sábado, 15 de dezembro de 2018

A ALMA QUE DEUS BEIJOU NA BOCA


Era um filhote de porco espinho parecido com todos os outros.
Só que sua pele,
Feito manto de Deusa-mãe,
Fora vestida ao avesso.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Visões de Dó


Menino ainda, achava meu pai parecido com o incrível Hulk.
Não quando estava verde e forte,
Mas depois,
Quando ia embora:
Cabeça baixa, olhar piedoso
E era apenas um homem,
Caminhando rumo ao desconhecido.

HERANÇA


Quero falar de coisas que, sendo idadosas, são ainda novas:
Velho com chapéu de jornal,
Madeira marcada,
Carro de boi de brinquedo,
Uma canção da jovem guarda;
A senhora que cultiva orquídeas e tranças:
- Tu és moço tão belo, vou dar-te um bezerrinho – ela diz.

Ser é acumular:
O bebê acumula pai, avô e tataravô.
O velho acumula a criança, o jovem e o homem.
Tudo é novo e velho ao mesmo tempo.
Desmontada a matrioshka, nosso destino não é a cova,
Mas a erva e o coração daqueles que cantam.

sábado, 8 de dezembro de 2018

FEITIÇO


A força não é ausência de delicadeza:
Vê como a tigresa lambe a cria,
Enquanto a amamenta.
A delicadeza não é ausência de força:
Contra a densidade do concreto,
Uma roseira abre fissuras,
Na travessia de pedestres do viaduto da China.
Quem conhece sua força
E, ainda assim, preserva a delicadeza imanente,
Descobre em si macho e fêmea
E tanto pode ir à guerra,
Quanto pode cuidar da cria.
Torna-se, portanto, a Fêmea do sol;
O Senhor da lua,
CAVALO:
Encantador dos dias.

domingo, 2 de dezembro de 2018

DE TUDO O QUE ACONTECE

(Sobre amizade e amor)
De tudo o que aconteceu,
Não me lembro mais de uma briga!
Ficou a lembrança de comermos da mesma panela,
De bebermos do mesmo copo.
O vinil rodando sem parar, acariciado pela agulha,
Os instrumentos espalhados pela casa,
Livros sobre as camas.
No final, o que fica é a amizade,
Vontade de cantar junto de novo ao redor da fogueira
No campinho da moradia.
De tudo o que acontece:
As brigas, palavras rudes, louça suja,
Chagas guardadas, enroladas em jornais antigos, na gaveta da pia;
O que vai ficar, quando um de nós se for, amor: o Amor.
Essa vontade de caminhar ao lado,
Dividindo a jornada da vida.
No final, as alfinetadas cotidianas, o chuveiro queimado, as contas atrasadas,
Viram pó.
Fica a lembrança do dia em que nos conhecemos.
E o velhinho ou velhinha que ficar só no mundo,
Mal saberá dar o nó dos próprios cadarços.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

LUTO 2 - O LIVRO DE JÓ



Até ontem, participava de uma corrente indicando alguns livros. Procurei me ater a um único gênero, o romance e, ainda assim, muitos grandes romances ficaram de fora. Fiquei pensando então: se pudesse indicar a alguém um único livro, qual seria? Resposta: a Bíblia, sem dúvida (nem mesmo o Tao Te Ching). A mesma Bíblia que Dostoievski leu e releu inúmeras vezes nos dez anos em que esteve na Sibéria. E, se homens imensos, como Nietzsche e Cioran, criticaram-na, principalmente O novo testamento, é porque estavam entranhados demais daqueles textos, precisavam diminuí-los dentro de si para construírem a própria obra. A gente percebe assim, fácil, a diferença entre a grandeza de Nietzsche e a pequenez dos nietzschianos; bem como podemos perceber a diferença entre Jesus Cristo e aqueles que se dizem cristãos. O grande problema da Bíblia é que ela é poesia e a maioria das pessoas a leem como se fosse um jornal. Do ponto de vista de uma sensibilidade poética - nem sequer falo de religião -, não há narrativa mais bonita que a do menino pobre, filho de carpinteiro, que nasceu em uma manjedoura, provindo de uma espécie de gueto, de favela, de periferia e que, sem ir muito longe, sem ter tido instrução formal, se tornou o maior homem do mundo. 
Por outro lado, há livros na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento, que também me deixam incomodado. Não consigo conceber um Deus ciumento, capaz de exigir o filho único de um pai, de mandar seus filhos para o fogo pela sua desobediência. Se eu, que sou um ser completamente imperfeito, jamais abandonaria um filho, como a Perfeição poderia fazê-lo? Como ainda ontem falava de luto, lembrei-me de um livro que, desde menino, deixava-me indignado, o livro de Jó. De que modo pode um Deus amoroso, do alto de sua grandeza, cair numa provocação tão corriqueira? E, mais, como pode um Deus amoroso brincar assim com o destino humano? Como pode um Deus ter um EGO tão grande? E, o pior de tudo, como pode um Deus amoroso desconhecer qualquer coisa de psicologia? Do próprio coração humano? Está escrito: “Depois que Jó orou por seus amigos, o Senhor o tornou novamente próspero e lhe deu em dobro tudo o que tinha antes”. Está escrito ainda que Jó teve mais sete filhos e três filhas e é exatamente aí que eu me pego. Primeiro porque as filhas e filhos são mencionados como se fossem patrimônio; e, segundo – aqui a questão do luto – os novos filhos eram outros! E cada ser é insubstituível! Como disse ontem, no luto queremos ser fiéis aos que se foram... Pode ser que, naquela época, os costumes fossem outros; mas o amor é atemporal - não creio na ideia pós-moderna de que o amor é um constructo do Romantismo... Pode ser que a pequenez do meu entendimento prejudique minha leitura; todavia, para mim, em tal passagem bíblica, quem é grande não é Deus nem o Diabo, mas sim Jó, o humano Jó.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O pai


Essa coisa de ser estranho atrapaia a gente um bocado no começo. Lembro que, uma vez, fui num show da Legião Urbana com meu irmão mais velho e uns amigos. Quando saímos, eles estavam diferentes, emocionados, os semblantes diferentes, um misto de euforia e, ao mesmo tempo, já nostalgia pelo show findado. “Que diacho!  – pensei  - As pessoas normais precisam do show pra sentir isso; eu vivo assim o tempo inteiro!” Antes disso, nos fim dos anos 80, meu pai era cobrador de ônibus da CMTC. Eu tinha uma vontade danada de cuidar dele, de dar presente. Ele tinha uma bolsa de couro parecida com aquela do Patropi, na qual carregava a marmita. Lembro do pai indo trabalhar, achava que ele caminhava meio triste. Ele tinha tido um bom salário como mecânico na Mercedes Benz, do Brasil; mas foi mandado embora por causa das greves do final dos anos 70 e não conseguia mais arranjar um bom emprego. Ficou marcado. Meu pai é daqueles que você quebra o pescoço dele, mas ele não enverga. Estava junto quando fundaram o PT, tomou até rabo de galo com o Lula. A mãe conta que tinha medo de ele ser preso. Sim, voltando, eu ficava olhando meu pai ir trabalhar e achava ele parecido com Dr. David Banner, o incrível Hulk depois que se destransformava. Assim que passava a ira, o herói era um homem comum, com um olhar triste, indo embora. Todo episódio terminava assim e eu via ali o meu pai. Logo que perdeu o emprego por causa da greve, ficou com a carteira suja, como diziam... Então ele, meu velho, ia até o Brás e comprava umas roupas para revender. Não dava muito certo. Ele tomava calotes. Não sabia cobrar as pessoas. Uma vez, foi levar umas costuras que minha mãe pegava pra fazer em casa e, quando voltou, perdeu todo o dinheiro. Nós iríamos comer uns bifes aquele dia. A mãe já estava com tudo preparado. Eu era neném ainda. A mãe me contou tempos depois. Teimoso e atrapalhado, mas que coração! Até hoje tem a mania de querer ajudar os outros. Quando conseguiu comprar um terreno e construir, fez uma edícula nos fundos pro povo que vinha de Minas ir se ajeitando. Ficaram por lá todos os irmãos da minha mãe, um bocado de primos; no total, umas vinte pessoas passaram pela casa ao longo do tempo. Ele nunca cobrou um centavo de ninguém. Uma vez, quando minha mãe estava grávida de mim, o pai pegou um mendigo, deu banho, alimentou e colocou dentro de casa. Pra você ter uma ideia da índole dele. Não é porque é meu pai, não. Ele se chama João, como meu filho, mas o apelido até hoje é Dó, porque tinha dó de todo mundo. Como éramos muito católicos, eu queria ser padre pra dar essa alegria aos meus pais. Talvez fosse esse o melhor presente que eu podia dar; mas, um dia, encontrei uns restos de uma revista pornográfica num terreno baldio e aí danou-se... O corpo perdeu a inocência. Aos domingos, depois do almoço, o pai colocava os discos do Roberto Carlos pra tocar na vitrola e ficava quieto, sentindo, organizando as coisas que andavam dentro dele. Eu ficava por perto observando e sofrendo junto com aquelas canções tão tristes.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

LUTO - 1



Há em todo luto um aspecto ligado à fidelidade. Quando estamos em luto, não nos permitimos ser felizes; pois, como podemos ser felizes se o ser amado morreu? Temos de morrer um pouco juntos pra provar amor, pra não abandonar aquele que amamos à própria sorte, rumo à Noite. Se uma canção nos faz feliz, trocamos de estação; o ser amado não pode ouvi-la; como podemos nos permitir? O momento agora é de sofrer até o fundo pra estar à altura daquele que desapareceu. O paladar perde o gosto, a pele perde o tato, o olho perde o prazer da cor. 
Sofrer por aquele que se foi é um modo de dizer ao morto que ele não está sozinho e que ele, apesar de haver tantos outros, é único: ESPECIAL. E o pior que se pode dizer ao menino que perdeu a gatinha é:
- Não chore, a gente arranja outra. – Ele vai chorar ainda mais, vai se indignar. A outra não é aquela e ele quer ser fiel à que se foi; como poderia trocá-la por outra justo agora, quando ela mais precisa? Sofrer pela gata morta é um modo de mantê-la viva e de acompanhá-la um pouco morte adentro. Na maioria das vezes, somos seres fiéis, só que doidos. Aqui, no lado pobre da cidade, havia uma mulher, esposa do dono da mercearia, que ficava com muitos homens quando o marido era vivo. Ela parecia não ter a menor consideração. O coitado vivia com o chifre inflamado, ouvindo canções do Fagner, do Christian e Ralph. Depois que ele, o marido, morreu, no entanto, ela disparou a frequentar a igreja, tornou-se beata. Terminou todos os casos. Ninguém nunca mais soube de namorico seu. Ao morto ela foi uma esposa fiel como nenhuma outra😱.
A meditação, pra mim, NÃO é um modo de me tornar morno, de ficar indiferente, de já estar morto quando a morte chegar; pelo contrário, é um meio de sentir tudo com mais atenção, com mais plenitude. E se a vida é pra doer, deixa ela doer! Se é pra gozar, deixa ela gozar! Assim, quando a morte vier, vai ficar espantada:
- Está aqui um cabra que vale à pena levar. Ele esteve consciente de tudo o que viveu! – Isso aí é ela quem vai dizer, a Dama-com-cara-de-caveira-levando-uma-foice-numa-mão-e -uma-ampulheta-na-outra.
Provavelmente, meu caixão, neste dia, vai ser pesado e os amigos vão beber à beça e contarão histórias das minhas presepadas: “E daquela vez que ele foi comprar um cabrito e voltou bêbo com um cachorro sarnento!”... "E daquela vez que..." Vou logo dizendo, eu quero é festa.
Mas, se o assunto era luto, por que foi que eu falei de meditação mesmo, hein?

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

REFORMAR UMA CASA SE LIMITA COM CURAR FERIDAS.


REFORMAR UMA CASA SE LIMITA COM CURAR FERIDAS.
Se da casa retiramos o reboco mofado,
Das feridas arrancamos as cascas.
Se lixamos as paredes e passamos massa fina antes de nova camada de tinta,
Das feridas limpamos o pus.
E se me dói na carne o mertiolate, quanto não doeria no concreto a desempenadeira?
Uma pele sem rugas e cicatrizes tem pouca profundidade.
Uma parede lisa não foi ainda morada humana.

Ontem sonhei que era, ao mesmo tempo, a casa em reforma
E o pedreiro sobre o andaime.
Tudo em mim, neste instante, se reconstrói de modo espiritual.
A casa se faz templo.
As coisas que me dilaceraram,
Fizeram-me mudar de endereço.
Hoje sou uma casa melhor para aqueles que precisam de abrigo.
Todas as portas e janelas estão abertas;
Entrai.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

E UM CHAPÉU DE CAUBÓI PARA O FILHO COBRIR O CORAÇÃO

Então este é o mundo que deixaremos nas mãos de nossos filhos?
Uma granada com pino puxado?
Um sapato furado? Laços rasgados?
Uma arma de grosso calibre para atirar no peito de seu irmão?
A pressão por ter mais; porque, pensamos, quem mais tem, mais é?
Ao diabo com metas e reformas!
Eu gosto é de gente!
No jardim do tempo, a velha tecelã cultiva uma roseira.
Entre as pétalas escorre uma água grossa
Meio orvalho, meio lágrima...
É Noite escura? Aurora de quê? Manhã sem nada?
Não é o futuro, mas o passado o que vem pela frente.
Então esta é a teia que tecemos?
Chumbo ao invés de afeto?
Disputa contra ciranda?
E o que se pode esperar de motoristas que não dão seta?
Estou cansado de tanta burrice & maldade & covardia.
(ONDE FOI QUE TUDO DEU ERRADO?)
As crianças já não saem de casa,
mas compramos jogos novos
& um chapéu de caubói para o filho cobrir o coração...
No enterro do melhor amigo.
De fato, é um mundo muito louco.

Há um menino novo no bairro.

sábado, 3 de novembro de 2018

E AS CRIANÇAS TRAZEM FLORES NOS CABELOS


canção para os nossos filhos
O mundo desmorona lá fora.
Não há paz na noite incendiada.
Da parte baixa da ampulheta, a areia evapora,
segue solta o caminho de volta.
Em um dia, recuamos cinquenta anos.
Em uma noite, ressuscitamos com carne crua os pterodáctilos.
Agora,
A História se dissolve.
A aula-comunhão é punida.
A Poesia é vigiada.
A Arte é combatida feito crime, menino.
Pelas ruas, coturnos engraxados perseguem os invisíveis
E os mais sensíveis sentem o corpo em carne viva.
Dos bueiros, sobe um cheiro estranho:
um quarto osso, um quarto cadáver;
um quarto medo, um quarto terror.
A tudo aquilo que é belo e bom, os loucos de Cristo respondem com a morte!
(Quando uma ovelha assim se assusta, todo o rebanho morre do coração.)
A tudo aquilo que cuida e crê, o louco eleito responde com a pólvora.
(Quando um lobo assim mostra as presas, toda a alcateia se lança sobre a carne tenra.)
A noite incendiada lambe suas feridas.
Cada estrela, um furo cego no lençol do céu.
Pelas costeletas do fascista - enquanto ele devora um delicado - como se fossem lágrimas do carpinteiro - escorrem gotas coloridas de suor.
Que foi feito de tudo o que disse aquele que andava entre putas e leprosos?
Neste teatro absurdo, não contamos com nenhum Deus ex-machina.
Como um machado, ergo o Amor sobre a cabeça
E desfiro um golpe no coração do meu inimigo.
Do peito dilacerado, brota uma cor avermelhada,
que tinge o céu e as nuvens feito o sol ao amanhecer
no tempo em que ainda existia sol e manhã.

Ao redor do fogo,
Reúno-me aos meus iguais para cantar as cantigas do sal.
E nossas crianças trazem flores nos cabelos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

AUTOPSICOGRAFIA - 2


Palavras abrem caminhos.
O poeta joga as chaves
Cabe àqueles que o leem
Encontrarem as portas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O sol e a alma


O Mal puro existe; mas, assim como o Bem puro, ele é raro. O que existe mais é confusão e ignorância e isso acaba quase sempre em más ações, executadas por autômatos espirituais: Eichmann e seu desejo de realizar algo importante, de ser reconhecido, de fazer seu trabalho de modo organizado e eficiente, ainda que seu trabalho fosse o assassinato. Quando nos colocamos numa perspectiva de compreensão, reconhecendo o caminho do outro, suas dores e anseios, o modo como se organiza, abrimos uma fissura para a luz. Nossa relação com esse outro, a partir daí, torna-se mais harmoniosa. Mas isso é difícil porque o eu-egoico grita o tempo inteiro, cheio de seus próprios pré-conceitos, desejos e necessidades inventadas. No espírito onde quem comanda é esse poço sem fundo, não há espaço para o outro. Toda energia é gasta com o intuito de satisfazer as próprias necessidades; quando, na verdade, nossas necessidades reais são bem poucas. Acontece que esse tal eu-egoico, não é a totalidade do ser. Quando observamos nossos desejos, nosso eu, nossa mente barulhenta, essa gana doida de ter razão, percebemos que tudo isso é completamente oco, não tem qualquer substância; penetramos então no silêncio, não há mais desejos-autoengendrados: a luz nos atravessa travestida de alegria. É desse lugar que recebemos o outro e é prazeroso e é bom. “Que eu procure mais compreender que ser compreendido”; porque aquele que quer compreender alcançou um passo à frente no caminho, observou seu processo de individuação e percebeu que, no mundo das formas, tudo é instável e que, no fundo da alma, está o indiferenciado: o Uno do qual todos viemos, para o qual todos vamos, o qual todos somos agora. Os conflitos tendem a se dissolver quando alguém ousa se colocar em posição de receber, porque há aí uma força poderosa, meio feminina-maternal, agindo: a agressão se dilui, o diálogo floresce, nasce a amizade.
O sol ilumina porque nasce do fogo e não porque espera reconhecimento. O sol não tem desejos. Quando brilha o sol no fundo da alma, estamos plenos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

NEON VERMELHO

“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente.” Gênesis 2:7

O recém-nascido cria o que encontra
Antes mesmo de criar o seio
O bebê precisa criar o ar
E se o leite jorra porque a mãe coloca o seio num lugar onde a criança o possa inventar
Quem maneja o fole e disponibiliza o sopro
Que
Alimenta as ventas,
Movimenta a laringe,
Ilumina os pulmões?
De onde vem a habilidade criativa da vida para cuidar de si mesma?

Todas as coisas fluem em harmonia, meus manos.
Na maioria das vezes, o esforço é a medida do erro.

domingo, 21 de outubro de 2018

O trem de São Miguel


E quando eles bullyinam,
Dizendo que você nasceu para ser o segundo colocado,
Você retruca que nunca viu a vida como corrida, mas como magia.
E da cartola puxa um buquê de alegria.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Aquilo que Pelé disse


Há no Amor uma espistemologia, a mais poderosa de todas, aquela que destrói os limites entre sujeito e objeto. É no amor e não no intelecto que entendemos as coisas, porque o Amor mais une que separa e, unido ao outro; percebendo que, por mais diversos que sejamos, a luz que ilumina nossos olhos vem da mesma fogueira, como poderemos ser ainda egoístas, como poderemos ainda esfaquear a mulher? Atirar no vizinho? Maldade é ignorância, amar e mudar as coisas me interessa mais. Onde penetra a luz do sol, as trevas fogem. Onde chega o conhecimento, afugentam-se os sentimentos sombrios: a inveja, o medo, o ciúme, a depressão; mas o conhecimento nunca é o conhecimento do intelecto, e sim o do coração. Disse a raposa ao principezinho: “A gente só conhece bem as coisas que cativou”. Amar um cão, um gato, uma rosa, uma árvore. Amar a vida e o mundo como Deus amou, dando seu filho unigênito. Não importa se a gente crê ou não nessa história. Também se aprende muito com a ficção. São Paulo de novo:
“O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor”.
Somos ainda como meninos, com nosso amor deficiente, ainda meio apegado, vendo a imagem invertida da verdade, imaginando-nos separados. Mas haverá o tempo, que chega talvez com a morte sábia, em que compreenderemos tudo com o Amor transbordante de cuidado, com o Amor que é Deus. E assim como esse Amor nos conhece no mais profundo do nosso ser, nós o conheceremos. Os puros de coração verão a Deus, face a face.  Nossa alma será uma com Deus, mas sem deixar ainda de ser a nossa alma; como uma gota que se perdesse no Oceano, mas sem deixar de ser gota. Deus se dá inteiro em todas as coisas. Se pudéssemos ver a face de um elétron, essa seria a face de Deus. Se pudéssemos ver o Universo inteiro, veríamos a face de Deus. Se víssemos o Vazio, ainda assim lá Deus estaria. O excremento aduba e mesmo no cadáver nasce o verme. A gente pode quebrar uma rocha em milhares de pedaços, mas a essência da rocha nunca se desintegra, sempre se recolhe inteira em pedras menores. Quando amamos a ponto de esquecer nossos interesses, é Deus quem ama em nós. 



terça-feira, 2 de outubro de 2018

O DIABO PODE SER UM BOM PADEIRO


No fim das contas, o Diabo pode ser um bom padeiro; ainda que seu pão seja duro, amargo, difícil de engolir. Comer o pão que o Diabo amassou é sofrer e ninguém passa por essa vida sem se despedaçar de vez em quando. O sofrimento nos torna verticais, nos dá profundidade; alma. Não que eu faça apologia do sofrimento. Não é o caso de sair cometendo autoflagelo, mas de aceitar a alegria quando ela vier e aproveitar o que a dor ensina quando ela chegar. A alma, é preciso merecê-la e tudo depende do que fazemos com nossas dores, machucados, frustrações. Aquilo que arde pode se tornar um jardim ou um assassinato. É a alquimia, o destino que damos ao que nos acontece que diz quem somos... Será que podemos transformar a dor de ser deixado numa canção de despedida? Ou permitiremos que tal dor nos torne desconfiados, ciumentos, possessivos? Numa entrevista, Gilberto Gil disse que não gostava do que ele era na época do tropicalismo; que não gostava de ser polêmico, combativo. Hoje, depois das separações, de perder um filho, ele se considera um indivíduo muito mais íntegro. Quando atravessamos um grande sofrimento, deixamos de perder tempo com ninharias, intriguinhas etc e tals... Aprendemos a lição de que a vida é algo muito maior. Perder um filho! Há no mundo sofrimento maior? E o que é um chefe rabugento diante de alguém que perdeu o filho? Uma bobagem, não é mesmo? No filme Árvore da vida, Terrence Malick aborda de forma magistral o processo do luto, da fé como caldeirão no processo de sublimação desse sentimento confuso e doloroso. Depois de perder o filho, a mulher reza, ora, pede, busca entender, destinar sua dor. Deus não age com palavras, mas com sopros. Ele fica silencioso, até que um dia acontece a graça, ela entrega, o vento alivia a chaga, transforma sua ferida em mais carinho. No fim das contas, é o frágil quem é forte. Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Para os sábios chineses, a vida era um revezamento de Yin e Yang e a sabedoria consistiria em não ficarmos eufóricos nos tempos de bonança, nem deprimidos no tempo de escassez. A alquimia não trata de transformar o bronze em ouro; mas de transformar a raiva, a dor, a angústia, em amor, o mais puro amor. “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor eu nada seria.”

domingo, 30 de setembro de 2018

O CAMINHO DO EREMITA


Quando eu for velho e sábio,
Quero me lembrar das agruras da vida com um sorriso nos lábios;
A vontade de competir, que me impele à batalha, já não será um fardo,
E vou olhar a vida sabendo que ela é o caminho e não o pódio.
Quando eu for velho e sábio,
Vou me lembrar do ímpeto da juventude,
E cultivar uma orquídea em homenagem a cada mulher que amei.
Meu sexo será calmo e escasso,
E, por isso mesmo, celebrado como a vitória sobre um vício.
Quando eu for velho e sábio,
Quero crianças por perto,
Pedindo doces, fazendo barulho, roubando a paz...
Quero ler textos sagrados, cultivar barba branca e adquirir lanterna e bastão.
Quando eu for velho e sábio,
Minha voz terá um tom mais suave,
E as paixões serão flexíveis como um broto de bambu.
Quando eu for velho e sábio,
Quero me despedir da vida como o som de um grande sino:
Suave, lento, distante, gradual, sincero, ondulante.
No fim, indiscernível do silêncio.
Quando eu for velho e sábio,
Vou encarar a morte como uma longa noite de sono,
E olhar meu corpo flácido como última cela
Para afectos, perceptos e ideias que agora vão morar em outros corações.

A FRUSTRAÇÃO É SOLO FÉRTIL PARA O FASCISMO.

Não deixe, meu irmão, que tua dor te torne cruel! E por que te digo isso? Porque a dor e, ainda mais que a dor a frustração, é um solo fértil ao fascismo. Onde Hitler prosperou? Na Alemanha frustrada por ter perdido a primeira grande guerra. Vejo o quanto anda frustrada minha gente por meio de sua capacidade de odiar; e não é necessariamente odiar o diferente; mas odiar, principalmente, o que gostaríamos de ter sido e não conseguimos. “Se não posso ser livre, que todos sejam algemados!” Então, a beata que arrasta por trinta anos um casamento fracassado, quer destruir a menina que distribui amor pelo caminho; odeia sua liberdade e, embora tenha casado grávida, discursa sobre a moral e os bons costumes! O pai de família que gostava de um rapaz, mas teve de abrir mão de seu grande amor para se tornar um homem de bem, quer matar os rapazes que andam de mãos dadas pelas ruas - certa feita, esses rapazes eram pai e filho. Pela moral e os bons costumes! O advogado pobre que queria ter sua opinião respeitada pelos homens poderosos, almeja o extermínio dos favelados; porque foi de lá que ele veio, porque aquele favelado é ele, é como ele se sente diante dos poderosos e dos pobres que conhecem sua origem e não reconhecem sua extrema sabedoria. Pela moral etc... É triste ser subgerente por toda a vida! Se o diferente ofende; o igual que teve coragem de encarar o mundo para ter a própria vida nas mãos, ofende mais ainda. Todos perdemos algo pelo caminho e doi. É uma delícia esconder-se, mas é uma tragédia não ser encontrado. E como ninguém reconhece nossa pereba, almejamos espalhar violência pelo caminho: vingança. Tornamo-nos, sem perceber, um monstro! Bob Marley nos diz em uma de suas canções: “Se você fica mal e briga todo o dia / Você está fazendo preces ao diabo / Por que não ajudar uns aos outros no caminho? / Torne isso mais fácil / Só um pouquinho mais fácil.” Mas, é claro, Bob Marley era só mais um maconheiro safado, então é mais fácil fazer como o cara da piada: “Certa vez, um homem encontrou um gênio, desses de lâmpada, e o gênio disse: “Concedo-te um desejo, mas tudo o que tiveres, teu vizinho terá em dobro!” Então, depois de muito pensar, o homem pediu: “Corta-me então uma perna!😱
É pelos afetos que nos manipulam. Ainda podemos deter nossa ânsia de destruição. O primeiro passo é reconhecê-la.
And Jah love protect us!


sábado, 29 de setembro de 2018

ORAÇÃO POLÍTICA

Senhor, 
Fazei com que minha ânsia de compreender seja maior que a vontade de revidar.
Onde houver violência, que eu abra uma janela para conversar com o vizinho.
Onde houver treva, que eu acenda uma lâmpada ou risque um fósforo.
Onde houver desejo de morte, que eu acalante o recém-nascido.
Não tenho medo de morrer, Senhor; mas sinto pavor de matar.
Que a compaixão e o destino comum sejam maiores que as crateras
Que me separam de meus irmãos.
E que nenhum manipulador me faça estender o punho contra meu semelhante.
Amém!


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

PROXIMIDADE


É tolo quem imagina enganar uma criança.
Os miúdos não precisam das palavras,
Pois têm acesso direto aos segredos.
(Respiram inconfidências)
Sabem o divórcio antes mesmo dos pais.
E por sentirem tudo de tão densa maneira.
São os que mais sofrem com a ruptura:
Abismo em frente ao velocípede.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

DA NECESSIDADE DE PURIFICAÇÃO DOS SENTIDOS

Entre o carteiro e o poeta
A única diferença é a camiseta amarela.
Não sou eu que escrevo.
É Deus, disfarçado de circunstâncias,
Quem escreve através de mim.
E Ele não entra em casa suja.


A LENDA DA MARIA FUMAÇA

(Para Leandro Mendes, que me disse: "o ser é feminino na maria fumaça").
Sobre a Maria Fumaça, dizem que foi princesa de uma tribo moçambicana trazida como escrava para o Brasil. Certa noite, o Coronel Dito Simões, dono da fazenda, encantado pela beleza da negra, tentou devorá-la à força; mas a moça, por ter sangue guerreiro, resistiu e conseguiu fugir do vale rumo à serra; onde, até hoje, já envelhecida, a cabeça branca, vive sozinha, tendo por companhia um cachimbo e o fumo que faz lembrar distâncias. No entanto, nas noites em que a Lua se faz grande, ela rejuvenesce, bufa, vira máquina, e torna a correr, descendo a serra, rumo ao mar, com a esperança de poder voltar ao lugar a que sempre pertenceu.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

AULA DE SINTAXE

É um trem libertador,
Descobrir que ser é verbo intransitivo.
E que não há necessidade de ser isso, aquilo, ou aquiloutro.
Basta estar presente,
Que o amor nos preenche, 
Disfarçado de sopro.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

(Who knows when we shall meet again? / If ever – Alan Parsons)

Penso em uma mesa de pingue-pongue. 
Um jogador é o passado;
O outro, o futuro.
A bolinha: o agora.
Se por um lado o passado determina o futuro;
Por outro, o futuro conduz o agora.
Um tanto escolha, outro tanto destino.
O fado flui, o ser flutua.
A menor distância entre dois pontos é sempre um círculo.

domingo, 16 de setembro de 2018

A ÚNICA NOVIDADE É O SOL


Você se esforça por fazer o mundo à sua imagem e semelhança:
Crê que seu candidato tem as melhores propostas,
Que o seu time é o melhor,
Que sua arte é a SUBLIME,
Que seu modo de vida é o correto,
Que o seu ego vai migrar ao Paraíso,
Que sua verdade é a Verdade.
Tudo estaria bem,
Se os outros sete bilhões de habitantes não pensassem o mesmo.
Você se deprime.
Por que os outros não seguem suas instruções?
Por que, afinal, eles todos não se anulam se você está certo?
Por muito tempo eu também me esforcei por ser alguém,
Mas só criei crostas no coração.
Agora me esforço por ser ninguém.
É mais divertido.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A BRAQUIÁRIA ESTÁ FLORINDO


Um homem sem expectativa não pode ser decepcionado.
Sem desejo, não há fracasso.
Quando o galo cantar, toma-o por maestro:
Cucurucá!
Se já temos a vida, que mais se pode almejar?
Vazar na braquiária, talvez.
O caminho já é o destino.
A travessia, a meta.
Desapego.

No fio, o pássaro espera a chuva passar.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

MEU AMIGO, O COQUEIRO

Habita em mim uma bondade erótica.
Desejo de partilhar a paz-manhã depois do amor.
Por outro lado,
Na periferia da pele,
Em casas sem reboco,
Pululam habitantes indesejados:
O ódio, a inveja, o Medo, a dor.
Como acolhê-los? Aceitá-los?
Construir pequenas casas para seus fantasmas?
Se fosse anjo, estaria íntegro no Bem;
Se demônio fosse, no Mal me refestelaria,
Mas ser humano é ser dúbio
E aceitar que eu também preciso de mimo,
Que eu também almejo ser compreendido.
No deserto, grito e não me ouvem.

domingo, 9 de setembro de 2018

ELA ERA GÓTICA

Isto se deu mês passado, no Guarujá. Fazia frio, eu tinha acordado cedo e fui caminhar na praia, enquanto a família dormia na pousada. Havia a areia branca e o mar azul. Surfistas se preparavam para enfrentar as ondas, enquanto outros já se encontravam em atividade avançada. Como é que os surfistas fazem para flutuar tão bem? É quase um milagre atravessar a vida assim, deslizando; sem oferecer resistência ao destino. 
De uma lado da realidade estava eu; e, do outro, ela. O vento soprava forte. Ela era magra, baixa, branca-branca, jovem, cabelos curtos, moletom preto e óculos escuros. Assim como eu, tentava entender os surfistas e os invejava. Se eu, por meu lado, caminhava descalço; ela enfiava as pontas dos dedos na areia, ali onde a água ainda molhava. Nossos rostos se cruzaram, assustados com a densidade da manhã:
- Um cadáver me contou, certa vez, que sentia cócegas com o trabalho dos vermes na sua carne, logo de manhã... – Juro por Deus que ela disse isso aí, quando fiquei um pouco mais longe.
Ela era gótica e eu estava velho.

MAL SECRETO


(Para Dolores O´Riordan)
Dizem que toda menina é uma máscara da água
E que, quando uma menina fica triste,
A água oferece seu colo como consolo.
Eu vejo você caminhar entre borboletas coloridas:
Crisálida ao contrário,
Interrogação tatuada na face da jornada.
Eu vejo seus cabelos curtos...
O lápis nas órbitas dos olhos...
Os coturnos...
Penso que espera, sei que almeja o fim das dores, Dolores.
A vida. A vida esconde a Maravilha depois do Inferno
E muitos se afogam durante a travessia.
Aquilo que nos tornamos algumas décadas depois
Não foi o projeto da nossa infância...
Você sabe: eu sonhei ser trapezista.
Dizem que é apenas minha imaginação,
mas a menina já não está;
Como não estão mil outras meninas a cada manhã.
Hoje estou triste,
Deve ser o tempo
Quero ver a criança brincar.

sábado, 8 de setembro de 2018

Avalokiteshvara


Há demasiada semelhança entre a vespa e o poeta.
Enquanto a primeira, seduzida pela orquídea, recolhe o pólen
Que origina nova flor
O segundo, seduzido pelo olhar, recolhe a vida
Que origina novo afecto
E o mundo já não será o mesmo.

sábado, 18 de agosto de 2018

MÉNAGE À TROIS CP. 22


 Acordei alegre e, para corroborar tal afeto, espinosanamente, procurei outros corpos que me aumentassem a potência, a força de agir. Antes, porém, resolvi cuidar de mim. A vaidade é um dos meus defeitos, reconheço. Saí cedo de casa. O Caçador estava lá. Como eu estava contente, encarei-o. Se ele portava armas, não demonstrou. Cumprimentou-me tirando o chapéu e mostrando a careca. Retribuí ao aceno e segui meu caminho rumo ao barbeiro. Eu pintaria o cabelo, uma cor elegante: acaju e, mais, tinha deixado o bigode também e agora o tingiria da mesma cor. Paraíba, meu barbeiro, um senhor de setenta e tantos anos que passara a vida inteira pecando e agora tinha se convertido à Igreja Universal do Reino de Deus, advertiu:
            - Rapaz, tu és doido. Acho que num fica bom não, hein, macho, pintar o cabelo assim... de acaju.
            - Paraíba, vê se faz aí umas mechas ao menos. Tenho duas namoradas e uma delas tem vinte e poucos anos. Não posso ficar junto delas com os cabelos brancos, parecendo o Papai Noel.
            - Que é isso, macho? Duas?
            - Pois é, meu amigo, mamãe passou açúcar em mim.
            - Nos meus bons tempos, eu tinha umas cinco, mas nenhuma sabia da outra, num sabe? Depois aceitei Jesus... Acho que tu devias fazer o mesmo. A gente não sabe quando o Cristo vai voltar. O reino dos céus vai vir que nem um ladrão na noite.
            - Mas, Paraíba, meu amigo, com todo respeito. Se no céu só tiver crente, meu irmão, melhor nem ir pra lá. Já imaginou o povo o dia inteiro cantando: “para nosssssa alegria!” Dá não, meu velho.
            Ele riu, enquanto besuntava os meus cabelos com a tinta.
            - Mas me diga aí, seu cabra, você dorme com as duas de uma vez?
            - Peladão, aí, durmo no meio. De vez em quando, acordo de noite e mamo um pouco os seios de uma, beijo a xana da outra. Assim, sem perceber, já estamos todos lambuzados de novo. Igualzinho a esse meu cabelo aí. Diz aí: tem paraíso mais paraisozo que esse?
            - Ê, tem não, cabra. É bom demais, num é? Sou franco em falar, mas isso não me pertence mais. Tô salvo, varão. Ô glória!
            - Aleluia, Paraíba, mas diz aí? Vai demorar muito?
            - Uma horinha. Se avexe não, macho!
            Acabei demorando mais de duas horas no barbeiro, mas gostei do resultado. Nem Belchior era amante latino mais sensual que yo.
            Eu tinha combinado de me encontrar com as meninas durante a tarde. Elas não estavam a fim de sair naquele final de semana. Prefiro assim. Como o filho da Duda estava com o pai, tínhamos a casa inteira só para nós. No caminho, passei num sex shop e comprei uma fantasia de policial com quepe, óculos escuros, algemas e a porra toda. Fui para a casa da Duda já vestido. Perigoso e sensual. Nesse mundo não tem professor pra matéria do amor ensinar. Não basta só fazer amor, se a gente também pode gargalhar junto.
            Quando chamei no portão, não me reconheceram. A Duda saiu e, quando percebeu que era eu, foi logo rindo.
            - Mas que diabo é isso, Dan? – perguntou enquanto abria o portão.
            - Meu nome é Stevie, por favor me chame pelo nome, senhora.
            - Pintou o cabelo, o bigode... Agora endoidou de vez, ora pois!
            - Mais respeito com a autoridade, senhora.
            Anabela, quando me viu, não pôde acreditar. Ria tanto que as lágrimas escorriam dos olhos.
            - Bem, meninas, já vi que nessa residência, vocês não têm qualquer respeito pela autoridade. De modo que vou ter de deter a ambas para averiguação. Se continuarem com o desrespeito, serão autuadas por desacato.
            - Mas que fantasia mais chinfrim, hein! Parece o guarda Belo. Não tem vergonha de sair com essa roupa na rua?
            Continuei com a brincadeira. A fantasia era deveras um desastre.
            - Porra, meninas, vocês vão ter de entrar na brincadeira; caso contrário, não vai rolar.
            As duas se controlaram um pouco, conseguiram conter o riso.
            - Tudo bem, o que é que a gente tem de fazer? Você também não explica, porra! A gente não sabia o que falar.
            - Seguinte, eu vou chegar como se fosse um policial de verdade. Vou dar ordem para as duas se encostarem na parede pra eu revistar. Nesse momento, Anabela, você passa a mão no meu pau por cima da calça e diz: “Nossa, policial, para que essa pistola tão grande? Tipo Chapeuzinho e Bobo Mau, sacou?”
            - Tudo bem, então vamos ter de mentir também; porque, pra dizer a verdade, não é nada grande – disse Duda e voltou a gargalhar.
            - Porra, Duda. Não é grande, mas aí, é cabeçudo. Diz aí...
            - Coitado.
            Voltamos com a encenação. Quando Anabela passou a mão pelo zíper, eu já estava com o pau latejando de duro. Ela abriu a braguilha e pegou meu pau, puxando, em seguida, a cabeça rosada para fora.
            - Hum, que pistolão, oficial!
            - Nossa, Stevie, que cassetete!
            Elas tornaram a rir. Eu, entretanto, mantive-me sério. Não brinco em serviço!
            - Ponham na boca... Engulam... Não se envergonhem...
            As duas línguas se revezavam sobre minha pica; às vezes as bocas se beijavam sobre a cabeça. Paraíso, que paraíso? De repente, virou putaria, elas nem riam mais. Tiraram as roupas. Eu coloquei as duas no sofá com as pernas abertas e fiquei louco, que nem cachorro novo, pulando de uma xana para a outra. Não conseguia me concentrar numa só. Fartura, teu nome é amor! O quepe estava torto na minha cabeça; os óculos escuros, dependurados na orelha. Arranquei o uniforme e me deitei no sofá. Então uma delas se sentou no caralho, enquanto a outra sentou com a boceta na minha boca. Brincamos assim por um bom tempo, depois as meninas trocaram de lugar. No meio da foda, eu tinha de pensar em outra coisa. Se ficasse concentrado, gozava na mesma hora. Tinha de me distrair um pouco e depois voltava. Então as minhas companheiras se encaixaram num meia nove, a Anabela por cima. Empurrei o pau e ele escorregou gostoso. De vez em quando, tirava da boceta da Anabela e colocava na boca da Duda. Aí fiquei maldoso. Tirei o pau e lambi com força o cu da Anabela. A menina gemeu. Cuspi. Passei o dedo. “Vou tentar!” Pensei. Se ela reclamasse, eu parava. Para minha surpresa, quando enfiei a cabeça, ela gemeu. Empurrei mais um pouco – é preciso carinho quando se está comendo um cuzinho; se forçar, machuca, ainda mais um rabinho apertado como aquele – ela relaxou, aceitou a pica. Passando a cabeça, o resto escorrega. A própria Anabela arrebitou a bundinha dura e empurrou para trás. Enquanto isso, a Duda, garota esperta, chupava o clitóris. Quando estava tudo dentro, a coisa ficou fácil. Segurei a danada pelo cabelo e soquei até o talo. Ela rosnou, gemeu, pulou. Mandei brasa. Não foi preciso muito. Em pouco tempo, Anabela gozava.
            - Quero que você encha a cabeça da minha pica de merda, safada – falei.
            E aí ela recebeu com força.
            - Vou encher seu cuzinho de porra. Aperta o rabinho no meu pau!
            - Vai, vai, vai.
            - Vou, vou sim, gostosa.
            Ela gritou, tremeu, suspirou. Eu também gozei e, depois, deixei o pau descansando... Porra de amor escorrendo pela bunda dela depois, descendo pelas pernas... E Anabela chorou. Teve uma crise de choro. Caiu de lado e colocou o travesseiro no rosto... Coitada da Duda, só ela não tinha gozado. Eu, porém, sou um homem honrado. Não deixaria a menina na mão. No amor há uma única regra: não se pode ter prazer sem dar prazer! De modo que caí de boca, mesmo esgotado. Um bom oficial não foge ao seu dever. Não precisei chupar muito para a Duda gozar também. Ela estava excitada. Quando gozou, não tirei a boca, continuei mamando até ela não aguentar mais, apertando os bicos dos seios com as mãos...
            - Pode gozar, safada, goza que eu quero engolir todo seu gozo... Enche minha boca... – sussurrei.
            Gozou e, ao contrário da Anabela, teve uma crise de riso. Como é leve o semblante de alguém que acabou de gozar! Uma ria e a outra chorava. Depois inverteram os papéis, chorando e rindo, e se abraçaram. Eu fui ao banheiro tomar um banho. Estava todo melado. Nada como a criatividade na hora do amor.