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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

TOMAR CONTA DA AMIZADE


Mesmo antes da quarentena, já andava isolado. O que não quer dizer que não sinta falta, ou deixe de me preocupar. É que sempre tive limitações e andei adquirindo outras novas. Aprendi também, no entanto, ao longo da jornada, que não precisamos estar no mesmo espaço para cuidar. Quando você pensa em alguém com carinho, uma onda de energia boa dá um jeito de chegar. Então, fico na minha, aqui em casa; tocando a vida, cuidando das crianças, das flores, dos bichos, lendo um pouco, meditando, escrevendo. Vira e mexe, penso, todavia: e fulana? Será que encontrou um cara legal? Está se alimentando direitinho? E fulano? Será que está pegando leve? E cicrano? Está conseguindo administrar o divórcio? E beltrano? Será que arranjou um trampo? E o pescador? Será que tem pegado bons peixes? Diga-me com quem tu andas e eu te direi. Meus amigos são tudo meio doido. Tem um, lá em Pira, que dividiu comigo um ovo frito. Se você ouvisse as conversas, ficaria abismado. Eu também não bato muito bem. Como disse Jidu: "não é sinal de saúde ser bem adaptado a uma sociedade profundamente doente". Há tardes de domingo em que coloco um som e penso em cada um deles com amor; em todas as barras e farras que enfrentamos juntos, e, tal e qual Coltrane, nesta hora sagrada, creio na canção como forma de cura. Se há um Deus nesse mundo, em tais momentos Ele se materializa no sorriso bobo que se forma no meu rosto e nessa vontade doida que sinto de abraçar cada um e nem precisar dizer: eu te amo. Que a vida nos toque com delicadeza

VARRER UMA CASA


Hoje, quando varria a casa, não pude deixar de resmungar. Todos os dias, o mesmo trabalho. A cada manhã, a rotina bate forte. As crianças deixam as coisas espalhadas; bebem água e esquecem o copo sobre a pia. Difícil sim; mas, então, do nada, lembrei-me da alegria com que, pela primeira vez, varri este chão. Saíamos de uma casa de dois cômodos alugada. Por todo o piso, a cerâmica branquinha. O trabalho era o mesmo, mas quanta diferença! Cada filho agora teria seu quarto e eu limpei este mesmo chão com um senso de sublime gratidão. Emular aquele sentimento bastou para que a tarefa se tornasse mais leve. Olhei meus filhos adolescentes e saudáveis. Boas pessoas, pô! Coloquei uma canção pra tocar e realizei que isso de viver não é só sobre ganhar prêmios, ou vencer debates. A vida é também varrer o chão, regar as plantas, cuidar dos bichos, ver as crianças crescendo, fazer amor com quem a gente gosta. Não é necessário pintar o teto da capela Sistina, ou viajar para Marte. Não é necessário sequer escrever poemas. Qualquer atividade é veículo; linguagem propícia para dizer do quanto amamos. Como nada mudara por fora, mas eu era completamente outro por dentro, a filha se ofereceu para limpar o banheiro e meu menino perguntou:
- Ô pai, já cuidou dos bichos? Se não, deixa que eu cuido.
O trabalho não terminou. Nunca termina. Agora é hora de preparar o almoço, o qual se segue de uma pia de louça suja. Não há como fugir dessas tarefas. Mas, como tudo o que fazemos na vida, é mais fácil e fica melhor se a gente faz com amor.

TOUCH


Sou um cabra das antigas. Do tempo em que a gente esperava dar meia noite pra usar a internet discada. Sim, senhor! Sou tão velho que meu primeiro diploma foi de datilógrafo. Tantas palavras por minuto, com uma tábua cobrindo o teclado e tudo. Passei com louvor. Quando achei que era bom numa coisa, a profissão acabou. "Não tem problema" - pensei - "já que não datilógrafo, serei escritor." Não podia desperdiçar a formação, uai. Além disso, tenho tendência a meditações filosóficas do tipo: por que navio bóia e prego afunda? De onde venho? Para onde vou? De modo que, o que quero dizer é que nunca consegui acompanhar muito bem as inovações tecnológicas. Comprei meu primeiro celular há menos de um ano. E fico besta com as coisas que a turma inventa. Semana passada, por exemplo, gastei seis dias refletindo - filosófico, doutorado no ofício - sobre como funciona o mecanismo de copiar e colar no celular. Você gosta de um texto. Pressiona o dedo em cima. Depois vai para o lugar aonde quer colar e pressiona outra vez. O texto inteirinho ressurge na nova tela. A mosca pousou na sopa🤔! Olhava o dedo; olhava a tela. Olhava o dedo; olhava a tela. Tive insônia, depressão, prisão de ventre, perda de apetite, todo gênero de ansiedade. Já disse, sou filósofo, gosto de investigar o modo como o mundo funciona. Por mais que quebrasse a cabeça, não consegui responder à questão: como é que o conteúdo da tela cola e descola do dedo da gente😱? Por bem menos, muita gente boa foi assada um dia. Como se vê, mais importante que encontrar as respostas é colocar as perguntas certas.
Alguém aí arrisca?

SER HUMANO


Deve ser porque eu tenho cara de trouxa. Tem coisa que faz a gente perder a fé na humanidá. O mano tava vendendo pirulito no farol: cinquenta centavos. Pois eu fiquei com pena, pedi um pirulito, dei uma nota de cinco e disse que ele podia ficar com o troco😧. Pois o filho da mãe não me deu troco e nem, tampouco, o pirulito😠. E ainda ficou encarando. Se tivesse tendência, depois dessa votava no Rossomano

VITAMINA DE ABACATE


Dona Geralda é assim, com os netinhos ninguém pode falar alto; mas, quando a gente era pequeno, a história era diferente. Uma noite, uns parentes foram nos visitar e a mãe bateu um liquidificador de vitamina de abacate. Como sempre, quem se serviam primeiro eram as visitas. E, nós, os meninos, de olho. Aí, um parente, magro, alto, daqueles que comem e não engordam, tomou um copão: "hum! Dilícia!" E repetiu. E, nós, de olho. Tomou outro. Repetiu o refrão. Quando ia encher o copo pela terceira vez, não aguentei: "Vai tomar tudo, ô?" A mãe me pegou pelas oreia, sorriu sem graça pras visitas. Falou: " Depois a gente conversa!"
Caraio😰.
Depois que os parentes partiram, a velha me sentou numa cadeira, bateu dois litros de vitamina de abacate e me fez tomar tudo sozinho. Por conta da desfeita.
Pra descontar, pirracento, tive caganeira também e não deixei ninguém dormir a noite inteira.
E ouviamos TORNERÓ 🥑

EPISTEME


O comentário sobre um texto diz mais sobre o leitor que sobre o texto. Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro. Não deveria ser. O aprendizado é um encontro. Texto e leitor, professor e aluno. Um não prescinde do outro; nem pode ser mais importante. Acontece que desaprendemos o silêncio e a graça do não fazer. Queimamos, pois, a primeira etapa: o silêncio interno da acolhida. Antes de acolher o que o outro ou o texto dizem, já preparamos a conexão e, pior, a resposta. Se a palavra se encaixa em nosso sistema de crenças, repetimos; caso contrário, tapamos os ouvidos, porque ela ameaça - de morte - aquilo que imaginamos o "eu". É por isso que, quanto mais avançada a idade, mais difícil o aprendizado. Com a identidade ancorada neste eu enrijecido, blindado, o novo bate na armadura e cai pelo chão. Temos a ilusão de que somos a armadura; mas somos é a criança em espanto sufocada; agonizando atrás do aço. Na mística, o sentido do segundo nascimento é desfazer-se da armadura. Deixar a criança, protegida apenas pela fé, aberta aos encantos e perigos do mundo. Cordeiro em meio aos lobos, morrer para nascer ao eterno, segundo nascimento, tornar-se criança, mente de principiante. Só a criança, mesmo no adulto, acolhe o novo. É por isso que o aprender se assemelha ao brincar. Primeiro silenciamos, tocamos o brinquedo, apalpamos, conhecemos, cheiramos, transferimos o colo e o seio para a pele do objeto; depois conectamos esse brinquedo - palavrapoema - ao lego do mundo. Tão simples, tão difícil. Só aprendem aqueles que são leves e mantém a alma irmanada às borboletas, beija-flores, crianças e bolhas de sabão

A ETERNIDADE NUM MOMENTO DE CARINHO

Tire-se do caminho. Deixe que algo maior se expresse através de você. Dê-lhe o nome que quiser; ou melhor, não nomeie. Há uma passagem no Evangelho de Mateus, na qual Jesus diz que, se tivéssemos fé do tamanho de um grão de mostarda e ordenássemos a uma montanha que se jogasse no mar, ela obedeceria. A questão central é: o que é a fé? Fé é abandono, renúncia, ausência de eu. Nenhum poder aí seria meu. Eu estaria encolhido num cantinho de mim para que a Desmesura pudesse se pronunciar. Não haveria, nesta ordem, qualquer traço de um desejo meu; apenas meu coração vazio, feito flauta, para soar a ordem. Tal comando não dependeria de minha vontade. Se fosse eu mesmo a dá-la, nenhum grão de poeira se moveria. Ter fé não é pedir facilidade, almejar ter os desejos mais mesquinhos satisfeitos; pelo contrário, ao Cristo destinaram a paixão. Nossa fé é ínfima porque temos medo. Por medo, duvidamos - os filhos tarde da noite na rua. Por medo, mentimos. Por medo, refugiamo-nos na fé e, por medo, ainda não temos fé o bastante. Se nossa fé fosse do tamanho de um grão de areia, não haveria necessidade de ordenar que a montanha se atirasse ao mar. Pelo contrário, gozaríamos em aprender com o obstáculo. Toda montanha é uma dificuldade; mas, do alto dela, nossa vista se torna mais ampla. Ter fé é, por fim, querer a montanha aí onde ela está e ser grato por possuir, apesar do esgotamento, forças para escalá-la. Ter fé é aceitar o caminho e adaptar-se a ele tal qual olho d'água que desce esta mesma montanha.

A fé não murmura, aprende

SILENCIOSAMENTE, VOCÊ TOCA MINHA FACE

 

A porta para a eternidade não está no futuro; não é a morte, mas o agora. Nenhum dia é banal. Nenhuma atividade pode ser feita de maneira desatenta. Há êxtase em tudo que é feito com atenção. Cada instante que se abre tem uma face eterna. Nenhum de nós sabe o que marca o outro e é característico que o entendimento só aconteça muito tempo depois. O perdão, a gentileza, o carinho, a palavra de amor podem se tornar a lembrança de nós que vai se incorporar ao outro quando já não estivermos aqui. Tal qual incenso, nenhum de nós acaba, mas se espalha, ganha sutileza, passa a ser perfume no ar, dentro do outro. Enquanto existir um único ser humano, nenhum de nós estará morto. Isso que chamamos morrer não é findar-se, mas se expandir. O que deixa de existir são os apegos e desejos; o ego, enfim, a parte mais banal de cada um. Isso morre mesmo. Às vezes, tais apegos são tão enraizados que queremos um reino dos céus só para nossa mesquinharia. Está um dia lindão lá fora. Fácil fazer dele um pedaço de sempre. Vou assar lasanha pros meus filhos e dar banho nos cachorros. Quero o paraíso agora!

INDIGNAÇÃO


Tudo aquilo que nos indigna é porque nos vemos refletidos. Dois casos: o desembargador e o guarda; o playboy e o motoboy. Se num momento nos identificamos com o lado mais fraco, ainda não é por isso que ficamos indignados; mas por sabermos que, no fundo, somos também os agressores. Vivemos numa sociedade que valoriza o ter, o mesmo motoboy que foi ofendido defendeu-se dizendo o que tinha e quanto ganhava. Não quebrou a corrente. Uma semana depois, era contratado contente para fazer publicidade de marcas poderosas. Além disso, muitas agressões posteriores ao morador de condomínio voltavam-se ao seu aspecto físico (o mesmo se deu com o desembargador). Chamaram-no de gordo, esquisito. Um tipo de comportamento que tem a mesma raiz que o racismo. A gente vive a vida alternando essas posições. O capital é como uma Hydra, corte-se-lhe uma cabeça e nascem-lhe duas. Com a campanha da Thammy, em uma semana, os donos da Natura ficaram alguns bilhões mais ricos. E Djamila Ribeiro foi capturada com seu lugar de fala e tudo para divulgar produtos voltados ao público preto. O sistema nos aprisiona pelo ego. Achamos o desembargador de Santos escroto, e de fato; mas todos valorizamos um título e não ouvimos a faxineira com o mesmo ouvido que abrimos ao Doutor. Se alguém vai abordar determinado assunto, só ouvimos depois da carteirada. Não escutamos primeiro as palavras, mas os títulos. Algumas vezes, a lista de títulos é mais longa que a fala. Então, o desembargador escroto é só um caso extremo de algo que é aceito, incentivado e louvado. Assim como acontece com o racismo, tal comportamento é estruturante e não caso individual, isolado. A sociedade inteira faz acepção de pessoas pelo que elas têm e não pelo que são. A sociedade inteira valoriza as pessoas pela posição social que alcançaram e não pela honestidade e firmeza de caráter. No fim das contas, o que nos revolta é nossa sombra mesma refletida.

ORIN

 ORIN

foi procurar Mestre Dogen porque seu bebê estava desenganado pelos médicos. Ela era prostituta e precisava muito ser amada. A criança era o único lugar no mundo onde ainda se sentia humana. O Mestre ordenou que ela procurasse no vilarejo uma casa onde ninguém tivesse perdido um ente. Se desse à criança um único grão de arroz de tal casa, o bebê se restabeleceria. Óbvio, Orin não encontrou. Morte e vida são inseparáveis. Neste dia, em solidão, Mestre Dogen chorou; mas ainda precisou ser firme. Orin pediu para ser aceita no mosteiro; seu coração, no entanto, ainda não estava pronto e Dogen teve de negar. Aconselhou que Orin voltasse à cidade e praticasse zazen. Muitas coisas aconteceram, o jovem cozinheiro do mosteiro partiu, pois apaixonara-se pela moça; que rondava. Tempo. Em seu leito de morte, Mestre Dogen pediu ao seu braço direito que ordenasse Orin; estava pronta. Ela então se tornou a responsável pela educação espiritual das crianças; sua vocação desde sempre. Viver é também atravessar sofrimentos. Quando observo meus filhos, queria tomar para mim suas dores: decepções, frustrações, o primeiro amor desfeito, eu passei e sei que tudo é muito; mas, assim como não posso ditar-lhes a profissão, não posso viver o destino deles. Só posso dizer que estou aqui e sou colo e amor. Não tenho como evitar as lágrimas, mas posso ser o abraço quente onde vêm chorar. Quando nos afastamos de nossa alma, o sofrimento é um chamado, estávamos num caminho errado, numa jornada que não nos pertencia. A dor nos traz de volta ao nosso destino. Cabe-nos a tarefa de compreender qual lição determinada dor vem ministrar. A vida só ganha contorno de um significado se observada do fim para o começo. Enquanto caminhamos sobre as águas: paciência. Como disse Riobaldo: "Deus é paciência, o contrário é o Diabo"

QUANDO A MÃE REFORMOU O SOFÁ

 Vou entregar geral. É sempre assim. Vou visitar a mãe e, depois de me abençoar, ela começa: "Não sei mais o que fazê com esse véio, deve tá caducando..." E, aí, joga pra cima do pai as presepadas em que ela mesma se mete. É uma véinha muito esperta. Braba. Metro e meia de violência. Já apanhei muito nessa vida pra aprender a ser gente. Uma vez, me fez voltar na venda do Zé da Tina com a panela cheia de torresmo pra trocar porque não tava cheirando bem. Dia de feira. Domingão. Mó vergonha aí. Brabona mesmo; mas também é fácil de levar no bico. Basta elogiar. Dizer que tá certa e tudo mais. Aí ela derrete. Uma vez, uma colega do Júlio Tupi indicou um tapeceiro pra consertar o sofá. O cara chegou cheio de sotaque, todo carioca, analisou o sofá, colocou nível, fita métrica, etc e tals e, então, elogiou

😱. Estrutura impressionante, senhora! Não se faziam mais sofás como aquele! Em lugar nenhum do mundo! Veja bem, não podia ser feito um trabalho qualquer. Uma estrutura daquela merecia a melhor espuma, importada da Macedônia. Espuma assim, por sua vez, não podia ser coberta com qualquer tecido. Sacou do mostruário. Ele mesmo colocou o dedo: suede-oxford-tricoline da Pérsia Ocidental🤥. Lindo, cheio de onças desenhadas. O preço: R$700,00. Na época, dava pra comprar uns quatro sofás novos. O pai chamou de lado: "Gê, tá caro!" Mas a velhinha é desaforada: "É por isso que trabalho, pra num depender de homem!" O pai balançou a cabeça. Entregou os pontos.
Um mês depois, o sofá voltou. Cheio de selvas estampadas. A mãe fez uma careta; já tinha pago. Colocou o sofá em L; de um lado; de outro. Mudou os móveis de lugar. Tentou de tudo, mas o suede-oxford-tricoline da Pérsia Ocidental era um horror! A gente só não riu pra não apanhar. Não passou uma semana, a estrutura magnífica arriou:
- Aquele corno deve ter trocado meu sofá. Fi duma égua! - Virou pro pai: - Por que tu não me alertou, Dó?
Dia seguinte, foi à Marabraz e abriu novo crediário. Ainda ganhou um relógio de parede novinho; do Zezé di Camargo e Luciano🤣

sexta-feira, 12 de junho de 2020

GEORGE FLOYD

Há assuntos sobre os quais prefiro calar; esperando para ler e ouvir os que têm muito mais propriedade do que eu. Se me manifesto agora sobre o assassinato de George Floyd, não é com a intenção de falar em nome do povo negro. Em qualquer sarau, aqui da periferia, há pessoas muito mais qualificadas que eu neste aspecto. Não consigo, no entanto, calar diante da barbárie. Não pretendo falar por; apenas junto, em solidariedade, expressando como dói no meu próprio coração.
Seguinte, só a polícia do Rio de Janeiro matou mais gente este ano que toda a polícia dos EUA. Então, por que a morte de George Floyd nos choca tanto? Trata-se do poder da narrativa. Números são frios, histórias não. Naquele vídeo, injustiças centenárias estão expressas. O cara está algemado, deitado, dominado; que necessidade há de se ajoelhar sobre sua nuca até que ele morra sem conseguir respirar? Nenhuma. É desesperador. É agonizante. Não é um filme holywoodiano; é um ser humano morrendo, na frente das câmeras e de muitas pessoas, e ninguém faz nada. Não há como argumentar em contrário: foi um crime racista. O rosto do policial, sua expressão sádica de prazer, o ódio presente na indiferença das mãos nos bolsos enquanto mata. Aquilo é o mal de que só o ser humano, e nenhum outro ser na natureza, é capaz.
Por outro lado, na sequência dos acontecimentos, vimos imagens de policiais e manifestantes ajoelhados; apenas seres humanos, uns diante dos outros. É pouco ainda; mas é um resquício de alma. Nem só luz, nem só sombra. O ser humano é uma mistura confusa. Pode matar com prazer, mas também pode arriscar sua vida para ajudar o outro; como os profissionais da saúde têm feito, diariamente, durante a pandemia.
De tudo isso, infiro que não podemos ficar inertes. Temos sempre de lutar por uma sociedade mais justa, mais fraterna; contra a barbárie e o ódio. Por outro lado, também temos de olhar com honestidade nosso coração diariamente e reconhecer que dentro dele moram tanto um policial como aquele, quanto uma das muitas enfermeiras e médicos que estão perdendo a vida, tentando cuidar do próximo. Quem nunca numa briga de trânsito?
Quando exposto à luz, o mal perde seu poder sobre nós🌻

A HOMOSSEXUALIDADE DE BOLSONARO E A BALEIA BRANCA

O romance Moby Dick, do escritor estadunidense Herman Melville, narra a perseguição do capitão Ahab a uma baleia branca que lhe amputou uma das pernas. À primeira vista, parece um enredo simplório. A literatura, no entanto, trabalha no nível do símbolo e o próprio capitão diz que a baleia é uma máscara de tudo aquilo que impede o homem de ser pleno. Perseguindo Moby Dick, Ahab desobedecerá as leis dos baleeiros, da natureza e de Deus e acabará por levar seus homens e seu navio, o Pequod, à destruição. Guardadas as devidas proporções, vejo o atual presidente como um Ahab, nosso país como um Pequod e o povo que ainda segue seu Messias da morte como os marujos. E quem seria Moby Dick? Os conteúdos inconscientes. No nosso caso, a baleia branca é o desejo homossexual de Jair Messias. Um homem heterossexual não tem medo de sua sombra; não precisa ficar o tempo inteiro reafirmando sua masculinidade: fazendo flexões, piadinhas (o chiste é, inclusive, um dos modos como a sombra se mostra); ele simplesmente é e isso se manifesta em todo o seu ser, com naturalidade. Não há nenhuma novidade no que vou dizer: aquilo que não aceito em mim e não posso olhar, minha sombra, projeto no outro e o que vejo me irrita, fere, dilacera. Não podendo aceitar a mim mesmo como sou, como posso aceitar o outro? É claro que tal comportamento encontra eco no Inconsciente de todo o povo de um país machista, mal educado e preconceituoso. Os marujos não seguiriam Ahab, não fossem eles mesmos seduzidos pela baleia branca. O presidente não foi eleito pela sua agenda econômica, mas pelo amálgama de preconceitos que encarna. Se o soldado do exército tivesse tido a coragem de assumir sua homossexualidade, adoraria um pouco menos a morte e seus símbolos, porque sexo é vida, Eros, e, provavelmente, não estaríamos nesta enrascada. Ainda que continuasse um canalha, ao menos teria nos poupado de sua prole. O destino do Pequod, sabemos, é a catástrofe; o do Brasil não me parece diferente. Como disse um filósofo alemão: “Só um Deus poderia ainda nos salvar”🐴

segunda-feira, 1 de junho de 2020

O LOUCO E A COSTUREIRA

O que ainda me enternece são as coisas pequenas, a alegria do menino ao conseguir amarrar os cadarços pela primeira vez; a menina voluntariosa brincando de carrinho; um pai acalentando o filho; um casal de mãos dadas na praça; skatistas limpando o entorno do half pipe recém construído no Parque Santa Rita. É daí que recolho forças para continuar. Mas mais que tudo isso, ontem meu coração transbordou diante do louco apaixonado pela costureira. Já falei dele aqui. Mora na praça Mãe Preta, Parque Santa Rita. Tenta organizar seu mundo escrevendo no chão. Há ali um livro a céu aberto. Em cada esquina, mora um Bispo do Rosário. Ontem, saí, devidamente mascarado, para dar uma caminhada. Se a gente não morre de Covid, mas corta os pulsos, morre do mesmo jeito. Todas as dores procrastinadas visitaram-me nesta quarentena; às vezes fica foda. Enquanto caminho, vou lendo as frases do Du, o louco. Como as coisas que escrevo, de vez em quando há sentenças bem tristes, solitárias; mas também há muita alegria, esperança, amor - sempre. Notei que, nos últimos tempos, havia muitos poemas de amor. É, o Du está apaixonado. Puxei papo: “Pra quem são todos estes poemas?”. “Ah, Profe, é tudo pra menina que trabalha ali na confecção. Todo dia, ela ia comprar o pão pros funcionários e eu ficava olhando, agora que tá tudo fechado, fico com saudade”. Du não quer realizar seu amor. Reconhece sua condição. Para ele, basta ver a costureira passar com o saco de pão e nada mais lhe falta; seu dia está pleno. E é essa coisa tão singela que me salva; acalma o coração; me faz acreditar quando perco a fé, sabe? E eu me lembro daquele Amor de que fala São Paulo em Coríntios 13: “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” Obrigado, Du, por mais esta lição.🌻

quinta-feira, 7 de maio de 2020

ANJOS

Devo confessar: passei dias difíceis. Sou nervoso, instável, acelerado; faço quatro ou cinco coisas ao mesmo tempo. Hiperativo. Estou sempre voltando com a pamonha. A gente busca o que não tem; daí a prática espiritual. Essa é uma das faces, a outra é o oco. Simplesmente não sinto. É como se fosse para outro lugar e observasse um robô aqui embaixo, limpando o coco dos cachorros, lavando o quintal, a louça, fazendo o café. É como se alguém desligasse a televisão da tomada bem no momento do gol. Cria-se, entre mim e minha própria vida, um abismo. Quem acompanha o que escrevo, deve ter observado o urubu sentado sobre as palavras. Sinto muito. Preciso, no entanto, escrever cru como me dói. Caso contrário, não me livro e, daí, corro perigo. Enfim, andei bem mal. Uma estranheza no sol, no ar, nas pessoas, no meu quarto, em tudo. De repente, eu era um estrangeiro de mim mesmo. Moro só com meus cachorros e eles percebem tudo. Preocupam-se. Ao colocar água e comida, já não fazia cafuné na Dara ou jogava a bolinha pro Bruxo buscar. Ele insistia. Pegava a bola e soltava perto de mim. Mas eu não tinha forças. Estava liquidado. Os cães, todavia, não desistem. Então, hoje de manhã, estava lavando a louça, como sempre faço, com a janela aberta. O Bruxo se aproximou e soltou a bolinha da boca bem ali. Como eu continuasse em silêncio, esbravejou latindo por uns cinco minutos.
- Como é? Vamos brincar, ou vai continuar de fuleiragem? Reage, homem! Deixe de ser frouxo! Bora! Olha esse sol!
Só parou quando fui até o quintal e joguei a bolinha longe. Aí, então, o Bruxo abriu o maior sorriso do mundo e saiu correndo louco, mobilizando todos os seus músculos de um pastor alemão de um ano e meio. Vocês precisavam ver. Pura vida, hermano! Foi lindo!🌻

ROCK N´ ROLL LULLABY

Trabalhando por quase vinte anos em escolas da periferia, testemunhei de tudo. Vi alunos serem presos, perdidos, mortos; mas o que mais acontece é a gravidez precoce. Todo ano, meia dúzia de meninas de dezesseis, catorze, doze anos, tornam-se mães. Por mais que a gente dialogue, alerte, não adianta; elas teimam em repetir o destino das próprias mães. Sempre ajudo como posso. Durante a gravidez, os professores passamos trabalhos. Quando a criança está prestes a nascer, alguém organiza um chá de bebê com o intuito de arrecadar fralda, lenço umedecido, Hipoglós. E, aí, depois que o neném ganha o mundo, a mãezinha volta à escola pra mostrar seu tesouro. Toda orgulhosa, mãe-mesmo-já, tira o xale e desvela o rostinho:
- Não é linda, profe?
- É a criança mais linda que já vi.
E sempre é mesmo, a mais linda. E então, elas caminham pelo colégio. As amigas brigando pra segurar o rebento como se fosse boneca. Algumas podem pegar um pouco no colo, mas só as mais chegadas. Fico feliz quando o paizinho vem junto também; orgulhoso, peito estufado, por ter feito papel de sujeito homem. Geralmente, no entanto, as meninas vêm só. Do mesmo modo como alerto sobre a gravidez indesejada, sempre jogo limpo em outros aspectos: “mais cedo ou mais tarde, o sexo vai acontecer” - e, para as meninas: “por mais que amem, façam só o que tiverem vontade”. – aos meninos: “respeitem as minas; sempre!”
Todo mundo sabe. Sou louco por música. Vou de Bach a Benito de Paula sem trocar o paletó. Modéstia à parte, conheço um pouco. Sei uma canção para cada ocasião. Quando uma visita assim acontece; no momento em que subo as escadas para a sala de aula; vou cantando uma canção que ouvi quando criança, a qual trata de uma mamãe-criança ninando o filho com canções rock n´roll. E sigo só, cantarolando baixinho, como se fosse uma prece, imitando o coro dos Beach Boys: “Shanãnãnã It'll be all right / Sha-na-na-na-na, Just hold on tight.”
Mãe, estende teu manto amoroso sobre estas crianças inocentes!🌻

quinta-feira, 30 de abril de 2020

SONHO COM DEZEMBRO

A hora é agora. Tudo é urgente, necessário, emergencial. Chegou o tempo em que não podemos mais procrastinar. Já não se pode deixar pra dizer eu te amo amanhã. Já não se pode esperar pra perdoar semana que vem. Não sabemos quem de nós estará aqui. Não sabemos quem será capaz de atravessar a correnteza e ver o nascer de um novo dia do outro lado. Muitos vão se afogar. Então, qual é o motivo de deixarmos ainda o orgulho e o medo conduzirem o carro de nossas vidas? É preciso dizer as palavras antes que seja tarde. É tão simples, só pegar do telefone, por que não é fácil? Você sabe o quanto incomoda não ter mais o outro por perto pra dizer-lhe de seu valor? Na totalidade da vida, uma briga pode ganhar mais importância que todo o resto; porque, se o outro parte sem a gente se falar, nada mais importa. As palavras que não dissemos vão nos inflamar a garganta e não adiantará fazer cirurgia pra retirar as amígdalas. Devem ter acontecido momentos lindos, ou não? Nada impede a palavra de ser pronunciada; a não ser o orgulho. Sem autoengano! Por mais que a Máscara nos conte mentiras do tipo: “Ele sabe que eu o amo”; precisamos dizer as palavras; precisamos pedir desculpas. Dizer, dizer, dizer; sem exigir que o outro também diga. É nossa boca que tem de pronunciar! Alguém pode não estar à mesa no natal. Por que foi mesmo que brigamos? Toda manhã é manhã de repetir o afeto. Esta noite, sonhei que estávamos em dezembro e navegávamos já sobre águas calmas. Na ceia, havia pão leite e mel. Abraçamo-nos, os laços fortalecidos depois da tormenta, e alguém puxou uma oração. Vai passar e espero que todos fiquemos bem, embora saiba que, fatalmente, alguns não. Não precisamos sofrer tortura para confessar: sinto muito. Foi mal. Me perdoa. Eu te amo. Sou grato por ter partilhado a jornada contigo até aqui. É necessário, já que temos tempo, limpar não só casa física; mas, mais importante ainda, a casa do coração. Podemos sair melhores disso.🌻

terça-feira, 14 de abril de 2020

NOSSA SOLIDÃO

Sou um homem simples, rústico até. Sei trocar lâmpadas e torneiras, faço serviços de manutenção. Com uma enxada na mão, derrubo muito mato por aí e consigo mexer uma masseira sem precisar de ajuda, mas tenho esse defeito. Um buraco sem consolo no meio do peito. Uma vontade que não sei; de ser compreendido, aceito como sou, curado. Desejo de que alguém encontrasse esse vazio que escondo do mundo e me tocasse bem ali, delicadamente, onde ninguém. Criança costuma ter amigo imaginário. Eu, desde cedo, tive namorada. Era ela quem se deitava comigo nas noites frias; apalpava meu coração e perguntava: é aqui? E eu dizia sim e ela massageava e a dor arrefecia. Eu também sempre estava ali pra ela. No meio da noite, levantava-me e cruzava os braços ao redor de mim como se ela estivesse entre e dançávamos juntos até o dia. Quando raiava, ela se escondia de novo. Nosso segredo, sabe? Ela em mim enquanto todos os outros eram unos. E foi com essa mulher que ensaiei meu primeiro beijo. A primeira noite de amor. A pureza que guardei por esperança. Era ela quem me consolava quando eu perdia briga. Na periferia, não há vergonha maior. Seria essa mulher que não existe quem um dia se congratularia com minhas realizações e me deitaria no colo nas noites de fracasso. Tudo inútil; estúpido; antiquado. Quando as pessoas nos encontram, procuram fazer de nós seu próprio parceiro imaginário; do mesmo modo que nós. E todo o mundo, toda a travessia, geração após geração, envereda-se na mesma confusão. Mas e o amor? O amor? O amor? Chega a ser cômica a solenidade com que sofremos; como se fôssemos únicos, quando todos os outros, desde Adão e Eva, passaram pelos mesmos lugares, caíram nos mesmo buracos, sofreram do mesmo sofrimento. A dor parece única porque é grande. É por isso que penso em doar, sabe? Por pena do que vejo de mim no outro. O único sentido possível é se despojar de tudo: doar, doar, doar. Livrar-se primeiro de todos os bens materiais, depois dos documentos, do nome e até do pronome “eu”. Doar até dissolver a inveja, esquecer a vingança, até rasgar o orgulho. Doar até desaparecer; mas não por vingança do mundo e sim por amor. A vida é um lugar hostil. Sejamos delicados uns com os outros; toda a gente carrega um sonho apodrecido na barriga.🌻

INVEJA, INFIDELIDADE E METANOIA

Conhecemo-nos na faculdade. Ambos escrevíamos, mas eu pensava em uma carreira e ela não. Menino-homem, achava que precisava ser bem sucedido pra ser amado. Sob minha influência, com o tempo, ela também se afirmou escritora. Acontece que, tudo que ela tentava neste sentido, dava certo; ao passo que todas as minhas investidas fracassavam. Ela foi publicada na Alemanha, leu em Portugal, ganhou prêmio; todos pronunciavam seu nome com respeito. Seus lançamentos lotavam, seu blogue era frequentado e, tempos depois, seu Facebook ainda mais. Não é grande coisa o sucesso literário num país onde ninguém lê e imperam as panelas; mas era nosso sonho e, enquanto o dela se realizava, o meu apodrecia e me apodrecia junto. Cada elogio dirigido a ela, feria-me, dilacerava meu ego e meu orgulho. E então, afastei-me e, como se a culpa fosse dela, decidi me vingar. Eu também sempre fui erótico, devo admitir: safado mesmo; mas, como a mulher do padeiro n’O alto da compadecida, eu a amava tanto, de modo tão confuso, que, quando a traía, sentia que matava-a um pouco dentro de mim. E, quando conquistava outra mulher, sentia que não precisava dela, tampouco de seu sucesso. Além disso, bebia. Com o tempo, a inveja e o fracasso me corroíam de tal modo que eu não queria mais fazer parte da realidade compartilhada. Bêbado, louco, não precisava de nada, nem de ninguém. Mentia e era o primeiro a acreditar na mentira. Eu estava muito doente, mas continuava trabalhando; dando aulas, odiando os alunos e meus colegas de trabalho, porque ninguém dava a menor importância para o que havia de bonito dentro de mim. Eu era como a matriarca que cozinha seu melhor banquete e nenhum dos filhos aparece; como o filho que leva o desenho que fez na escola pra mãe e a mãe joga fora. Eu odiava a tudo e a todos, menos meus filhos. Não me sentia bem dentro daquele tumor; mas, feito camelo na areia movediça, quanto mais eu me esforçava pra sair, mais me afundava. Até que veio a catástrofe. Fui internado. Perto dos quarenta, perdi completamente a liberdade. Aquilo não era uma clínica, era um covil de mafiosos. Alguns internos já tinham sido presos e afirmavam que era pior que cadeia. E, então, aconteceu a metanoia. Eu não tinha sequer como escrever, porque um interno podia furar o outro com a caneta. Dias e dias sem ouvir uma canção. Pensei em suicídio, mas o banheiro não tinha portas, as lâmpadas eram inacessíveis. Simplesmente, não tinha como morrer. Em situações assim, o ego se dissolve e foi aí que me lembrei da Bíblia que minha mãe tinha me mandado. Comecei a ler os evangelhos e o sentido me transpassou. Aconteceu também com Dostoiévski, na Sibéria. Não é nada de uma religião específica, só uma corrente de amor em mim. De lá pra cá, tenho retomado a vida, lentamente. O casamento acabou. Tenho dias bons e ruins, mas não quero ser senhor deles. Como os girassóis, tento virar o rosto em direção à luz a cada manhã. A sombra não precisa ser integrada. A luz não tem sombra. Se você conseguir transferir o ser para a luz; o ego, que é o objeto que produz a sombra, dissolve-se e, com ele, o reflexo na parede.🌻

sexta-feira, 3 de abril de 2020

ESPIRITUALIDADE

Você pode pensar que é demagogia, ou discurso de derrotado, mas não troco minha vida por outra. Ontem, reguei as plantas, limpei a casa, li uns poemas do Antero de Quental, ouvi umas canções do Dylan. Hoje, acordei cedo. Li uns poemas do Antero de Quental. Escrevi. Ouvi Nick Drake enquanto lavava o carro. Depois, dei banho na bicharada com um xampu fabuloso que tinha comprado. Aí lavei o quintal. Sabe, se eu tivesse dez fazendas, queria ter feito exatamente as mesmas coisas. Se tivesse feito pós-pós-doc-doc pela Sorbonne, as mesmas coisas. Se tivesse levado o Nobel de Literatura, não mudaria um segundo. Como não estou competindo, títulos e honrarias não me interessam. Como não tento impressionar, o que as pessoas pensam de mim, bom ou mau, é problema delas. Nada está fora. Em todas essas atividades banais, o Amor me acompanhava, a Divindade emanava alegria. Tudo o que é feito com amor, é Espiritualidade. Não reclamo, vivo. Tento mudar as coisas que não posso aceitar e aceito as coisas que não tenho como mudar; sem pressa; dizendo o que penso e tentando não machucar meu semelhante. Tem hora que não dá, mas passa rápido e eu peço desculpas. Que quarentena danada de boa! E como é bom conhecer as pessoas que conheço e estar exatamente onde estou. Viver é mó barato.🌻