quinta-feira, 22 de outubro de 2020

INDIGNAÇÃO


Tudo aquilo que nos indigna é porque nos vemos refletidos. Dois casos: o desembargador e o guarda; o playboy e o motoboy. Se num momento nos identificamos com o lado mais fraco, ainda não é por isso que ficamos indignados; mas por sabermos que, no fundo, somos também os agressores. Vivemos numa sociedade que valoriza o ter, o mesmo motoboy que foi ofendido defendeu-se dizendo o que tinha e quanto ganhava. Não quebrou a corrente. Uma semana depois, era contratado contente para fazer publicidade de marcas poderosas. Além disso, muitas agressões posteriores ao morador de condomínio voltavam-se ao seu aspecto físico (o mesmo se deu com o desembargador). Chamaram-no de gordo, esquisito. Um tipo de comportamento que tem a mesma raiz que o racismo. A gente vive a vida alternando essas posições. O capital é como uma Hydra, corte-se-lhe uma cabeça e nascem-lhe duas. Com a campanha da Thammy, em uma semana, os donos da Natura ficaram alguns bilhões mais ricos. E Djamila Ribeiro foi capturada com seu lugar de fala e tudo para divulgar produtos voltados ao público preto. O sistema nos aprisiona pelo ego. Achamos o desembargador de Santos escroto, e de fato; mas todos valorizamos um título e não ouvimos a faxineira com o mesmo ouvido que abrimos ao Doutor. Se alguém vai abordar determinado assunto, só ouvimos depois da carteirada. Não escutamos primeiro as palavras, mas os títulos. Algumas vezes, a lista de títulos é mais longa que a fala. Então, o desembargador escroto é só um caso extremo de algo que é aceito, incentivado e louvado. Assim como acontece com o racismo, tal comportamento é estruturante e não caso individual, isolado. A sociedade inteira faz acepção de pessoas pelo que elas têm e não pelo que são. A sociedade inteira valoriza as pessoas pela posição social que alcançaram e não pela honestidade e firmeza de caráter. No fim das contas, o que nos revolta é nossa sombra mesma refletida.

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