quinta-feira, 22 de outubro de 2020

PSICANÁLISE, PSICOLOGIA E LITERATURA


A neurose aponta para um referencial. Daí a necessidade de descascar a cebola até encontrar aquilo que o neurótico esconde. A esquizofrenia joga chaves. Enquanto a primeira é fechada, a segunda é aberta; conecta-se ao lego do mundo. Poe, em A carta roubada, mostra que o melhor modo de ocultar uma carta é deixá-la sobre a mesa. Para Borges, o melhor lugar para esconder um livro é a biblioteca. Às vezes, a metáfora não encobre, ela é o segredo. Às vezes, o nonsense ultrapassa a metáfora. A neurose é irmã da alegoria. Na alegoria, o significante aponta para um único significado. É decifrável. No nonsense, o significante aponta para o indecifrável: à abertura do mundo; pode ser isso, sim, mas pode também ser outra coisa, desde que a conjunção construa sentido: Campos de Carvalho, Murilo Rubião! Já não se trata de interpretar, mas de copular; conjugar um corpo ao outro para criar potência. Então, há entre a psi e a crítica literária esta paridade. A psicanálise também decifra a literatura neurótica; mas nada pode ante o delírio. Para o delírio poético, é necessária uma crítica que não reduza o texto, mas o multiplique. Uma crítica criadora e não interpretativa. O crítico como artista da Arte. Enquanto o poeta é o artista da loucura. A coragem capaz de arriscar a própria lucidez em busca de um dizer. Quem pode atravessar tantas vezes este umbral sem se esfarelar?
R: Aquele que faz de Deus os seus sapatos.

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