que acordo de mau humor, tenho vontade de cortar-lhes os dedos e a língua. Escrever para sobreviver; porque o que fizemos do mundo me mata e, na palavra, encontro tanto vingança, quanto perdão.

SUPEREGO-CALIGARI

Eu engoli uma Alemanha

Há em mim uma coisa fria feito faca
Algo mórbido, sombrio, enrijecido
Ultraviolento e, ainda assim, delicado
Há toda uma Alemanha em mim
Florestas cheias de maus presságios
Onde feiticeiras trans emasculam homens dotados
E os lobos esperam vísceras em silêncio
Há em mim essa parcela gótica, romântica, visceral-gelada
Mora, mora em mim uma Alemanha
E nela cabem
A mulher barbada
O mago cornudo
A estrela vaudeville destinada ao suicídio
E eu sou também
Essa festa de carnaval em preto e branco
Essa compreensão intuitiva de Nietzsche, Heidegger, Schopenhauer
Caem sobre mim, quando anoiteço
Toda uma legião de anjos de Win Wenders
Bach, Beethoven, Pachelbel
Essa força que me castra como uma língua imposta, como um pai de Kafka
Todos os meus pesadelos são Auschwitz
Porque metade de mim é um general nazista,
Mas a outra metade, um menino judeu:
caramelo escondido no bolso para presentear a irmã mais nova

CÁLIX BENTO


O lago é a meditação da água. Ele, todavia, era inquieto; de modo que dirigir. Naquela manhã, no entanto, não podia libertar. Não curtia o ressentimento, nem por isto conseguia. Não se queria expor na prateleira. O que não significava que não quisesse ser. Lembrava o pai, pedreiro, que enchia o peito e sorria ao encerrar uma obra. "'É o melhor pedreiro de São Miguel, Itaim, Guaianases e região!" E a alegria da mãe quando elogiavam sua comida? Não era diferente do pai quando assentava um tijolo, ou da mãe quando picava a cebola em quadrados minúsculos. O zelo com o que fazia era o mesmo. Para tudo o mais - ganhar dinheiro, pagar contas, andar de ônibus, comprar pano de chão, assinar contrato - era inútil. Só sabia emendar palavras, mas precisava pagar. Alguém acenderia lâmpada para esconder embaixo da cama? Haveria ali alguma lâmpada de fato? Duvidava. Revoltava-se. Voltava a ser apenas humano. Fraco. Insatisfeito. Semi-mesquinho. Andava querendo acabar com tudo; só que o trânsito. No semáforo, uma velhinha com os dentes enferrujados, vendendo doce de abóbora em forma de coração, daqueles que já não se vêem por aí: "E o seu sorriso de menino? Quantas vezes se escondeu? É por conta, faz falta não, pega!" E era Deus ali, fantasiado de necessitada. Luz verde, o trânsito andando e a vida era isso aqui mesmo e não aquilo lá com o que sonhava. Sem cavar dualidade. Sem criar resistência ao que é. Seja feita a Vossa vontade. Torna, no entanto, nossa alma dócil, Senhor, de modo que sejamos macios ao nosso destino.
Ensina-nos a parar de doer

UM PORTO ALÉM DE MIM


No tempo em que nasci cigana, lembro-me de ler as mãos, com cheiro de cebola, deste homem calado. Ele perguntou sobre companhia e disse que tinha medo. Era viúvo e cuidava, só, de um casal de filhos. Lavava, passava, cozinhava; daí o cheiro de. As linhas falavam de silêncio e incomunibilidade. Ele via o mundo de um lugar vedado. Na juventude, tinha sido internado por falar do que. Agora, guardava para si. Esperava essa outra alma com quem pudesse. E eu, menina ainda, filha do fogo, falei de desejo e tragédia. Não me envolvo com o que leio. Sou tal e qual carteiro que entrega. Neste dia, porém, o telegrama falava de frio e paisagens brancas. Alguém pode entregar a mensagem da morte de uma criança sem se envolver? Dizer do horror e negar o abraço? E eu me deitei e doei o que tinha: tambores d'Africa, Egito, lilases, regatos, feitiços, o Sol, a Terra, placas tectônicas em movimento e marés. Algo que cresce e consome. Minha forma de cuidado, sabe? Ele pediu que ficasse e leu um poema feito de magma. Eu, nômade, disse que precisava e deixei de consolo um casal de salamandras. Décadas mais tarde, quando voltei, a filha era prefeita. Levou-me ao túmulo, cujo epitáfio era um poema intitulado Salamandras e que falava de amor, fogo e de um lar que nunca tivemos juntos e que nunca terei. E eu, filha do fogo, sentei ali na relva, larguei no chão as rosas vermelhas e confessei que sempre o compreendera. Tarde demais neste mundo de desencontros; agora, ele estava longe, era menino estrábico sofrendo bullying no estado de Connecticut

COR DE MARAVILHA NUA


Ontem, quando voltava da praia, vi cruzes à beira do caminho. Foi ao chegar aqui e olhar a gaiola vazia, entretanto, que a solidão bateu. Encontrei-o há alguns anos; ferido. Talvez, por isso mesmo, tivesse um canto tão. Tratei. Dei alpiste do melhor e proteína de ovo importada. Aos poucos, foi ganhando força e, com a força, confiança. Seu canto mudou. Se antes lamentava as dores da vida; agora louvava alguma força invisível. Dizia-se grato; ainda assim, exigiu gaiola maior, com balancinhos dourados. Todas as manhãs, todavia, sorria e cantava para mim; só para mim. As vizinhas; fofoqueiras, intrigadas; perguntavam-me a respeito. Em pequenas expedições, cautelosa, comecei a trazê-las para vê-lo em ação. Primeira vez na vida, eu tinha importância. Ele, por outro lado, não gostava da exposição. Sentia-se usado. A cada manhã, acordava mais mal humorado. Reclamava de tudo. Dizia que minhas amigas falavam alto e não prestavam atenção. Certa noite, depois de uma discussão, primeira vez, falou em partir. Gritou que tinha saudade da mata, da convivência com outros de sua espécie e, sem qualquer pudor, usou a palavra liberdade. Acusei-o de ingratidão. Disse que estava quase morto quando. Respondeu que preferia ter mesmo morrido e me deu as costas. Para tentar acalmá-lo, passei a pendurar a gaiola no jardim todas as tardes, o que se mostrou ainda pior. Seu canto tornou-se uma ode ao ódio. Algo assim como. Já não conversávamos e ele passou a recusar; primeiro o canto, depois a comida. Comprei do melhor alpiste, sementes importadas e tudo o mais. Nada. Estava decidido como só um pássaro. No dia derradeiro, abri a gaiola e disse que podia. Tarde demais. Já não tinha forças. Antes de amanhecer, encontrei o cadáver no fundo da gaiola. Parecia um menino. Como era seu desejo, joguei o corpo no mar. Agora seu canto é o silêncio e minha solidão, uma gaiola vazia

O MAIS PROFUNDO É A PELE


No cinema, isso seria a tela onde o filme é projetado. Pensemos em Bach, nos Beatles ou no peruano que toca flauta na praça da Sé. A música pode ser diferente, mas o silêncio do qual cada nota emerge é igual. Assim como a tela está para o filme e o silêncio para a música; o vazio está para o mundo. Há um vazio que dá origem, atravessa, sustenta e dissolve tudo aquilo que é. O mundo acontece dependurado numa ausência e essa ausência se manifesta no coração humano como saudade. Daí essa dorzinha boa no fundo de cada instante feliz; daí que, no meio do luto, num repente, a gente é atravessado por alegria criadora. Todos temos regiões ocas, pedaços inteiros de morte e não-ser. Tais buracos, ao mesmo tempo em que doem, são portais para o absolutamente outro. Assim como o silêncio une Bach, os Beatles e o flautista peruano; o vazio me faz o mesmo que Jesus, Sidarta, uma ameba, ou um beija-flor. Jesus não é o único Cristo; Sidarta não é o único Buda. Quando aceito que o que É não é meu corpo, pensamentos, memorias e emoções, mas o vazio eterno do qual tudo isso brota no tempo, posso olhar para mim mesmo como se fosse um outro e para meu inimigo como se fosse a mim mesmo: compreensão; amor; serenidade. O que é eterno em mim é aquele pedaço ao qual não posso chegar, porque nele me dissolvo. No fim das contas, o vazio é o mundo e o mundo é o vazio. No fim das contas, o vazio é o vazio e o mundo é o mundo

BABALORIXÁ


Um rei é rei mesmo varrendo o chão
A genialidade não está ligada ao ofício
Todo aquele que apaga seu eu na atividade
É um gênio no que faz
Há garis que limpam uma lixeira
Como se fossem Cristo ou Buda
E há artistas incensados que não movem uma palha de nosso coração
O gênio não pensa
Está vazio quando faz
Quanto menor o ego, maior a arte,
Pois ela pode vir de toda parte
Inclusive do fundo de si mesmo
Não faz diferença
Uma vez que dentro e fora são só um caso de respiração

O ROSTO DO MEU IRMÃO

 

Quando nosso pai chegava bêbado, meu irmão me pegava pelo braço e levava pra rua, pra gente empinar pipa. De vez em quando, algum moleque maior queria tomar nossa linha e ele defendia, dando umas latadas. Com a pipa no alto, a gente esquecia dos problemas. Podíamos passar horas olhando o céu; torcendo para que, quando chegássemos, o pai tivesse dormido. Hoje, pedi à minha mulher que saísse com as crianças e chamei meu irmão aqui. Ele ficou feliz. Chegou com seus três cachorros. Tive de deixar os bichos entrarem também. O pescoço dele estava preto, como se sujo de graxa. Meu irmão fedia. Há mais de seis meses, ele mora sob a marquise de um supermercado que fechou. Acho que, durante todo esse tempo, nunca tomou um banho. Dei café e pão. "Como é? Bora empinar?" Eu tinha combinado de a gente empinar pipa no Parque do Carmo. "Só preciso chegar no banheiro". Foi nessa hora que dei o sinal para os caras da clínica. Eles pegaram meu irmão à força, quando ele abriu a porta. Na confusão, os cachorros morderam um dos rapazes e as pipas foram pisoteadas; ficando rasgadas ali no chão. Antes de entrar na ambulância, meu irmão me olhou de um jeito estranho e, com aquela expressão, perguntou: por quê? Sei que essa é a única forma de ele continuar vivo. Eu deveria estar feliz, cultivando a esperança e tudo mais; só que, quando lembro do rosto do meu irmão, tudo o que brota no meu coração é um sentimento de Judas.

KOAN


O real não é lógico. Para aproximar a palavra das coisas mesmas, não basta nem mesmo a linguagem poética. É preciso usar e abusar do paradoxo. Onde a razão esbarra, começa a verdade.

OLHOS DE MAR DE ESPANHA


Eu ia completar dezoito; quando, primeira vez, deixei minha cidade com destino a São Paulo. Vinha trabalhar em casa de família e, como tinha pouco, aceitei carona que um amigo de meu pai, de passagem pela cidade. Deveria ter descido em Beagá; o motorista, todavia, não me avisou e fui parar em Mar de Espanha. Era quase meia. Ônibus só no dia seguinte. Decidi passar a noite na rodoviária. Juntei os trocados para tomar um Guarapam. Sentia uma coisa estranha: alegria por sair da casa de meus pais, onde não se podia respirar por sermos da Assembleia; e medo, porque estava só e o mundo é casa de muitos perigos. No bar, havia um jovem cabeludo, tocando violão. Tinha olhos quase de azuis tão. Olhei. Noite vasta; bar vazio. Na pausa, puxou conversa. Havia largado faculdade no Rio e, agora, vivia assim, tocando daqui e dali. "Um dia, morena, ainda gravo com Bituca". Findou-se a apresentação. "Em vez de dormir aqui, vem descansar no meu quarto". Confesso que tive medo de ser. As tantas histórias de meu pai, mas ele tinha aqueles olhos, o violão e cantava como se fizesse cafuné no ouvido da gente. Deitamos os dois na cama de solteiro. Ele tinha tanto, era um mundo; e eu, só meu desejo de vida. E aconteceu a magia. Primeira vez na vida, experimentei o amor. Manhã seguinte, a gente se despediu. Desejamos boa sorte um ao outro e nunca mais. Ele não ficou famoso e eu me casei com este homem bom que me tem acompanhado durante toda a jornada. Já dei minha contribuição e, chegado o momento, entreguei o mundo aos filhos e, agora, aos netos. Não me lembro mais do cheiro ou do rosto daquele desconhecido que um dia me amou numa cama de solteiro. Conforta-me saber, no entanto, que ele deve estar em algum lugar, sob a abóbada celeste. Às vezes, em sonho, revejo aqueles olhos. Olhos da cor do mar de Espanha.

AMAR AS COISAS É LIBERTÁ-LAS


Amar as coisas é libertá-las
Porque ninguém perde aquilo que um dia amou
A Terra nos une
Existimos todos no mesmo colo
E, se é assim, posso amar distante
Porque não há fronteira
Quando o pensamento sorri de amor
Não estamos circunscritos entre boné e botas
Todo o mundo é meu se não construo gaiolas
Vigiar é perder
Prender é perder
Então, antes de partir para o internato, o órfão se despediu da irmã mais nova:
- Abre a mão que vou te dar uma coisa.
A pequena obedeceu.
O menino, mãos vazias, fingiu entregar um bichinho muito delicado:
- O que é?
- Um beija-flor invisível. Sempre que sentir falta, é só querer, com toda força, que você vai ouvir as asinhas batendo.
Desde então, a menina nunca mais sentiu medo.
Nem quando ficava só.
De castigo num quarto escuro

O BLACK METAL NORUEGUÊS


Doni estava em maus lençóis; desempregado havia anos, bebendo demais, vivia de favor na garagem da ex-mulher, a qual desfrutava agora as segundas núpcias com um rapaz vinte anos mais novo. Na noite em que ocorreram os fatos, Doni dormia em um dos muitos pontos de ônibus do centro da cidade, quando seu destino cruzou o destino dos integrantes da banda de black metal Valhala. Os garotos de classe média portavam, não se sabe como, duas granadas. A primeira explodiu no interior de uma Igreja Católica no bairro de Santa Teresa D'Ávila. Segundo um dos integrantes, o bando não sabia muito bem o que fazer com a segunda granada até que o vocalista, um tal Death, avistou o desempregado adormecido; tendo, em seguida, perguntado:
- Vocês duvidam eu explodir ele?
Como ninguém respondesse, menos de um minuto depois, o corpo do desempregado voava pelos ares junto aos pedaços de metal, telha e concreto que consituíam o ponto de ônibus.

RENATO RUSSO

 

Por mais que eu tente me explicar,
Ninguém consegue entender

TOUCH


Sou um cabra das antigas. Do tempo em que a gente esperava dar meia noite pra usar a internet discada. Sim, senhor! Sou tão velho que meu primeiro diploma foi de datilógrafo. Tantas palavras por minuto, com uma tábua cobrindo o teclado e tudo. Passei com louvor. Quando achei que era bom numa coisa, a profissão acabou. "Não tem problema" - pensei - "já que não datilógrafo, serei escritor." Não podia desperdiçar a formação, uai. Além disso, tenho tendência a meditações filosóficas do tipo: por que navio bóia e prego afunda? De onde venho? Para onde vou? De modo que, o que quero dizer é que nunca consegui acompanhar muito bem as inovações tecnológicas. Comprei meu primeiro celular há menos de um ano. E fico besta com as coisas que a turma inventa. Semana passada, por exemplo, gastei seis dias refletindo - filosófico, doutorado no ofício - sobre como funciona o mecanismo de copiar e colar no celular. Você gosta de um texto. Pressiona o dedo em cima. Depois vai para o lugar aonde quer colar e pressiona outra vez. O texto inteirinho ressurge na nova tela. A mosca pousou na sopa🤔! Olhava o dedo; olhava a tela. Olhava o dedo; olhava a tela. Tive insônia, depressão, prisão de ventre, perda de apetite, todo gênero de ansiedade. Já disse, sou filósofo, gosto de investigar o modo como o mundo funciona. Por mais que quebrasse a cabeça, não consegui responder à questão: como é que o conteúdo da tela cola e descola do dedo da gente😱? Por bem menos, muita gente boa foi assada um dia. Como se vê, mais importante que encontrar as respostas é colocar as perguntas certas.
Alguém aí arrisca?

SER HUMANO


Deve ser porque eu tenho cara de trouxa. Tem coisa que faz a gente perder a fé na humanidá. O mano tava vendendo pirulito no farol: cinquenta centavos. Pois eu fiquei com pena, pedi um pirulito, dei uma nota de cinco e disse que ele podia ficar com o troco😧. Pois o filho da mãe não me deu troco e nem, tampouco, o pirulito😠. E ainda ficou encarando. Se tivesse tendência, depois dessa votava no Rossomano

CAFÉ DA MANHÃ


Certeza de ter sido a pior - e a melhor - coisa na vida da pessoa que você mais ama. Saudade de ter dezoito, cabelos fartos e fé na vida. Juntos, repartimos chiclete. Juntos, sonhamos o mesmo sonho; partilhamos futuro e violão. Na manhã de um dia frio, você disse pela primeira vez: "te amo!" E me mostrou os seios brancos. Mas Satanás, já aí, nos botou um feitiço e, mais de mil dias depois, numa tarde estranha, você me olhou calada e saquei que já não me conhecia. Saudade de nós, das coisas simples: rock antigo, jovem guarda, licor de cereja, baile de formatura. No momento em que a valsa começou, teu corpo no meu, tesão: boca, língua, orelha: sussurro sacana! Mas o Diabo nos jogou sua maldição e, quando cheguei cansado do trabalho, dezembro: teus armários abertos, as prateleiras vazias, a falta das malas. Recordo o café da manhã: "põe mais um pouco pra mim!", o rosto do filho, a noite do parto, a sensação de tornar-me pai: tudo tão eterno, infinito, tão ontem ainda. Mas o Demônio nos rogou aquela praga e, crianças de mãos dadas, no meio da tempestade, imaginando-nos invencíveis, não percebemos a noite que se avizinhava.
E nem, tampouco, a vida que nos perseguia como um mouro com a espada na mão🌻

A FLOR DE LÓTUS

 

Poeticamente, o homem habita esta terra. Todas as coisas nos ensinam; são o que são e são poemas. A Terra inteira dialoga com o humano. Tudo guarda uma mensagem cifrada. Se a água nos ensina a seguir maleáveis, o fogo nos fala da paixão. A poesia é um atributo da Terra; o poema, do ser humano. Então, criar é sinônimo de traduzir. Todo poema é uma tradução da poesia que está nas coisas e que só é transposta para a linguagem humana quando encontra o coração desencapado do poeta. Quero, pois, falar do lótus, cuja semente pode demorar mil anos para germinar e cujo broto só surge quando algum trauma externo fissura a casca. Assim também se dá com o ente humano. A gente só floresce depois que uma pancada racha as cascas de nosso eu, de nossas certezas. O lótus floresce do lodo e, embora a lama respingue em suas pétalas, não gruda. Nós, do mesmo modo, florescemos a partir deste mundo lamacento. Não importa o quanto estivemos mergulhados no lodo; os caminhos sujos pelos quais passamos são adubo para a flor de nosso espírito. A lama tampouco desaparecerá depois de florescermos. Pelo contrário. Sentados seremos tal qual flor em meditação, os respingos do cotidiano podem até nos atingir, mas não vão colar. A raiva, a inveja, o ciúme são emoções humanas e, por certo, vão nos tocar em algum momento; mas que sejamos flores untadas e que nenhum sentimento mesquinho construa morada em nosso coração. O lodo exterior não é justificativa. É nossa responsabilidade de planta cuidar de nossa flor. Se o mundo inteiro está doente e a gente adoece junto, isso não significa a cura. Hoje amanheci flor; mas com a dura tarefa humana de, imerso na lama, deixar nascer o belo e a pureza. Como a Terra, quero me doar até sob as dores da agressão.

SATÉLITES


Ela gostava do magrelo, mas foi o gordinho quem a procurou com uma caixa de bombom aberta: "O Lennon que mandou. Estava completa, mas não resisti. Só comi os crocantes, ao leite, meio amargo, os de banana e Serenata. Sobrou o Alpino. Ele falou se você não quer jogar videogame na casa dele depois da aula". E lambeu o resto de chocolate nos dedos, enquanto aguardava a resposta. Naquela tarde, almoçaram juntos. O pai dele estava por dentro; tinha inclusive financiado o chocolate. O menino mostrou seu cães, os gatos, a tartaruga, as camisetas de time, os livros. Ela olhava guardando encanto. Entrava naquele mundo masculino com pés de bailarina. "Que você quer jogar, FIFA?" "Não, vamos jogar algum que a gente fique do mesmo lado." E escolheram os bonequinhos. Ele, magrelo, preferiu um avatar mal encarado e musculoso. Ela, gordinha, escolheu uma japonesinha delicada, cuja arma era um guarda-chuva. E saíram, juntos, para enfrentar todo tipo de inimigos; enquanto o pai, atento, lavando a louça, torcia a favor da delicadeza e da ternura. No quintal, os cães, curiosos, esperavam petiscos e informações

O DESTINO QUE SE CUMPRIU


Aonde quer que eu fosse
Caminhava em pedaços
Até caber no seu abraço
E, pela primeira vez na vida, me sentir inteiro.

O NINHO E O PÁSSARO


Quando cheguei, pude ouvi-lo dizer à mãe: "se o menino não me tivesse puxado tanto, Maria, poderíamos ter sido mais próximos". Meu pai veio morrer em casa. Não há mais que fazer. O câncer, feito incêndio, espalhou-se pelo corpo, pela casa, o país, o mundo. Ele ainda consegue se sentar na poltrona e assistir ao Datena; mas já não pode tomar banho, ou caminhar de volta ao quarto. Por isso estou aqui. "Não precisava ter vindo, sou duro o suficiente para encarar mais essa sozinho". Madrugada passada, entretanto, ouvi-o chorando. Sei que está com medo, mas a couraça não o deixa admitir. Receia que eu cante vitória. Não voltei para isso. Nessa guerra não houve vencedores. Nenhum ser humano quer fazer sozinho essa viagem; nossa família, porém. Nunca conseguimos conversar. Eu também não admitiria. Somos iguais, mas antípodas. Eu me tornei meu pai pela negação e, embora esteja desarmado, não consigo fugir à discussão. Quando, contudo, no primeiro dia, instalei-me no meu antigo quarto, encontrei, perdido em uma das gaveta, o carro de boi de brinquedo que entalhamos juntos há mais de trinta. Aquele foi o primeiro objeto. De lá para cá, tenho confeccionado violões, contrabaixos e guitarras para alguns dos músicos mais importantes do mundo. Tinha me esquecido, foi o pai quem me deu o primeiro formão. Agora ele está morrendo; a cada segundo. E não conseguimos conversar

VITAMINA DE ABACATE


Dona Geralda é assim, com os netinhos ninguém pode falar alto; mas, quando a gente era pequeno, a história era diferente. Uma noite, uns parentes foram nos visitar e a mãe bateu um liquidificador de vitamina de abacate. Como sempre, quem se serviam primeiro eram as visitas. E, nós, os meninos, de olho. Aí, um parente, magro, alto, daqueles que comem e não engordam, tomou um copão: "hum! Dilícia!" E repetiu. E, nós, de olho. Tomou outro. Repetiu o refrão. Quando ia encher o copo pela terceira vez, não aguentei: "Vai tomar tudo, ô?" A mãe me pegou pelas oreia, sorriu sem graça pras visitas. Falou: " Depois a gente conversa!"
Caraio😰.
Depois que os parentes partiram, a velha me sentou numa cadeira, bateu dois litros de vitamina de abacate e me fez tomar tudo sozinho. Por conta da desfeita.
Pra descontar, pirracento, tive caganeira também e não deixei ninguém dormir a noite inteira.
E ouviamos TORNERÓ 🥑

CABOCLO SONHADOR AO SOM DE REGGAE


Se eu sesse galinha,
Ia morrer tentando aprender a voar
Pra longe.

EPISTEME


O comentário sobre um texto diz mais sobre o leitor que sobre o texto. Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro. Não deveria ser. O aprendizado é um encontro. Texto e leitor, professor e aluno. Um não prescinde do outro; nem pode ser mais importante. Acontece que desaprendemos o silêncio e a graça do não fazer. Queimamos, pois, a primeira etapa: o silêncio interno da acolhida. Antes de acolher o que o outro ou o texto dizem, já preparamos a conexão e, pior, a resposta. Se a palavra se encaixa em nosso sistema de crenças, repetimos; caso contrário, tapamos os ouvidos, porque ela ameaça - de morte - aquilo que imaginamos o "eu". É por isso que, quanto mais avançada a idade, mais difícil o aprendizado. Com a identidade ancorada neste eu enrijecido, blindado, o novo bate na armadura e cai pelo chão. Temos a ilusão de que somos a armadura; mas somos é a criança em espanto sufocada; agonizando atrás do aço. Na mística, o sentido do segundo nascimento é desfazer-se da armadura. Deixar a criança, protegida apenas pela fé, aberta aos encantos e perigos do mundo. Cordeiro em meio aos lobos, morrer para nascer ao eterno, segundo nascimento, tornar-se criança, mente de principiante. Só a criança, mesmo no adulto, acolhe o novo. É por isso que o aprender se assemelha ao brincar. Primeiro silenciamos, tocamos o brinquedo, apalpamos, conhecemos, cheiramos, transferimos o colo e o seio para a pele do objeto; depois conectamos esse brinquedo - palavrapoema - ao lego do mundo. Tão simples, tão difícil. Só aprendem aqueles que são leves e mantém a alma irmanada às borboletas, beija-flores, crianças e bolhas de sabão

DOM


Acho que um dom é assim como uma paixão tão grande por uma coisa que você não mede esforços para aprender e melhorar naquilo; sem qualquer outra intenção. É dedicação desinteressada. Por outro lado, o amor por aquilo que se faz é tão grande que o esforço deixa de ser esforço, torna-se uma alegria; um tal modo de ser no mundo que quem vê de fora não hesita em dizer:
- Ele nasceu pra isso.

POESIA E VERDADE


Não interprete
Não decodifique
Não se pergunte:
- O que isso significa?
A poesia não é o traje de gala da verdade
É o clarão
A chama que ao acontecer
Instaura a própria verdade.

PENA BRANCA

 

Pela boca de sua principal personagem conceitual, Shakespeare afirmou a precedência do Mistério ao mundo desencantado. E Freud, nascido num berço de tradição patriarcal, reconheceu o fantasma do pai no interior da neurose. O caso que vos narro lança, pois, âncora tanto sobre o mistério, quanto sobre a figura do pai. Assim como eu, meu pai foi músico, ainda que ele tenha sido muito mais famoso. Devo confessar que, apesar de gritar o tempo inteiro, o pai nunca me agrediu fisicamente. Por outro lado, aplicava castigos de extrema violência psicológica. O mais recorrente era me deixar sentado diante de um espelho, sem poder fechar os olhos, por dez, doze horas. Pouco antes de ele levar aqueles cinco tiros, tivemos uma conversa. Parecíamos prever. Ele disse que, caso algo acontecesse, indicar-me-ia, por meio de uma pena branca, que tudo estava bem do outro lado. Pois bem, o pai foi morto. Nos anos que se seguiram, enveredei por uma espiral de vício e ideação suicida. Nunca comentei o episódio da pena. E, então, mês passado, numa tentativa desesperada de parar, viajei rumo a uma tribo isolada no meio da floresta amazônica com o intuito de passar por um ritual de cura calcado nas medicinas da floresta. Na mais tensa das sessões, o xamã, que de modo algum tinha como saber da conversa entre mim e meu pai, entregou-me, num momento em que pude sentir a presença do outro, uma pena branca e, nesta mesma tarde, ao voltar para a oca, fiquei horas sentado ante o único objeto: um espelho. Desde então, meus amigos, a compulsão pareceu ceder

E A VIDA É BONITONA!


Se pudéssemos nos dar conta de que somos felizes quando a felicidade acontece, seríamos perfeitos. Humanos, no entanto, perdemos o instante ansiando o futuro, ou ressentindo o passado. E o momento real em que a felicidade aconteceu, só o temos depois, como lembrança, porque estávamos distraídos quando. A gente só percebe a grandeza de uma pescaria com o pai, quando o pai já não pesca. E, no entanto, havia ali tanta lição silenciosa sobre a vida. Nada desaparece; do nada, nada nasce, tudo então se transforma. Enquanto temos a ilusão de perder, todavia, é melhor pensar que o ser humano fica mais rico quando perde, porque cada perda expande nossa alma. Tudo aquilo que imaginei ter perdido, vive agora dentro de mim. No filho, subsistem o pai e o bisavô. Cada paisagem, cada amigo e companheira, cada festa ou velório, cada canção... Nada se perdeu. Meu coração é o ponto privilegiado no qual milhares de coisas, bichos, flores, paisagens e pessoas fascinantes se encontraram e desnudaram-se em estado de poesia. O primeiro amor ainda me visita sempre que o amor acontece. Alguns acumulam bens; outros, prestígio. Eu junto vida. Por meio de mim, meu amigo Rogério existe um pouco no meu filho João que nunca o conheceu. Tudo continua de um jeito diferente. Eu já não sou o menino de cinco anos, tampouco sou outra pessoa. A criança ainda fica feliz dentro de mim quando sente o cheirinho ruim de um filhote de cachorro. Morrer é só mudar de morada. Distribuir-se. Os vivos somos a casa dos que se foram. Toda a jornada do Céu e da Terra se acumula no fundo do agora. Um neandertal dá o salto decisivo nos meus polegares. Todos somos matrioshkas! E a vida é bonitona!

ESPIRITUALIDADE E POLÍTICA


A espiritualidade atua, ou deveria atuar, na esfera interior, individual; ao passo que a política refere-se à nossa atuação no mundo, à esfera coletiva. Quando falo em espiritualidade, não me refiro a uma religião específica; assim como a política não se resume ao partidarismo. Embora não se devam confundir, espiritualidade e política estão o tempo todo interagindo. A cada segundo, o que há dentro de mim chega ao mundo, assim como o mundo exterior também me atravessa constantemente. É preciso discernir onde termina minha confusão interna e onde começa a confusão do mundo. A busca por uma sociedade mais justa é indissociável da busca por me tornar um ser humano melhor. Como posso querer mudar o mundo para melhor se não me dou bem com meus vizinhos, família, ou colegas de trabalho? Como posso pregar uma atuação política solidária se não consigo conviver? Facilmente caímos na tentação de depositar todo o peso num dos pratos da balança. O ego é inimigo do equilíbrio. Ou coloco toda a sujeira no meu interior e aí não há como escapar da depressão; ou todos os problemas vêm lá de fora e continuo espalhando merda, quando gostaria de distribuir flores. Por melhores que sejam as intenções, alguém confuso, no fim de qualquer empreendimento, desemboca na confusão. Querer transformar a sociedade sem antes olhar nosso próprio interior, é querer limpar o rosto sujo passando um pano úmido na imagem refletida no espelho. O mundo é inseparável daquele que o olha. A saúde social passa ao mesmo tempo pela saúde psíquica. Se almejamos um mundo melhor, não precisamos esperar a eclosão de uma insurgência. Podemos começar ajudando hoje a quem precisa, ouvindo o outro, deixando um pouco o orgulho e o ego de lado e tornando o ambiente que nos cerca um pouco mais agradável. Se cada um começar a mudar agora, no lugar onde está inserido, a sociedade muda. Se cada qual lavar seu prato, não haverá acúmulo na pia. Esqueça, neste momento, se o vizinho não lava o prato dele. Concentre-se no seu. Uma revolução social a curto prazo parece distante, mas a revolução interior pode começar agora mesmo, basta se sentar e voltar os olhos para dentro

AS CASAS E MEUS OLHOS

As casas onde morei hoje vivem nos meus olhos

Meus irmãos deitados no beliche
falando da vida até alta madrugada
O cheiro do café de meu pai de manhã
A mãe fazendo almoço num dia de domingo
E mais tarde
Em Assis, na Rua Londrina
Violão junto à fogueira no campinho da moradia estudantil
Cantoria na cozinha
O prédio iluminado do outro lado do pasto
E mais tarde
Na rua Curitiba
Cerveja, e festa, e som
E eu achando impossível chegar aos quarenta
Quando aos vinte anos fui cometa
E mais tarde
Recém-casado
Uma casinha de dois cômodos que eu mesmo reformei
O João pulando do berço
A Sofia vestida de noiva voltando da festa junina
E então esta casa
E o entulho acumulado durante a jornada
Nos meus olhos não sou eu quem vê
São essas casas e seus mortos
Essas casas e os laços desfeitos
Essas casas e as esperanças que ficaram pelo caminho
Feito prédio assimétrico
Da ponta dos pés ao topo da cabeça
Sou inteiro as casas onde vivi
Deixei um pouco de mim em cada cômodo
Mas também trouxe comigo este cheiro de mofo e naftalina
As casas onde morei hoje vivem nos meus ombros
Mas não pesam
No fundo oco do tempo
Um pedreiro louco esculpe a escuridão
Para construir minha morada derradeira
Todas essas casas sobreviverão ao homem
Mas sempre haverá um menino pobre
Conversando com o irmão mais velho
Num beliche frágil
Madrugada adentro
A gente morre, mas a vida continua
A gente morre, mas as casas permanecem
Em estado de silêncio e sonho.

SOBRE TEUS SEIOS BRANCOS


Desde menino, Arlo gostava das canções por conta das linhas de baixo. Ao crescer, tornei-ne, portanto, baixista. Quando você está numa banda, ela se torna mais que sua família. Se alguém ofende seu baterista, é como se ofendesse a irmã, ou o pai. Todos, então, sofreram muito quando desenvolvi uma fibromialgia que me deixou incapaz de tocar. Antes da doença, entretanto, já havia outro problema. Arlo não conseguia ficar perto de uma mulher depois do orgasmo. Isto o incapacitava para o amor. De nada adiantava explicar que sofria de claustrofobia post coitum. Ninguém acreditava. Com o intuito de consolá-lo ante o inconsolável que era parar de tocar, Ava, a mais maternal das backing vocals, deu-lhe bola um dia. Arlo não só acolheu, como, pela primeira vez na vida, adormeceu, ali, sobre os seios brancos, depois do gozo. Apesar da sensação de incesto, ambos souberam o que nascia. Como diziam os antigos: sempre que fecha uma janela, Deus nos abre uma porta.

COMO AS IRMÃS DE LÁZARO


Quando, hoje, depois de trinta anos, encontrei Cesário, senti uma coisa estranha; algo parecido ao que sentimos ante um vaso quebrado, ou na presença de alguém com uma dor impenetrável, como aquela que intuímos, mas não alcançamos, no interior de alguém que perdeu os filhos adolescentes num acidente. A ferida aí ultrapassa qualquer expressão e a pessoa fica com um ar assim alheio, abobalhado; como se estivesse em outro lugar. Na juventude, fomos loucos um pelo outro. Ambos quase largamos família. Agora, Cesário vivia de favor num cômodo de cortiço. Estava grisalho, gordo, banguela. Depois de muitas tentativas, tinha desistido de tentar parar e, o pior, já não escrevia. Há pessoas que cometem suicídio, mas há outras que vão desistindo aos poucos. E se acostumam ao ato de deixarem-se morrer. Ele ficou feliz ao me ver; eu, entretanto, me sentia como as irmãs de Lázaro. Ao nos abraçarmos, senti cheiro de coisa morta. E chorei. Não por ele, nem por mim, mas por tudo o que perdemos pela beira do tempo, ao longo do caminho. "Se cuida, gatinha!" - disse quando a gente estava se despedindo e, então, sorriu. Em algum lugar no interior daquele morto-vivo, o menino resistia e agora sorria através de uma face deformada. No sorriso vazado de Cesário, vi ecos da menina que eu mesma enterrei há muito. Tal e qual prédio antigo caindo em câmera lenta na tela da tevê, algumas vidas são um lento processo de demolição

O ESPELHO E A BESTA


De todas as invenções humanas, a mais perturbadora é o espelho. O espelho é o outro e sou eu. Tudo aquilo de bom ou de ruim que enxergo no outro, levo um pouco comigo. Quando condeno alguém à morte, imagino matar uma parte minha que não posso olhar. Não conheço sânscrito; portanto, se alguém me ofendesse em tal idioma, eu ficaria indiferente. Reconhecer a capacidade para fazer o mal, é o primeiro passo para se tornar melhor. Da tragédia grega ao terror pop; o mal só pode agir quando não é exposto à luz; reconhecido como mal. Nenhuma possibilidade humana está fora. O santo ou o monstro são destinos opostos; mas unicamente humanos. De um tigre, pode-se dizer tudo, menos que seja mau ou bom. Sidarta Gautama enfrentou Maya. Jesus Cristo foi tentado no deserto. É preciso, portanto, olhar o porão. O monstro tem um rosto banal. Poderia ser meu vizinho. Poderia ser... eu? Quando reconhecemos nossa capacidade para o mal - uma fechada no trânsito, uma visão política oposta - ficamos menos "moralistas", mais propensos ao perdão, apontamos menos o dedo; e, o que é melhor, podemos usar essa energia de um modo positivo como, por exemplo, Goya em suas pinturas mais sublimes. Só é bom, de fato, aquele que sabe que poderia ter sido mau.

 TEU PASSO FIRME E ROSTO DE CRIANÇA

Quando acerta, Beto Guedes é genial; mas, quando erra, é estratosférico. Eu gosto do nervosismo, da timidez, da gagueira, da falta de jeito, das letras esquecidas. De cada um dos erros. E torço, e me emociono, e sinto ainda mais vontade de abraçá-lo; como a um filho que esquece o poema na apresentação do dia dos pais. Ninguém erra como ele! É gente, sabe? E vamo simbora! Com um solo sublime de guitarra por cima. Um ser humano é rosto, ser, presença. Deixemos aos deuses a perfeição. Gostamos das pessoas porque elas não são perfeitas; porque seus defeitos nos encantam. Por isso, o amor entre anjos é impossível.

PSICANÁLISE, PSICOLOGIA E LITERATURA


A neurose aponta para um referencial. Daí a necessidade de descascar a cebola até encontrar aquilo que o neurótico esconde. A esquizofrenia joga chaves. Enquanto a primeira é fechada, a segunda é aberta; conecta-se ao lego do mundo. Poe, em A carta roubada, mostra que o melhor modo de ocultar uma carta é deixá-la sobre a mesa. Para Borges, o melhor lugar para esconder um livro é a biblioteca. Às vezes, a metáfora não encobre, ela é o segredo. Às vezes, o nonsense ultrapassa a metáfora. A neurose é irmã da alegoria. Na alegoria, o significante aponta para um único significado. É decifrável. No nonsense, o significante aponta para o indecifrável: à abertura do mundo; pode ser isso, sim, mas pode também ser outra coisa, desde que a conjunção construa sentido: Campos de Carvalho, Murilo Rubião! Já não se trata de interpretar, mas de copular; conjugar um corpo ao outro para criar potência. Então, há entre a psi e a crítica literária esta paridade. A psicanálise também decifra a literatura neurótica; mas nada pode ante o delírio. Para o delírio poético, é necessária uma crítica que não reduza o texto, mas o multiplique. Uma crítica criadora e não interpretativa. O crítico como artista da Arte. Enquanto o poeta é o artista da loucura. A coragem capaz de arriscar a própria lucidez em busca de um dizer. Quem pode atravessar tantas vezes este umbral sem se esfarelar?
R: Aquele que faz de Deus os seus sapatos.

UM CABRA MUITO AZARADO - I


Bebeto era moleque piranha. Cabelo na régua, bigode fino, várias pratas no pescoço e a risquinha da putaria na sobrancelha. Nunca saía só de baile. De uns tempos pra cá, no entanto, conhecera Nathally Kathlleen e, desde então, tentava sossegar. Vez ou outra, porém, recaía. Deixava a mina em casa e voava de moto pra curtir. Invariavelmente, a moça descobria. Na periferia, cada amiga é um Nelson Rubens. A tragédia toda aconteceu em quatro dias. Na quarta-feira, o casal estava bem. Foram juntos ao supermercado Nagumo da Vila Curuçá e, na saída, resolveram jogar na Mega-Sena. Fizeram três apostas e Nathally foi quem guardou os bilhetes. Na quinta-feira, passaram o dia inteiro em êxtase de amor e chocolate. Na sexta, entretanto, depois de sair da casa da namorada, Bebeto resolveu curtir o baile do Robru. Foi lá que, na madrugada, Nathally Kathlleen o encontrou agarrado a uma periguete. Estava de TPM. Já não suportava tanta promessa e jura. De modo que, depois de quebrar a cara dos dois, prometeu a si mesma que nunca mais. E, aí, no sábado, vai vendo como o Diabo é sujo, acertou os seis números da Mega-Sena! Prêmio duplo: dinheiro e vingança😱. Pobre Bebeto; tão alegre, tão safado! Provavelmente, de toda aquela bolada,

RELIGARE


Vou chamar de Cristo, mas poderia chamar de Buda, ou Homem Sagrado. Afirmo, mas não digo que estou certo. Nada disso li nos livros, é só o estágio em que me encontro, ou a franja do Mistério que me foi revelada. A persistência no caminho pode me revelar novas faces, ou o contrário do que meu entendimento havia captado. Talvez tenha de rever amanhã, talvez não. O fato é que o Cristo não nasceu numa manjedoura e morreu numa cruz. Histórico ou mítico, trata-se de uma parábola doada à nossa compreensão. O nascer ou morrer do Cristo são possibilidades reais do nosso coração hoje. Quando estendo a mão ao caído, sou a manjedoura; quando julgo, a cruz. Todo ser humano é multidão. Há, em cada um de nós, enquanto potência, o mais nobre e o mais vil. Cristo, Judas e Barrabás; Mr. Hyde e Dr. Jerkill. Em termos orientais, a Iluminação não é um lugar a se alcançar. Não é uma finalidade, mas uma possibilidade que se abre a cada instante, a cada escolha. Daí a importância da meditação, daí a importância do vigiar. Quando atentos, percebemos quem escolhe em nós e podemos deixar a porção mais elevada, tal qual Krishna para Arjuna, conduzir a carruagem do Ser: re-ligar. Quando desatentos, preocupados, culpados, ou ansiosos, tal qual Otelo, fica fácil ouvir as intrigas do Iago interior. É tudo dentro, é tudo agora. O santo ou o canalha não habitam o futuro, são possibilidades deste instante. Até no modo como pago o café que acabei de tomar, posso ser um Deus ou um Demônio. Tudo depende da disponibilidade amorosa de meu coração

SAMBA PA TI


Tinha motivos para estar estressada. Meu pai fora um canalha na juventude e, agora, sofria com as dores do Parkinson. Durante a noite, não dormia, nem me deixava dormir. E eu tinha aquele trabalho terrível, telemarketing, e, havia mês, terminara o noivado. Além disso, o folgado do meu irmão só aparecia aos domingos, para assistir futebol e pousar de bom filho. Enquanto isso, eu tinha de lavar, engomar, cozinhar, suportar a gemedeira. E, se eu cobrasse alguma coisa, respondia: "Deve tá de TPM". De modo que, naquele dia, o copo transbordou. Quando comecei a falar, não parei mais; disse tudo que estava engasgado. O pai também não é fácil. É pelo limão que se conhece o limoeiro. Tudo o que eu dizia, retrucava. Acontece que moramos num sobrado geminado e os vizinhos estavam pintando a casa para entregar. Tinham se divorciado e agora cada um seguiria seu caminho. Neste instante derradeiro, no entanto, pintavam juntos e o rapaz colocou uma de suas playlists românticas: Bread, Chicago, Bee Gees, Boca Livre. Eu ainda xingava, quando percebi que meu pai estava chorando. As mãos agarradas à bengala, como se quisessem segurar a morte, desarmaram-me. "Que foi, pai?" "Essa canção tocou no dia em que sua mãe e eu nos casamos. Ainda sinto muita falta dela". Não consegui pedir desculpas, mas a briga parou. Fiz um chá de camomila e entreguei uma xícara. Só então reparei como estava velhinho. E quase passei a mão nos cabelos ralos ao levar as xícaras de volta à cozinha

MULHER DEPENDURADA NA MANHÃ


O outro já não saía de casa, tornara-se eremita; mas, disso, ela não sabia. Observava os corpos nus pelo espelho no teto. Embora houvesse tatuagens e intervenções estéticas, nada disso trazia de volta a rigidez. Vivia os últimos e o ponteiro de segundos soava o Inexorável. Agora, depois do orgasmo, sentia-se um pouco. Por outro lado, a imagem no teto daria uma boa pintura. Em outra encarnação, quiçá. O garoto roncava. A juventude só precisa ser jovem. Já a maturidade pode nos trazer prêmios, reconhecimento, dinheiro e a sensação de que. O que procurávamos mesmo com tanto afinco? O Sol, a Terra; arquetipologia e solidão; nada em particular. Zapeou os canais; parou por instantes em um no qual uma péssima atriz gemia. Desligou. Banheiro. Água-rosto-retorno. Sentou-se na cadeira, pegou uma fruta e, aí, o garoto acordou. Feito neto, levantou fazendo barulho, coçando-se, abrindo janelas. Atirou-se ao chão e executou sequência de flexões... E, Deus, como falava! Logo de manhã! Blá, blá, blabíceps e tríceps... Para que se calasse, ofereceu uma maçã:
- Estão murchas, gatona!
Só aí percebeu que a vida em suas mãos tinha um gosto de plástico; ou de morte; ou de terra.
Apesar do som de estacas, a manhã seguiu lenta e resiliente como a fila do mercado pra terceira idade. Em algum momento do passado, o monge havia dito: "Deve ter algo mais, vou me sentar até descobrir o segredo".
Que inveja ela sentiu, enquanto apanhava as chaves do quarto e do carro.
A imagem pode conter: comida
Lívia Regina, Bianca Nóbrega e outras 15 pessoas
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