quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O ESPELHO E A BESTA


De todas as invenções humanas, a mais perturbadora é o espelho. O espelho é o outro e sou eu. Tudo aquilo de bom ou de ruim que enxergo no outro, levo um pouco comigo. Quando condeno alguém à morte, imagino matar uma parte minha que não posso olhar. Não conheço sânscrito; portanto, se alguém me ofendesse em tal idioma, eu ficaria indiferente. Reconhecer a capacidade para fazer o mal, é o primeiro passo para se tornar melhor. Da tragédia grega ao terror pop; o mal só pode agir quando não é exposto à luz; reconhecido como mal. Nenhuma possibilidade humana está fora. O santo ou o monstro são destinos opostos; mas unicamente humanos. De um tigre, pode-se dizer tudo, menos que seja mau ou bom. Sidarta Gautama enfrentou Maya. Jesus Cristo foi tentado no deserto. É preciso, portanto, olhar o porão. O monstro tem um rosto banal. Poderia ser meu vizinho. Poderia ser... eu? Quando reconhecemos nossa capacidade para o mal - uma fechada no trânsito, uma visão política oposta - ficamos menos "moralistas", mais propensos ao perdão, apontamos menos o dedo; e, o que é melhor, podemos usar essa energia de um modo positivo como, por exemplo, Goya em suas pinturas mais sublimes. Só é bom, de fato, aquele que sabe que poderia ter sido mau.

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