Vou chamar de Cristo, mas poderia chamar de Buda, ou Homem Sagrado. Afirmo, mas não digo que estou certo. Nada disso li nos livros, é só o estágio em que me encontro, ou a franja do Mistério que me foi revelada. A persistência no caminho pode me revelar novas faces, ou o contrário do que meu entendimento havia captado. Talvez tenha de rever amanhã, talvez não. O fato é que o Cristo não nasceu numa manjedoura e morreu numa cruz. Histórico ou mítico, trata-se de uma parábola doada à nossa compreensão. O nascer ou morrer do Cristo são possibilidades reais do nosso coração hoje. Quando estendo a mão ao caído, sou a manjedoura; quando julgo, a cruz. Todo ser humano é multidão. Há, em cada um de nós, enquanto potência, o mais nobre e o mais vil. Cristo, Judas e Barrabás; Mr. Hyde e Dr. Jerkill. Em termos orientais, a Iluminação não é um lugar a se alcançar. Não é uma finalidade, mas uma possibilidade que se abre a cada instante, a cada escolha. Daí a importância da meditação, daí a importância do vigiar. Quando atentos, percebemos quem escolhe em nós e podemos deixar a porção mais elevada, tal qual Krishna para Arjuna, conduzir a carruagem do Ser: re-ligar. Quando desatentos, preocupados, culpados, ou ansiosos, tal qual Otelo, fica fácil ouvir as intrigas do Iago interior. É tudo dentro, é tudo agora. O santo ou o canalha não habitam o futuro, são possibilidades deste instante. Até no modo como pago o café que acabei de tomar, posso ser um Deus ou um Demônio. Tudo depende da disponibilidade amorosa de meu coração
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
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