quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O CULTO DA VOVÓ


Lembro que foi na época em que o Chorão morreu. Vovó e eu assistíamos às reportagens na tevê e eu pensava que não estava muito distante do mesmo destino. Como o músico, estava separado e metendo as ventas. Um pé no abismo e o outro na casca de banana. Era questão de tempo. A vó, vivida, comerciante, ganhava tudo: "Meu filho, por que tu não vem ao culto comigo? Pela última vez". Pela última vez, vó? A velha já dava o óbito como certo😲 De medo, resolvi. E fui. A velhinha se ajoelhou no banco e chorou. Segurando minha mão. Quando estamos desandados e não temos, as emoções ficam à flor. Uma vez chorei vendo uns cachorros cruzar. Mas, enfim, lá estávamos nós; na Igreja. Eu, todo fodido por dentro, com aquela sensação de culpa. E aí chegou essa outra velhinha. Pediu que me abaixasse e começou a orar na minha cabeça. Senti um arrepio. Ela rezava, gritava, dava uns tapas, falava em línguas e contou toda a minha vida: desde o dia em que levei uma pedrada na cabeça na terceira série até o dia em que pulei, loucão, de cima do viaduto da Vila Carrão. Eu era um cara cético; mas, naquele dia, senti a visita do Espírito Santo. E aceitei internação. E consegui parar. E, de lá pra cá, nunca mais. Pois bem, hoje estava com meus filhos, tomando café na casa da vó, e, nem sei o porquê, relembrei aquele dia e o milagre que se deu. A vó começou a gargalhar. Riu até engasgar, até perder o fôlego, até os óculos caírem no chão. E foi então que confessou: "Foi tudo armado, malandro, agora que você está firme no caminho do Senhor, posso confessar. Marialice é a professora de teatro da Igreja. Contei tudo e combinei com ela de te dar um choque. Psicologia de vendedor. Tinha certeza que ia funcionar. Tu tava doido pra comprar a salvação. Só dei um empurrãozinho". Pense num cabra com cara de tonto! As amigas da vovó chamaram no portão e nós fomos juntos. Estava na hora de deixar meus filhos. Fiquei olhando aquelas velhinhas sapecas batendo bengala rumo à Igreja e pensei que o Maior age mesmo de modos misteriosos. Mas, como a ferrugem nunca dorme e o Diabo quando não vem manda office-boy, ao entrar no carro, vi um pino fechado, inteirinho, perdido no vão do meio fio. Fechei a porta e acelerei.

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