quinta-feira, 22 de outubro de 2020

AS CASAS E MEUS OLHOS

As casas onde morei hoje vivem nos meus olhos

Meus irmãos deitados no beliche
falando da vida até alta madrugada
O cheiro do café de meu pai de manhã
A mãe fazendo almoço num dia de domingo
E mais tarde
Em Assis, na Rua Londrina
Violão junto à fogueira no campinho da moradia estudantil
Cantoria na cozinha
O prédio iluminado do outro lado do pasto
E mais tarde
Na rua Curitiba
Cerveja, e festa, e som
E eu achando impossível chegar aos quarenta
Quando aos vinte anos fui cometa
E mais tarde
Recém-casado
Uma casinha de dois cômodos que eu mesmo reformei
O João pulando do berço
A Sofia vestida de noiva voltando da festa junina
E então esta casa
E o entulho acumulado durante a jornada
Nos meus olhos não sou eu quem vê
São essas casas e seus mortos
Essas casas e os laços desfeitos
Essas casas e as esperanças que ficaram pelo caminho
Feito prédio assimétrico
Da ponta dos pés ao topo da cabeça
Sou inteiro as casas onde vivi
Deixei um pouco de mim em cada cômodo
Mas também trouxe comigo este cheiro de mofo e naftalina
As casas onde morei hoje vivem nos meus ombros
Mas não pesam
No fundo oco do tempo
Um pedreiro louco esculpe a escuridão
Para construir minha morada derradeira
Todas essas casas sobreviverão ao homem
Mas sempre haverá um menino pobre
Conversando com o irmão mais velho
Num beliche frágil
Madrugada adentro
A gente morre, mas a vida continua
A gente morre, mas as casas permanecem
Em estado de silêncio e sonho.

Nenhum comentário: